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  • Entrevista | Renata Pinheiro fala sobre “Lispectorante”, seu novo filme

    Em entrevista ao Oxente Pipoca, a diretora falou sobre as influências de Clarice Lispector no longa, a gentrificação de Recife e o trabalho com Marcélia Cartaxo e Grace Passô. Divulgação Estreia nos cinemas brasileiros no dia 08 o longa-metragem Lispectorante, dirigido por Renata Pinheiro (Amor, Plástico e Barulho e Açúcar). O filme acompanha Glória Hartman (Marcélia Cartaxo), uma mulher madura que atravessa uma crise existencial e financeira e volta à sua cidade natal, Recife, que também passa por um processo de abandono. Por meio de uma fenda nas ruínas onde morou a escritora Clarice Lispector, Glória começa a ver cenas fantásticas que vão alterar a sua vida. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Renata a respeito do filme. Ela pôde comentar sobre a escolha de trazer o espírito da obra de uma das maiores escritoras brasileiras para o longa, a abordagem a respeito dos processos de gentrificação que Recife vem sofrendo e a oportunidade de trabalhar com atrizes do calibre de Cartaxo e Grace Passô. Você pode acompanhar a entrevista abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Lispectorante, como seu título indica, tem como base não só a casa de Clarice Lispector, mas sobretudo o espírito de sua obra. Como foi trazer Marcélia Cartaxo - que ganhou notoriedade justamente pelo seu papel em A Hora da Estrela - para o filme e fazê-la se reencontrar de certa forma com Clarice? Renata Pinheiro: A obra de Clarice Lispector como um todo sempre me motivou muito e principalmente também porque eu sou uma mulher que me descobri artista desde criança. A gente tem aquele vazio dentro da gente que só é preenchido em alguns momentos quando você encontra obras como a de Clarice. Eu me lembro que li ela muito criança, depois na adolescência, e nem sei se eu entendia tudo, mas aquilo me deu um certo alívio dessa complexidade que é ser mulher, ser artista. Aí esse filme vem por uma grande coincidência do acaso, que foi essa construção toda. A personagem nasceu antes, é essa mulher de meia idade, uma mulher madura que está passando por um momento de grande crise existencial, financeira, termina um casamento. É uma artista frustrada porque se dedicou muito mais à carreira do ex-marido, e agora, o que fazer com isso? E foi numa ida furtiva ao centro da cidade que Sérgio Oliveira, que também é criador desse projeto, chegou para mim e falou: "Pô, você já reparou na casa de Clarice Lispector na praça Marciel Pinheiro, lá no bairro da Boa Vista, que é bem o centro da cidade?”. Eu disse: "Não, é mesmo, é ali a casa dela". Então é algo que realmente estava esquecido, e aí veio essa conexão, porque na verdade essa construção da Glória tinha tudo a ver com esse universo único de Clarice Lispector. Então, eu acho que o filme se aproxima mais dessa minha necessidade de falar o quanto que Clarice Lispector viveu em Recife. Ela habitou aquela praça, andou por ali igual a igual a todos nós daqui, respirou aquele ar, foi ali no rio Capibaribe, voltou pra praça, enfim. Uma coisa que até eu, que sou recifense, estava esquecida, de que ela tinha aquela casa dela num lugar tão turístico e central. Então o filme tenta resgatar, fazer um contato com a pessoa da escritora Clarice Lispector e traz, claro, essa aura que está nas obras dela. E para a gente ter essa personagem no filme, logo chegamos à conclusão de que Marcélia Cartaxo seria perfeita, pela idade dela, pela complexidade, por ela ter feito Macabeia [em A Hora da Estrela]. Ela vem com uma carga muito intuitiva, de uma atriz intuitiva. Ela tem uma aura de estrela mesmo, e imprime um elemento de mulher-criança, o que dá uma humanidade incrível à personagem. E por isso me sinto uma artista recifense em comunhão com outras duas grandes artistas, uma pernambucana e uma paraibana. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme também trata muito de questões de gentrificação, ainda mais nesse contexto pós-pandêmico. Inclusive eu tive a infelicidade de ser assaltado no centro de Recife ano passado. Para você, de que forma se deve discutir a memória e a ocupação desses espaços para conter o avanço dessa degradação e abandono? Renata Pinheiro: Eu acho que é preciso juntar muitas pessoas, de várias áreas, multidisciplinares, para entender o que fazer com o espaço tão rico de memória e inclusive nobre. Ele fica à beira do rio Capibaribe, e esse bairro da Boa Vista tem o cinema São Luís, tem o teatro do parque. Então está tudo ali e eu acho que partindo de uma economia limpa como o turismo talvez fosse o mais interessante. Traçar um mapa sentimental da cidade do Recife, que é algo que o filme também traça um pouco, ao mostrar que foi onde nasceu o físico Mário Schenberg, além da própria casa de Clarice. Eu acho que a cultura sempre salva, então acho que através de centros culturais naturais poderia se deixar mais vivo aquilo tudo. Poderia se trazer um outro tipo de ocupação para essas áreas, porque acontece em outras cidades também. Desde o final dos anos 80, quando começaram os shopping centers a tomar esse lugar do centro da cidade, até agora, onde o comércio virtual tem dominado e muitas lojas físicas têm fechado, tudo isso tem sido um fenômeno mundial. Eu acho que as cidades têm que estar preparadas para se adaptarem a essas novas tendências, principalmente privilegiando a vida humana. Então têm muitos espaços que estão vazios, com pessoas que não têm casa, e tem que ter uma política de ocupação desses espaços, além da preservação da nossa história, isso é cultura. Tem museu também por ali, que ninguém sabe que existe, cara, ninguém sabe porque é uma portinha. Trata-se de uma história, o nosso passado, que estão esquecidos. É realmente uma pena, porque a gente que faz cinema tem essa função de às vezes até de colocar na roda as questões, as temáticas para se fazer, conversando sobre temas que, se não for a gente para puxar, ninguém fala. Temos essa função e a gente vai fundo, é a nossa arma, mas é preciso que venha um pouco lá de cima, infelizmente. Divulgação Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Algumas das minhas partes favoritas são as envolvendo a grande Grace Passô, nesse lance meio surrealista onde realidade, sonho e fantasia se sobrepõem, mas também estão em constante conflito. Para mim me pareceu muito representativo do ofício criativo de um(a) artista como a personagem de Marcélia, mas queria saber o que você propôs com essas sequências e também como foi o processo de trazer Grace para o filme. Renata Pinheiro: A Grace é uma grande atriz, e como se trata desse universo lúdico, de sonho, precisaria de uma atriz do porte dela. Porque Grace chega chegando, ela teve uma compreensão desse lugar, que é um lugar imaginado pela protagonista, e que tem sim um cunho surreal no sentido de que ele, de fato, utiliza traços de realidade para construir uma realidade paralela, e eu acho a performance dela incrível. Ela fez uma diária e meia só de filmagem, teve uma preparação com Tavinho Teixeira [diretor de atores do filme] e ela surpreendeu, foi além do que eu tinha imaginado. E essa é a grande cena do filme, que é quando a gente vê se materializando lá o que é o tal do Lispectorante, essa bombinha de confete que ao explodir te transporta para um lugar alucinógeno contra a caretice. Você expurga as mágoas, enfim, vê a vida de uma forma diferente. Acho que esse não poderia ser meu primeiro filme, porque é um filme muito sofisticado, ousado e corajoso. E você precisa ter parceiros também corajosos, ousados e, vamos dizer, maduros para entrar nessa, como a Grace Passô, o Pedro Wagner e a Marcélia Cartaxo. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados que nos indiquem seus filmes nacionais favoritos, ou aqueles que acham que todo mundo deveria estar assistindo. Quais seriam suas indicações de filmes nacionais para o nosso público? Renata Pinheiro: Como a gente está falando tanto aqui de Clarice e de Marcélia, eu vou indicar A Hora da Estrela, de Suzana Amaral. Parêntese, eu trabalhei com Susana Amaral, uma diretora incrível, fui diretora de arte do último filme dela, Hotel Atlântico. Também pensei aqui em Madame Satã, do Karim Ainouz. Acho que os dois filmes mergulham num Brasil muito interessante, que, como diz Matheus Nachtergaele, é o “Brasil com S”. Também são filmes que se passam nos centros das cidades, então eu os indicaria para as pessoas que são muito jovens, principalmente, que talvez não tenham assistido ainda.

  • Análise | The Last of Us 2x06 (“The Price”): Felicidade e tristeza de mãos dadas

    Penúltimo episódio da temporada é uma devastadora carta de amor à relação de Joel e Ellie. Divulgação Na cena inicial temos com Joel adolescente assumindo uma culpa de Tommy para que ele apanhasse no lugar do irmão. Seu pai – feito aqui pelo sempre espetacular Tony Dalton de Better Call Saul – decide não bater em nenhum dos dois e diz a Joel que espera que ele seja um pai melhor. O instinto protetor de Joel já estava aflorado desde muito jovem e isso fez dele um pai melhor, sem dúvida alguma. O relógio que Joel carrega era do seu patriarca, e deve ter sido um lembrete constante de ser o melhor que ele conseguisse. A relação de Ellie e Joel é a alma da série e acompanhar os cinco anos que não vimos entre a 1ª e a 2ª temporada foi um baita presente para nós fãs, que pegou ainda mais forte depois da morte. O roteiro assinado por Neil Druckmann, Halley Gross e Craig Mazin escolhe fazer isso através dos aniversários de Ellie e ir testemunhando a felicidade e inocência dela em cada excelente surpresa que Joel preparava, é impossível não se emocionar. Ele cantando Future Days no violão – música que ela começou a tocar no episódio anterior e não conseguiu –, o passeio no museu, a cabine dos astronautas… foi tudo tão bonito e genuíno que só ratificou ainda mais a química e o estrondoso talento de Pedro Pascal e Bella Ramsey. Vê-los compartilhando tempos de felicidade e bem mais pacíficos foi um deleite. Com o passar do tempo, Ellie foi entrando na fase mais rebelde da adolescência e os conflitos começaram a aumentar. Com a dúvida latente a cabeça dela sobre a verdade de Salt Lake City – as mariposas simbolizando a morte já indicavam isso. Eu adorei descobrir finalmente saber o que aconteceu com Eugene – Joe Pantoliano irretocável – e como isso foi o estopim para Ellie entender a verdade que estava na frente dela. É compreensível que ela se sinta traída mais uma vez e aquele “você jurou” foi muito mais por Salt Lake do que por Eugene e a mentira para Gale (Catherine O’Hara). Amarrou muito bem as pontas e deu um motivo plausível para que a terapeuta odiasse Joel. Ao mesmo tempo que era um risco que ele não estava disposto a correr, talvez houvesse tempo para uma despedida entre ela e o marido. Quando Ellie vê Joel mentir – de novo – aquela combustão de sentimentos vem à tona nela. Divulgação Nove meses se passaram até a noite de Ano Novo que vimos no 1º episódio da temporada. Imagino quão doloroso esse afastamento foi para ambos durante esse tempo e isso é refletido ali, na varanda, na melhor cena da série, onde toda a angústia deles é explorada. Ellie volta para conversar com Joel e ele confessa tudo e afirma que não se arrepende de nada porque a ama e Ellie diz que não sabe se conseguirá perdoá-lo, mas está disposta a tentar. Ah, se eles tivessem mais tempo, ah se aquela não fosse o último momento deles juntos. O luto é isso, uma junção de “e se” que gente nunca vai ter as respostas. Saber que houve esse ensaio de reconciliação e o quanto eles se amavam, deixa o peso muito maior, principalmente quando Pascal e Ramsey estão completamente imersos naqueles personagens, com toda complexidade e vulnerabilidade que eles têm. Foram espetaculares durante todo o episódio, dos momentos mais felizes a este derradeiro, que amolece até o coração mais duro. A cena final nos leva de volta à Seattle, com uma Ellie totalmente diferente da que vimos no começo do episódio, coberta pela chuva e pela escuridão, sendo um contraponto direto à inocente menina que apareceu no fim do episódio anterior e em boa parte dele. Ellie toma um caminho que Joel jamais iria querer para ela. Ela nunca teve uma vida fácil e só conheceu o amor parental quando Joel apareceu. Quando ele foi arrancado dela da maneira mais violenta possível, foi o preço que ele pagou por suas ações. Agora Ellie quer que Abby pague pelas dela, mas sabe-se lá se o preço que a própria Ellie também terá que pagar não será alto demais. É ciclo da violência que nunca se encerra e não deixa de ser triste para todos os envolvidos.

  • Lista | As melhores sequências de ação e espionagem em “Missão: Impossível”

    Relembrando os momentos icônicos – com ou sem dublês – que tornaram a franquia tão memorável. Divulgação (CONTÉM SPOILERS DOS FILMES ATÉ ACERTO DE CONTAS PT. 1) Após o ranking dos filmes de Missão: Impossível, é hora de falar das sequências que justificam a posição da franquia no panteão de Hollywood. Seja quando mais voltadas para a ação ou para a espionagem (ou mesclando ambos os gêneros), essas sequências têm sido um pilar destes longas desde o lançamento do primeiro, lá em 1996, e se tornaram icônicas por si só – basta se lembrar de Ethan Hunt (Tom Cruise) pendurado por uma corda num cofre dentro do prédio da CIA ou escalando o Burj Khalifa, o prédio mais alto do mundo, com as próprias mãos. Mesmo que tenham se tornado cada vez mais grandiosas e mirabolantes a cada filme, é inegável que cada um dos Missão: Impossível possui pelo menos um momento marcante. Confira abaixo as melhores sequências da franquia: Divulgação 15) Tiroteio na ponte da baía de Chesapeake (Missão: Impossível III) Ainda que possua as sequências menos memoráveis (e mais mal dirigidas) da franquia, seria injusto não citar o momento em que vemos o vilão Owen Davian (Philip Seymour Hoffman) ser resgatado do comboio conduzido por Ethan na ponte da baía de Chesapeake, em Maryland. Depois de todo o esforço do protagonista para capturá-lo no Vaticano – sequência esta que merecia estar aqui também – e da tensa interação entre ambos no avião (na qual Hoffman prova porque é de longe o melhor vilão da franquia), toda essa sequência vem como um choque, mostrando que Davian é muito mais poderoso do que se poderia imaginar. Divulgação 14) Perseguição sob o Canal da Mancha (Missão: Impossível) O primeiro grande setpiece de ação da franquia vem quase tardiamente no filme, que é o mais voltado ao universo da espionagem dentre os oito lançados. Mas, mesmo com os efeitos visuais que podem ter ficado um pouco datados, é um espetáculo por si só: entre as tensas negociações no trem-bala, a confirmação de que Jim Phelps (John Voight) está de conluio com a esposa Claire (Emmanuelle Béart) e Franz (Jean Reno) e a aparição deste num helicóptero que consegue adentrar o túnel do Canal de Mancha, é a “mentirada” no seu melhor. Quem não fica que nem o condutor do trem ao ver a hélice do helicóptero não rasgando o pescoço de Ethan por uma fração de centímetro está morto por dentro. Divulgação 13) Perseguição em Mumbai e luta no estacionamento (Missão: Impossível – Protocolo Fantasma) Pode não superar aquela outra icônica sequência do filme (e que também estará aqui na lista), mas o clímax em Mumbai é uma verdadeira corrida contra o tempo que só a franquia sabe fazer, colocando Benji (Simon Pegg), Jane (Paula Patton) e Brandt (Jeremy Renner) para impedir Wistron (Samuli Edelmann), o capanga do vilão Hendricks (Michael Nyqvist), enquanto este enfrenta Ethan em um estacionamento automatizado. O embate dos dois em meio aos carros que vão sendo lançados contra eles, enquanto vemos um míssil prestes a atingir San Francisco, adiciona uma dose de tensão e frenesi impossível de ser superada – e ainda assim o filme consegue nos surpreender com seu humor quando vemos Ethan soltar uma frase de efeito que, bem... não surte lá muito efeito. Divulgação 12) Tiroteio no Cofre do Apocalipse e perseguição de aviões (Missão: Impossível – O Acerto Final) Evitarei spoilers sobre o mais recente filme da franquia, mas seria um erro crasso não trazer nesta lista as suas duas principais sequências de ação, a começar por essa. Começando com um tiroteio entre diferentes partes no local onde se passa o clímax da obra e então se desdobrando entre três frentes – uma das quais é Ethan se pendurando entre dois aviões, conforme visto brevemente nos trailers e materiais promocionais –, é outro final espetacular de um filme da franquia, que nos deixa grudados de tanta tensão conforme vemos nosso(s) protagonista(s) lutarem pelo destino do mundo mais uma vez. Divulgação 11) Luta nas ruas e pontes de Veneza (Missão: Impossível – Acerto de Contas pt. 1) Ao longo destas três décadas de existência, Missão: Impossível trocou diversas vezes os atores e atrizes que compuseram as equipes de Ethan, por vezes sem muita explicação de um filme para outro, mas em algumas com despedidas verdadeiramente emocionais. É o caso de Ilsa Faust (Rebecca Ferguson), que havia debutado em Nação Secreta e rapidamente foi alçada ao posto de melhor personagem feminina da franquia – que, convenhamos, nunca foi conhecida por personagens femininas realmente marcantes – e uma grande favorita do público. Por isso, vê-la morrer pelas mãos do vilão Gabriel (Esai Morales) enquanto tenta proteger a recém-chegada Grace (Hayley Atwell) é dolorosamente trágico, especialmente porque vemos em paralelo Ethan penar numa luta brutal contra Paris (Pom Klementieff) e um capanga enquanto tenta alcançar as duas mulheres. Pode não ser a luta mais épica da franquia, mas certamente é a mais emocionalmente impactante e desoladora. Divulgação 10) Perseguição de motos e luta na praia (Missão: Impossível 2) Pode até se criticar Missão: Impossível 2 por uma série de fatores, mas quando se tem ninguém menos que John Woo na cadeira de diretor, definitivamente não se critica as cenas de ação. O clímax do filme vem com o astuto plano de Ethan de fazer o vilão Sean Ambrose (Dougray Scott) matar o braço direito Hugh Stamp (Richard Roxburgh) – num dos melhores plot twists envolvendo as clássicas máscaras da franquia – e então desemboca numa violenta perseguição por estradas, onde o protagonista impiedosamente dilacera vários dos capangas de Sean até culminar na brutal luta dos dois numa praia, enquanto vemos Luther (Ving Rhames) e Billy (John Polson) resgatarem a protagonista feminina Nyah (Thandiwe Newton) antes que ela lance um vírus mortal em Sydney. Impossível não se arrepiar com a cena em que Sean por muito pouco não enfia uma faca no olho de Ethan, ou aquela em câmera lenta na qual nosso protagonista chuta uma arma da areia para dar cabo do seu inimigo de uma vez por todas. Divulgação 9) Perseguição em Roma (Missão: Impossível – Acerto de Contas Pt. 1) Se tem uma coisa que Missão: Impossível sempre fez bem foram as perseguições com veículos por diferentes partes do globo, e em Acerto de Contas Pt. 1 temos aquela que talvez seja a mais divertida. Após nos introduzir Grace como uma ladra habilidosa e charmosa, o filme a reúne efetivamente com Ethan enquanto ambos tentam escapar tanto de Paris quanto dos agentes Briggs (Shea Whigham) e Degas (Greg Tarzan Davis). Mas eu te contei que a dupla faz isso dentro de um carrinho minúsculo, enquanto Paris destrói a cidade com um carro-forte? E que eles também estão algemados? Como um amigo meu disse, a energia de Cruise e Atwell, junto a essa sequência de absurdos, é talvez o mais próximo que a franquia já chegou de uma comédia screwball como aquelas dirigidas por Howard Haws nos anos 1940. Divulgação 8) Infiltração no cofre subaquático e perseguição por Casablanca (Missão: Impossível – Nação Secreta) Há um meme que diz que Tom Cruise disfarça seus impulsos suicidas com as arriscadas manobras que faz sem dublês, e vê-lo passar minutos e mais minutos com a respiração presa debaixo d’água num cofre subaquático em Casablanca é uma boa prova de que esse meme não está muito longe da verdade. A cena ocorre na metade do filme; ou seja, no fundo sabemos que Ethan sobreviverá, mas mesmo assim é impossível não sentir aflição ao vê-lo tentando executar um roubo tão elaborado e mortal. E, como se não bastasse, essa cena ainda desemboca em uma alucinada perseguição de moto pelas ruas da cidade, onde Ethan, ainda se recuperando da infiltração no cofre, tenta perseguir Ilsa Faust enquanto lida com os capangas do vilão Solomon Lane (Sean Harris). Divulgação 7) Perseguição em Paris (Missão: Impossível – Efeito Fallout) Vindo não muito depois de outra icônica sequência do filme, esta perseguição é outra que envolve diferentes núcleos envolvidos, enquanto Ethan navega pelo submundo do crime sob o disfarce do terrorista John Lark, o qual usa para tentar impressionar a ácida e bela traficante de armas Viúva Branca (Vanessa Kirby). Enfrentando tanto os capangas da Viúva quanto os seguidores de Solomon e a polícia parisiense – tudo isso enquanto tenta manter seu código de ética intacto, como na cena em que precisa lidar com a intromissão de uma jovem policial –, Ethan extrapola os limites da sua própria identidade, algo propício para o filme da franquia que mais questiona seu ethos e sua moralidade. Divulgação 6) Infiltração no submarino Sevastopol (Missão: Impossível – O Acerto Final) Desde o prólogo de Acerto de Contas Pt. 1, esperávamos pelo momento em que Ethan iria atrás do submarino russo Sevastopol, e essa sequência não decepciona nem um pouco. Vindo mais ou menos na metade do longa, temos cerca de vinte minutos da mais absoluta tensão, onde Ethan tenta resgatar um importante item dentro dos destroços do submarino que pode ajudá-lo a enfrentar a maligna IA conhecida como Entidade. É quase impossível respirar – algo propício para uma sequência quase toda debaixo d’água, filmada com um esmero e uma precisão por parte de Christopher McQuarrie que só consigo imaginar sendo dirigida neste mesmo nível (e coragem) por James Cameron. Já é um dos momentos mais memoráveis – e angustiantes – da franquia. Divulgação 5) Salto HALO e luta no banheiro (Missão: Impossível – Efeito Fallout) Acredito que parte do meu fascínio com Missão: Impossível vem do fato da franquia elaborar sequências que envolvem meus dois maiores medos: altura e água. Aqui temos Ethan fazendo um arriscado salto pelos céus de Paris, que acaba descambando no improviso pelas ações imprudentes do agente August Walker (Henry Cavill), com quem é forçado a trabalhar, e ver o protagonista rasgando os céus parisienses para salvar seu parceiro/antagonista é outra daquelas sequências que nos deixa completamente imóveis e boquiabertos. Como se não bastasse, quando os dois enfim conseguem se infiltrar na boate na qual supostamente está o terrorista John Lark (Liang Yang), tudo dá errado da maneira mais cômica e desesperadora possível, com o filme entregando o melhor duelo corpo-a-corpo da franquia – inesquecível a cena em que August “recarrega” seus músculos em meio à luta. E qualquer cena que termine com a aparição surpresa de Ilsa para salvar o dia não poderia ser menos que perfeita. Divulgação 4) Atentado na Ópera de Viena (Missão: Impossível – Nação Secreta) Uma personagem como Ilsa merece sequências à altura, e toda esta aqui faz jus à entrada da personagem na franquia no filme. Não fazemos ideia das suas motivações – ela é uma aliada, uma inimiga ou tem sua própria agenda? – e essa dubiedade eleva ainda mais a tensão da cena, conforme vemos Ethan lutar contra os capangas de Solomon enquanto tenta pará-la. No filme que melhor combina os lados da espionagem e da ação dentro da franquia, nada mais justo que todo esse momento na ópera represente o melhor destes dois mundos, ainda com uma boa dose de humor e surpresas que se tornaram regra a partir de Protocolo Fantasma. Divulgação 3) Perseguição de helicópteros na Caxemira (Missão: Impossível – Efeito Fallout) O clímax de Efeito Fallout é um verdadeiro atestado do brilhantismo da franquia, levando Ethan e sua equipe para a Caxemira, onde ele é forçado a encarar que os planos de Solomon envolvem sua ex-esposa Julia (Michelle Monaghan), como uma forma de forçá-lo a encarar seu passado. Enquanto Ilsa e Benji enfrentam Solomon e Julia ajuda Luther a desarmar uma bomba atômica, Ethan se engaja numa alucinada perseguição de helicópteros contra August, filmada em IMAX em toda a sua glória. O embate dos dois termina à beira de um precipício, e ver Cruise, em seus 1,70m, enfrentar o gigante Cavill é um verdadeiro deleite. Como sempre, o mundo é salvo mais uma vez, mas não sem antes nos desesperarmos pela possibilidade de tudo dar errado até o último segundo – e por isso aquele plano com uma luz branca nos induzindo a pensar numa explosão nuclear antes de se revelar algo mais fortuito é um dos momentos mais sacanas, mas também mais aliviadores, da franquia. Divulgação 2) Infiltração na sede da CIA (Missão: Impossível) Se você perguntasse a alguém que nunca viu nenhum filme de Missão: Impossível se ele(a) consegue pensar em uma única cena dos filmes, certamente a resposta seria: “Tom Cruise pendurado por uma corda no meio de uma sala branca”. Homenageada, refeita e parodiada à exaustão, a sequência certamente entrou pros anais do cinema, mas não é até assistir ao filme que se percebe o quanto ela é uma verdadeira aula de direção por parte de Brian DePalma. Onde outras sequências nesta lista se destacam pelo escopo e grandiosidade, aqui temos o inverso: cenas incrivelmente contidas, no mais completo silêncio, que potencializam a tensão conforme vemos Ethan e Franz em ação – e o pobre William Donloe (Rolf Saxon) passando mal, para adicionar uma boa dose de humor e suspense. Se a perseguição em Roma em Acerto de Contas pt. 1 foi o mais próximo que a franquia chegou de Howard Hawks, aqui DePalma resgata o espírito das cenas de assalto dirigidas por Jules Dassin em Rififi ou Jean-Pierre Melville em Le Cercle Rouge. Sem sombra de dúvidas a sequência mais icônica de toda a franquia, e que transformou Cruise no astro de ação que é hoje. Divulgação 1) Escalada do Burj Khalifa (Missão: Impossível – Protocolo Fantasma) Ao escalar o Burj Khalifa com as próprias mãos, Tom Cruise provou que era maior que a própria vida – e também maior que a própria morte. Essa sequência é Missão: Impossível por excelência: tem-se um plano arriscado, imprevistos, improvisações, duplicidades, máscaras e ainda culmina numa fenomenal perseguição a pé (e depois de carro) pelas ruas de Dubai em meio a uma violenta tempestade de areia. Se fosse apenas 20 minutos de Tom Cruise escalando o prédio mais alto do mundo sem dublês, já seria impressionante por si só, mas é o fato de que isso é parte do todo que justifica o fato de estar em primeiro lugar nessa lista. MENÇÕES HONROSAS: · Eliminação do time de Ethan em Praga (Missão: Impossível) · Infiltração no Vaticano e rapto de Owen Davian (Missão: Impossível III) · Roubo e perseguição no aeroporto de Abu Dhabi (Missão: Impossível – Acerto de Contas Pt. 1) · Infiltração e bombardeio ao Kremlin (Missão Impossível – Protocolo Fantasma) · Descarrilamento do trem (Missão: Impossível – Acerto de Contas Pt. 1)

  • Crítica | Sereias (Minissérie)

    Ótimo elenco não consegue salvar esta tentativa de sátira da bagunça que ela é Divulgação Criada por Molly Smith Metzler, que também criou a sensacional Maid (2021), Sereias conta a história de Devon (Meghann Fahy), que precisa da ajuda da irmã Simone (Milly Alcock) para cuidar do pai com demência. A vida de Devon é um trem descarrilhado, mas ela faz o que pode, e quando Simone não responde as mensagens e nem atende ligações, a moça resolve ir buscá-la pessoalmente em uma luxuosa propriedade litorânea onde ela trabalha como assistente de Michaela (Julianne Moore), uma mulher muito rica por quem Simone parece ter verdadeira adoração. Esta premissa básica é bem interessante e a minissérie tem uma identidade própria, apesar de ser mais uma pós The White Lotus. No entanto, a tentativa de satirizar a excentricidade dos ricos da vez cai por terra quando há um forte desequilíbrio entre o drama e o humor, que não ornam com as estranhezas que a produção propõe. É como se algumas cenas funcionassem isoladamente, mas não se conectam muito bem com o que a série constrói e como desenvolve seus personagens. As três protagonistas estão excelentes nos papéis e é uma pena que o material não esteja à altura. Meghann Fahy consegue dar alguma humanidade à sua Devon barraqueira e sem papas na língua e tem um surpreendente timing cômico muito afiado. Milly Alcock, revelação de House of the Dragon como a jovem Rhaenyra, em nada lembra a rainha. Aqui ela é uma jovem ambiciosa que quer ter sempre o controle da situação, mas quando isso foge das mãos dela, é seu momento de brilhar. Julianne Moore parece estar à base de medicamentos quase o tempo todo, o que casa bem com o que o texto e a direção pedem dela, sem perder a elegância quando sua Kiki – como é conhecida – precisa se impor de outra forma. Kevin Bacon é o marido de Kiki, Peter e o ator está bem, mas não se sobressai. Glenn Howerton, Josh Segarra, Felix Solis e Bill Camp completam o baita elenco, que realmente merecia mais substância em personagens tão volúveis que é quase impossível estabelecer uma conexão com o telespectador. Divulgação Felizmente, são apenas cinco episódios, mas desde o primeiro os problemas aparecem. As protagonistas são apresentadas como estereótipos, mas o texto não as leva para além da casca. O mito das sereias fala sobre belas mulheres que, com seu canto, seduzem pessoas – homens, principalmente – e os levam para o fundo do mar. É a metáfora que a minissérie tenta fazer com suas personagens principais. Devon e Simone colecionam ficantes apaixonados por elas, enquanto Kiki recebe a adoração da alta sociedade. Há um misticismo envolvido com as três, mas unicamente para trazer estranhezas, ressaltadas por olhares hipnotizantes ou até uma lambida em um pescoço – sim, isso mesmo. Sem falar nos mistérios abordados, resolvidos com simples conversas. São jogados na tela, mal trabalhados e com uma resolução pior ainda. O título também é uma referência mais clara a um código de pedido de ajuda das irmãs, e quando eu disse que algumas cenas são boas isoladamente, estava me referindo às que Devon e Simone dividem, principalmente quando emocionadas. Ali, naquele momento – muito por causa das atrizes também – parece que há uma relação bem explorada pelo roteiro. Na cena seguinte a impressão se desfaz, porque nem a série parece saber aonde quer chegar e atira para todo lado, não tendo sucesso no humor, suspense ou drama, salvo raríssimas exceções em cenas isoladas. E o final, uma sucessão de atropelos convenientes para que resultem em uma reviravolta pífia e previsível, coloca tudo a perder. Se algo fez sentido ali, não faz mais. Um dos maiores problemas de uma produção pretensiosa não é ela ser pretensiosa – até porque foi isso que faz ela ter algum destaque –, é quando ela se leva tão à sério que não consegue sequer entreter, como é o caso aqui, e se não fosse pelo elenco, praticamente nada se salvaria. Nota: 2/5

  • Entrevista | “O cinema já acabou duas vezes”: Jorge Furtado comenta resistência do audiovisual brasileiro

    Em entrevista ao Oxente Pipoca, o diretor comentou das inspirações e da relevância do longa, que será relançado no dia 29 junto com seu curta-metragem “Ilha das Flores” pela Vitrine Filmes. Divulgação Lançado em 2007, o longa-metragem Saneamento Básico, o Filme, dirigido por Jorge Furtado, ganhará a partir do dia 29 um relançamento especial nos cinemas. A obra é estrelada por Fernanda Torres, Wagner Moura, Camila Pitanga, Bruno Garcia, Lázaro Ramos, Paulo José e Tonico Pereira, e segue um grupo de moradores de uma pequena cidade da Serra Gaúcha que, na tentativa de resolver o problema de uma fossa a céu aberto que empesteia o ambiente, decidem usar uma verba de 10 mil reais da prefeitura disponibilizada pelo governo federal para gravar um filme de ficção que aborde o problema. O relançamento de Saneamento Básico, o Filme ocorre em conjunto com o do curta-metragem Ilha das Flores (1989), também dirigido por Jorge Furtado, e ambos os filmes serão exibidos com cópias restauradas em 4k pela Vitrine Filmes. Segundo a distribuidora, a iniciativa visa resgatar e valorizar o patrimônio audiovisual do país, permitindo que novas gerações tenham acesso a filmes fundamentais da cinematografia brasileira no formato original para o qual foram concebidos: o cinema. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Jorge Furtado para falar sobre as inspirações que o ajudaram a fazer o filme, bem como sua relevância quase 20 anos após o lançamento original e a importância de se assisti-lo no cinema. Você pode conferir a entrevista na íntegra abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Uma das melhores coisas de “Saneamento Básico, O Filme” é ver esses personagens que não têm conhecimento nenhum sobre cinema tendo de fazer um filme. Mas eu queria saber: quais obras te inspiraram? Porque é nítido como “O Monstro do Fosso” tem essa coisa meio de filme B de ficção científica dos anos 50, ou até de slasher, então queria saber quais foram suas principais referências para fazer esse “filme dentro do filme” tão autenticamente nacional. Jorge Furtado: É interessante porque a inspiração de um filme é sempre uma pergunta que tu faz para ti mesmo e que tu tenta responder. E a pergunta que eu e fiz para mim mesmo era: um país como o Brasil, com tanta desigualdade, com injustiça social terrível, o mais desigual do planeta, tem o direito de usar dinheiro público para fazer cinema? E a resposta que o filme dá é: sim, tem o direito, mais que isso, tem a obrigação, porque numa sociedade tem que se construir junto, saúde, educação, segurança, balé, ópera, livraria, música, tudo tem que andar junto. Não dá para escolher. Então, são personagens que, como tu dissesse, não conhecem o cinema e só querem o dinheiro, mas acabam se envolvendo, se apaixonando e entendendo o poder de uma música. Ela [a personagem de Fernanda Torres] gasta uma grana de não sei quantos tijolos para comprar Billie Holiday, porque Billie Holiday vale muitos tijolos. E quanto à questão do monstro, o personagem do Wagner [Moura], Joaquim, é o Arlequim. Então, quando ele resolve ajudar a mulher dele para fazer uma história, pensa numa história de monstro, que certamente deve ter a ver com algum gibi que leu, e é infantil, mas funciona. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Estamos aqui quase 20 anos depois do lançamento original do filme, e vemos tantas pessoas criticando os investimentos em cultura. De que forma “Saneamento Básico, o Filme” ajuda a dialogar com esse cenário, no sentido de mostrar que a cultura é tão válida de ser investida quanto outras áreas da sociedade brasileira? Jorge Furtado: Eu tô fazendo cinema há 41 anos e nesse período o cinema já acabou pelo menos duas vezes, primeiro com o Collor, depois agora recentemente. E ele acaba e recomeça, acaba e recomeça e claro que não vai acabar. Os governantes que tentaram acabar estão com problemas de ficar fora da cadeia – um já foi preso, o outro espero que seja. E o cinema brasileiro tá aí de novo e sempre vai continuar, porque tem uma galera querendo fazer filme sempre, novos, jovens, e de algum jeito eles vão fazer. O filme foi feito inspirado também num projeto que, naquele momento, era Muitos Brasis ou Diferentes Brasis, não sei exatamente o título do projeto, mas era uma verba para produção de cinema em cidades de até 20.000 habitantes. Quando esse projeto saiu, eu tava em Santa Maria, no Festival de Cinema, e o pessoal de Santa Maria, que é uma cidade que tem quase, sei lá, 200.000 habitantes, disse assim: "Nós vamos ter que nos mudar para a cidade mínima para poder fazer filme agora". E então eu fiquei pensando: como é que uma cidade tão pequena vai pensar um filme, fazer um filme? Divulgação E tem uma outra coisa também, que só tem a ver comigo, mas eu tive uma longa obsessão – tenho ainda – por Shakespeare. Sempre estudei muito, gosto de Shakespeare. E chegou uma hora que eu meio que pensei assim: "Não, é possível, o teatro existiu antes de Shakespeare, o que que tinha antes?” E aí eu fui estudar como é a Commedia Dell’Arte, que sustentou a dramaturgia e o teatro por 300 anos, desde a volta do teatro na Renascença até o século XVII. E a Commedia Dell’Arte contou todas as histórias com oito personagens, então, peguei aqueles personagens, que são italianos, vou para uma cidade italiana, no interior do Sul, boto música italiana e vou fazer o Arlequim, a Mirandolina, etc., contar uma história com eles. A Marina [Fernanda Torres] quer provar para o pai que ela é talentosa e pode fazer o que um filho, um homem, não faria. A personagem é muito inspirada na Mirandolina, da Locandiera, do [Carlo] Goldoni, que marcou o fim da Commedia Dell’Arte. O Joaquim é meio Arlequim, o Fabrício [Bruno Garcia] e a Silene [Camila Pitanga] são os namorados bonitos, têm o Antônio [Tonico Pereira] e Otaviano [Paulo José], um é de Bolonha e gosta de dinheiro e o outro é de Veneza e é culto. Então os personagens são arquetípicos, eles têm 300 anos de existência. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Agora eu queria saber de como você está se sentindo vendo o filme voltar aos cinemas quase 20 anos após seu lançamento original, junto com “Ilha das Flores”. O que levou a esse relançamento de ambos os filmes? Jorge Furtado: A escolha foi da Vitrine [Filmes], esse é um projeto da Vitrine de relançamento de filmes brasileiros, eles nos procuraram no final do ano passado. Agora parece que é tudo feito meio em função do Oscar e da Fernanda, mas não, no final do ano passado eles já tinham nos procurado para fazer o relançamento. Agora melhorou, porque eu vejo no Letterboxd os americanos entrando para ver o filme para saber quem é essa Fernanda Torres e o que ela já fez, e se espanta ao ver que ela é comediante também, é engraçado. E tô achando muito bom o filme voltar para o cinema em 4K. É diferente de ver um filme numa sala de cinema, né? É mais transformador assim, porque tu não tá com o controle remoto na mão. O filme tem um tempo, tu te comove com o silêncio alheio e com a risada alheia também. Então, esse estado de cinema é uma experiência muito rica e transformadora que a minha geração viveu muito. Eu ia cinema quase todo dia, uma época. E hoje as pessoas pensam que ver um filme em qualquer lugar é a mesma coisa. Não é. Lawrence da Arábia no celular não é a mesma coisa do que numa sala. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Para finalizar, nós do Oxente Pipoca sempre gostamos de pedir aos nossos entrevistados que indiquem filmes nacionais que achem que o público deva assistir. Então quais seriam suas indicações para o nosso público? Jorge Furtado: Gostaria de indicar sem dúvida o meu filme e da Yasmin Thayná, que é o Virgínia e Adelaide, que é um filme que eu tenho o maior prazer e orgulho de ter feito. Ele conta a história de duas mulheres absurdas, a Virgínia Bicudo, primeira psicanalista brasileira, uma mulher negra que nos anos 30 enfrentou todo tipo de preconceito para se tornar uma grande cientista, e a Adelaide Koch, que é uma médica judia que fugiu do Holocausto, da Alemanha nazista para vir para São Paulo e fundar a psicanálise aqui. Então esse filme tá nos cinemas e vejam lá. Depois tem um filme que eu não vi, só vi o trailer e ouvi falar, mas eu vou essa semana, se puder, que é o Manas, que tá no cinema e deve ser visto. Eu vi e gostei muito do Homem com H, uma direção absurda do Esmir [Filho], montagem do Germano [de Oliveira], trabalho do Jesuíta [Barbosa], vale muito o filme. Eu acho que as minhas indicações são essas.

  • “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, ganha teaser oficial após estreia aclamada no Festival de Cannes

    Filme concorre à Palma de Ouro, o mais importante prêmio do festival, e receberá distribuição internacional pela Neon e Mubi. Divulgação Um dos representantes brasileiros no Festival de Cannes neste ano, O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, teve divulgado seu primeiro teaser, após sua estreia no festival, no último dia 18. O novo filme do diretor pernambucano é o único longa-metragem latino-americano a competir pela Palma de Ouro, a mais importante premiação em Cannes. Ambientado em Recife, em 1977, o longa acompanha Marcelo (Wagner Moura), um especialista em tecnologia que retorna à cidade após anos fora em busca de paz, apenas para descobrir que sua cidade natal esconde perigos e segredos inquietantes. Além de Moura, o elenco ainda conta com Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Carlos Francisco, Alice Carvalho, Roberto Diogenes, Hermila Guedes, entre outros grandes artistas. Divulgação Desde sua estreia em Cannes, onde foi ovacionado com 13 minutos de aplauso, O Agente Secreto vem sendo aclamado pela crítica. A distribuição internacional foi adquirida pela Neon, que lançará o filme nos EUA e no Canadá, e a Mubi, que o lançará no Reino Unido, Irlanda, Índia e América Latina, exceto no Brasil. Aqui no país, o longa será lançado nos cinemas pela Vitrine Filmes. Você pode assistir ao teaser abaixo:

  • Entrevista | Fabrício Bittar fala sobre “Inexplicável”

    Longa, que tem sido um sucesso internacional na Netflix, foi tema da entrevista do Oxente Pipoca com o diretor. Divulgação Desde que entrou no catálogo da Netflix, o longa-brasileiro Inexplicável tem sido um grande sucesso, sendo o terceiro filme em língua não-inglesa mais visto no mundo no mês passado, além de ter entrado no top 10 de 19 países. Dirigido por Fabrício Bittar e estrelado por Letícia Spiller e Eriberto Leão, o filme é inspirado no livro O Menino Que Queria Jogar Futebol, do jornalista paraibano Phelipe Caldas, o qual conta a história real de Gabriel Varandas, que em 2013, aos 8 anos de idade, foi diagnosticado com um tumor extremamente agressivo no cérebro, mas conseguiu sobreviver à doença após semanas internado. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Fabrício, que falou acerca do seu interesse pela história de Gabriel, o grande sucesso do filme na Netflix e o os diálogos que ele promove acerca do embate entre fé e ceticismo. Você pode conferir a entrevista completa abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Como você conheceu a história de Gabriel? O que te motivou a levar essa história para as telonas? Fabrício Bittar: Eu estava procurando histórias reais, estou sempre olhando histórias que podem virar filmes. E aí encontrei essa, foi uma história que na época, até pela ligação do Gabriel com o Fluminense, tiveram muitas notícias. Então eu vi que tinha sido publicado um livro, o livro de Phelipe Caldas, foi uma publicação independente. Eu consegui achar o livro num sebo online, comprei, li e fiquei muito impressionado com a história. Sempre falo que Phelipe é jornalista, então ele conseguiu contar a história ali com todo o rigor do jornalista, mas ao mesmo tempo com uma sensibilidade, por conhecer a família e pelo talento dele de colocar muita emoção. Então muitas das cenas do livro já eram cenas cinematográficas. Então, eu vi o potencial do filme, conversei primeiro com Phelipe, depois com a família, Marcus e Yanna, que autorizaram e deram toda a liberdade pra gente trabalhar. E aí deu certo e a gente trabalhou nessa adaptação. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Falando neles, o cerne do filme é o conflito entre a fé de Yanna (Letícia Spiller) e o ceticismo de Marcus (Eriberto Leão) diante de todo o drama pelo qual Gabriel passa. De que modo você buscou representar esse conflito? E como você o avalia dentro da sociedade contemporânea? Fabrício Bittar: Essa talvez seja a única grande mudança da adaptação. Tanto no livro, quanto na história real, Marcus não era esse cético que aparece no filme, ele sempre foi também mais religioso, sempre teve fé ali. Essa mudança aconteceu por dois fatores. O primeiro fator foi porque é óbvio que, quando você faz um filme, de alguma forma você está trazendo questões pessoais também. E esse conflito é muito meu, então até algumas frases ali do Marcus, essas mais céticas, eram frases que eu sempre usei, são questionamentos meus. Ao mesmo tempo, a gente precisava também de um conflito, porque o roteiro cinematográfico precisa desse conflito, até para que a gente consiga sustentar a narrativa. O nome do livro é O Menino que Queria Jogar Futebol, mas depois do roteiro e entendendo muito o que eu tinha ou de alguma forma queria construir com o filme, a gente chamou de Inexplicável, porque a ideia do filme não é colocar uma resposta pronta, nem dizer um certo ou errado. Acho que a proposta que a gente queria com o filme era mostrar a história do jeito que ela é. E aí tem uma coisa na história do filme que me interessa, que é: quando você tem uma situação muito difícil na sua vida, você consegue sustentar a sua descrença? Essa é a questão, essa que é a pergunta que eu faço. A gente vem recebendo uma enxurrada de mensagens positivas sobre o filme, de pessoas que estão se identificando, que estão se inspirando, mas é óbvio que a gente recebe algumas mensagens dizendo que o filme seria pró alguma religião, até que seria proselitista, enfim. Enquanto na minha visão, o filme discute exatamente o que você faz quando todo o resto não funciona. Então uma pergunta que às vezes fico pensando que eu faria para pessoas que não acreditam em nada é: como é que você fica diante do leito do seu filho doente com essa descrença total? Como é que você, a pessoa que não acredita em nada, lida com isso? Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Já que você falou sobre o sucesso do filme, ele tem se destacado bastante na Netflix, inclusive a nível global. A que você atribui esse sucesso internacional? É porque o público gosta de histórias de superação num geral ou você acredita que o filme possui um diferencial em relação a outras obras do gênero? Fabrício Bittar: Então, eu acho que as pessoas se identificam muito com a história, eu acho que é uma história que coloca você para refletir. Você pode não gostar, mas de alguma forma vai se sensibilizar, porque da mesma forma que a doença do Gabriel acontece de forma completamente inesperada e muda completamente a vida daquela família, isso pode acontecer a qualquer momento com qualquer um. E a verdade é que ninguém está preparado para isso. A gente vive a nossa vida sem pensar muito na morte, em doenças, nessas mudanças, até porque se você ficar pensando nisso vai enlouquecer, mas o fato de você não pensar faz com que também não esteja preparado. Então, eu acho que essa reflexão toca muito as pessoas em qualquer lugar do mundo. Uma outra coisa que eu acho que é muito interessante, e isso me deixa muito feliz, é de que o filme consegue também entregar um pouco de conforto para quem viveu ou para quem para quem está vivendo essa situação agora. Muitas vezes, quando se vive uma situação muito difícil, você fica se questionando do porquê, fica achando que é só com você e fica se culpando sobre o que fez errado. E eu acho que o filme mostra que pode acontecer com qualquer um. Uma coisa que me deixa muito feliz nas mensagens que a gente está recebendo é que ele não tem um nicho específico. A gente recebeu mensagem de todas as religiões, de todas as idades, de todas as classes sociais, é um filme que atrai todo mundo. Outro dia, postaram no Instagram uma criança que está assistindo repetidamente o filme, Acho muito interessante que realmente o filme pegou todo tipo de pessoa. Então, acho que é um pouco isso, as pessoas entendem que é uma história que poderia acontecer com qualquer um, seja com a própria pessoa ou uma pessoa próxima, e isso acaba mexendo muito. E eu acho que o filme também mostra um senso de comunidade, né? Como a comunidade se organiza e se ajuda em momentos difíceis, acho que isso gera uma conexão importante também. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre gostamos de pedir aos nossos entrevistados que indiquem obras nacionais que achem que o público deveria assistir. Quais são suas indicações? Fabrício Bittar: Eu acho que o cinema nacional produz filmes incríveis, e uma coisa que eu fico um pouco triste de escutar, que eu peguei várias mensagens de pessoas falando assim: "Ah, eu tenho muito preconceito com um filme nacional, mas este é bom, esse eu assisti". Eu acho que as pessoas falam isso exatamente sem assistir aos filmes. Acho que o primeiro filme que eu indicaria é um chamado Benzinho, com a Karine Teles, a Adriana Esteves, e é um filme que eu acho incrível, de grande sensibilidade e com uma verdade ali. Parece quase documental também, então você entra ali no que aquela família está vivendo, no que aquela mãe está vivendo, então é um filme que eu gosto muito. Um filme que eu assisti e gostei muito também foi o Mussum. Acho que é uma biografia extremamente bem feita, interessante, acho que a gente tem uma reconstituição de época, acho que mostra um, um personagem tão interessante de um jeito que a gente não conhece talvez, que não saiba de todas aquelas histórias. Tem também um documentário incrível que eu queria indicar, O Outro Mundo de Sofia, do Rafa [Raphael Erichsen], que é um amigo meu. E para citar um clássico, que também é um documentário, eu citaria também Edifício Master, que é um dos filmes que eu mais gosto. Mas é isso, tem muito filme nacional bom, acho que as pessoas precisam realmente parar e dar uma chance, acho que agora no streaming tem essa possibilidade dos catálogos renovados, enfim, então daria essas dicas.

  • Entrevista | Fábio Flecha fala sobre “Do Sul, a Vingança”, primeira longa inteiramente produzido no Mato Grosso do Sul a estrear no circuito comercial de cinemas

    Em entrevista ao Oxente Pipoca, o diretor falou sobre as temáticas e influências do filme, bem como sua importância para a produção cinematográfica do estado. Divulgação Lançado no dia 15, Do Sul, a Vingança fez história como o primeiro longa de ficção inteiramente produzido no Mato Grosso do Sul a estrear no circuito comercial dos cinemas brasileiros. O longa, dirigido por Fábio Flecha, conta a história escritor Lauriano (Felipe Lourenço), que parte para a conturbada fronteira entre Mato Grosso do Sul, Paraguai e Bolívia em busca de material para seu próximo livro e se vê envolvido em uma trama tão perigosa quanto cômica, onde sobreviver é o seu maior desafio. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Fábio, que falou a respeito das influências trazidas para o filme, as maneiras pela qual se abordou a temática dos crimes praticados na fronteira e como o longa representa um marco para a produção cinematográfica sul-mato-grossense. Você pode conferir a entrevista na íntegra abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): "Do Sul, a Vingança" tem a distinção de ser o primeiro filme produzido inteiramente no Mato Grosso do Sul a chegar ao circuito comercial de cinemas. Como você definiria a importância de ter um filme feito no estado e que trata de questões tão específicas dessa região? Fábio Flecha: Mato Grosso do Sul é um estado novo, que não tem mais de 50 anos. E em termos de significado, eu acho que a gente começa a abrir mais portas e mais janelas pro cinema, pra produção. Porque produzir cinema no Brasil já é um desafio muito grande, seja em qualquer local, e produzir numa região que não tem tradição de produção do cinema, ser o primeiro a colocar um filme nos cinemas, nossa, faz uma diferença muito grande para as pessoas aqui no nosso estado, para os órgãos de cultura. Até mesmo a Fundação de Turismo estava nos apoiando, porque é necessário mostrar um pouco do que está aqui, falar sobre o que a gente faz aqui, e eu acredito que isso vai incentivar mais a produção. A gente usa um conceito de trabalho aqui que é o seguinte: quando você fala de uma história local, ela passa a ser uma história global, ou seja, falamos o termo “glocal”. Acho que por isso que o filme teve uma boa aceitação em festivais fora do Brasil, porque conta uma história de uma realidade diferente, embora existam conversões. Quando você fala, por exemplo, de fronteira, a gente vai convergir para outros locais no mundo que tem situações semelhantes, mas com culturas diferentes, com detalhes e singularidades em cada região. Então quando a gente conta alguma coisa baseada no que e como a gente vive, mesmo sendo uma história de ficção, mostramos um pouco de como lidamos com determinadas situações, e como os problemas que nos afetam também afetam outros lugares do mundo. Mas por estarmos em um lugar diferente, temos uma maneira diferente de encarar as coisas que acontecem conosco. Então, falar de uma história local para o mundo é muito legal, e eu acho que isso está sendo um divisor de águas aqui para nossa região. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Aproveitando sua fala sobre fronteira, o filme lida com a questão do tráfico e do crime nessa região. Teve situações particulares que te inspiraram a escrever a trama? Ou você trabalhou com uma ideia mais geral a respeito do tema? Fábio Flecha: Primeiro a gente começou a contar essa história no geral, porque a primeira fronteira que aconteceu aqui foi quando ainda era só o Mato Grosso, e os conflitos eram entre os povos originários aqui da região e os europeus. Isso aconteceu durante o século XVII, século XVIII, e foi constante por aqui nessa região. E a Espanha tinha um acordo que assegurava que grande parte dessa região em que a gente vive aqui no Mato Grosso do Sul era para ser dela, portanto, não era para ser Brasil. Então, essa região vive em conflito desde quando ela foi criada. Mato Grosso do Sul tem 1.100 km de fronteira só com o Paraguai, mais 400 km com a Bolívia. Então é muito difícil controlar essa fronteira. Isso é uma situação que a gente sabe, qualquer um que que mora aqui começa a perceber essas coisas. Por exemplo, nós somos uma fonte de notícia constante, com apreensões de drogas, de contrabando que passam por aqui. Aí a gente costuma brincar muito, falando: "Não, isso é só o que pegou”. Então, a gente primeiro usou esse macro para contar, até no filme eu faço questão de colocar umas cenas abertas no começo para todo mundo ver o quanto grande é o estado e como não tem nada. Você olha, vê quilômetros e quilômetros e não tem uma cidade. Isso é a realidade da fronteira. Depois a gente começou a pegar o que eu chamo muito de mitologia de fronteira, porque, por exemplo, existiu um chefão na fronteira durante muito tempo. Não vou entrar em nomes porque até eu me complico nessa história, mas coisas que a gente fala no filme são inspiradas em situações que aconteceram de verdade. Por exemplo, o personagem de Jacaré [Espedito Di Montebranco] fala sobre uma emboscada com uma arma de guerra, e isso aconteceu de verdade na fronteira. Além do Jacaré, que é o protagonista da história, teve também o justiceiro [Coronel Massada, vivido por David Cardoso], que é inspirado numa figura pública muito famosa aqui da região, que viveu na década de 60 e 70. Para você ter uma ideia, esse personagem, na vida real, ele foi enviado para uma determinada região muito perigosa da fronteira, e quando voltou para se reportar para o chefe, lá em Cuiabá, este falou: "Nossa, você voltou? Você tá vivo?". Então, era esse tipo de coisa que acontecia aqui, porque as pessoas não esperavam, porque era tão longe de um controle governamental que era dominada por facções, por criminosos e tal. Hoje não é assim mais, isso já mudou; a disputa continua, mas nos anos 60 e 70 aqui era um lugar muito ermo. Divulgação Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme mescla vários gêneros cinematográficos, como o faroeste, a ação e até a comédia. Teve filmes e/ou diretores que te inspiraram? Fábio Flecha: Eu fui muito influenciado pelo cinema dos anos 90, então diretores como Robert Rodriguez, Quentin Tarantino, Guy Ritchie, foi o que eu assisti nessa época. Mas de uma certa forma, eu busquei mais o Robert Rodriguez pelo primeiro trabalho dele, O Mariachi, que é um filme que ele diz que fez com 5 mil dólares. Eu falei: "Bom, como a gente não tem dinheiro, a gente tem que se inspirar nas pessoas que conseguiram fazer sem grande né?”, então, nesse sentido, tem muito dele. Mas de certa forma, depois que você termina [o filme] tem pessoas que fazem uma análise melhor do que a gente pensa. Às vezes você colocou alguma coisa lá que nem notou, mas como foi muito bem observado por várias pessoas que fizeram críticas, a gente cai um pouco no Glauber com Deus e o Diabo na Terra do Sol. Sobre a comédia, ela foi uma opção muito minha, pois gosto de tratar assuntos que são sérios, mas não com tanta seriedade. Depois que as pessoas que moram aqui assistiram o filme aqui elas falaram: "Nossa, você falou de algumas coisas ali que são pesadas, mas o jeito que você falou, a gente pode comentar depois sem ter que ter medo de falar sobre isso". Porque no Brasil, é difícil né, você observar o jornal somente com relação à violência, é um assunto pesado. E eu não tenho a intenção de tratar isso com a sala de cinema, não quero dar a sensação de que a gente voltou de novo para aquele noticiário. Eu defendo que a gente tem a função de entreter também. A pessoa que entrou numa sala de cinema veio para se desprender um pouco da vida dela, ela quer entrar num outro universo naquela tela gigante ali. Então a proposta do filme era essa, falar de coisas sérias, mas não com tanta seriedade. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca gostamos de pedir aos nossos entrevistados que indiquem filmes nacionais que achem que o público deve assistir. Quais seriam suas indicações? Fábio Flecha: É difícil produzir filmes que têm ação, que tenham contexto nesse sentido, mas eu acho que Bacurau é um filme que as pessoas que não foram ver no cinema têm que procurar o streaming e têm que assistir. É uma história de ação, mas ele colocou num contexto regional. Eu acho isso muito legal, me inspirei em algumas coisas também no filme, não tanto quanto outras obras que eu comentei, mas acho que é um filme para quem gosta de ação. Até porque eu acho que ele abriu um caminho pra gente que está falando um filme de um cinema de gênero. Teve algumas pesquisas, alguns anos atrás, sobre preferência do público brasileiro no geral, e o público pede por aventura, comédia, ação. Então, quando o Bacurau estreou, eu falei: "Pô, isso é ótimo, você tá abrindo uma porta gigante aí para um para um filme que tem conteúdo, mas também tem um pouco de ação que as pessoas querem ver”. Então eu indico muito Bacurau para quem acha que o cinema brasileiro não produz filme de ação ou de aventura.

  • Lista | Os filmes de “Missão: Impossível”, ranqueados

    Do bom à obra-prima, o ranking de uma das melhores franquias de Hollywood. Divulgação Em minha última análise sobre a franquia Missão: Impossível, destaquei que o segredo do seu sucesso ao longo dos seus 30 anos de existência repousava em três pilares: 1) a busca por uma consistência, mesmo com as diferentes identidades que a franquia assumiu através dos anos nas mãos de cada diretor que trabalhou nela; 2) um senso de seriedade e comprometimento com o que se faz, mas sem perder de vista o entretenimento e o espetáculo; e 3) o compromisso de Tom Cruise em tornar esse espetáculo possível. Com o lançamento do oitavo – e talvez último – filme estrelado por Cruise, O Acerto Final, é hora de vermos aonde ele se encaixa no ranking da franquia, que envelheceu como um bom vinho nas mãos de cinco diretores diferentes e lucrou até o momento mais de 4 bilhões de dólares. 8) Missão: Impossível III (2006) Divulgação O terceiro longa da franquia foi lançado em meio a um dos períodos mais conturbados da vida pessoal e profissional de Tom Cruise (como esquecer a sua bizarra entrevista no programa de Oprah Winfrey?), e talvez isso tenha se refletido em sua bilheteria, a menor dentre todos os filmes até hoje. De fato, é um longa que sofre com a falta de personalidade do então novato J.J. Abrams na direção – especialmente considerando que tivemos Brian DePalma e John Woo capitaneando os dois longas anteriores –, com cenas de ação que tentam emular a estética da franquia Bourne, mas sem o mesmo sucesso. Apesar disso, é o filme que consagra o lado mais humano e passional de Ethan, fundamental para os filmes seguintes, além de introduzir dois personagens cruciais a este universo: Benji (Simon Pegg) e Julia (Michelle Monaghan). E é claro que eu não me esqueceria dele, o melhor vilão que a franquia já teve: Owen Davian, vivido pelo saudoso Philip Seymour Hoffman. 7) Missão: Impossível II (2000) Divulgação Certamente o mais controverso dentre os oito filmes, este é um clássico caso de “ame-ou-odeie”; eu, particularmente, tive minhas fases de achá-lo fraco e ridículo, mas o tempo lhe fez justiça. A entrada de John Woo no lugar de DePalma direcionou o foco para a ação, e embora não seja o longa que melhor exemplifique os talentos de Woo no gênero, mostra o diretor comprometido com seus habituais exageros e intensidade dramática, com direitos às suas câmeras lentas (e pombas) de lei. Além disso, é um filme que fica muito melhor quando se pensa nele como um remake não-declarado de Interlúdio, de Hitchcock, além de aqui vermos, em meio ao status quase semidivino que Ethan alcança, relances da sua compaixão e empatia fervorosas que seriam exploradas mais a fundo nas demais sequências. 6) Missão: Impossível (1996) Divulgação O começo de tudo. E que começo. Subvertendo a proposta da série original na qual a franquia é baseada ao transformar o que seria uma trama coletiva num “show de um homem só” – embora aqui já tenhamos o primeiro e mais importante parceiro de Ethan, Luther (Ving Rhames) –, Missão: Impossível pode ser lido superficialmente como um filme que existe apenas para Tom Cruise manifestar toda a sua personalidade egóica e megalomaníaca, mesmo que seja uma obra significativamente mais contida do que suas sequências. Entretanto, é um filme que dialoga inteligentemente com seu tempo, usando a premissa da série clássica para se posicionar em meio a uma nova dinâmica global, e ajuda muito ter um diretor do calibre de Brian DePalma aqui, se valendo de todo o seu aparato voyeurístico e de seu interesse na dinâmica psicossexual entre os personagens. Pode não ser o melhor, mas é o que melhor articula a parte da espionagem na franquia – e, fazendo jus ao seu diretor, é o mais tesudo. 5) Missão: Impossível – Acerto de Contas pt. 1 (2023) Divulgação Vindo com a promessa de ser a primeira parte da épica conclusão da franquia, Acerto de Contas pt. 1 aposta na megalomania mais do que nunca, enquanto aponta para o passado ao explorar conexões com o primeiro filme, até emulando com frequência os ângulos holandeses tão utilizados por DePalma. Ainda que pese a mão no didatismo e descarte uma das melhores personagens que a franquia já teve, é uma obra que cativa e sustenta sua grandeza até o final, além de ser talvez um dos blockbusters recentes que melhor dialoga com o nosso cenário contemporâneo, em razão da cruzada que Cruise empreendeu contra as IAs, retratadas aqui na principal antagonista do filme. Tendo em vista as greves ocorridas em Hollywood naquele ano, não poderia ter saído em melhor hora, o que só torna mais frustrante o fato de sua visibilidade e sucesso terem sido tão prejudicados pelo Barbienheimer. 4) Missão: Impossível – O Acerto Final (2025) Divulgação O oitavo (e último?) filme comandado por Cruise na franquia carrega alguns dos problemas que seu antecessor teve, embora aqui a exposição pareça fluir melhor e algumas das conexões com os primeiros filmes sejam melhor articuladas. Porém, por mais grandioso e megalomaníaco do que pareça, nunca cede ao peso das expectativas, sabiamente apostando numa trama cadenciada que cresce mais e mais, culminando em duas das melhores sequências da história da franquia – a do submarino e a dos aviões –, enquanto traz o rosto e a figura de Cruise mais para o centro do que nunca, sem, no entanto, esquecer do coletivo que tem lhe dado suporte todos esses anos. É a prova de que o ator, ao lado de Christopher McQuarrie (que comandou metade dos filmes da franquia), sabe como ninguém entregar um Cinema-espetáculo que é dotado de identidade e, sobretudo, de humanidade. 3) Missão: Impossível – Protocolo Fantasma (2011) Divulgação Mesmo que Brad Bird só tenha sido responsável por este filme, sua entrada foi fundamental para dar uma nova cara à franquia, que estava ameaçada após a fraca recepção do terceiro filme. Trata-se de um longa que pega tudo de melhor dos seus três antecessores e oferece uma coesão espetacular, estabelecendo uma continuidade lógica para a franquia – sem, no entanto, deixá-la estar acima da autonomia da obra. Também é aqui que o interesse de Cruise pelo espetáculo o leva a explorar e superar seus limites; mesmo que você não seja um fã destes filmes, é difícil não se embasbacar com as imagens do ator no topo do Burj Khalifa, o prédio mais alto do mundo, especialmente por saber que ele fez isso sem dublês. Ação, tensão, drama, humor: é no sucesso da articulação e coesão entre esses elementos que reside o trunfo de Protocolo Fantasma, tornando essa a norma para os futuros filmes. 2) Missão: Impossível – Nação Secreta (2015) Divulgação A entrada de Christopher McQuarrie como diretor foi a última peça que faltava para Missão: Impossível enfim alcançar toda a grandeza que lhe era de direito dentro do panteão de Hollywood. Desde a sua primeira cena, com Cruise se pendurando do lado de fora de um avião, sabemos que o ator arriscará sua vida quantas vezes for necessário para nos impressionar... e estamos ansiosos por isso. É talvez o filme que melhor concilie as duas metades que nortearam a franquia – o espetáculo da ação, representado nas cada vez mais elaboradas setpieces ao redor do mundo; e as intrigas da espionagem, ilustradas pelas traições, segredos, jogos de interesse e as icônicas máscaras. E é impossível falar de Nação Secreta sem citar a melhor adição ao universo da franquia: Ilsa Faust (Rebecca Ferguson), para sempre em nossos corações. 1) Missão: Impossível – Efeito Fallout (2018) Divulgação Mesmo com toda a grandiosidade e dramaticidade dos dois últimos filmes, Efeito Fallout segue sendo o culminar de tudo que Cruise se propôs a fazer em Missão: Impossível. Nada está fora do lugar aqui: o filme consegue explorar tanto o épico quanto o íntimo, questionando até que ponto a compaixão de Ethan é sua força ou sua fraqueza. Pode também ser o blockbuster que melhor soube trabalhar a presença física de Henry Cavill, de uma forma que os longas do DCEU jamais foram capazes, além de sabiamente trazer Rebecca Ferguson de volta para se juntar ao time de Ethan, além dos seus habituais aliados Luther e Benji. Até a maneira como o filme explora o passado do protagonista, resgatando uma personagem tão importante dele, funciona de maneira mais orgânica do que algumas das tentativas que Acerto de Contas pt. 1 e O Acerto Final fizeram. E isso sem falar as sequências de ação de cair o queixo, desde o salto HALO que culmina naquela já icônica luta no banheiro, a perseguição de motos e carros em Paris e um duelo de helicópteros na Caxemira. Em suma: sob todos os aspectos, Efeito Fallout é a grande obra-prima da franquia, e vou além para dizer que é um dos melhores filmes de ação da história.

  • Motorheads: Velozes e Apaixonados (1ª temporada)

    Apesar de simpático, novo drama adolescente se perde pela falta de foco Imagem: Divulgação Eu sou fã de séries teens desde sempre, sejam as mais elaboradas ou aquelas clássicas com todos os clichês possíveis. Motorheads – que no Brasil ganhou o hilário e cafona subtítulo de Velozes e Apaixonados – se encaixa no segundo grupo, mas não se iguala em tantos outros aspectos, infelizmente. A trama começa quando os irmãos Zac (Michael Cimino) e Cate (Melissa Collazo) voltam com a mãe, Sam (Nathalie Kelley), para a cidade natal dela, onde vão morar com o tio, Logan (Ryan Phillippe), irmão do falecido pai deles. Os irmãos dividem com o pai – e absolutamente todo mundo em Ironwood (risos) – a paixão por carros e velocidade de uma maneira geral. Além da premissa clichê, o resto do elenco adolescente não foge disso. A patricinha que namora com o vilãozinho popular da escola, o amigo mais escroto ainda dele, o amigo nerd do protagonista que funciona como alívio cômico, o cara misterioso marrento que vai se mostrando mais sensível com o tempo etc. e tal. Tá tudo ali, mas nem tudo funciona. Criada por John A. Norris, que foi um dos produtores de One Tree Hill, um clássico do gênero, as semelhanças são várias, mas se tem uma coisa que a galera de Tree Hill tinha e falta aqui, era carisma – pelo menos na maior parte. Mesmo que as tramas não fossem rebuscadas ou inovadoras, o carisma do elenco e dos personagens segurava as pontas, havia muita química e a narrativa se desenvolvia de uma forma fluída pelos 22 episódios, falando somente da 1ª temporada. Neste caso, temos 10, com arcos que vão do nada a lugar nenhum, principalmente o que envolve o lado criminal da cidade. Está diretamente ligado com pai dos protagonistas, mas ainda assim destoa do resto. As corridas de rua já são ilícitas, precisava de assaltantes de carro também? Flashbacks de assaltantes? Para um mistério que é a parte mais desinteressante da série? Não precisava e é por isso que alguns enredos começam com potencial e ficam mal trabalhados. É uma pena e um desperdício, devo dizer. Imagem: Divulgação O elenco, seja jovem ou adulto – poucos não parecem adultos, mesmo interpretando personagens de 17 anos –, é ok, ninguém ganha muito destaque no quesito atuação. No entanto, há química em pelo menos um dos casais dos inúmeros triângulos – e até quadrados – amorosos apresentados ao longo da temporada, que é o único possível para torcer. Alguns mal dividem tempo de tela e o número excessivo de possíveis casais é um reflexo do descompasso no ritmo, às vezes com o pé no acelerador e às vezes com o pé no freio – com o perdão do trocadilho. Falando nisso e na paixão compartilhada – quase todo mundo tem um carrão na cidade – pelo esporte da vez, as corridas são bem filmadas e trazem a adrenalina necessária para que a gente se empolgue, mas se alguém se importasse com os personagens, seria melhor ainda. Falo em questão de maioria, porque sim, há uns três ali que são mais simpáticos, ainda que com pouca substância. Motorheads tinha a faca e o queijo na mão para fazer uma temporada de estreia decente. Não precisava ser inesquecível, mas reunir tantos atributos que fizeram sucesso em outras produções poderia ser a chave do sucesso. Os atributos existem aqui – inclusive a bela trilha sonora – mas falta foco e apresenta tramas demais sem tempo suficiente para desenvolvê-las, enquanto dá espaço para outras que não precisavam nem existir, deixando praticamente todas extremamente superficiais, o que dificulta um fator importante do gênero: a identificação. É notório que alguns arcos são inseridos aqui para serem mais aprofundados em um eventual 2º ano, que realmente pode ser melhor, caso seja mais centrada na história que quer contar. Ainda consegue divertir nesta temporada de estreia e em alguns episódios eu vi o potencial quase ser atingido, mas o saldo final é mediano. Nota: 2,5/5

  • Entrevista | Oswaldo Santana fala sobre o documentário “Ritas” e a importância da figura de Rita Lee no cenário popular

    Longa que atravessa a história da cantora e nos apresenta a intimidade da artista chega aos cinemas dia 22 de maio Imagem: Divulgação Um ícone que atravessa gerações. É assim que podemos definir Rita Lee Jones de Carvalho, mais conhecida como Rita Lee. Um fenômeno do rock brasileiro que surge pela primeira vez no cenário musical em 1966 e marca a história da cena musical do país até os dias atuais. Rita Lee nos deixou em 2023 e agora, dois anos depois, celebramos sua persona, sua história e seu legado com Ritas, documentário dirigido por Oswaldo Santana que chega aos cinemas nesta quinta-feira, dia 22 de maio. Ritas celebra a arte de Rita Lee e, por meio exclusivamente de suas próprias palavras, revela a mulher livre que desbravou caminhos antes inimagináveis. Em uma colagem audiovisual deliciosa e nostálgica, o documentário apresenta suas músicas quase na íntegra, proporcionando ao espectador uma imersão profunda no universo musical e poético de Rita. Em uma conversa com o Oxente Pipoca, o diretor Oswaldo Santana falou sobre a importância de contar a história de Rita para as novas gerações e sobre o processo de produção do filme, que é levemente inspirado na autobiografia escrita por ela. Confira a entrevista na íntegra abaixo: Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Foi um prazer enorme assistir ao filme — e preciso te contar: eu chorei do começo ao fim. Comentei até com Rafa, que faz parte aqui do Oxente, sobre o quanto a Rita Lee sempre teve um papel importante na minha vida, especialmente na adolescência, mas também desde a infância. Ela sempre foi uma figura quase mítica pra mim. Queria saber: como esse projeto chegou até você? E como a Rita já fazia parte da sua vida antes de tudo isso começar? Oswaldo Santana: Desculpa abrir um parênteses aqui rapidinho…quantos anos você tem mesmo? 27? Eu tenho 54. E acho que essa relação que você tem com a Rita Lee é muito parecida com a que minha geração teve com ela, e até a geração anterior, a dela mesma. A importância de alguém como a Rita, que atravessa tantas gerações, já é, por si só, algo que atrai. Dá vontade de estar perto, sabe? Bom, o projeto começou lá em 2018, quando a Biônica Films comprou os direitos da autobiografia da Rita. A partir daí, começamos o processo de desenvolvimento. A primeira etapa foi uma entrevista com ela. Depois veio uma primeira fase de pesquisa. E, na sequência, começaram a chegar materiais de arquivo diretamente da Rita, o que foi muito valioso pra gente. Esse material foi tão rico que acabou nos dando a ideia de entregar um celular pra ela, pra que pudesse se gravar também, de forma mais íntima. Aí veio uma segunda fase de pesquisa, mais voltada para acervos fotográficos. Em paralelo a tudo isso, entrou o trabalho de direção de arte do Ricardo Fernandes e a animação dessas fotos, feita pelo Gabriel Vitar. Essas etapas foram se somando ao longo dos anos, desde 2018, até que a gente chegou no formato final. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Uma coisa muito marcante do filme e que também me chama atenção é o fato de ser ela mesma quem conduz a própria história. Normalmente, em documentários, são outras pessoas que contam, né? Oswaldo Santana: Desde o começo a gente acreditava muito na força da narrativa e da comunicação da Rita. Ela tem uma maneira única de se expressar, é sincera, tem humor, mesmo falando de coisas sérias. Isso é muito próprio dela. E como o projeto nasceu da autobiografia, que é justamente ela contando a própria história, sempre tivemos certeza de que quanto mais Rita a gente ouvisse, mais rico o documentário seria. Foi justamente por isso que o filme chegou nesse resultado. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Então, eu queria saber como foi pra vocês trabalhar esse equilíbrio entre mostrar a Rita como essa figura tão icônica, com todos os feitos dela, e ao mesmo tempo mostrar o lado mais íntimo, mais humano, né? Porque, assistindo, eu tive a sensação de que em vários momentos eu estava ali, dentro da sala, conversando com ela. Teve até uma parte muito específica, da conversa dela com a neta, que me arrancou uma risada, mas, ao mesmo tempo, me deu vontade de chorar. Foi tão sincero, tão verdadeiro… Fiquei curiosa pra saber como vocês construíram isso no filme. Oswaldo Santana: Ah, foi muito generoso da parte deles, né? E eu falo “deles” porque considero a família mesmo. Eu até brinco dizendo isso, a família foi muito generosa. Generosa por compartilhar com a gente, por confiar na gente pra lidar com um material tão íntimo. Alguns desses registros são muito pessoais, outros são do cotidiano, mas todos têm um significado enorme. Não só para os fãs, mas também para ilustrar toda a riqueza, a força e a pluralidade da Rita. Tem um momento que é muito simbólico: ela gravando o próprio altar. E aí você se depara com quem são as pessoas escolhidas por ela pra estarem ali, naquele espaço tão sagrado. Ela explicando isso… nossa, é fantástico. Oswaldo Santana e Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca) Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): E você comentou que o projeto começou em 2018… Como foi lidar com a morte da Rita durante esse processo? Imagino que tenha sido algo muito difícil, né? Oswaldo Santana: É um processo difícil, né? Mas, enfim… a gente já tava com o filme em andamento. Teve esse período, né, que foi durante a pandemia, quando eles descobriram [a doença]. Foi um momento mais recluso, já estávamos numa outra etapa de trocas e diálogos com eles. E aí chegou o anúncio, né? Que foi um baque pra todo mundo. Um universo de incertezas… e, ao mesmo tempo, de trazer outras certezas também. Mas foi… foi muito… o dia da morte dela — agora falando de uma forma mais pessoal — foi muito difícil e, ao mesmo tempo, mágico. Porque eu recebi a notícia da passagem dela quando eu estava no mesmo prédio onde o Caetano (o Gil também, mas mais o Caetano) morou na década de 70. Eu estava, na verdade, no apartamento ao lado. Então, era um lugar por onde, querendo ou não, a Rita também tinha passado. E aí eu pensei: “Nossa, eu tô aqui, nesse lugar…” Foi algo muito forte pra mim. Mas, ao mesmo tempo, me trouxe ainda mais certeza da grandeza dela, da importância, da necessidade de tratar essa história com a seriedade que ela merece. A Rita tem uma força incrível… e isso ficou ainda mais evidente nesse momento. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Acho que isso puxa pra próxima pergunta que eu queria fazer: como vocês pensaram esse filme também para a nova geração? Por exemplo, meu irmão tem 13 anos. Ele sabe quem é a Rita Lee, mas ao mesmo tempo não sabe de fato quem ela é. Ele já pegou uma fase em que ela estava se despedindo, já fora dos palcos. E aí entra uma curiosidade pessoal: eu sou de Sergipe, que foi um dos lugares onde ela fez um dos últimos shows, e tem uma cena desse show no filme. Eu estava lá, acompanhei tudo. Então, quando essa parte passou, eu fiquei: “Meu Deus…” Foi muito forte pra mim. Então, eu queria que você falasse um pouco sobre como você gostaria que esse filme alcançasse a nova geração, como você pensou essa apresentação da Rita pra quem ainda não a conhece tão profundamente. Oswaldo Santana: É… eu acho que mais do que um desejo meu de atingir essa nova geração, era algo inegável, sabe? A gente sabia que isso ia acontecer. A gente convive com isso. Eu mesmo tenho dois filhos, e vejo como a Rita já faz parte do universo deles, mesmo sem que eu tenha apresentado diretamente. Ela chega por osmose mesmo. Muita gente conhece a Rita assim. No seu caso, por exemplo, você teve pais que já vinham desse universo e foram apresentando, né? Mas, mesmo quem não teve, acaba conhecendo pela rádio, pela TV, pela cultura que ela ajudou a moldar. A Rita atravessa muitas gerações sendo influente, então essa conversa intergeracional já era esperada desde o início do projeto. E é muito bonito ver isso acontecendo, filhos dizendo: “Nossa, agora eu entendo um pouco mais quando você fala disso”, e pais dizendo: “Tá vendo, filha? Era disso que eu tava falando quando mencionei aquilo.” Todo mundo se alimenta dessa troca. É uma delícia. E eu imagino que isso vai acontecer muito, pais indo com filhos assistir ao filme, e essa troca sendo real. Às vezes é o pai ensinando algo ao filho, outras vezes o contrário. É isso. A Rita tem esse poder de tocar e conversar com todo mundo. Dia 22, exclusivamente nos cinemas. Ritas estreia exclusivamente nas telonas, começando essa jornada. E o mais bonito é que esse dia, 22 de maio, é o Dia de Rita Lee em São Paulo, né? Isso é uma coisa que tá no filme, essa data foi escolhida pela própria Rita como o "aniversário" dela. Porque, na verdade, ela nasceu em 31 de dezembro, mas ela preferiu adotar o dia 22 de maio como seu aniversário simbólico. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu achei isso tão legal, entender esse contexto da data… É incrível. Oswaldo Santana: Exatamente! Ela escolheu o dia 22 porque é o Dia de Santa Rita. E, depois do falecimento dela, São Paulo decretou oficialmente o Dia de Rita Lee nessa data. Então é uma data muito especial e toda essa força casou perfeitamente com a possibilidade de lançarmos o filme justamente nesse dia que ela escolheu pra si. É muito mágico. E está sendo muito prazeroso poder viver isso. É uma grande celebração. E eu acho que isso é só o começo… Ainda temos muitas celebrações a fazer por Rita Lee. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Pra finalizar, eu queria que você deixasse uma dica. Pode ser um filme, uma série, um documentário, algo brasileiro que tenha te inspirado ou que você gostaria de recomendar para os nossos seguidores. Essa é uma pergunta que a gente faz pra todo mundo que a gente entrevista aqui no Oxente. Oswaldo Santana: Uma dica de filme… eu vou dar uma dica de um filme do qual eu também participei, tá? É um filme que, de certa forma, dialoga com uma das fases da Rita Lee. É um filme chamado Tropicália. Eu montei esse filme e ele é dirigido pelo Marcelo Machado, tá? E trata do movimento tropicalista. Chama Tropicália, do Marcelo Machado. E tem um pouco de Rita lá também.

  • Entrevista | Jorge Furtado e Yasmin Thayná falam sobre "Virgínia e Adelaide"

    Em conversa com o Oxente Pipoca, dupla de diretores destacou a importância de contar a história da trama para o público. Divulgação O dia 8 de maio de 2025 marca a estreia nos cinemas de Virgínia e Adelaide, longa que conta a história do encontro entre duas mulheres extraordinárias que transformaram a psicanálise no Brasil. Em um retrato sensível e impactante, o filme narra a trajetória de Adelaide Koch (Sophie Charlotte), uma psicanalista alemã que fugiu da perseguição nazista, e Virgínia Bicudo (Gabriea Correa), a primeira psicanalista brasileira não-médica e uma das primeiras professoras universitárias negras do país. Dirigido por Jorge Furtado e Yasmin Thayná, o filme explora a relação entre essas duas mulheres que, juntas, desafiaram barreiras e preconceitos, deixando um legado indelével na psicanálise brasileira. Virgínia e Adelaide não apenas reconta suas vidas e carreiras, mas também celebra a amizade que perdurou por mais de 30 anos e os impactos de suas trajetórias no Brasil. Em entrevista ao Oxente Pipoca, Jorge Furtado e Yasmin Thayná compartilham os bastidores da criação desse projeto cinematográfico, o processo de pesquisa e a parceria que ajudou a moldar a narrativa. Confira a íntegra da conversa abaixo: Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Queria saber primeiro como surgiu a ideia de fazer um filme contando a história dessas duas mulheres, uma história real. Como foi a concepção dessa história para você? Jorge Furtado: Eu fico pensando às vezes como é que essa ideia de filme não surgiu antes. Como é que nunca ninguém tinha feito um filme sobre a Virgínia? A ideia de juntar ela com a Adelaide foi meio minha, quando eu fui entender como foi que a Virgínia se formou. Porque a Virgínia era uma personagem tão extraordinária, uma mulher tão incrível em tantos sentidos, que parece até óbvio que alguém tinha que fazer um filme sobre ela. Na verdade, acho que deviam fazer mais de um filme sobre ela, ainda tem muita coisa a ser contada. Ela foi muito pioneira em muitos aspectos. E o que me interessou também foi essa ideia de um encontro entre duas mulheres tão diferentes, com histórias de vida tão distintas, e que mesmo assim conseguiram produzir algo juntas. Primeiro elas foram médica e paciente, depois viraram colegas, amigas para a vida toda, e realizaram muitas coisas juntas. Acho que isso é uma lição importante até para o Brasil de hoje. A gente vive muito em bolhas, cada um na sua, e essa história mostra que, mesmo vindo de mundos muito diferentes, duas pessoas podem se encontrar e criar algo. Quando a Virgínia diz para a Adelaide: "Vamos ver, por que não eu?", e a Adelaide responde: "Tá, vamos, por que não, né?", nasce algo desse encontro. Isso é muito bonito, acho até como uma fábula. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Queria saber como foi esse encontro entre vocês dois — a junção de experiências, com você já sendo um diretor com vários filmes no currículo, e a Yasmin, que está começando agora, mas já com um olhar super afiado para questões raciais. Como rolou essa parceria? Yasmin Thayná: Eu sabia quem era a Virgínia Leone Bicudo por conta da tese da professora Janaína Damasceno, Segredos de Virgínia. Mas eu descobri de fato essa personagem, essa história, né, essa pessoa, por meio da pesquisa do Jorge — por essa dramaturgia que ele construiu e que ainda está em processo, porque ele continua pesquisando, continua buscando mais sobre a história das duas. Então acho que, nessa parceria com o Jorge, eu pude aprender muito, principalmente em relação ao diálogo, a filmes que são muito falados — como é que você dirige e torna suportável, mesmo prazerosa, uma cena longa entre duas pessoas que estão só conversando, falando coisas densas. Isso é uma arte muito grande, né? Manter o interesse da audiência numa cena assim, longa, com duas pessoas sentadas falando, e ainda assim criar movimento a partir da fala. E eu pude aprender muito com ele sobre isso. E, por último, acho que teve também essa troca no lugar do humor. O Jorge é uma pessoa muito experiente, um cineasta que tem o humor como uma marca nos trabalhos dele. E uma das minhas contribuições como diretora foi trazer esse olhar para o humor na intelectualidade — especialmente na intelectualidade de mulheres, e mais ainda de mulheres negras. É algo que eu reconheço em muitas mulheres com quem eu convivo, como Sueli Carneiro, Conceição Evaristo... Mulheres que eu conheço pessoalmente e que têm um humor na fala, não necessariamente para ser engraçado, mas como uma estratégia de vida, como forma de articulação do pensamento. E a Virgínia era uma dessas pessoas. Então acho que isso, de alguma forma, também está ali presente nessa personagem. Divulgação Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Como vocês equilibraram a construção de um fato histórico com a liberdade criativa, especialmente nos diálogos e na criação das personagens? Imagino que tenha sido um desafio lidar com esse peso de representar figuras reais, ainda mais quando se trata de personagens históricas tão marcantes. Jorge Furtado: Pois é... é um desafio e tem uma certa ousadia que eu acho que é fundamental pra quem cria. Um certo desrespeito, sabe? Eu me lembro de uma exposição em homenagem ao Guernica, que tava fazendo não sei quantos anos do quadro. E vários cartunistas fizeram leitura, e o Jaguar fez a mais divertida de todas, que era um apartamento embaixo, assim, alguém batendo com a vassoura, como se o Guernica fosse um apartamento de cima, uma festa assim, né? Era muito engraçada, muito divertida a leitura dele. E ele disse assim: “Ah, eu tratei Guernica com o maior desrespeito possível”. Às vezes, tu tem que desrespeitar um pouco quem tu idolatra, quem tu diz assim: “Pô, que mulher incrível, que mulher fantástica essa... a Virgínia”. O que que ela vai falar? Ela vai falar sobre quanto ela tem que pagar na sessão: se é 30, se é 10, se é 5, se vai ser no dia 4 ou no dia 3. Ela é um ser humano, ela tá cheia de necessidades, assim... “ó, pode ser no dia 7, mas eu recebo do estado dia 10”. E a Gabriela vai para dentro das atrizes, faz aquilo com talento, dizendo assim: “Eu posso pagar dia 7. Dia 7 até seria melhor”. Tu vê que o dinheiro faz diferença pra ela. Então, humanizar o personagem, mesmo que ele seja extraordinário... quem ensinou isso foi Shakespeare. Ele fazia isso, foi o primeiro a fazer. O príncipe cansado, o príncipe exausto, que tem uma meia furada. Então a gente, ao humanizar os nossos heróis, nossos ídolos, a gente socializa eles, distribui eles. As pessoas se identificam: “Eu também sou assim. Eu também tô contando o dia pra pagar minha conta. Eu recebo dia tal, eu só posso pagar dois ou três dias depois”. Eu entendo o que ela tá passando. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Como vocês esperam que o filme reverbere no público que vai poder assisti-lo nos cinemas em breve? Jorge Furtado: Eu espero três Oscars…[risos] Tô brincando! Mas, assim, eu espero o máximo possível. Espero que as pessoas gostem, que falem, que vejam, que comentem e que fiquem curiosas para descobrir mais sobre essas pessoas. Pra mim, é muito legal quando o nosso filme não depende só da gente para ser exibido, sabe? Quando as pessoas viram exibidoras, se tornam multiplicadoras do filme. E bom... eu acho que isso pode acontecer não só pelo nosso trabalho, que foi mesmo um trabalho muito bom, coletivo, de grupo, mas também por essa história — que eu acho que realmente merece.

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