Crítica | O Segredo de Widow’s Bay (1ª temporada)
- Vinicius Oliveira

- há 2 horas
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Série se apropria com segurança da linguagem do horror num equilíbrio impecável do gênero com a comédia.

Mesmo à primeira vista diametralmente opostos, horror e comédia são gêneros que de alguma forma se encontram na quebra de expectativa e na manipulação que exercem sobre o público, bem como no fato de apostarem em reações extremas (seja o riso ou o susto). Não à toa a última década tem visto a emergência de diversos realizadores egressos da comédia que se lançaram no horror – mas sem deixar de lado suas raízes –, como Jordan Peele e Zach Cregger. Agora, com O Segredo de Widow’s Bay, a fusão entre os dois gêneros alcança um novo patamar.
Criada por Katie Dippold, ela própria egressa da comédia (tendo sido roteirista da saudosa Parks and Recreation), a série é ambientada na cidadezinha insular homônima, que há séculos lida com seu isolamento do continente e fenômenos mais do que estranhos, mas que, contudo, são relevados ou só ignorados pelos seus habitantes, a começar pelo seu cético prefeito Tom Loftis (Matthew Rhys), que quer fazer do lugar um ponto turístico na Nova Inglaterra. Mas, como se não bastasse a excentricidade de habitantes locais como o pescador Wyck (Stephen Root), a dificuldade de lidar com seus colegas de trabalho como Patricia (Kate O’Flynn) ou até os conflitos com o filho adolescente Evan (Kingston Rumi Southwick), aos poucos Tom começa a perceber que talvez os mitos de Widow’s Bay tenham sim um embasamento na realidade, e que forças ocultas atuam sobre a ilha.
O Segredo de Widow’s Bay não se furta a indicar as referências de que bebe, seja dos clássicos da literatura de horror de Stephen King, do cinema de John Carpenter ou até de outras séries como Lost, Twin Peaks e a já referida Parks and Recreation (no humor extraído da burocracia do serviço público e das excentricidades locais). Pelo menos cada episódio aponta para um tropo ou referência específica – seja a casa assombrada do segundo episódio, o folk horror do sexto ou o slasher do oitavo. O que Dippold faz com maestria é pegar esse conjunto de referências e embalar em uma obra com muita identidade própria, que chega muito consciente do que quer entregar, especialmente à medida que vai revelando suas cartas acerca da mitologia local e dos elementos sobrenaturais.

A direção do veterano Hiro Murai – cujo trabalho em Atlanta, Legion, Barry, Station Eleven e outras séries o reputou como um dos diretores mais conceituados da televisão contemporânea – já nos três primeiros episódios ajuda desde o início a estabelecer o tom da série, que se equilibra nessa linha tênue entre horror e comédia sem pesar a mão sobre um gênero em detrimento do outro, mas sabendo exatamente qual é o mais apropriado para aquele momento. Assim, é uma constante ao longo da temporada que o susto venha acompanhado do riso e vice-versa, e esse controle seguro sobre o tom adotado pela série só é possível pelo respeito que ela tem por ambos os gêneros, exibindo sua autoconsciência a respeito dos tropos e clichês com que trabalha, mas evitando cinismo ou desprezo como tantas produções atuais.
Esse tom também é refletido nas atuações da série, a começar pela de Matthew Rhys no papel principal. Para quem, como eu, tem na memória seu soturno e angustiado Philip Jennings de The Americans (talvez meu personagem masculino favorito da história da televisão), ver Rhys exercendo suas habilidades cômicas é uma grande surpresa, mas o ator acerta em toda a composição de Tom, como uma figura cética, cansada e desesperada por trazer vida à cidade. À medida que a temporada avança e o personagem é forçado a confrontar os horrores de Widow’s Bay, Rhys ainda consegue aprimorar ainda mais esse timing cômico, sobretudo no quinto episódio; mas também há espaço para ele oferecer momentos pungentes de drama e ternura, como no último episódio.
Ainda assim, ouso dizer que Rhys não é o grande destaque da temporada, porque esse posto talvez pertença a Kate O’Flynn. Sua Patricia começa discreta, mas já chamando a atenção pela figura socialmente desajustada e que serve tanto de apoio quanto contraponto a Tom. Mas quando ela recebe os holofotes no quarto episódio – e mais tarde no oitavo –, fica claro que tanto a personagem quanto a atriz são a verdadeira arma secreta da série, roubando a cena até em episódios na qual aparece menos.
Outros nomes também se sobressaem, como Stephen Root, Dale Dickey (que tem toda uma sequência no nono episódio que disputa fácil pelo posto de mais hilária da série), a veterana K Callan e aparições especiais como Betty Gilpin e Hamish Linklater. Talvez Kingston Rumi Southwick tenha o trabalho mais ingrato aqui, já que todo o núcleo adolescente da série atende bem demais aos tropos de horror em termos de serem figuras insuportáveis e imbecis pelas quais torcemos que morram rapidamente, figurando como o único elo fraco da temporada. Ainda assim, fica evidente pelo episódio final que há grandes promessas no futuro para ele, então é torcer para que sua figura seja amadurecida e melhor trabalhada nas temporadas futuras.
Com uma primeira temporada praticamente irrepreensível, O Segredo de Widow’s Bay pode figurar como talvez a melhor estreia do ano até o momento. Felizmente, o boca-a-boca ajudou a dar gás e trazer público para a série (que, como tantas outras da AppleTV, sofre com o marketing porco do streaming), e com a confirmação da sua segunda temporada, mal vejo a hora de voltar a esse lugar esquecido por Deus e rir e me assustar em igual medida.
Nota: 4.5/5



















