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Crítica | Gato na Cabeça (15º Olhar de Cinema)

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 3 horas
  • 2 min de leitura

A memória e a imagem maculadas pelo tempo e pela linguagem cinematográfica.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Um dia, a diretora letã Laika Pakalnina encontrou numa lixeira uma sacola repleta de rolos de filmes fotográficos abandonados. Este incidente se revela o ponto de partida de Gato na Cabeça (inclusive sendo dramatizado nos primeiros e últimos minutos do longa-metragem), visto que Pakalnina, ao explorar estas fotografias feitas por um indivíduo desconhecido, decide reconstituí-las, oferecendo-lhes contexto e até mesmo doses extras de materialidade à medida que as encena.


Assim, Gato na Cabeça se revela um filme-arquivo nada ortodoxo, já que Pakalnina alia o registro fotográfico ao dispositivo ficcional para criar um híbrido curioso e único. Quem são essas pessoas que vemos nas fotografias e nas encenações? Não sabemos, tampouco a diretora. Ela se aproveita dessa falta de informações para lhes conferir os próprios nomes (o menino que tira as fotos se chama Anton, sua avó se chama Emma e por aí vai), e brinca com as possibilidades, às vezes criando certas situações meio absurdas para “explicar” os contextos em que aquelas fotos foram tiradas. Ao vermos o crescimento de “Anton” através do cotidiano em que as imagens são feitas, o filme acaba se tornando até uma espécie de coming-of-age, ao mesmo tempo em que são refletidas as memórias da Letônia sob o domínio soviético na segunda metade do século passado.


Mas sem sombra de dúvidas o que ajuda a tornar Gato na Cabeça mais distinto, para além da sua proposta narrativa, é a maneira como experimenta em sua forma. As fotografias aqui exibidas são repletas de imprecisões: nitidez indistinta, elementos aleatórios nas tomadas, transições em wipe, exposições duplas ou acidentais, e por aí vai. O que Pakalnina faz com aquilo que seria visto como defeito técnico ou da falta de profissionalismo de “Anton”? Faz disso a própria forma do filme. Para além da sua bela fotografia em P&B para se acomodar às próprias fotografias, bem como do trabalho de som para “preencher” algumas fotografias, vemos constantemente a imagem cinematográfica sendo inundada pelas exposições duplas, elementos aleatórios, enquadramentos incomuns e tanto mais que, se em alguma medida causam estranhamento, ao mesmo tempo nos imergem nessas fotografias. É como se o filme respeitasse a mácula do tempo e as condições precárias em que elas foram feitas, e por extensão respeitasse o trabalho sensível de “Anton”.


Com isso, Gato na Cabeça oferecesse uma nova dimensão a um trabalho que poderia ter sido relegado ao esquecimento. Ainda que o filme perca uma certa força na sua reta final, após se concentrar na versão adolescente/jovem de “Anton”, ele permanece uma experiência narrativa, estética e formal de comovente riqueza, se distinguindo na maneira como trabalha a memória e honrando o trabalho deste ilustre desconhecido cujas fotografias, feitas em um tempo e espaço tão distante do nosso, ainda assim são capazes de contar histórias tão curiosas – sejam elas verdadeiras ou inventadas para o filme.


Nota: 4/5


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