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- Entrevista | “Meu filme é latino-americano”: Márcia Faria fala sobre a luta contra a ditadura no continente e a importância da memória em “À Procura de Martina”
Em entrevista ao Oxente Pipoca, a diretora discutiu como o longa, que é uma coprodução entre Brasil e Uruguai, entrelaça os efeitos das ditaduras argentina e brasileira. Divulgação Lançado no último dia 05 nos cinemas, À Procura de Martina é o mais novo representante da safra de filmes brasileiros e latino-americanos que discutem as consequências nocivas das ditaduras implantadas no continente entre os anos 1960 e 1980. O filme é dirigido por Márcia Faria e estrelado pela atriz argentina Mercedes Morán como a personagem-título, que há décadas procura pelo seu neto, o qual nasceu em cativeiro durante a ditadura argentina, enquanto começa a sentir os impactos iniciais do Alzheimer. Sua busca o leva ao Rio de Janeiro, onde encontra informações que indicam que seu neto foi adotado por um falecido militar argentino e sua esposa brasileira. O Oxente Pipoca pôde entrevistar Márcia Faria, que falou sobre como o longa se distingue de outras produções brasileiras que tratam da ditadura ao se encaixar num panorama mais amplo da América Latina – destacando inclusive a necessidade dos brasileiros se verem mais como latino-americanos. Ela também comentou sobre a perda da memória de Martina por conta do Alzheimer e como isso se entrelaça à necessidade de resguardar a memória dos crimes cometidos nessas ditaduras para que eles não se repitam. Você pode conferir a entrevista na íntegra abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): A ditadura é um tema recorrente no cinema latino-americano. Não tem como não pensar em “Ainda Estou Aqui” por causa do buzz, mas temos vários outros, como “Argentina 1985” e “A História Oficial” da Argentina, “Uma Noite de 12 Anos” do Uruguai ou “No” do Chile. Mas o que me chamou a atenção em “À Procura de Martina” foi trabalhar esse cruzamento das realidades argentina e brasileira no que se refere às suas ditaduras, isso é algo que vi poucos filmes no continente fazerem. O que te motivou a construir essa história ambientada entre os dois países? Márcia Faria: Isso é um pouco clichê de se dizer, mas a gente enquanto nação é muito isolado pela questão da língua. Falamos português enquanto o restante do continente fala espanhol. E eu sempre tive vontade um pouco de trabalhar com talentos que que tão aqui do lado. A Mercedes Morán é uma atriz maravilhosa, assim, sensacional que por sorte topou fazer o filme. Eu acho que estava pensando em como que a mistura entre as atrizes brasileiras e argentinas trouxe para o filme uma identidade muito particular, e muito me alegra de que tenha acontecido dessa forma. Quando comecei a tomar conhecimento da história argentina e também da nossa vivência aqui, da ditadura brasileira, eu senti muita vontade de fazer um certo espelho entre uma história e outra. A Argentina sempre me deu muita admiração pelo que eles conseguiram fazer lá com uma história tão cruel como foi a da ditadura militar. Conseguiram fazer um processo de justiça e de preservação da memória, e teve essa luta incansável das avós da Praça de Maio por reaverem esses netos que ainda continuam desaparecidos, sequestrados, sumidos. Então, tenho muita admiração por isso. Por outro lado, pensar o Brasil... ainda que, que, a gente tenha a comissão da verdade, que foi um passo incrível, a gente não tem um processo de justiça. Muito pelo contrário, né? Quando a gente fala sobre ditadura, muitas vezes existe uma retórica assim: "Não, deixa isso para lá, vamos olhar para o futuro". E, para mim, a gente precisa olhar para o nosso passado para poder entender melhor o nosso futuro. Eu acho que a gente tem filmes maravilhosos já sobre ditadura. O Para Frente Brasil é um filme do meu tio, do Roberto [Farias], meu padrinho, e foi censurado. Ele seria lançado em 1981, mas foi censurado e só foi lançado em 1982. E esse filme, para ele não desaparecer, meu pai, Rivanides Faria, que é produtor do filme, pegou as latas de negativo do filme, distribuiu em várias casas de amigos, porque havia essa ameaça de que eles iam pegar e destruir o negativo do filme. E quando ele foi ao cinema, havia ameaça de bomba no cinema. Então foi, é, uma situação muito, muito distópica. E outros filmes vieram depois disso para falar logo na reabertura [política]. E eu acho que agora a gente volta a olhar para isso. O meu filme tá dentro desse lugar, apesar de falar muito da ditadura argentina, é um olhar de uma de uma avó da Praça de Maio que tá perdendo a sua memória, mas que vem ao Brasil, esse país que a gente está falando que não, fez o seu trabalho de casa. Eu acho que não é coincidência que, depois de 4 anos da extrema direita, a gente volte a falar disso. É importante falar e olhar para isso. É importante que os jovens, como foram ao cinema ver Ainda Estou Aqui, vejam o que aconteceu com o Brasil, para que isso não se repita. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Filmes que lidam com o tema da memória sempre são muito sensíveis para mim, por ter uma avó que vem perdendo a memória nos últimos anos e que hoje mal me reconhece. Como você quis trazer essa questão do Alzheimer de Martina para o filme e ligá-lo ao tema da ditadura argentina e das Mães da Plaza De Mayo? Márcia Faria: Tem uma coisa que eu gosto do filme, que me parece original nesse sentido, é que ele trata isso de uma forma muito pessoal, entendeu? Ele não tem uma bandeira, não é um filme panfletário, ele fala isso de uma maneira muito individual para falar do coletivo. Isso eu acho que é um grande acerto do roteiro da Gabriela Amaral Almeida, que traz toda a complexidade da política internacional, da política brasileira, assim, pra um âmbito muito pessoal e que te permite se conectar muito com essa com essa protagonista, com esse personagem. O filme começou muito com essa vontade política, e eu também tenho a minha mãe, a quem o filme é dedicado. Minha mãe já tem Alzheimer há mais de 10 anos. E o filme também demorou muito para ser escrito Foi um processo longo, uma gestação muito longa. E durante esse processo eu fui colocando a minha vivência com ela dentro do filme. Então, ele passou de um filme muito político para um filme muito pessoal. Acho que ele é um pouco essa mistura, né, e de como que o individual também se faz político. Então, ele é uma metáfora que serve muito bem para falar de todas essas camadas, desse corpo memória, é como se ela se transformasse no próprio arquivo da história dela, e esse arquivo está sendo deletado. A minha opinião tem a ver com a cena do final, dos arquivos. Foi muito curioso essa cena, porque ela não estava escrita assim. Ela era uma cena dentro de um hospital e a gente estava procurando uma imagem mais forte para isso, e tinha filmagem no hospital. E eu fui vendo os espaços do hospital e a gente encontrou esse arquivo praticamente pronto assim, num dos porões assim do hospital. E acabamos filmando lá, substituímos as camas pelos arquivos e pelos números. Então tem uma imagem muito forte dessa sensação da ditadura, de que as pessoas viram números, arquivos, pastas, dossiês. Divulgação Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Temos vivido nos últimos anos um movimento de negação à violência e repressão das ditaduras, mesmo num país que julgou seus militares, como foi o caso da Argentina. Como filmes como “À Procura de Martina” podem ajudar a lançar luz sobre essa temática para que não nos esqueçamos do que foram essas ditaduras para os países latino-americanos? Márcia Faria: Eu acho que essa ascensão da extrema-direita no mundo é mais um motivo para a gente continuar fazendo, falando e lembrando de que ditaduras como a da Argentina, como a do Brasil, como a do Chile, como a do Uruguai, que é coprodutor do filme, não podem voltar a acontecer. Então, eu acho importante que isso seja relembrado sempre. Não sei se os filmes mudam alguma coisa sozinhos, mas se o filme tiver a capacidade de tocar alguém que for ver, dessa pessoa sair dali com perguntas, sair dali com pensamentos, eu acho que ele já cumpriu o seu propósito. Então, eu espero que as pessoas saiam com o filme do cinema. Eu acho que isso é o maior presente. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, sempre pedimos aos nossos entrevistados indicações de filmes nacionais que achem que o público deva assistir. Mas vou abrir uma exceção aqui, considerando a natureza bilíngue do longa, e te pedir indicações de filmes brasileiros e de outros países latino-americanos também. Quais você recomendaria para o nosso público? Márcia Faria: Dos filmes chilenos tem Glória, que com a Paulina García, que é uma atriz sensacional. Tem o filme A Noiva do Deserto, que é de duas diretoras argentinas [Cecilia Atán e Valeria Pivato], que que também é maravilhoso. Tem os filmes da Lucrecia Martel, que já é um ícone que as pessoas conhecem: La Ciénaga, La Niña Santa, A Mulher Sem Cabeça. Tem um filme que eu acho que é do Paraguai, se chama As Herdeiras, que é maravilhoso também. Enfim, são muitos, é porque a gente não tem a possibilidade de ver. E isso é ruim, espero que cheguem mais aqui, que a gente consiga fazer mais esse intercâmbio. As pessoas me perguntam: "Mas seu filme é argentino? Seu filme é brasileiro?”. Meu filme é latino-americano. É isso, a gente é latino-americano.
- Crítica | Bailarina
Mesmo perigando ser um John Wick genérico, spin-off oferece o potencial de uma identidade própria enquanto entrega um espetáculo de ação digno da franquia. Divulgação Quando foi lançado em 2014, o primeiro John Wick se destacou sobretudo por dois aspectos: entregar sequências de ação pensadas e dirigidas com um refino que destacava o filme em meio ao marasmo do gênero; e também por retrabalhar a premissa básica de um assassino voltando a ação por vingança, que aqui se dava pela morte do seu cachorro e não de um ente querido. Assim, mesmo trabalhando com um fiapo narrativo (que foi amplificado, mas nunca muito aprofundado nas sequências), o longa nos lembrou que a ação também é uma forma de se contar sua história, e nisso a franquia se destacou brilhantemente ao longo dos quatro filmes. Bailarina vem, portanto, como uma inevitabilidade: era evidente que o final da história de Wick (Keanu Reeves) no quarto filme não seria o fim da franquia, e ainda que a série Continental tenha sido uma decepção, foi difícil não esperar com curiosidade e ansiedade pelo que seria feito com esta nova personagem, brevemente introduzida em John Wick 3 (o filme se passa entre os eventos deste e do 4). De início, há um certo receio, porque as motivações da protagonista Eve Macarro (Ana de Armas) são muito mais mundanas e genéricas do que as de Wick: ela quer ir atrás da organização que matou seu pai, liderada pelo misterioso Chanceler (Gabriel Byrne), e por isso ingressa neste universo que já conhecemos bem, de assassinos e seus códigos, hotéis como espaços seguros, armas e muitas formas de se matar alguém, tudo embalado num mundo que existe quase à parte do nosso. Dar a Eve essa motivação tão ordinária é quase um reflexo de que Bailarina se satisfaz em ser uma versão genérica de John Wick, se contentando em replicar seus elementos já conhecidos – a fotografia neon, as sequências de lutas em planos mais longos e sem tantos cortes, a trilha sonora pulsante e eletrônica, etc – mas sem que o diretor Len Wiseman muito da finesse que Chad Stahelski deu à franquia original. Não ajuda que no seu primeiro ato o longa se presta a oferecer uma origem também um tanto genérica à personagem, passando por montagens de treinamento e pinceladas da organização à qual ela se inscreve sem, no entanto, oferecer algum vislumbre muito convincente de como esse mundo funciona. Acaba sendo uma introdução protocolar, mas aqui já se evidencia o aspecto que se tornará o norte do filme: a inexperiência e vulnerabilidade de Eve (se comparada a um veterano como Wick) e como ela passa a usar isso ao seu favor. Divulgação É por isso que, quando o filme abandona essa história de origem e foca na jornada de Eve, primeiramente pela filial do Continental em Praga e depois nos Alpes Suícos, ele eleva consideravelmente de qualidade. Não é coincidência que essa melhoria se dá entrelaçada com a inclusão progressiva de mais sequências de ação, que usam e abusam da criatividade e brutalidade tão definidoras da franquia. Quando o filme se move para a cidade da organização do Chanceler, é como ver Chumbo Grosso ser ambientado no universo de John Wick: todos ao seu redor podem ser seus adversários, e o filme se vale bem dessa estrutura mais gamificada, onde Eve precisa derrubar e matar seus inimigos das maneiras mais incomuns possíveis até chegar no chefão final. Mesmo que ele acabe por depender da reinserção do personagem de Reeves em um ponto da trama – como se ainda precisássemos da presença dele para amarrar a obra ao universo em que está inserida –, o filme consegue encontrar mérito em aproveitar o porte físico de Eve (e de de Armas), quase nos fazendo subestimá-la até que a vejamos subjugar seus oponentes sem, no entanto, ser invencível. Vê-la lutar usando pratos, tênis de hóquei e um lança-chamas (que já virou minha arma favorita na franquia) é um verdadeiro deleite, e a maneira pela qual a ação desenvolve a personagem mais do que o texto genérico é a mostra de que, no fim das contas, o longa entende exatamente o que fez John Wick funcionar tão bem – basta comparar a postura madura, mesmo ferida, da personagem no final com a garota inexperiente que apanha incontáveis vezes no começo. No fim, Bailarina pede um pouco de paciência da nossa parte para que o vejamos se desfazer das amarras que o prendem no começo, ganhando confiança à medida que se desenvolve para enfim entregar uma segunda metade muito superior à primeira, confiança essa refletida na crescente qualidade das suas setpieces de ação. Mesmo com esses tropeços e ainda uma certa dependência dos filmes do qual se originou, o longa e encerra demonstrando o potencial de uma maior autonomia em futuras sequências, e mostra que, à sua maneira, pode haver vida para o universo de John Wick sem seu protagonista, e que Eve Macarro/Ana de Armas tem o cacife para levar a franquia ao seu futuro. Nota: 3.5/5
- Crias do Brasil #01 | Luciano Pedro Jr.: "Foi no palco que tive um sentimento de estar contando histórias enquanto meu corpo escrevia no espaço"
Na matéria inaugural do quadro, o artista-pesquisador alagoano fala sobre sua trajetória artística e como 'Carro Rei' abriu portas para novos projetos no cinema brasileiro. Há tempos o Oxente Pipoca vem realizando entrevistas com artistas de diversas obras nacionais (e até internacionais), sejam atores e atrizes ou realizadores. Hoje, porém, damos início a uma nova proposta: o quadro Crias do Brasil. Trata-se de um espaço voltado a entrevistas em formato de perfil com novos(as) nomes do audiovisual brasileiro, tanto iniciantes quanto aqueles(as) que já estão se destacando há um tempo. O intuito com essas entrevistas é conferir visibilidade às suas trajetórias e carreiras e evidenciar a potência do nosso cenário artístico contemporâneo com os novos rostos que têm surgido. Para sua edição inaugural, o Crias do Brasil traz uma entrevista com Luciano Pedro Jr., artista-pesquisador natural de Maceió (AL) que desenvolve trabalhos e pesquisas através das linguagens das artes cênicas. Passando por alguns processos formativos, Luciano concilia a dedicação entre estudos e práticas que vão da dança até o cinema, e formado em Licenciatura em Teatro na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Confira abaixo a entrevista completa com Luciano: Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Você trabalha como ator de teatro e de cinema, mas te acompanho no Instagram e sei que você tem uma habilidade incrível com a fotografia e também com a dança. Quando você descobriu seu interesse pelas artes e quando decidiu que queria viver de arte? Luciano Pedro Jr.: Olha, desde muito cedo eu adorava “imitar” pessoas. Uma lembrança forte que tenho é de amar Calypso e passar tempos dançando como a Joelma. Só que tudo isso ainda era uma grande brincadeira e diversão, e que não tinha intuito algum que não fosse me dar alegria e fazer os outros rirem também. Um pouco mais tarde, já adolescente, eu comecei a andar de skate e escrever, e essas duas práticas foram um marco divisório na minha vida. O skate me abriu para um mundo de possibilidades e perspectivas que eu não tinha até aquele momento, e daí surgiu meu interesse por cinema, música, desenho, roupa, pintura, porque eram elementos que estavam muito presentes na cultura urbana. No skate, a gente customiza a própria roupa; filma e edita os vídeos; pensa na trilha sonora; desenha na madeira, enxerga a cidade e sua arquitetura de outro modo, enfim… Tudo isso foi me despertando um olhar artístico mais aprofundado e mais no sentido prático (tátil) da coisa. Um tempo depois, comecei a escrever, e isso foi algo que mudou radicalmente minha vida. Eu vivia escrevendo textos no computador, e depois apagava tudo. Meu pai ficava sem entender e me questionava, e eu respondia que fazia aquilo pra alimentar meu imaginário, para fazer uma espécie de atletismo do meu coração também. E para mim, era muito prazeroso poder imaginar situações impossíveis e absurdas: pensar em alguém e escrever uma história sobre, e assim começar a fabular as coisas que ainda não tinham sido vistas por mim. Já na escola, eu comecei a fazer teatro, graças a um professor de literatura, Jason Santana. Lembro que na época, ele me fez uma pergunta sobre religião, eu respondi do meu jeito, e ele falou: “está bem, estude esse texto aqui, e quinta-feira apareça na aula de teatro”. Eu fiz isso, e acredito que foi ali que meu interesse teve sua completude. Quando pisei no palco, tive um desejo de prolongar as horas para que aquele momento jamais acabasse. E foi ali que eu tive um sentimento de estar contando histórias enquanto meu corpo escrevia no espaço. Foi tão mágico e assustador ao mesmo tempo, que eu tinha o desejo de me revelar e me esconder ao mesmo tempo, e aí equilibrar esse caos dentro de mim só era possível através da atuação, e quando senti isso, tudo fez muito mais sentido. Sobre decidir que queria viver de arte, confesso que não pensei muito nisso. Antes de tudo, eu só queria ter a possibilidade de exercer meu ofício, fazer a minha diversão. Eu lembro de assistir uma peça chamada Guerra, Formigas e Palhaços há uns anos atrás, e quando eu vi aquilo, eu fiquei: “ok, é isso que quero fazer pro resto da vida”. Nesse espetáculo tinha um ator, Enio Cavalcante, que me despertou muito esse desejo de viver aquilo que eu estava assistindo, e aí quando entrei pra faculdade de Teatro, foi quando percebi que eu realmente não queria fazer outra coisa da vida que não fosse trabalhar com arte. E falo arte em geral, porque sempre fui fascinado pela escrita, fotografia, marcenaria, dança, enfim… Então meu desejo era esse mesmo. E aí fui cursando Teatro na Universidade Federal de Pernambuco, fui fazendo testes de elenco, fui passando em alguns, e comecei a fazer curtas, longas, participar de residências. E aí quando me peguei viajando pra trabalhar, conhecendo novos lugares, pessoas, culturas, indo em festivais e trocando com o público, eu senti que era desse jeito que eu queria viver a minha vida. Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Quais nomes do cinema ou da televisão brasileiras você tem como referência no seu trabalho como ator? Existe algum ator ou atriz com quem você tem aquela vontade de fã de contracenar junto? Luciano Pedro Jr.: O Brasil tem atores e atrizes incríveis, que desde muito cedo eu cresci vendo e acompanho até hoje. Alguns que eu tenho como referência pelas incríveis performances que já vi, como Matheus Nachtergaele, Marcélia Cartaxo e Rejane Faria, eu já pude ter a honra de contracenar e foi incrível, porque são pessoas que atuam com uma beleza, dignidade e respeito pelo ofício, que me emociona demais. Eu sempre pensei que se eu não fosse ator, adoraria ser atriz, e se fosse pra ser uma atriz que eu fosse como Marcélia Cartaxo. Facilmente eu diria essas três pessoas, mas têm alguns outros nomes que não tenho como negar a minha profunda admiração pela forma como fazem seu trabalho, pela entrega e pelo resultado mesmo. Fabrício Boliveira, muito possivelmente, é minha maior referência. O jeito como ele se entrega, como muda radicalmente de personagem pra personagem, as escolhas, as investigações, a inquietação, a verdade dele em cena é uma coisa impressionante. Grace Passô também é uma força da natureza sem igual, e de uma excelência absurda, pessoa que certamente sou fã. E se fosse para listar bem brevemente aqui, quem eu desejo muito contracenar seria: Fabrício Boliveira, Grace Passô, Karine Teles, Júlio Andrade, Irandhir Santos, Lucas Andrade, Demick Lopes, Belize Pombal e Dira Paes e Jesuíta Barbosa. É difícil escolher porque temos muitos e muitos artistas incríveis da cena, mas creio que os nomes que estão aqui são os que mais ficam na minha cabeça por agora. Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Você tem um grande volume de trabalho em projetos de Pernambuco, que é um dos maiores polos de cinema do Brasil. Mas o cinema alagoano, assim como o de vários outros estados menores do Brasil, vem ganhando força e espaço no cenário nacional e internacional muito graças aos incentivos públicos e editais. Como você vê esse atual momento do cinema alagoano e quão importante para você foi ter sido “abraçado” pelo cinema pernambucano? Luciano Pedro Jr.: Olha, tem sido um momento lindo mesmo para o cinema alagoano, e isso porque ainda não saiu nem metade dos filmes incríveis que estão para estrear em 2025 e no ano que vem. Têm curtas-metragens e longas com roteiros primorosos e com uma qualidade técnica muito boa, alguns que já estão circulando e outros que estão ainda em pós, e há também os projetos que estão em laboratórios e em desenvolvimento, e que com certeza vão render bons frutos. Alagoas tem passado por um processo de organização do audiovisual e de formação, que tem contribuído para que a gente se profissionalize ainda mais através de oficinas e cursos teóricos e práticos como os oferecidos pela Aguda Cinema, Animal Coletivo, Escola Criattiva, dentre outros. Consequentemente, temos tido um amadurecimento para que a gente coloque cada vez mais nossos projetos no mundo, e falo mundo, porque temos projetos que foram premiados internacionalmente, a exemplo do curta Infantaria, de Laís Araújo, que ganhou o prêmio especial do júri de melhor filme na Mostra Generation na Berlinale. E temos também outros curtas que circularam muito por festivais em outros países, como o Queima Minha Pele de Leonardo Amaral, que foi para o Festival de Havana e o Uppsala, ou como o Cavaram uma Cova no Meu Coração, de Ulisses Arthur, que recentemente esteve no FICCI na Colômbia e no DOC.LISBOA, além de circularem por diversos festivais importantes do cinema nacional. Acho fundamental citar aqui alguns nomes que vale muito ficar atento porque são nomes que já possuem um currículo, e que estão com projetos no forno, como: Ulisses Arthur, Rafhael Barbosa, Laís Araújo, Janderson Felipe, Lucas Litrento, Paulo Silver, Stella Carneiro, Fernando Santos, Nuno Lindoso, Gabriela Araújo, Marina Bonifácio, Leonardo Amaral, dentre outros. Alguns desses nomes eu já trabalhei junto atuando e outros tenho o desejo de em algum momento poder colaborar. Já sobre ter sido abraçado pelo cinema pernambucano, creio que foi um dos maiores presentes que já recebi na vida. Meu primeiro longa foi em Pernambuco, uma participação muito rápida em Paterno, de Marcelo Lordello, mas justamente através do produtor de elenco que eu recebi a indicação para fazer meu primeiro longa em Alagoas, e daí então, começou a ter mais convites para testes ou até mesmo convites já para integrar o elenco. Estar em Pernambuco, para além da universidade, foi uma oportunidade muito legal de poder ver outros trabalhos, de trocar, conhecer profissionais da área. Fazer cinema em Pernambuco tem um certo prestígio. Lembro que a primeira vez que fui na Globo, e falei dos meus trabalhos no cinema alagoano e pernambucano, a galera ficou muito curiosa e querendo conversar sobre. E ter trabalhado com nomes como Renata Pinheiro, Marcelo Lordello, Pedro Severien, Bruna Leite, Juliana Soares, Igor Travassos, Cecília da Fonte e agora com Caio Dornelas foi algo que realmente me deu uma possibilidade de conhecer o cinema para além das minhas próprias fronteiras. O cinema pernambucano é muito aclamado, pelo trabalho que pessoas daqui fizeram há muito tempo atrás e isso foi se mantendo como uma tradição de um lugar que é apaixonado por cinema. Poder estar nisso me deixa muito feliz, e acredito que ainda estou no começo de tudo. Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): “Carro Rei" foi vencedor de Melhor Filme no Festival de Gramado de 2021 é o trabalho pelo qual você é mais reconhecido, afinal foi seu primeiro trabalho como protagonista num longa-metragem. Como foi para você “conduzir” esse filme que é tão distinto, tão único na forma e no conteúdo? E você acha que de alguma forma ele ainda reverbera na sua carreira? Luciano Pedro Jr.: Olha, foi uma baita de uma responsabilidade. Já conhecia o trabalho de Renata por conta do Amor, Plástico e Barulho, filme que que gosto muito e que tem um elenco muito absurdo. Quando recebi a notícia de que ia fazer, fiquei muito feliz e ao mesmo tempo assustado, afinal de contas eu estava para protagonizar um longa em Pernambuco e de uma diretora já reconhecida pelo seu trabalho. Além de tudo, o filme é um tipo de projeto arriscado, fazer um filme de realismo fantástico, no agreste pernambucano, sobre carros, era uma grande loucura, mas acho que reside aí também a potência do filme. Renata na direção tem um pensamento estético muito particular, que conversa muito com o trabalho que ela já fazia no cinema, só que no departamento de arte. O universo que ela cria pra gente [atores] é muito propício pra você mergulhar na cena e encarar as viagens todas. Se você reagir ao cenário dela, creio que boa parte do trabalho já está sendo feito. Sobre conduzir o filme, eu era considerado o protagonista, mas na verdade acho que o grande protagonista do filme é o Carro Rei. O filme dá essa vida aos carros porque o ser humano passou a humanizar os objetos e objetificar os humanos. E aí para a gente entender isso, na pele mesmo, passamos por uma experiência imersiva de preparação junto da preparadora Raíssa Gregori, também tivemos aulas de oficina mecânica em Caruaru, eu passei um tempo andando de bicicleta pela cidade, estudei agroecologia, enfim.. todas essas coisas que a gente faz pra poder se aproximar mais do personagem. O filme reverbera na minha carreira porque sinto que de algum modo foi ele quem me abriu portas para outras possíveis seleções de elenco. O produtor de elenco do filme, Marcelo Caetano, foi uma pessoa muito generosa comigo e passou a me indicar para outros projetos, ele e Gabriel Domingues, e isso foi muito positivo para minha carreira. Além disso, o filme circulou por alguns festivais que são considerados importantes para o cinema fantástico, ele estreou em Rotterdam, que é um dos principais festivais de cinema da Europa, e tudo isso repercutiu em notícias, críticas, divulgação… Mas acho que mais do que isso tudo, quando o filme foi grande vencedor do Festival de Gramado, ali deu um “boom”, porque muita gente veio falar comigo, compartilhou a notícia dos prêmios, pessoas assistiram e vieram trocar ideia, elogiar, fazer algum tipo de crítica. Mas acredito, que para além dessas coisas todas, o que foi muito fundamental pra mim nessa experiência, é que foi nela que eu tive o meu primeiro momento de viver por tanto tempo uma experiência cinematográfica. Foram dois meses e meio longe de casa, imerso num processo, com uma curiosidade de perturbar cada departamento tirando dúvidas sobre figurino, arte, foto, som, continuidade, essas coisas todas que compõem o fazer cinema. Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Quais projetos você já tem para os próximos meses ou próximos anos? Seja no cinema ou na televisão/streaming. Luciano Pedro Jr.: Agora, neste exato momento, estou protagonizando um longa em Pernambuco, que se chama Diabos de Fernando, de Caio Dornelas. Um filme de época, que se passa durante a década de 1940 em Fernando de Noronha e que nele interpreto Fausto, um ex-marinheiro e preso político. Têm dois longas que eu integro o elenco principal, co-protagonizando e protagonizando, que estão em um processo bem adiantado já de pós, um que se chama Não Estamos Sonhando, de Ulisses Arthur e o outro é Olhe para Mim, de Rafhael Barbosa. Esse ano filmei um longa chamado Pedra Riscada, de Glauber Xavier, que também estou no elenco principal. Esse ano, no segundo semestre, sai o Deus Ainda é Brasileiro, que é o último longa do Cacá Diegues, e que também estou no elenco. E tem também alguns curtas, um que estreou na Mostra Tiradentes, que se chama Phoenix Club, de Gabriela Araújo, e outro que protagonizo que se chama O Primo Holandês, de Nuno Lindoso, que tem sua estreia na edição do Curta Cinema esse ano. E tem alguns projetos mais em fase de pós, como o Ajude os Menor, de Janderson Felipe e Lucas Litrento, que é um faroeste numa construção civil, um curta bem bacana, que em breve circula nos festivais. Ainda esse ano, eu filmo Miami, um longa de Werner Bagetti, e também lanço dois curtas que escrevi e dirigi: Brincadeira de Criança e O mapa Em que Estão os Meus Pés. E, ainda sem data definida de estreia, mas também estou no elenco de uma série incrível da Amazon, mas que ainda não posso soltar a informação. Desculpa… [risos] No mais, é isso. Tem muita coisa incrível vindo aí. Acompanhe as redes sociais de Luciano para não perder os próximos passos de sua carreira. E claro, aqui no Oxente Pipoca seguimos de olho em tudo.
- Os melhores filmes vistos no 14º Olhar de Cinema
O que me encantou, o que me desagradou e o que ficou no meio do caminho durante os nove dias de festival. Divulgação Nada te prepara para a maratona que é um festival de cinema. De 11 a 19 de junho estive cobrindo a 14ª edição do Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba, e das cerca de 90 produções exibidas, assisti 23. Logicamente, as minhas experiências com essa vasta quantidade de filmes variaram de muitas maneiras - alguns dos quais crescendo em mim durante os dias do festival, outros caindo no limbo do esquecimento cada vez mais -, mas essa lista tenta dar conta dessa diversidade de experiências. Acompanhe abaixo o ranking referente aos 14 dos 23 filmes para os quais escrevi críticas para o Oxente Pipoca: Divulgação 14) Paraíso (dir.: Ana Rieper) "(...) É notório como Paraíso se esgota rápido, com suas imagens caindo numa redundância gritante e que pouco conversam entre si, como se atirassem para todos os lados, num trabalho de montagem que afeta sensivelmente a coesão interna da obra. Não ajuda que várias dessas imagens se referem à brutalização e violência contra corpos negros e indígenas, bem como de casos de feminicídio. Não são situações inéditas: afinal de contas estamos falando de arquivos. Mas a que elas servem? O intuito é de denúncia, isso é nítido, mas acabam caindo num choque pelo choque, uma espetacularização da violência que acaba esvaindo a proposta do longa. Não sou de achar que só pessoas negras e indígenas devem dirigir obras que se refiram diretamente a si mesmos(as), mas é de se perguntar como uma pessoa não-branca lidaria com esses materiais, como suas sensibilidades e subjetividades poderiam influenciar a um outro direcionamento que Rieper escolhe não adotar e que compromete profundamente o filme". (crítica completa aqui) Divulgação 13) Em Vez de Árvores (dir.: Philip Hartmann) "Dado o quão abstrato pode ser falar de arte ou da própria natureza, Em Vez de Árvores abraça essa abstração como parte da sua própria existência, para o bem ou para o mal. Ocasionalmente funciona, como é o caso da entrevista com Paula Gaitán, que explica seu processo para se aproximar da natureza e encená-la. As reflexões trazidas pela curadora sobre os animais empalhados também são uns dos momentos mais fortes nessa aproximação entre arte e natureza, bem como as discussões sobre como as representações da natureza na arte ocidental ao longo dos séculos muitas vezes serviram a propósitos colonialistas. Entretanto, são apenas alguns instantes pontuais entrelaçados a outras abordagens que nem sempre funcionam. Apesar do seu trabalho como crítico de Roger indicar a possibilidade de uma maior exploração do cinema nessa relação com a natureza, o próprio tópico do cinema é abordado de uma maneira um tanto precária, indo além de passagens como a em que o protagonista fala sobre Interestelar ou a entrevista com Gaitán." (crítica completa aqui) Divulgação 12) Glória e Liberdade (dir.: Letícia Simões) "Diferentes figuras guiam Azul por tais nações tão distintas entre si, e um acerto do filme reside em não simplificá-las, apresentando mesmo dentro de sua curta duração as contradições que regem esses países, especialmente em termos de classe e raça. O uso de diferentes traços de animação para retratar cada país também se revela o acerto primordial da obra, ainda que seja perceptível uma desconexão entre os do primeiro bloco com os dos demais (que foram dirigidos por um único diretor de animação). Mesmo diferentes entre si, os três blocos subsequentes conseguem criar uma coesão interna entre si mais eficaz do que com o país que outrora foi o Pará. Entretanto, mesmo com as possibilidades que carrega por se configurar dentro do âmbito da animação, Glória e Liberdade se vê vítima e refém do seu próprio discurso. Há uma constante reiteração dos mesmos pontos, seja na narração em off de Azul, seja nos comentários feitos pelos personagens que a acompanham na sua jornada, ou até mesmo nos créditos finais, sobre como as distinções entre esses países refletem as problemáticas das quais o Brasil não consegue se livrar até hoje. Esse didatismo parece reflexo da lógica documental que o filme assume, mas é como estarmos vendo mais uma aula de história (alternativa) do que um filme propriamente dito." (crítica completa aqui) Divulgação 11) Torniquete (dir.: Ana Catarina Lugarini) "Inegavelmente, Torniquete mostra em Ana Catarina Lugarini uma promessa na direção, além de reforçar os talentos da grande Marieta Severo e revelar Sali Cimi como uma páreo para a veterana atriz. Mas o filme parece se esconder por trás das suas alegorias, tímido para ir além disso, o que ainda é sintomático de uma espécie de cinema nacional que acha que metáforas e subtextos bastarão para tornar um filme “importante” ou “necessário”. Não bastarão, mas pelo menos é possível ver em Lugarini o espaço para que sua filmografia subsequente saberá transcender essa barreira do nosso audiovisual contemporâneo e entregar obras que abracem plenamente seu potencial." (crítica completa aqui) Divulgação 10) Explode São Paulo, Gil (dir.: Maria Clara Escobar) "Gil é, sob muitos aspectos, bastante singular, como ela própria já faz questão de frisar ao se apresentar: imigrante goiana, faxineira, sapatão, poeta e cantora. A música faz parte do DNA desta mulher tão única, e vê-la performar para a câmera, seja em momentos mais “autênticos” ou naqueles mais encenados, é um deleite, assim como nos assustamos e sofremos ao vê-la ter um ataque de epilepsia em cena, e como isso afeta sua memória e a própria relação que ela vinha construindo com a música até ali. Justamente por isso, é frustrante ver como a direção de Maria Clara Escobar passa um bom tempo ainda incerta sobre como exatamente quer abordar a protagonista. Há uma instabilidade nítida na primeira parte do filme, a começar pela abertura com o monólogo de Gilda Tonacce, que atende à essa proposta um tanto docuficcional e experimental do filme, mas soa bastante deslocada ao postergar a entrada de uma figura muito mais interessante como a da própria Gil. Mesmo quando esta entra em cena, essa incerteza paira sobre o longa, e é justamente a partir da cena do karaokê que ele se encontra junto à sua personagem. Ainda assim, esta instabilidade está presente em outros momentos (como nas breves sequências em Brasília), de modo que é difícil fugir a esta primeira impressão de que o filme não sabe o que fazer com um material (e um sujeito) tão rico." (crítica completa aqui) Divulgação 9) Nem Toda História de Amor Acaba em Morte (dir.: Bruno Costa) "Desde o início, o longa se distingue sobretudo na maneira como aborda e representa a população surda, num esforço de representatividade que vai para muito além da integração desses personagens e suas vivências à narrativa, mas também com a presença de intérpretes de Libras para os diálogos dos filmes. Se a presença de seus ícones nos cantos da tela pode desviar a atenção no começo, logo se torna natural, o que é um grande mérito do filme – e um aprendizado a ser seguido por outras produções, tenham elas ou não personagens surdas. Mas para além desse cuidado, Nem Toda História de Amor Acaba em Morte não foge muito do que seu título aponta: esta é uma história clichê sobre novos amores, mas que evita o tropo das tragédias que normalmente se abatem sobre casais LGBTQIA+. Porém, a construção do relacionamento de Sol e Lola se dá de maneiras um tanto abruptas (que alguns poderiam dizer que é uma questão clássica de relacionamentos lésbicos, mas não parece ser intencional da parte do filme), e em diversos instantes a própria construção de Sol torna a personagem um tanto desagradável e alguém difícil de torcer, mesmo que a ideia seja de que estamos diante de alguém cansada de assumir uma postura passiva na vida e que quer reagir. Mas quando, mesmo que não intencionalmente, nos vemos tendo mais simpatia pelo arco de Octávio do que o das protagonistas (o que é potencializado pelo fato de Octavio Camargo roubar a cena sem esforço), fica claro que em algum lugar o filme perdeu a mão na sua proposta." (crítica completa aqui) Divulgação 8) Cais (dir.: Safira Moreira) "O próprio documentário, portanto, incorpora essa cosmovisão para sua própria forma fílmica, rejeitando os moldes tradicionais do cinema documental e de suas narrativas. Mesmo a presença dos personagens (como Mateus Aleluia) não surge para dar conta da dor particular de Safira, mas sim para integrar a jornada que ela assume a uma dimensão e cosmovisão muito mais amplas. São passagens pontuais, que quebram o silêncio e a sensorialidade assumidas pela obra, a qual busca muito mais os sons ambientes (bem como as canções religiosas) para conferir cadência ao seu ritmo. Esse ritmo, porém, pode parecer um tanto sôfrego em alguns momentos, apesar da curta duração. Além disso, a abordagem mais ampla pode fazer parecer que não há um foco particular na própria figura da mãe de Safira ou da maternidade desta. Problemas próprios do filme ou apenas uma forma ocidental de pensamento e cinema enraizados em mim? Difícil dizer, mas é inegável que Cais encontra poesia em sua forma subversiva e imersiva." (crítica completa aqui) Divulgação 7) Verde-Oliva (dir.: Wellington Sari) "Pode se argumentar que o filme não tem força para ir além das referências e das homenagens a DePalma, mas vejo ali uma vontade de cinema (de gênero, principalmente) que consegue ir para além da cópia para se configurar como um projeto repleto de paixão e curiosidade. Além do mais, nossa própria realidade parece tão ridícula que não há outra possibilidade de se aproximar dela por meio do absurdo e da farsa. A própria revelação climática, repleta de diálogos exagerados e atuações histriônicas, é tão hilária que, se para alguns pode ser onde o filme se perde – já que ele progressivamente se torna mais amalucado e caricatural – é onde ele mais me ganha. Pena que a sua montagem final penda para um lado mais dramático que força uma revelação que já havíamos constatado, num problema de montagem que está presente em outros momentos (a sequência em slow motion na galeria, por exemplo) e dilui um tanto do impacto visual que Sari constrói no filme, algo também presente no fato de que algumas atuações – a começar pela de Jean Guilherme – parecem destoantes da proposta absurda da obra." (crítica completa aqui) Divulgação 6) Salomé (dir.: André Antônio) "A direção de André Antônio se sobressai e muito em relação a outras obras nacionais de caráter mais politizado dos últimos anos, ou mesmo aquelas que exploram o cinema de gênero. Muito da força do filme vem de Aura, com seu olhar penetrante e hipnotizador (talvez um dos mais expressivos e assombrosos que vi nos últimos tempos) e que sustenta o filme mesmo quando sua personagem passa por transformações que nem o texto nem a encenação dão conta de justificar. Infelizmente seu parceiro de tela Fellipy Sizernando não atinge os mesmos níveis de latitude dramática, mas um dos grandes méritos do filme é não se acanhar em explorar seus corpos e a transgressão que os cerca, como na primeira cena de sexo dos dois, talvez uma das melhores, explícitas e mais bem-filmadas que pude assistir recentemente." (Crítica completa aqui) Divulgação 5) Ariel (dir.: Lois Patiño) "Existe uma forte carga onírica em Ariel desde seus minutos iniciais, que brincam com a possibilidade das portas da realidade se irromperem neste mundo de aparentes sonhos que regem a obra. Trata-se de um longa fortemente sensorial, que conduz essa carga onírica através do uso de cores (o púrpura que abre e fecha o filme) e também de sobreposições entre cenas, como na sequência da “tempestade” durante o percurso de Agustina até Faial. Essa carga sensorial também advém da própria ilha em si, cujas paisagens naturais e atmosfera – em especial no ato final, onde saímos em definitivo do seu espaço urbano – contribuem ainda mais para esse aspecto fantasioso e de sonho. Esse universo de estranhamentos vai se apresentando cada vez mais gradativamente até ser absorvido por Agustina – que ainda assim se mantém a única autoconsciente ali – e também por nós, espectadores. Há algo de divertido em ver os cidadãos comuns encenando peças como Hamlet, Macbeth, Romeu e Julieta ou a própria A Tempestade, e essa leveza se mantém mesmo após o filme introduzir uma natureza mais densa das suas reflexões, discutindo se essas pessoas (ou personagens) estão vivos ou mortos, e se há alguma capacidade de se libertarem desses papéis que lhe foram impostos." (Crítica completa aqui) Divulgação 4) Apenas Coisas Boas (dir.: Daniel Nolasco) "É de se parabenizar a coragem e ousadia de Nolasco em reconfigurar o filme dessa forma, deixando de lado o faroeste para investir em um drama/thriller de toques meio DePalmianos. O que não muda é o caráter sensorial da obra, que investe em sequências mais longas, marcadas por profundos silêncios (em especial na primeira metade) e um design de som ambiente que casa com escolhas pouco ortodoxas na trilha sonora. Claro que, como todo filme de partes tão distintamente demarcadas, há sempre um risco de que elas possam não conversar entre si, e isso ocorre em determinados momentos, em especial com a mudança de gênero. Mas o final, tão simples quanto agridoce, consegue amarrar ambas as metades do filme e justificar também seu título." (crítica completa aqui) Divulgação 3) Cloud - Nuvem de Vingança (dir.: Kiyoshi Kurosawa) "Sou um grande entusiasta de obras que são capazes de mudar significativamente de tom e gênero, mas é preciso muita segurança e controle sobre a mise-en-scène para que essa mudança tonal não faça o filme se perder, e felizmente este é o caso de Cloud. Até as revelações sobre o enigmático assistente de Ryosuke, Sano (Daiken Okudaira), casam organicamente com este universo, especialmente pela sua última cena com o protagonista, que carrega uma certa estilização na superfície bastante destoante do restante da obra, mas que pela troca de diálogos entre ambos também se justifica. No fim das contas, não temos monstros, espíritos ou demônios para assombrar Ryosuke (ou talvez tenhamos, porque o filme nunca nega uma certa ambiguidade): apenas o bom e velho capitalismo na sua forma mais sórdida e inumana, sugando tudo de todos para que a roda possa girar. Que Kurosawa nos mostre isso através da tensão, da violência e até do riso é um dos melhores atestados da inteligência do cinema de gênero que pude ver nos últimos tempos." (crítica completa aqui) Divulgação 2) A Voz de Deus (dir.: Miguel Antunes Ramos) "Longe da condescendência e do paternalismo, Miguel traz olhar que de forma alguma é neutro (e que ótimo que não o seja), mas que está antes de tudo interessado em se despir de suas preconcepções, aproximando-se de seus dois personagens principais e suas respectivas famílias para mostrar seus cotidianos e, sobretudo, suas humanidades. Sim, há falhas e muito a se problematizar (para quem não é evangélico, mergulhar no universo dos pregadores mirins pode ser deveras assustador e indigesto), mas a câmera dele se torna tão íntima deste universo e destes personagens que é surpreendente ver o que ela consegue capturar com tamanha naturalidade. Há momentos de riso, de camaradagem, compaixão e de questões genuínas com a própria fé, mas também de dores, hipocrisias e de contradições." (crítica completa aqui) Divulgação 1) Aurora (dir.: João Vieira Torres) "Apesar do tópico extremamente difícil com o qual trabalha, João nunca busca pesar a mão para explorar as histórias de suas parentes, tampouco transformar em uma vitrine de si mesmo, ainda que sua própria existência – como um homem negro e gay que se viu precisando sair daquele ambiente para poder ser ele próprio – não deixe de dialogar com as histórias às quais vasculha. Ele confere materialidade a esses fantasmas que o assombram desde a infância, e por isso seu trabalho é também um trabalho de arquivo, de olhar os cantos inexplorados dos materiais para sua pesquisa (as fotos de funerais, tão características dos interiores nordestinos, são talvez a sua arma mais poderosa), de desafiar os discursos que foram construídos sobre estas mulheres para corporificar e dar voz a esses fantasmas mesmo décadas depois de terem partido." (crítica completa aqui)
- Crítica | Nem Toda História de Amor Acaba em Morte (Olhar de Cinema 2025)
Acertando numa representatividade surda que transcende as telas, longa constrói história LGBTQIA+ singela, mas não se esforça para ir muito além disso. Imagem: Divulgação Clichês são empregados por uma razão: eles dão certo. Especialmente em gêneros como o romance e a comédia romântica, muitas vezes sabemos como a história vai se desenrolar, quais conflitos se delinearão no decorrer da narrativa, mas ainda assim somos atraídos pela universalidade do amor. Mas se o amor é universal, então pessoas LGBTQIA+ também não têm direito a vivê-las, com todos os clichês que lhe são devidos? Nem Toda História de Amor Acaba em Morte, longa paranaense de Bruno Costa, opera na consciência desses clichês, mas se apropriando deles para contar a história de amor entre duas mulheres: a professora de meia-idade, recém-separada, Sol (Chiris Gomes) e Lola (Gabriela Grigolom), uma jovem mãe surda cuja filha é uma das alunas de Sol. Contudo, esta ainda vive sob o mesmo teto que seu ex-marido Otávio (Octavio Camargo), o qual se vê forçado a mudar de vida com o fim do casamento e o novo relacionamento de sua ex-mulher. Desde o início, o longa se distingue sobretudo na maneira como aborda e representa a população surda, num esforço de representatividade que vai para muito além da integração desses personagens e suas vivências à narrativa, mas também com a presença de intérpretes de Libras para os diálogos dos filmes. Se a presença de seus ícones nos cantos da tela pode desviar a atenção no começo, logo se torna natural, o que é um grande mérito do filme – e um aprendizado a ser seguido por outras produções, tenham elas ou não personagens surdas. Mas para além desse cuidado, Nem Toda História de Amor Acaba em Morte não foge muito do que seu título aponta: esta é uma história clichê sobre novos amores, mas que evita o tropo das tragédias que normalmente se abatem sobre casais LGBTQIA+. Porém, a construção do relacionamento de Sol e Lola se dá de maneiras um tanto abruptas (que alguns poderiam dizer que é uma questão clássica de relacionamentos lésbicos, mas não parece ser intencional da parte do filme), e em diversos instantes a própria construção de Sol torna a personagem um tanto desagradável e alguém difícil de torcer, mesmo que a ideia seja de que estamos diante de alguém cansada de assumir uma postura passiva na vida e que quer reagir. Mas quando, mesmo que não intencionalmente, nos vemos tendo mais simpatia pelo arco de Octávio do que o das protagonistas (o que é potencializado pelo fato de Octavio Camargo roubar a cena sem esforço), fica claro que em algum lugar o filme perdeu a mão na sua proposta. Ainda assim, não faltam méritos a Nem Toda História de Amor Acaba em Morte em conseguir trazer a representatividade surda e LGBTQIA+ para uma história de apelo universal. É engraçado, fofo e leve, mas não se propõe a ir além disso – e para alguns isso é ótimo. Mas, ainda que não caiba a ele reinventar a roda dos romances e dos romances LGBTQIA+, sua singeleza não é exatamente o que o fará ser memorável. Nota: 3/5
- Lista | As 15 melhores minisséries originais da Netflix
Procurando uma série com poucos episódios para maratonar? A Netflix tem algumas opções que valem o seu tempo, incluindo as recentes Adolescência e Cidade Tóxica Divulgação A quantidade de conteúdos nos streamings é gigantesca hoje em dia e a Netflix é, provavelmente, a que tem uma frequência maior de lançamentos. Quantidade não é sinônimo de qualidade, então não é sempre que surgem produções que se sobressaem, como é o caso das minisséries listadas aqui. A HBO é famosa pelo alto padrão em suas séries limitadas, mas ultimamente é a Netflix que vem se destacando no quesito e esta lista é prova disso. Com gêneros que vão do policial ao drama, cada uma tem suas peculiaridades e não se destacam à toa em meio ao mar de estreias que surgem toda semana. Divulgação 15º) A QUEDA DA CASA USHER (2023) Última minissérie da parceria de Mike Flanagan com a plataforma, a trama conta a ascensão e queda da família Usher – dã! – com um belíssimo design de produção. Ainda que não seja a melhor da parceria de sucesso, as qualidades de sobressem aos pequenos defeitos. O elenco é recheado de figurinhas carimbadas de outras produções de Flanagan e competência não falta. Adaptada de vários contos de Edgar Allan Poe, Flanagan deixa sua assinatura contando uma história de drama familiar, sem claro, esquecer do terror. Se o percurso tem suas falhas, o final é excelente, surpreendente e trágico. Divulgação 14º) A MALDIÇÃO DA MANSÃO BLY (2020) A segunda minissérie de Flanagan para a Netflix veio logo depois de seu maior sucesso – A Maldição da Residência Hill – e não deixou a peteca cair. Trazendo de volta Victoria Pedretti no elenco, desta vez como a protagonista, a trama é adaptada do clássico Os Inocentes: A Volta do Parafuso, e acompanha Dani (Pedretti), uma au pair que vai a uma mansão no interior da Inglaterra cuidar de dois órfãos que vivem apenas com os empregados. Flanagan mais uma vez consegue exaltar a qualidade da obra original e deixando seu traço único, com as reviravoltas características e contando uma bela história de amor com fantasmas pelo meio. O final quase derrapa na melosidade excessiva, mas não prejudica o que foi tão bem construído. Divulgação 13º) UM DIA (2024) Adaptação da obra homônima de David Nicholls, mostra os encontros e desencontros de Emma, brilhantemente interpretada por Ambika Mod, e Dex, exalando o carisma de Leo Woodall. Sim, há uma versão em filme estrelada por Anne Hathaway, que eu também gosto, mas prefiro a minissérie. Funciona melhor por ter mais tempo para desenvolver os protagonistas não só como casal, mas individualmente. A escalação dos dois atores é fantástica e a química entre eles ressalta isso, mesmo que a história ainda não seja a mais profunda ou original do mundo, o modo como ela é contada aqui é um diferencial dosando as idas e vidas românticas com humor e deixando mais gostosa de acompanhar, mesmo que no final seja impossível segurar as lágrimas. Divulgação 12º) NADA ORTODOXA (2020) Aqui acompanhamos Esther, uma jovem judia ultraortodoxa que foge do seu casamento na comunidade onde vive no Brooklyn, em Nova York, para Berlim, mas é seguida pelo marido e o cunhado. Shira Haas está simplesmente irretocável na pele da protagonista, flutuando entre a inocência de conhecer um mundo totalmente novo e uma força interior genuína. É uma jornada inspiradora, mas nada fácil. A trama tem uma narrativa não-linear entre o presente e o passado recente, onde vemos o conservadorismo exorbitante na religião e os motivos que fizeram a moça querer fugir. É uma adaptação emocionante do livro Nada Ortodoxa: uma história de renúncia de Deborah Feldman. Divulgação 11º) O GAMBITO DA RAINHA (2020) Vencedora do Emmy de Melhor Série Limitada em um ano extremamente concorrido, fez jus ao prêmio, e ainda que não fosse minha favorita, entendo o porquê da vitória. Xadrez nunca foi tão empolgante e a história da órfã Beth Harmon também é, e interpretada por Anya Taylor-Joy em um dos melhores papéis de sua carreira tudo fica melhor ainda. O drama, a ambientação, a direção, tudo acompanha a elegância do jogo, e se tivesse uns dois episódios a menos, estaria mais bem colocada na lista. Em momento algum fica ruim, mas definitivamente há uma extensão em determinadas tramas ali pelos últimos episódios. O final, no entanto, é sensacional e honra o que vimos até então. Divulgação 10º) GODLESS (2017) Em uma cidadezinha do Velho Oeste habitada por viúvas, um bandido implacável chega à procura de um desertor do seu bando, que está tentando uma nova vida por lá. Estrelada por Jeff Daniels, Michelle Dockery, Jack O’Connell e Merritt Wever em extraordinárias performances, a minissérie merecia muito mais reconhecimento. Venceu três Emmys, mas nunca foi tão comentada pelo grande público como outras da lista. Uma história de dor e violência, em um gênero onde mulheres geralmente não são protagonistas, possui personagens fascinantes e em sete episódios aborda diversos temas sem se perder na trama, que pode ter um modo familiar de ser contada, mas não menos surpreendente. Divulgação 9º) CIDADE TÓXICA (2025) Baseada em fatos, já é uma das melhores estreias do ano. Em uma pequena cidade da Inglaterra, quando dezenas de bebês nascem com deficiências, as mães embarcam em uma batalha por justiça. A narrativa é muito bem construída através das personagens principais com complexidade, tratando de temas como maternidade e casamento de uma maneira muito honesta, sem deixar de lado a batalha judicial que permeia o enredo. Jodi Whittaker, Aimee Lou Wood e Rory Kinnear se destacam em meio a um elenco mega competente. É muito emocionante e não deixa de ser ultrajante ver o descaso de grandes empresas com o meio ambiente e a população. Mesmo se passando em meados dos anos 2000, não deixa de ser um lembrete para os dias que vivemos. Divulgação 8º) MAID (2021) Após fugir com sua filha de um relacionamento abusivo, uma jovem mãe busca ajuda na assistência social e consegue um emprego de faxineira. A premissa desta belíssima produção pode passar a impressão de ser uma história melosa e batida, mas não se engane. É tudo contado de uma maneira muito sensível e original, protagonizada irretocavelmente por Margaret Qualley. Mostrando os Estados Unidos de uma forma bem menos glamourizada e abordando a violência doméstica de uma maneira que jamais soa apelativa, o drama consegue emocionar com facilidade, mesmo que não seja nada fácil assistir determinadas sequências. O final coroa a minissérie, honrando a luta de uma mãe que busca o melhor para sua filha. Divulgação 7º) RIPLEY (2024) Baseado em um livro que também já foi adaptado para o cinema, Andrew Scott estrela esta versão em uma das melhores atuações dos últimos anos na pele do golpista Tom Ripley. O ritmo mais lento da trama que desagradou a tantos, para mim é um dos pontos altos. Tudo é muito bem construído, então quando os momentos de maior clímax chegam, o impacto é sentido de uma maneira muito mais forte. Escrita e dirigida por Steve Zaillian, possui uma elegância no texto que se transporta para a tela e o fato dela ser completamente em preto e branco – outro ponto que afasta parte do público – só a deixa mais deslumbrante visualmente, e tudo é enriquecido pela atmosfera de suspense que faz o enlace perfeito. Divulgação 6º) INACREDITÁVEL (2019) Uma das minisséries mais incômodas da lista, conta a história de uma garota que alega ter sido estuprada é acusada de ter feito uma falsa denúncia, mas anos depois, duas investigadoras reabrem o caso. Estrelada por Kaitlyn Dever, Toni Collette e Merritt Wever em atuações primorosas, aborda um assunto extremamente pesado e complexo – que nunca é fácil de ser trabalhado –, de uma maneira muito madura e sensível, mantendo um ritmo coeso durante os oito episódios. O roteiro é brilhante em causar a famigerada dúvida na vítima e trazer o choque da realidade de tantas mulheres, o que realmente deixa tudo mais comovente de se acompanhar, gerando diversas reflexões. Divulgação 5º) MISSA DA MEIA-NOITE (2021) Mike Flanagan de novo e não vai ser a última vez que uma produção sua aparece na lista, devo dizer. Com inspirações em obras de Stephen King, mais uma vez Flanagan consegue trazer sua identidade abordando fortemente a religião como um dos temas principais em uma ilha remota e catolicamente devota, equilibrando o terror e o drama com tamanha habilidade. O elenco composto por Zach Gilford, Kate Siegal, Hamish Linklater, Rahul Kohli e Samantha Sloyan é um poço de talento, e a construção dos seus personagens surpreende e emociona. Flanagan tem um dom para fazer nos apegar a pessoas em poucos episódios e aqui não é diferente. Divulgação 4º) BEBÊ RENA (2024) Com um ritmo alucinante, é um dos maiores sucessos de público da plataforma e fez a limpa nas premiações. E com razão. O que começa como uma trama de stalker, vai evoluindo até se tornar um retrato íntimo sobre abuso, poucas vezes vista de uma perspectiva masculina. Criada e estrelada por Richard Gadd, o artista tem uma performance visceral e humana na mesma medida e não tem como não falar da imbatível Jessica Gunning na pele da enigmática, para dizer o mínimo, Martha. A palavra-chave aqui é humanidade, o texto retrata um mar de emoções conflituosas e que precisam de coragem para serem expostas. Felizmente, Richard Gadd teve e contou sua difícil história para o mundo. Divulgação 3º) OLHOS QUE CONDENAM (2019) Baseada em uma dura história real, cinco garotos do Harlem, Nova York, vivem um pesadelo depois de serem acusados de um crime que não cometeram. Em quatro episódios dificílimos de serem assistidos, Ava DuVernay escacara o racismo, seja ele em sua forma estrutural ou mais crua possível. Dos cinco adolescentes, aos pais, aos promotores, as performances são de alto nível, com destaque para a intensidade de Jharrel Jerome. É daquelas produções para serem vistas uma única vez e que te marcam para todo sempre. Eu queria dizer que no final tudo termina bem, o que pode ser o caso para aqueles jovens – mesmo depois de todo o absurdo sofrimento que passaram –, mas é uma realidade que ainda perdura com tantos outros. Divulgação 2º) ADOLESCÊNCIA (2025) Então, há uma discussão na internet se realmente a minissérie merece esta aclamação tão imediata. Eu digo categoricamente que sim. Não é porque alguma coisa é recente, que ela não deva ser valorizada pelo que é. Quando um adolescente de 13 anos é acusado de assassinar uma colega de escola, a família, a terapeuta e os investigadores tentam entender o que realmente aconteceu e é o que vai ser destrinchado nos quatro incríveis episódios filmados em plano-sequência, e acreditem, isso ainda não é o que mais impressiona. A história é completamente devastadora e um retrato cru de uma realidade cada vez mais presente da juventude atual, com atuações irretocáveis de Owen Cooper, Stephen Graham – que cocriou a minissérie – e Erin Doherty. É tudo isso mesmo. Divulgação 1º) A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL (2018) A primeira série limitada de Mike Flanagan – já deu para perceber que eu sou fã? – para a Netflix é também sua melhor. Ele usa a já batida história de “família se muda para casa assombrada” completamente a favor de uma narrativa inovadora, misturando o terror clássico com saúde mental de uma maneira única. Atinge o ápice de todos os pontos que levanta, no horror que realmente assusta e no drama que é comovente sem jamais soar apelativo, com reviravoltas que causam impacto sem chocar gratuitamente - e a mulher do pescoço torto é um exemplo perfeito disso. O elenco é cheio de figurinhas carimbadas de Flanagan e com personagens cheios de nuance em uma família traumatizada que é tradicional apenas na superfície. Episódios como “Two Storms”, o sexto, estão entre os melhores da televisão e mostram todo o potencial alcançado em um plano sequência que faz o casamento perfeito dos gêneros da produção. O final é a junção de tudo que vimos até então e uma gigante catarse emocional. Espetacular. Aproveite e leia também: As 15 melhores minisséries disponíveis na Max As 10 melhores séries do Apple TV+ Notícias, Críticas e Dicas: se inscreva no canal do Oxente Pipoca no WhatsApp
- Crias do Brasil #02 | Kelner Macêdo: “Atuar me alimenta"
Destaque da nova geração de atores nacionais, o ator-pesquisador celebra sua trajetória sem tirar os olhos do futuro Dando sequência ao projeto Crias do Brasil, que em sua primeira edição entrevistou o alagoano Luciano Pedro Jr., hoje trazemos mais um célebre nordestino: Kelner Macêdo. Com sua recente estréia em Guerreiros do Sol, novela do Globoplay e sua escalação para viver Cristian Cravinhos, o assassino do Von Richtofen em Tremembé (Daniel Lieff, PrimeVideo), 2025 vem se consagrando como importante marco em sua carreira – fruto direto de sua rica trajetória profissional, que já soma mais de uma década, se desafiando em diferentes mídias e diversos papeis. Confira abaixo a entrevista completa com Kelner: Aianne Amado (Oxente Pipoca): Quando surgiu, no menino de Rio Tinto, na Paraíba, o desejo de ser ator? Foi algo precoce ou uma descoberta mais tardia? E como você percebe o impacto da sua origem geográfica e cultural na sua trajetória artística? Kelner Macêdo: Eu adoro falar sobre o meu trabalho, acho que é bom a gente falar sobre a nossa trajetória para a gente se reconhecer também… eu acho que a gente vai vivendo tanto, tanta coisa, tanta coisa, que às vezes a gente não para pra ver os passos que a gente já deu para chegar até aqui. E o desejo de ser ator veio de criança mesmo. Eu nasci em Rio Tinto, que é uma cidade da Paraíba, que tinha 20 mil habitantes, eu acho, na época – hoje deve ter um pouco mais – mas que não tem teatro, não tem cinema, não tem… sentidos. Então [ser ator] foi um sonho, um desejo, um impulso que surgiu muito de mim, mesmo, sabe? Eu vendo novela, assistindo televisão, vendo filme e eu ficava tentando entender, ainda muito criança assim, como que as pessoas faziam para caber lá dentro. Eu achava que tinha uma pílula de encolhimento, alguma coisa assim, sabe? Coisa de criança. E eu perguntei isso para minha vó um dia. Falei: "Vó, como é que eu faço para entrar lá dentro"? Ela falou: "ih, meu filho…" [risos] e aí isso ficou ali guardado. Na escola, toda oportunidade de apresentação que tinha, eu ia lá, me jogava – eu era bem tímido! Mesmo assim, era onde eu perdia a timidez, onde eu me expressava, onde eu me encontrava mesmo no mundo. Mas eu não tinha referencial de como que seria viver sendo ator, já que eu vivia numa cidade que não tinha incentivo algum e que não existiam outros atores né? Então eu não conhecia um ator e não sabia como que fazia para viver como ator. E aí quando eu acabei o meu ensino médio, eu fiz psicologia – eu fiz metade do curso de psicologia. Quando cheguei no meio, eu tava feliz pelo curso – eu me dava bem, fazia bem – mas aí eu falei: "cara, eu não vou conseguir clinicar a vida inteira". Entrei de férias e me inscrevi no curso de teatro de férias. Acabou. Acabou! Fui picado pelo bichinho do teatro e aí me apaixonei completamente, me encontrei. Acho que… ah, eu acho que é muito um um um encontro consigo mesmo, o ser ator, o se descobrir ator e foi bom me encontrar, sabe? Me ver de fato de alguma maneira pela primeira vez. E isso me encantou profundamente. Falei: “Cara, é isso. Psicologia, foi lindo até aqui, mas eu vou seguir pelo teatro”. E aí as coisas foram acontecendo também, quando eu falei esse sim – porque veio, né? É a questão: “é ou não é ou não é ou não é?” E eu falei: “é”. Eu acho que quando a gente responde num sim para um mundo, o mundo falam sim para gente também. E aí as coisas foram acontecendo a partir desse sim. Aianne Amado (Oxente Pipoca): Este ano marca um momento importante na sua carreira, com papéis de destaque em duas produções de grande alcance popular. Para muitos, você desponta como uma “revelação” — mas sabemos que há mais de uma década de estrada, desde o curta “Terceiro Prato”, em 2014. Como você enxerga essa caminhada e o modo como ela moldou sua ascensão até aqui? Kelner Macêdo: Como eu te falei, as coisas foram acontecendo muito organicamente, digamos assim, né? Eu estudava teatro em João Pessoa e o cinema foi acontecendo paralelamente, porque antes de começar o bacharelado em teatro apareceu um teste para um filme que foi meu primeiro curta, lá na Paraíba em 2013. E eu fiz esse teste para esse filme e eu passei sem saber absolutamente o que eu tava fazendo. Ainda muito nascendo mesmo para coisa, vendo as coisas brotarem dentro de mim. E aí foi um encantamento! E acho que as coisas foram acontecendo muito organicamente, como eu falei, numa trajetória onde a gente vai construir vindo pouco a pouco – muito aos poucos. Eu comecei fazendo uns curtas na Paraíba e aí veio a possibilidade de fazer um longa, que foi o Corpo Elétrico, o filme do Marcelo Caetano – que aí sim, eu acho que foi o que me revelou para o mercado. Que foi em 2017, a gente lançou esse filme e rodou muito bem. Fui muito feliz fazendo o filme, viajando com ele. E aí veio a televisão, vieram outros filmes e chega 2025 com esses dois trabalhos que eu acho que marcam não só um reconhecimento – porque é um espaço maior que se abre para o meu trabalho se apresentar – mas eu acho também que representa uma mudança de perspectiva minha e do mercado para mim. Porque são dois trabalhos que fogem muito das coisas que eu já vinha fazendo nesses últimos anos. Então, eu acho que são perspectivas novas, assim, de frentes novas que se abrem, sabe? Porque são tipos de homens muito diferentes dos tipos de homens que eu fiz até aqui. Então, eu acho que muda o olhar, acho que muda a perspectiva mesmo. Acho que a gente vê muito o trabalho pronto e tal, e a gente não faz muita ideia da trajetória que se fez para chegar num trabalho desses: séries de “nãos”... até esses que você fala: "uou, é meu", e aí você dá tudo de si! Se lança ali nesse abismo. Mas é isso, é uma trajetória cheia de altos e baixos, mas com muitos momentos felizes. Eu posso falar que os trabalhos que eu fiz, acho que rolou uma escolha meio mútua, porque eu eu fui muito feliz fazendo com todos eles, sabe? Aianne Amado (Oxente Pipoca): Você já atuou em diversos formatos — cinema, séries, novelas, teatro, videoclipes. Existe algum que ofereça, na sua opinião, maior liberdade artística? E qual deles mais lhe toca no retorno do público? Kelner Macêdo: Olha, eu preciso voltar para o meu lugar de saída, que é o teatro, né? Que é o que me deu tudo, no final das contas: o que me deu entendimento sobre a coisa, o que me deu base para poder viver em grupo, para poder pensar em grupo, a feitura das coisas… todas as etapas, todos os processos, a gente participa no no teatro. No cinema e na TV, a gente não participa de todos os processos. Eu acho que tem muitas outras camadas que vão se sobrepondo à nossa criação também – no teatro também, mas acho que no teatro a gente acompanha isso mais de perto. Mas o audiovisual foi uma coisa que me capturou e eu estou amando fazer. Eu acho que os personagens vão ficando mais complexos também, quanto mais o tempo passa e o quanto mais a gente envelhece, né? E mais a gente tem para dar também, mais ferramentas a gente acumulou ali nesse tempo que passou. Acho que está gostoso ver essa trajetória no audiovisual e ver o quanto muda realmente, o quanto o nosso repertório vai se alargando. E aí a gente vai, opa!, encontrando outras possibilidades ali, dando outros contornos e… ah, eu tô muito apaixonado pelo audiovisual. Aianne Amado (Oxente Pipoca): Com “Guerreiros do Sol”, você participa de uma novela — o formato de maior alcance da cultura de massa no Brasil — que trata de uma história nordestina. Como você recebe esse convite? Há um peso simbólico para você em estar nesse lugar, representando essa narrativa? Kelner Macêdo: Olha, eu acho muito simbólico, sim, a gente tá falando sobre isso agora. Guerreiros do Sol é uma novela que me fez revisitar o passado, que me fez dar uma volta e lançar o olhar sobre tudo que veio antes, sabe? E sobre os muitos passos que a gente deuU para chegar até aqui mesmo. Porque dos cangaceiros para cá muita coisa aconteceu, muita coisa mudou, muita coisa continua parecida – muitas lutas ainda são parecidas. Guerreiros do Sol me fez mergulhar na minha ancestralidade, revisitar o meu sotaque – porque muitas vezes nos trabalhos a gente precisa aliviar o sotaque, a gente precisa neutralizar o sotaque, como se existisse o sotaque neutro e a gente precisa camuflar o nosso sotaque em alguns trabalhos –, e ver uma obra dessa, dando protagonismo para o Nordeste, resolvendo olhar para isso e contar essa história e adicionando novas perspectivas sobre essa história que já é conhecida, porque o cangaço faz parte de um imaginário popular, mas o Jorge Moura e o Sérgio Goldberg escolhem trazer novas perspectivas dentro desse enredo do cangaço: as relações humanas que se dão ali em meio a esse período de escassez que interessa a gente nessa obra. Isso foi muito bonito entre a gente também – entre o elenco que a Marcinha [Márcia de Andrade], que é a produtora de elenco, conseguiu reunir. É uma pesquisa que eu olho e eu falo: "uau!". O elenco é sensacional, só gente maravilhosa, gente muito talentosa e ganhando espaço de protagonismo. Com nossos sotaques, porque somos muitos de muitos lugares. Muitos nordestinos numa obra nordestina! Isso é lindo, porque realmente tem uma magia que acontece ali na hora: quando você começa a ouvir aquele sotaque que você fala: "gente, é real", e isso faz toda diferença, eu acho, nessa obra também. Reunir essas pessoas que que compartilham também desse imaginário, sabe? Aianne Amado (Oxente Pipoca): Além de ator, você se define também como pesquisador. Como esse trabalho se estrutura na sua vida? Em que medida a pesquisa alimenta a sua atuação e vice-versa? Kelner Macêdo: Eu venho do Bacharelado em Teatro da Federal da Paraíba, e lá é uma formação de ator, mas é uma formação de ator pesquisador, então, acho que tá muito ali no meu lugar de saída mesmo: meu interesse pela pesquisa e em João Pessoa. Eu trabalhava com um grupo de teatro, por exemplo, que a gente pesquisava performatividade, autobiografia, gênero, sexualidade, a gente fazia um trabalho na rua, de uma peça de rua, que era o projeto Corpos de Saia. E aí eu sigo nesses interesses que vão mudando um pouco de foco. Agora eu estou muito interessado no audiovisual mesmo, nesse desenvolvimento assim, nessas ferramentas que eu vim acumulando em todos os processos que eu passei, entendendo o que me serve, o que me conecta mais rápido. Então, isso me interessa essa também. E a pesquisa de elenco também, que acabou surgindo no meu caminho. Eu já trabalhei com o Marcelo Caetano e o Gabriel Domingues, fazendo assistência para eles e pesquisa de elenco em alguns filmes como Bacurau [Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles, 2019], como Propriedade [Daniel Bandeira, 2022]. E isso me abriu também para um outro campo que é essa direção de elenco, essa pesquisa de elenco, esse interesse em pensar esse grupo, em dar cara a esses personagens, em buscar esses atores, em testá-los. Eu me interesso muito por atuação. Eu acho que [atuar] é um momento de tanta empatia que na vida eu acho que é muito difícil a gente experimentar o que a gente experimenta na cena, sabe? Porque talvez seja o momento mais empático do mundo, porque você vai interpretar, sei lá, um cara que tá cometendo um assassinato, mas é isso: dentro dele tá passando 1.000 coisas, tem tudo que aconteceu antes, tem tudo que vem depois e que é muito distante da gente, mas que a gente também precisa se aproximar e e e buscar esses entendimentos mesmo das coisas que tão acontecendo. Aianne Amado (Oxente Pipoca): O que te move a continuar atuando? O que ainda te desafia ou te instiga, depois de mais de dez anos de carreira? Existe algum ídolo cuja carreira te inspira? Kelner Macêdo: [após uma longa pausa] Olha, eu acho que atuar me alimenta. Atuar me desafia para a vida, atuar me coloca em risco e eu me sinto muito vivo quando eu faço isso. Acho que é isso: é um retro-alimento ali. Tem vários momentos que dá vontade de desistir mesmo, de pensar: "Nossa, eu não aguento mais essa vida, cara”. E às vezes realmente é muito difícil. Mas quando a coisa tá acontecendo, não sei, é mágico! Muito transformador! Eu mudo muito a cada trabalho e isso me alimenta a olhar para frente, a ter perspectiva, sabe? Quando eu penso em trabalhar, eu penso em perspectiva de vida, de tempo, de querer viver muito para poder fazer muita coisa. Acompanhe Kelner Macedo em suas redes sociais para acompanhar passos futuros de sua carreira. E claro, aqui no Oxente Pipoca, também seguiremos de olho! Notícias, Críticas e Dicas: se inscreva no canal do Oxente Pipoca no WhatsApp
- Crítica | Todo o Tempo que Temos
Filme tenta dar uma nova roupagem a uma história que todos já ouvimos, mas seu melhor está nas atuações de Pugh e Garfield Foto: Divulgação Inicialmente, fico feliz com o gênero romântico voltando às telonas com mais força e mesmo que não atinja seu ápice com este longa, pelo menos ensaia bem. Utilizando de uma narrativa não-linear para contar a história de amor entre Almut (Florence Pugh) e Tobias (Andrew Garfield), vemos como eles se conheceram, a gravidez e como enfrentam um câncer que volta a atingir a vida do casal. É uma trama relativamente simples e artifício de ir e voltar no tempo aparentemente só existe para diferenciar o filme de outros tantos. Abordando temas comuns que todo mundo passa, o intuito principal é a valorização do tempo, como o título diz, mesmo que a impressão que fique é de que o artifício da não-linearidade seja usado para disfarçar a falta de profundidade do enredo e cabe inteiramente a Pugh e Garfield a tarefa de dar humanidade aos seus protagonistas. A química dos dois é sentida desde o primeiro instante e ambos estão excelentes nos papeis, pena que, principalmente, Tobias seja tão raso. É praticamente um personagem de uma nota só e os conflitos com Almut surgem somente em razão da família. Justamente porque em um dos primeiros encontros ele já fala em filhos e depois que estão morando juntos e ela está doente há outra briga em relação a data do casamento. É como se ele vivesse em função dela e o roteiro não soubesse trabalhar bem as nuances do personagem e o quisesse o colocar como o “bom moço”, enquanto quase vilaniza Almut por ambicionar mais do que ser a mãe ou esposa de alguém. É uma linha tênue e por pouco não foi ultrapassada. Como o texto os trata, parece que são só personagens, mas é pela delicadeza de Garfield e Pugh que os enxergamos como pessoas. Eles falam com os olhos e quando estão marejados, é uma explosão de sentimento, mesmo que eles tentem se conter, o que deixa tudo mais real. Foto: Divulgação Em Brooklyn, de 2018, John Crowley conseguiu contar uma história singela com delicadeza e humanidade, atingindo todas as notas. Aqui, ele quase repete o feito, mesmo sendo mais melodramático e tratando de assuntos como um câncer terminal, conseguiu não ser apelativo, o que deixa a emoção muito mais genuína, por mais previsível que seja. No começo, nós já sabemos o fim e ele é realmente bonito, com uma tristeza iminente, que ressalta a perda, mas mostra que a vida continua. Crowley é elegante neste sentido. Outro ponto positivo é o humor e graças ao timing de Pugh e Garfield. Ainda que não seja tão presente assim e pouco apareça nos momentos mais emotivos, mas é um equilíbrio que funciona bem. É filmado com intimidade, focando no rosto dos atores e o fato de se passar na Inglaterra passa uma atmosfera de filme independente. No entanto, o longa realmente depende do carisma de seus protagonistas para nos envolver, já que o roteiro não os aprofunda e a escolha narrativa de não ser cronologicamente linear também não ajudou em nada. O resultado é um bom filme, mas que não consegue atingir todas as notas que queria e se segura no talento de suas estrelas. Mesmo com a elegância de não ser apelativo, parece que o longa se prende demais em certos momentos e não diz nada novo no quesito de vida e morte, ainda que tente. É um romance que poderia ser melhor, mas é o que temos e o saldo final ainda é positivo, apesar dos pesares. Nota: 3,5/5
- Confira os filmes selecionados para a 4° edição do Festival Internacional de Cinema de Itabaiana
O festival conta com a exibição de 85 produções de curta e média-metragem. Divulgação O Festival Internacional de Cinema de Itabaiana divulgou a lista de filmes selecionados para sua 4ª edição, que será realizada entre os dias 30 de julho e 2 de agosto, no Campus Itabaiana da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Ao todo, serão exibidas 85 produções nacionais e internacionais de curta e média-metragem. A programação do festival inclui ainda três painéis de debate, um seminário cultural e a entrega do Troféu Kurarabó, que reconhece os vencedores das categorias técnicas e os homenageados da edição. Em entrevista ao Oxente Pipoca, o coordenador geral do festival, Andrei Ferreira, destacou a proposta do evento de fomentar a cultura audiovisual no interior de Sergipe. “O festival tem essa missão de descentralizar os espaços culturais e impulsionar a produção audiovisual sergipana no interior, onde quase não se produzia. Queremos oferecer ao interior um evento grande e importante, que as pessoas se sintam parte, se identifiquem e passem a ver o interior sergipano como palco de eventos culturais”, afirma. Das obras selecionadas, 30 são produções brasileiras, 30 estrangeiras, 13 sergipanas e 12 videoclipes. Confira a lista completa dos filmes selecionados para o FestCine Itabaiana: Filmes Brasileiros - América, do Sul, de Maria Clara Bastos (SP) - A Chuva do Caju, de Alan Schvarsberg (GO) - A Sua Imagem na Minha Caixa de Correio, de Silvino Mendonça (DF) - Aurora, de Alan Mendonça Furtado (RS) - Batalha de Flores, de Luis Villaverde e Moira Soares (SP) - Como Nasce um Rio, de Luma Flores (BA) - Dalva da Rua Sete, de Gab Lourenzato e Nanda Ferreira (SP) - Dona Biu, de Gabriela Taulois (RJ) - Dois Nilos, de Samuel Lobo e Rodrigo de Janeiro (RJ) - Festa Infinita, de Ander Beça (PE) - Hélio Melo, de Leticia Rheingantz (AC) - Intercessões, de Direção Coletiva (AM) - Kabuki, de Tiago Minamisawa (SP) - Marés da Noite, de Juliana Sada e Noemi Martinelle (SP) - Mãe de Ouro, de Maick Hannder (MG) - Nação Comprimido, de Bruno Tadeu (MG) - Navio, de Alice Carvalho, Vitória Real e Larinha R. Dantas (RN) - O Céu Não Sabe Meu Nome, de Carol AÓ (SP) - O Medo tá Foda, de Esaú Pereira (CE) - O Último é Mulher do Padre, de Yasser Socarrás (SC) - Palavra, de Deivison Fonseca Fiuza (BA) - Quando Foi que Acordei, de Mariana Corrêa (RS) - Terminal, de Getsemane Silva e Guilherme Bacalhao (DF) - Travessia, de Karol Felicio (ES) - Tudo que Deus Quer Saber, de Ema Souza (RS) - Um Dia de Todos os Dias, de Fábio Narciso (MG) - Variz, de Karuá Tapuia-Tarairiú (PB) - Veredas, de Igor Rossato (SP) - Vermelho de Bolinha, de Joedson Kelvin e Renata Fortes (CE) - Zoya, de Larissa Dardania (MG) Videoclipes - Abre Caminho (BA) Música: Fall Clássico Direção: Pedro Valverde - Balanceio do Amor (SP) Música: Ayana Amorim Direção: Abraão Oliveira e Di Rodrigues - Causas da Vida (SE) Música: Ação Crítica Direção: Dhido - Ensolarada (BA) Música: Rachel Reis Direção: Bruna Sozzi - Horizon (SC) Direção: André Rodrigues Taveira - Jesus is Black (RJ) Música: Marcos Sacramento Direção: Pedro Capello - Mar Terna Idade (BA) Música: Rhamayana Direção: Glauco Neves - Mercenaries of Love (RJ) Música: Doce Delix Direção: Pedro Capello - Saint Motel - My Type (GO) Direção: Andy Wolf - Siciliano (PR) Música: Helena Sofia Direção: Rodriane DL - Sonhos na Despensa (RJ) Música: Igor Babidi & VND Direção: Gabriel Vitiello - Tales From my Hood (RJ) Música: Akkuma Direção: Kauê André Santos Araújo - Voices (Chile, Reino Unido e EUA) Música: VORTEX Direção: Adrián Ríos Ortíz - Who Are You (Alemanha) Música: Loten Namling Direção: Jakob Gehrmann Filmes Sergipanos - À luz de Vela, de Ju Morandi e Sarah Melo - Coisa de Preto, de Pâmela Peregrino - Donas da Terra, de Ana Marinho - Flow da Vida, de Eduardo Santos e Tiko SF - Mestre Orlando do Couro: Ancestralidade Viva na Pele Talhada , de Bruno Marques - Mergulho, de Breno Silva e Wilson Neto - Mexeu Comigo, de Danilo Rodrigues, João Hiago Oliveira e Sara Maylyne - Os 3 Porkinhos, de Vivian Rafaelli - Saudade de Coisas, Saudade de Casa, de Alex Frelser - Sem Corda, Sem Abadá, Sem Vergonha, de Felipe Moraes - Sobre Plantas, Mãos e Fé, de Danielle Azevedo e Gabriela Alcântara - Sonata Beladona, de Antônio Rafael - Volta Seca, a Favor do Vento - Cantigas de Lampião, de Marlon Delano Filmes Internacionais - 29 de febrero, de Diego Fandos (Espanha) - A Noa, de Dani Fortuny (Espanha) - Blava Terra, de Marine Auclair March (Espanha) - Breaking Language, de Sofia Castro (Argentina) - Ciao Peskao, de Andrea García García e Guillermo González Fidalgo (Espanha) - Días de Lluvia, de Ainara Iungman (Argentina) - Donde se Quejan los Pinos, de Ed Antoja (Espanha) - El Mal Donat, de Alfons Casal e Hector Mas (Espanha/Andorra) - El Que No Ve, de Natxo Leuza (Espanha) - Eléctron, de Mehran Ranjbar (Irã) - How Lucy Gave Birth To Us, de Donika Gashi (Suiça) - Imade, de Ignacio Acconcia González (Espanha) - La Compañia, de José María Flores (Espanha) - LÍbranos del Mal, de Andrea Casaseca (Espanha) - Los Invitados de Amaia, de George Todria (Espanha/Geórgia) - My Father Is Afraid of Water, de Prateek Rajendra Srivastava (Índia) - Nuestro Pequeño Viaje, de Martín Durán Sacristán (Espanha) - Paper Players' War, de Gerard Bernardo (Filipinas) - Rachid, de Rachida El Garani (Bélgica) - Rasti, de Paolo Bonfadini e Davide Morando (Itália) - Señora Bien, de Jose Maria Carrizo (Argentina) - Someone Else's Life, de Umi Aravena (Chile) - Sushi, de Iván Morales (Espanha) - Thanks, Jordi., de Arturo Spano (Argentina/Itália) - The Boy Who Cheated Death, de Pipou Phuong Nguyen (França/Taiwan) - The Little Shopping Trolley, de Laurence Ly (Canadá) - The Quiet Art, de Johnny Phillips, Ross Wilcox (EUA) - The Spring Never Returns, de Si Wei Yu (China) - When The Sun Above Our Memories, de Umut Yılmazer (Turquia) - Witness, de Aida Tebianian (Irã) Para conferir a programação completa e saber tudo sobre o Festival Internacional de Cinema de Itabaiana, é só acessar o site oficial.
- Crítica | O Brilho do Diamante Secreto
O fetiche pela forma: quando a homenagem ao gênero sufoca a narrativa. Divulgação Existe uma grande questão no cinema contemporâneo de querer emular alguns gêneros ou de até mesmo fazer uma desconstrução de gênero, o que não é uma grande novidade e também não quer dizer que tal exercício seja um demérito. O problema é quando esse exercício se transforma apenas em um excesso de ideias que são postas em suas referências visuais, e O Brilho do Diamante Secreto entra nessa seara ao abraçar o gênero policial mas se perdendo dos excessos do cinema de fetiche visual. Em seus minutos iniciais, acompanhamos o personagem John D., interpretado por Fábio Testi, um homem que desfruta seus dias na sofisticada Riviera Francesa, hospedado em um hotel à beira-mar. Entre charutos e martínis, observa despreocupadamente o cenário ao redor, até que uma mulher nua, bronzeando-se ao sol, chama sua atenção. O brilho de um diamante em seu seio acende em sua memória um passado esquecido. Subitamente, ele é transportado de volta à juventude: um tempo de missões secretas, perseguições elegantes, mulheres perigosas e vilões enigmáticos. O filme da dupla belga Hélène Cattet e Bruno Forzani foi exibido na competição da Berlinale 2025 e estreia nos cinemas brasileiros no dia 17 de julho, distribuído pela Pandora Filmes. Eu confesso que não conhecia o trabalho da dupla, portanto é meu primeiro contato com uma obra deles, e é inegável que no filme em questão eles escrevem uma verdadeira carta de amor ao gênero Eurospy, gênero cinematográfico que surgiu e teve seu auge nos anos 1960, inspirado diretamente pelo sucesso estrondoso dos filmes de James Bond. E o filme brinca justamente com as características que marcou esse gênero, como os vilões excêntricos, mulheres sedutoras, e um estilo visual frenético. Só que como falei no início, o exercício de gênero por si só não se justifica, pois o filme se apresenta como uma experiência essencialmente visual, sem qualquer tensão dramática, conduzido por uma sequência acelerada e ritmada de cenas que prestam homenagem aos clássicos de espionagem das décadas de 1960 e 1970 e aos seus códigos estilísticos. A narrativa fragmentada, que alterna entre realidade e fantasia, presente e passado, acompanha um ritmo implacável e encontra justificativa no próprio tema: a reconstrução das memórias de um espião aposentado e desorientado, cuja glória ficou no passado, mas cujas lembranças ainda o alcançam. O filme se arrasta tediosamente de uma cena trivial para outra, cada uma copiada de filmes muito melhores. Embora sua maior força esteja claramente em seus close-ups, mesmo esses são tão usados que perdem todo o impacto. Cada foto é tão estilizada que qualquer senso de espaço ou propósito é completamente perdido. Nós nos afogamos completamente nessa cascata interminável de efeitos estilísticos e nesse poço sem fundo de metadelírio, sem cabeça nem cauda. Divulgação De todo modo, ao tentar revisitar o gênero, o filme faz um apontamento interessante ao questionar, mesmo que um pouco implicitamente, o olhar masculino desse subgênero e seu lado potencialmente misógino, que se dá de uma forma interessante ao utilizar da ironia em algumas sequências do filme. Mas são tão raros esses momentos que me fazem desconfiar que há uma timidez misturada com respeito ao gênero, que faz os autores serem um pouco cautelosos e não estarem de fato dispostos a colocar o gênero às avessas, pois talvez nem seja a proposta da obra. E isso fica claro ao percebermos que em nenhum momento o filme busca dialogar com outras abordagens dentro do universo do gênero, limita-se a reproduzi-los em diferentes sequências visuais que não nos leva a lugar algum. Por sua vez, o enredo é um emaranhado de ideias inacabadas e meta-comentários que tropeça em sua própria ambição, deixando os temas dispersos e desgastados. Há, sem dúvida, uma ousadia admirável no projeto, e momentos pontuais de brilho indicam que uma obra mais consistente poderia ter emergido com uma narrativa mais coesa e um direcionamento mais claro. Em vez disso, o resultado é uma jornada caótica e exaustiva, que impressiona visualmente, mas raramente estabelece uma conexão real com o espectador. No fim, estamos mais perto de ter a resposta se é possível reviver uma estética com uma homenagem que é tão destilada em seus elementos quanto separada do mundo mais amplo que a produziu. Nota: 2/5
- Crítica | Jovens Amantes (2022)
Valeria Bruna Tedeschi reconstrói suas memórias em semiautobiografia, mas não impede que o filme escape da sombra dos escândalos de seus bastidores. Divulgação Nos primeiros minutos de Jovens Amantes, Stella (Nadia Tereszkiewicz) beija, discute, grita, exibe os seios para seu amante – apenas para que, com um corte de cena, vejamos um grupo de homens e mulheres assistindo à discussão, que na verdade não passa de uma encenação teatral. Ela, assim como diversos jovens nesse momento não-especificado dos anos 1980, concorre ao ingresso numa prestigiada escola de teatro em Paris, dirigida pelo renomado e autoritário Patrice Chéreau (Louis Garrel). É uma cena sintomática de uma obra que nos imerge em experiências supostamente reais, mas que nos coloca numa posição quase passiva perante os incômodos que nos gera, seja intra ou extra diegeticamente. O filme parte das experiências autobiográficas da diretora Valeria Bruna Tedeschi para acompanhar este núcleo de jovens, que, além de Stella, inclui Étienne (Sofiane Bennacer), Àdele (Clara Bretheau), Victor (Vassili Schneider), Franck (Noham Edje), Anaïs (Léna Garrel) e vários outros. Nos seus melhores momentos, o filme captura o espírito livre, caótico e confuso destes jovens em meio ao tempo em que vivem (com a sombra da AIDS pairando sobre eles), à medida que eles são dirigidos por Chéreau na adaptação de Platonov, peça escrita por Anton Checkov quando ele tinha apenas 17 anos. Mas como o título em português indica, essa é muito mais uma história de amor e tragédia, entre Stella e Étienne, e é nisso que o filme peca e demonstra suas maiores fragilidades – e também contradições, as quais extrapolam a dimensão fílmica. Em novembro de 2022, o jornal Le Parisien publicou uma matéria onde várias mulheres acusavam Bennacer de abusos sexuais e físicos, o que levou à sua exclusão das premiações às quais o filme concorreu, enquanto vários cinemas cancelaram a exibição do longa. Tedeschi, que à época namorava Bennacer, foi acusada de criar um clima de silêncio no set para que não se falasse sobre os casos, e mais tarde confirmou que, embora tivesse consciência dos boatos em torno do ator, manteve sua escalação mesmo assim. Não sou simplista ao ponto de dizer que casos como esse demandam um boicote imediato ao filme (mesmo que a França tenha um histórico desfavorável de premiar agressores sexuais mesmo após as revelações dos casos de abuso e assédio), mas é muito difícil dissociar essa dimensão extrafílmica de Jovens Amantes da sua narrativa. Ao ver a performance de Bennacer – que faz de Étienne um personagem degradado, trágico, abusivo e que está sempre a gerar desconforto nas pessoas ao seu redor –, é quase como se Tedeschi quisesse usar as acusações contra seu namorado ao favor do filme, mas quando se tem ciência do que estava acontecendo nos bastidores e no mundo real, tudo o que se tem é uma sensação incômoda de pouca ou nenhuma empatia pelas vítimas, quase como se o filme fizesse piada da situação, como nítido em várias sequências em que os risos dos personagens se contrapõem à brutalidade dos momentos ali vividos, sejam reais ou encenados. Divulgação Não ajuda que o contexto em que esses personagens vivem é de constantes abusos (como o de Chéreau contra outro personagem) “legitimados” em nome da arte, mas que numa realidade pós-Me Too, ganham uma roupagem evasiva e covarde por parte de Tedeschi. Se o intuito da diretora é apresentar um retrato cru deste tipo de ambiente, isso pouco fica evidente: a imagem granulada, os closes nos rostos dos atores, a seleção de músicas pop em momentos específicos, tudo aponta para uma certa estilização saudosista desse momento da sua vida, independentemente do quão é real ou ficcional, quase como se devêssemos naturalizar essas rotinas de abusos como ela fez. É no carisma e na força do elenco que o filme se sobressai e ganha alguma vida. As interações, camaradagens e tensões entre os jovens, que ganham pelo menos um ou outro momento para brilhar (em especial, Bretheau foi para mim a grande revelação aqui), bem como a presença de veteranos como Garrel e Mischa Lescot, ajudam a trazer vivacidade para o filme mesmo quando este se assume burguês demais. Infelizmente, sua demasiada ênfase num romance cujo fim já sabemos de antemão e a sombra dos seus escândalos – da qual o filme nunca consegue, se é que quer, escapar – prejudicam e muito a possibilidade de nos conectarmos às memórias e experiências de Tedeschi. Nota: 2.5/5
- Crítica | M3GAN 2.0
Mesmo divertido, longa se estrutura em cima de um roteiro pró-IA indefensável e caótico. Divulgação Dois anos após M3GAN, uma maravilha da inteligência artificial, se tornar desonesta e embarcar em uma fúria assassina (impecavelmente coreografada) que provocou a sua destruição, a criadora de M3GAN, Gemma (Allison Williams), tornou-se uma autora de grande prestígio e defensora da supervisão governamental da IA. Mas a sobrinha de Gemma, Cady (Violet McGraw), agora uma adolescente de 14 anos, rebelou-se contra as regras superprotetoras de Gemma. Chega a ser vexatório ver que a mesma Hollywood (ou boa parte dela) que passou meses em greve brigando pelos direitos dos artistas e profissionais que estavam perdendo espaço para trabalhos porcos de IA agora apresente tanto filme tentando empurrar inteligência artificial goela à baixo. Se um dia a romantização de uma forma de mente pensante inorgânica era motivo de filmes encantadores e reflexivos sobre as possibilidades de um futuro distante e cheio de oportunidades impensáveis para novas formas do homem viver sua vida com qualidade, hoje, com a realidade bizarra de desdobrando perante nossos olhos, o tema parece não ter força nem espaço para idealizações poéticas. A trama aqui gira em torno do conflito hipotético e infantilizado entre uma IA do bem e uma IA do mal. E em meio a uma confusão de personagens desinteressantes, sequências de luta, suspense sofrido e argumentos rasos para defender essa briga, o filme se sai bem em um ou dois momentos de humor que quebram o emaranhado de abordagens ruins sobre a pauta, em especial o vergonhoso discurso final que prega uma coexistência harmônica entre humanos e robôs. Mas até mesmo os momentos engraçados esquecem a hora de parar e se prolongam por segundos preciosos desgastados que fazem a piada perder a graça, como uma cena específica que toca uma canção da Kate Bush. Divulgação M3GAN 2.0 é em tudo mais exagerado do que o primeiro, e muitas das escolhas narrativas repetidas ficam pelo meio do caminho, como uma nova versão da cena de dança, por exemplo, que nessa segunda vez já não tem graça nem impacto. O terceiro ato quase todo busca se sustentar em cima de reviravoltas que não impressionam por terem sido apresentadas quando o filme já expôs quase todos os recursos alegóricos e textuais possíveis para os gêneros trabalhados. É uma bagunça que diverte sim em alguns momentos, mas que passa o tempo todo mediando situações antagônicas sem tomar partido, e quando resolve se posicionar joga contra tudo que serviu de motivação para o argumento, de forma covarde e sem qualquer personalidade, afinal, a tecnologia sempre vence, sempre muda, sempre evolui e merece todo perdão dos humanos malvados que não ensinaram direito as IAs direito como a vida funciona. Cafona. Nota: 2,5/5












