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Crítica | Marty Supreme

  • Foto do escritor: Caio Augusto
    Caio Augusto
  • há 3 dias
  • 4 min de leitura

A busca pelo sonho americano entre delírio, ambição e ilusão

Foto: Divulgação


Ao entrar na sessão já sabendo que iria encarar um filme dos irmãos Safdie (nesse caso, apenas um deles), eu já esperava um alto nível de frenesi e histeria impresso na tela. De modo que a montagem se torna mais acelerada nos momentos em que é necessário manter o espectador em estado de atenção, acompanhando a progressão da narrativa em um movimento de intensificação contínua. E do mesmo modo que vimos que em Joias Brutas não era apenas um filme sobre apostas, mas sim um filme interessado em refletir a instabilidade de um ideal capitalista. E apesar do filme contar a história de Marty Mauser (Timothée Chalamet), um jovem determinado a seguir o sonho de se tornar campeão mundial de tênis de mesa, em uma época em que a modalidade ainda batalhava não só por visibilidade, mas também por legitimidade enquanto “esporte de verdade”, no início da década de 1950, Marty Supreme, definitivamente não é um filme sobre tênis de mesa.


Temos o ponto de partida a partir da cena de abertura do filme onde observamos espermatozoides batalhando até alcançar o óvulo, o que acaba se tornando uma rima visual com a cena final, nos dando um pouco da noção de tempo no meio dessa viagem frenética pela vida de Marty Mauser. Ele é o típico americano que se agarra em um propósito e é capaz de passar por cima de tudo e de todos pra obter sucesso em sua jornada de puro individualismo. Ele é um anti-herói com uma narrativa que funciona muito bem com o que Josh Safdie pretende propor de toda a urgência por trás do tal sonho americano. A determinação de Marty funciona como afirmação sexual de sua integridade étnica: sua aposta, tal como a de Howard em Joias Brutas, busca redimir uma condição coletiva, ainda que sustentada por uma confiança que paira no ar. O ritmo frenético e caótico brinca com o próprio fato do ping-pong onde o personagem do Chalamet precisa lidar com imprevisibilidades a todo momento, o que faz ele tomar decisões questionáveis em vários momentos. Mas para ele tudo vale para realizar seu sonho.


Safdie possui um grande talento em montar um ótimo elenco, nele temos figuras como Tyler, the Creator, o amigo proletário de Marty que o ajuda a conseguir dinheiro através de golpes, o ilustríssimo cineasta Abel Ferrara que surge como uma subtrama incrível, além de Gwyneth Paltrow que surge com uma atriz que faz Mauser sentir a sensação de prazer diante do sucesso que tanto almeja, e Odessa A'zion que carrega um filho do Marty em seu ventre. É interessante ver como Marty age quase como um sociopata diante de todas as pessoas que passam pela vida dele, lidando com eles quase como obstáculos.


Foto: Divulgação


Acredito que do mesmo modo que Sean Baker criou um gênero próprio diante de sua filmografia na forma como ele lida com personagens marginalizados, Josh Safdie com Bom Comportamento e Joias Brutas se consolida como um autor que visa personagens da classe trabalhadora que dão o seu jeitinho para prosperar na vida, diante de um capitalismo tardio que cobra urgência onde o fracasso é iminente, mas é preciso avançar mesmo diante de todo o caos. Chalamet conduz muito bem sem o seu personagem perder a leveza e mesmo demonstrando uma persona carismática, mas sem romantizar suas ações execráveis. É inclusive uma atuação do Chalamet que dialoga bastante com Um Completo Desconhecido, e mais uma vez aqui o Chalamet acredita na obra e no personagem que ele representa. Timothée Chalamet foi capaz de entregar um personagem humano, e que ele entende que Marty é alguém movido pelo desejo de afeto, antes de tudo uma figura que precisa ser percebida, ainda que à custa da rejeição. E isso fica muito claro na sequência final em que ele improvisa uma conquista, mesmo que mínima diante de uma multidão. Marty Mauser é narcisista e espelha o país que lhe foi berço. 


O sentimento frustração que é recorrente no filme funciona muito bem quando acontece quebras do ritmo frenético, remetendo diretamente a máxima do sonho americano, onde a mentira inofensiva que persuade o indivíduo de que talento e esforço são suficientes para abrir um horizonte ilimitado de oportunidades. Evidentemente, há um ponto em que o espectador se exaure diante dos discursos intermináveis de Marty sobre o destino grandioso que o aguardava, o que faz emergir a pergunta sobre quando a ambição deixa de ser projeto e passa a se confundir com delírio. E peço perdão pelo trocadilho, até nos momentos que o Safdie resolve esticar a trama ele não deixa a bola cair em momento algum, pois a trama está de algum modo amarrada para o propósito de Marty. Estamos, afinal, desejando sua vitória ou apenas aguardando que essa sucessão vertiginosa de glórias e vexames o liberte da crença de que só ele importa? Talvez a resposta esteja no frame final, que reformula muito do que veio antes e que suaviza o filme e põe espaço para reflexão.

 

Nota: 4.5/5



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