top of page

Resultados de busca

Buscar neste site

1408 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Crítica | Foi Apenas um Acidente (Mostra de SP 2025)

    Jafar Panahi explora sua complicada relação com seu país natal num dos filmes mais importantes do ano Foto: Reprodução Grande vencedor da Palma de Ouro em Cannes neste ano, Foi Apenas um Acidente é o tipo de obra que já nasceu emblemática antes mesmo de se assisti-la. Feito após a última detenção de seu diretor, Jafar Panahi – apenas a mais recente de uma série de prisões que marcam sua complexa relação com o governo iraniano –, o filme foi gravado em segredo, sem a permissão do governo. A natureza subversiva da sua produção se estende para a sua narrativa, que aborda um grupo de ex-prisioneiros políticos que se veem às voltas com a decisão de se vingarem ou não de seu torturador quando o reencontram. É difícil não traçar paralelos entre a situação vivida pelos personagens e o(s) próprio(s) período(s) que Panahi passou na prisão. Um dos grandes debates trazidos no filme é até que ponto se deve responsabilizar o indivíduo ou todo um sistema que forja esses indivíduos. O grupo de protagonistas é unido a partir do trauma comum, revelado em poderosos e contundentes monólogos, mesmo quando mais didáticos. Panahi não tem intenção de ser sutil e, ao passo em que essa falta de sutileza faz do longa desavergonhadamente agressivo em sua crítica, também dilui um tanto do impacto da narrativa, quando os sentimentos e debates são reduzidos apenas ao que sai da boca dos personagens. Foto: Reprodução O diretor é muito mais eficaz na construção de uma atmosfera crua e também um bocado imprevisível, saltando entre essa espécie de thriller “neorrealista” e uma comédia de erros, como quando os personagens acabam se vendo forçados a ajudar a esposa e filha do torturador. Os instantes de humor, mesmo que não tão frequentes dentro da obra, servem de respiro quando o clima se revela pesado demais, mas Panahi também não se acanha de nos acertar com socos no estômago quando necessário. O melhor exemplo disso é a sequência final, mais de 10 minutos de um plano-sequência onde vítimas e algoz enfim se digladiam. É nesse momento que o texto de Panahi alcança o brilhantismo, justamente pela maneira como é articulado com sua direção (a ausência de cortes, o banho de luz vermelha promovido pela fotografia, as performances dos atores), rendendo um daqueles finais que ficam na sua cabeça por muito tempo. Como se não bastasse, ainda temos um epílogo onde a estaticidade do plano mais um trabalho simples de som rendem uma última cena ambígua e poderosa, que eleva ainda mais o filme. É assim que Foi Apenas um Acidente expõe toda a sua força, constituindo-se como um exemplar do cinema inegavelmente político de Panahi e um testemunho da habilidade do diretor de meter o dedo nas feridas do seu país – e até de si próprio. Que as condições adversas que o Irã impôs a ele e vários de seus colegas tenham feito florescer um dos cinemas mais importantes e criativos do mundo é prova de como a arte, em sua essência política, pode impactar e desnudar a nossa realidade. Nota: 4/5

  • Crítica | Virtuosas (Mostra de SP 2025)

    Filme faz acanhada mescla de gêneros para satirizar o conservadorismo feminino Foto: Reprodução Na esteira de produções que miram na sátira para debater e problematizar os maiores absurdos vividos na nossa realidade contemporânea, Virtuosas, de Cíntia Domit Bittar, mira no movimento do conservadorismo feminino através das lentes da sátira e do horror. Na história, um retiro VIP para mulheres em busca de sua melhor versão se transforma em uma jornada absurda e perigosa. É difícil não associar a premissa da obra a algumas mais recentes que apostam no desconforto de um personagem inserido em um ambiente no qual está claramente deslocado, seja Corra! ou Pisque Duas Vezes. Aqui, a protagonista Germina (Maria Galant) é inicialmente apresentada como uma personagem disposta a tudo para estar nesse retiro VIP organizado por Virginia (Bruna Linzmeyer), mas aqui e ali se veem gradativas fissuras que sugerem que ela talvez não seja quem diga ser. Mas talvez ninguém ali seja, a começar pela própria Virginia. A performance de Linzmeyer é um dos pontos fortes do filme, construída em cima de uma ambiguidade e frieza que escondem as suas reais motivações, as quais certamente estão longe de serem nobres ou cristãs. Quem também rouba a cena é Juliana Lourenção na pele de uma mãe e esposa de deputado que se torna o alvo principal de Virginia, e ver a maneira como a atriz transmite progressivamente o descontrole da sua personagem é um dos fatores que sustentam a obra. Foto: Reprodução A direção de Cíntia Domit Bittar é eficaz em usar de elementos da iconografia do horror (o extracampo, o trabalho de som, as sombras) para causar um desconforto crescente na maneira como estas mulheres interagem entre si. É curioso perceber, porém, como esse desconforto se dá muito mais pela encenação do que pelo texto de Bittar, que não se furta a cair em certos lugares-comuns no que tange esse universo, seja nos chavões bíblicos ou nos discursos coach. Rende algumas boas risadas, mas volta ao problema que citei nas minhas críticas de Eddington e Bugonia, como obras situadas nessa leva de sátiras que se contentam apenas em trazer de maneira quase ipsis litteris o absurdo da realidade para as telas. Diferentemente destes filmes, porém, onde se via as amarras serem soltas nas suas retas finais, aqui Bittar acaba segurando as rédeas por tempo demais. Embora na apresentação do filme ela o tenha classificado como horror, é justo dizer que ele é em torno de 80% sátira e 20% horror, apenas abraçando plenamente este último nos minutos finais, com um encerramento um tanto abrupto que nos faz desejar uma resolução mais desenvolvida. Apesar disso, Virtuosas está longe de ser um desastre na maneira com a qual retrata mulheres conservadoras e as maneiras pelas quais foram cooptadas e estão enredadas em um projeto de poder (inclusive por outras mulheres). Não fosse a obviedade com a qual muitas vezes elabora seu discurso e a certa timidez com a qual abraça o horror, poderia ser uma sátira mais memorável, mas acaba sendo mais uma obra de uma safra cada vez mais saturada. Nota: 2.5/5

  • Crítica | Pai Mãe Irmã Irmão (Mostra de SP 2025)

    Jim Jarmusch explora as distâncias emocionais nas relações familiares Foto: Reprodução Em certo momento de Pai Mãe Irmã Irmão, ao final da primeira das três histórias que compõem o filme, Jeff (Adam Driver) diz a sua irmã (Mayim Bialik): “podemos escolher nossos amigos, mas não nossa família”. Ele afirma estar se referindo ao pai de ambos (Tom Waits), com o qual dificilmente possuem algum vínculo emocional, mas a frase também se aplica aos dois, que não conseguem esconder o quão parecem estranhos um para o outro. Por pelo menos dois terços da sua duração, Pai Mãe Irmã Irmão enfoca famílias cujos membros se veem emocionalmente distantes uns dos outros, ainda que estejam fisicamente perto (ou às vezes nem isso). O diretor Jim Jarmusch, um dos nomes mais proeminentes do cinema independente estadunidense, promove reuniões marcadas pela frieza, palavras vazias e vagas, desconfortos tão palpáveis que certamente ecoarão em quem vem de ambientes familiares assim constituídos. Sejam estes filhos com seu pai na primeira história, ou as filhas (Cate Blanchett e Vicky Krieps) lidando com a falta de afeto da mãe autoritária (Charlotte Rampling) na segunda, os laços que unem esses personagens são mais nominais do que efetivamente reais. O diretor constrói algumas rimas temáticas e visuais (as cores em comum nas roupas, as presenças dos skatistas, os trajetos dentro de carro, os planos zenitais) que ajudam a “costurar” as três histórias independentemente de onde se passam – EUA, Irlanda ou França. No entanto, por mais que aposte nesse elemento de desconforto (com uma certa dose de humor), o filme não sai muito além desse lugar, nos fazendo perguntar exatamente o que há para além dessas relações familiares disfuncionais, ao ponto das rimas tornarem essas duas histórias iniciais um tanto parecidas entre si. Foto: Reprodução Talvez por isso minha história favorita seja a terceira, que se distingue das outras duas ao apostar no laço amoroso entre os irmãos gêmeos Skye (Indya Moore) e Billy (Luka Sabbat) enquanto lidam com o luto pela perda dos pais. Curioso que num filme em que temos atrizes e atores do porte de Blanchett, Driver, Rampling e Krieps, talvez seja Moore quem se destaque ao fazer essa figura enlutada pelos pais, mas ainda assim se permitindo viver enquanto acessa belas e dolorosas memórias ao lado do irmão. É um passo além que Jarmusch dá, assegurando também que o que vejamos neste último ato não seja uma mera repetição do que foi visto nos outros núcleos. Pai Mãe Irmã Irmão oferece esse simpático retrato do que é ser família, sem romantizá-la ou também vilanizá-la. Nada muito excepcional, mas feito com a competência habitual de um veterano e também ancorado num elenco muito seguro e entrosado (ainda que a ideia, pelo menos nas duas histórias iniciais, seja justamente a falta de entrosamento). Quer amemos ou não a nossa família, há algo para se identificar aqui, e talvez nisso o filme se dê por satisfeito. Nota: 3/5

  • "Um Western aos moldes do Brasil": Agatha Moreira protagoniza novo filme de Ruy Guerra, com exibição no Festival do Rio nesta semana

    Longa escrito por Ruy Guerra e dirigido por Diogo Oliveira chega ao festival após estreia no Festival de Brasília, com sessões no Rio de Janeiro. Imagem: Divulgação Tempo à Faca, história original de Ruy Guerra dirigida por Diogo Oliveira e produzida pela Têm Dendê Produções, chega ao Festival do Rio com sessão confirmada no dia 09 de outubro no Estação Gávea. Iniciando sua trajetória em festivais, o longa estreou no Festival de Cinema de Brasília, com exibição no último 15 de setembro. Ele foi rodado em Juazeiro (BA) e Petrolina (PE) e reúne no elenco nomes como Agatha Moreira, Uiliana Lima, Irandhir Santos, Vertin Moura e Marcelo Flores. Ambientado no sertão nordestino, o longa acompanha duas histórias atravessadas por questões como honra, desejo, vingança e destino. Uma delas é protagonizada por Neta (Agatha Moreira), que percorre as estradas em busca de vingança enquanto se vê diante da possibilidade de mudar seu caminho ao lado de Solange (Uiliana Lima). A outra acompanha o velho jagunço Deodato Cruz (Júlio Adrião), que retorna ao povoado onde nasceu para cumprir uma promessa feita à esposa antes de morrer. “Nessas duas histórias que questionam o destino, o desejo, e a honra, Ruy e Diogo Oliveira nos convidam a mergulhar em nós mesmos e em como o tempo é sempre a mola que impulsiona ou estaciona a jornada. Torcer pela mudança ou pelo destino predeterminado dos personagens é o convite deste filme, que tem como gênero um western feito aos moldes do Brasil, um ‘Nordestern’, que bebe na fonte do Cinema Novo, do próprio Ruy Guerra, sendo reinventado pelo olhar contemporâneo de Diogo Oliveira, um diretor que trabalhou boa parte da sua carreira ao lado de Ruy”, explica a produtora executiva Vânia Lima. O projeto marca o reencontro da Têm Dendê com o consagrado diretor Ruy Guerra, que nasceu em Moçambique e está radicado no Brasil desde 1958. Foi aqui que ele dirigiu seu primeiro filme, “Os Cafajestes”, em 1962, e se destacou como um dos principais nomes do Cinema Novo. Em 2014, ele dirigiu o curta “Dia de Cão”, junto à produtora baiana, e, a seguir, em 2017, a série “Gravador de Histórias”. Guerra é um dos cineastas mais premiados do Brasil, tanto em solo nacional quanto internacional. Alemanha, França, Estados Unidos e Rússia são alguns dos países que já concederam prêmios de reconhecimento às suas obras. O roteiro é assinado por Ruy Guerra e Diogo Oliveira, com colaboração de Bruno Laette. O filme é distribuído pela Lança Filmes. Dividindo a criação do universo com Guerra, Diogo assume a direção no set. Diretor e roteirista, tem seu longa de estreia em uma biografia sobre Ruy Guerra, “O Homem que matou John Wayne”. Em parceria também com Guerra, ele roteirizou o filme “Quase Memória”. Com a Têm Dendê, é diretor que integra as duas temporadas da série “Memórias do Brasil”. “O convite para dividir a criação deste universo, e, a seguir, assumir a direção do projeto no set, me deixou feliz e com a responsabilidade de construir a partir dos elementos que trabalhamos eu e Ruy durante o processo de desenvolvimento do projeto”, explica o diretor Diogo Oliveira. O grupo Têm Dendê desenvolve conteúdos originais, produz e comercializa filmes, séries e projetos audiovisuais com foco em narrativas diversas, descentralizadas e com novos olhares sobre o Brasil. Com mais de 50 títulos produzidos e entregues ao mercado nacional, Dinamarca, Costa Rica, Panamá e EUA, o grupo performa entre as empresas de conteúdo mais bem pontuadas do Brasil. Com distribuição da Lança Filmes, o novo longa integra o catálogo de uma das principais distribuidoras do Sul do país. Sediada no Rio Grande do Sul, a Lança atua na difusão de obras que provocam, emocionam e expandem os horizontes do público. Com mais de 30 estreias de longas-metragens nos cinemas, a empresa trabalha também com conteúdos para diferentes janelas, como televisão e plataformas digitais, acompanhando os projetos desde a fase inicial até sua chegada ao público. Entre seus títulos mais recentes estão Os Dragões, A Primeira Morte de Joana, O Mestre da Fumaça e A Colmeia. O filme Tempo à Faca foi contemplado pelo edital Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Cinema Brasileiro (PRODECINE 02 - 2016), gerido pela Ancine (Agência Nacional do Cinema) com recursos do FSA e Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul - BRDE. O PRODECINE é um recurso financeiro que impulsiona a produção de filmes, contribuindo para a diversidade e a qualidade do cinema nacional. O longa também conta investimento do BB Gestão de Recursos DTVM S/A (BB DTVM) com o edital CAV 2019.

  • 'Ao Sabor das Cinzas', de Taciano Valério, ganha trailer oficial

    Exibido na Mostra Olhos Livres na 29° Mostra de Cinema de Tiradentes, filme percorre o Agreste pernambucano em uma narrativa sobre família, memória e luto. Imagem: Divulgação 'Ao Sabor das Cinzas', novo longa-metragem do cineasta pernambucano Taciano Valério, acaba de ganhar trailer oficial. O filme chega aos cinemas brasileiros em 22 de outubro, com distribuição da Embaúba Filmes. Exibido na Mostra Olhos Livres da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, o longa combina drama familiar, suspense e realismo fantástico em uma história sobre luto, memória e os vínculos que permanecem mesmo depois da morte. Na trama, Bethânia (Verônica Cavalcanti) e Laura (Maria Lima) são duas irmãs que não se entendem e precisam se reencontrar após a morte do pai, Seu Lauro (Everaldo Pontes). O que deveria ser apenas um encontro familiar marcado pelo luto ganha contornos inesperados quando as duas descobrem que o corpo do pai desapareceu do necrotério do hospital. A busca por Seu Lauro conduz as irmãs por uma viagem pelo agreste pernambucano, transformando a paisagem e as estradas em parte fundamental da narrativa. Entre deslocamentos, lembranças e segredos familiares, a jornada assume a forma de um road movie atravessado pelo mistério e por acontecimentos que desafiam as fronteiras entre realidade e fantasia. Em paralelo, Isadora (Isadora Gibson), filha de Bethânia, produz vídeos sobre os segredos da própria família. Por meio das imagens, diferentes tempos e perspectivas se misturam, colocando em questão as memórias compartilhadas e aquilo que cada personagem escolhe revelar ou esconder. O filme se constrói entre realidade e fantasia, fazendo do luto também uma investigação sobre os vínculos familiares, as heranças deixadas entre gerações e aquilo que permanece mesmo depois da morte. Com roteiro assinado por Taciano Valério, Vanderson Santos e Carla Francine, o filme tem produção da Autorias Filmes, em coprodução com a Casa de Cinema de Olinda. O elenco reúne Everaldo Pontes, Verônica Cavalcanti, Maria Lima, Isadora Gibson, Bruno Goya, Geyson Luiz, Buda Lira, Rizonir Silva, Guilherme Milleron, Rita Assis, Rosberg Adonay, Clécio Vila Nova, Adélio Lima, Aretha Luna e Maria das Nuvens. Ao Sabor Das Cinzas estreia nos cinemas em 22 de outubro.

  • Oxente Pipoca anuncia os homenageados da 1ª edição do Prêmio Arara do Audiovisual Brasileiro

    Os destaques que marcaram o ano no cinema brasileiro, incluindo O Agente Secreto, Oeste Outra Vez e A Natureza das Coisas Invisíveis Após 6 anos celebrando o melhor do cinema brasileiro em todas as suas frentes, o Oxente Pipoca lança oficialmente o Prêmio Arara do Audiovisual Brasileiro – uma homenagem a nomes que se destacaram ao longo do ano e ajudaram a reafirmar a diversidade do nosso audiovisual. Selecionados pela equipe editorial do Oxente Pipoca, os primeiros homenageados formam um grupo único de vozes, trajetórias e obras que seguem ecoando para além do agora. São escolhas que refletem não apenas excelência artística, mas também impacto cultural e capacidade de diálogo com diferentes públicos e contextos do país. Ao longo de sua trajetória, o Oxente Pipoca se consolidou como um espaço de reflexão, crítica e valorização do cinema nacional, acompanhando de perto lançamentos, festivais, premiações e trajetórias de realizadores de diferentes regiões. O Prêmio Arara surge, assim, como um desdobramento natural desse trabalho, ampliando o olhar do projeto para além da cobertura e assumindo também um papel ativo de reconhecimento. “O nome Prêmio Arara do Audiovisual Brasileiro carrega um aceno sutil às origens do Oxente Pipoca em Aracaju (Arara + Caju), cidade onde o projeto foi criado. O prêmio-homenagem nasce a partir de um olhar local, mas que quer se articular em escala nacional, acompanhando a diversidade e o alcance do nosso audiovisual”, disse Rafael Carvalho, editor-chefe do Oxente Pipoca. Mais do que um retrato de um único ano, esta primeira edição do Prêmio Arara se propõe como um gesto de reconhecimento: uma seleção que aponta para a pluralidade do cinema brasileiro contemporâneo e para os caminhos que ele continua indo. Quanto às regras, buscamos estabelecer uma homenagem por filme, valorizando a diversidade de obras ao longo da seleção e ampliando o conjunto de títulos reconhecidos. A única exceção foi a categoria de Melhor Filme, pensada para permitir repetições quando necessário, e a Vanguarda, que não exige vinculação a um projeto específico. Além disso, apenas longas-metragens com lançamento comercial nos cinemas brasileiros a partir de 1º de janeiro foram elegíveis. Produções exibidas exclusivamente em festivais, sem estreia comercial oficial, ficaram fora da seleção. A seguir, o Oxente Pipoca apresenta os homenageados do Prêmio Arara do Audiovisual Brasileiro 2025: Prêmio Vanguarda: Antônio Pitanga Escolhemos Antônio Pitanga como homenageado por sua trajetória singular e contínua reinvenção artística que atravessa mais de seis décadas de história do cinema nacional. Pitanga é um dos principais nomes do Cinema Novo e uma das maiores referências no audiovisual brasileiro, acumula mais de 70 filmes e atuações que marcaram épocas e influenciaram gerações, participando de obras fundamentais como Barravento e Ganga Zumba, além de protagonizar e dirigir filmes que exploram a identidade e a ancestralidade afro-brasileira. Recentemente, ele retornou à direção com o longa Malês (2025), revivendo um capítulo histórico da resistência negra no Brasil. Em 2025 também esteve presente no premiado Oeste Outra Vez, de Erico Rassi, e no drama Margeado, de Diego Zon. A escolha de Pitanga reflete nossa valorização de um artista que não apenas ajudou a moldar o cinema brasileiro, mas que segue vanguardista ao conectar memórias, lutas e narrativas contemporâneas com força e sensibilidade. Melhor Filme: Oeste Outra Vez Érico Rassi já havia demonstrado seu olhar atento para retratar masculinidades decadentes dentro dos códigos do faroeste em seu primeiro longa "Comeback". Mas "Oeste Outra Vez" marca um inegável salto em sua filmografia ao opor os personagens de Ângelo Antônio e Babu numa narrativa onde a ausência de figuras femininas apenas amplia a violência e solidão destes homens, que tentam a todo custo justificar as lacunas em suas almas. Engraçado e tenso em igual medida, o filme captura muito da iconografia e do legado do faroeste para transportá-lo e subvertê-lo em meio às paisagens de um Goiás profundo e ermo, marcando também a ascensão do estado como um grande polo do audiovisual brasileiro para os próximos anos. Melhor Direção: Kleber Mendonça Filho (O Agente Secreto) O cinema de Kleber Mendonça Filho é profundamente atmosférico em suas escolhas, e "O Agente Secreto" pode ser o aperfeiçoamento desta sua marca autoral, onde, ainda que sequer ouçamos a palavra "ditadura" ser mencionada nesta Recife dos anos 70, sentimos constantemente o espírito opressivo e violento que paira sobre a cidade e os personagens. As características do diretor - dentre elas suas referências ao cinema maneirista de DePalma e colegas - seguem firmes e fortes, e até refinadas em alguns casos, e mesmo aqueles incomodados pelas escolhas narrativas do filme devem reconhecer que Mendonça Filho alcançou um nível de maturidade que coloca sua filmografia no panteão do nosso cinema, assumindo uma identidade inegavelmente local e nordestina mesmo quando seu apelo se torna cada vez mais global. Melhor Roteiro: A Natureza das Coisas Invisíveis (Rafaela Camelo) Poucos temas receberam abordagens tão plurais no cinema quanto a morte, e ainda assim encontramos obras que trazem uma perspectiva tão fresca e singular que só nos resta o encantamento pelo que vemos em tela. Em "A Natureza das Coisas Invisíveis", Rafaela Camela discute a morte pela ótica infantil, e seu texto é marcado por uma sutileza e delicadeza que traduz brilhantemente como uma criança pode entender e vivenciar a morte e o luto. Essa delicadeza se estende aos diversos outros campos - a relação das protagonistas com suas mães, uma revelação sobre uma delas, o mergulho em um certo realismo mágico e em elementos espirituais que super se coadunam com a temática principal -, possibilitando que o filme encontre um equilíbrio raro entre os tabus que cercam a morte e a ingenuidade que permeia o olhar fílmico de Camelo tanto no campo formal e narrativo, nos inserindo na perspectiva dessas meninas e permanecendo fiel a esse perspectiva até o fim. Melhor Curta-Metragem - Empate: O Céu Não Sabe Meu Nome (Carol Aó) Carol Aó une ancestralidade, naturalismo, teor social, memória, antológico e metafísico num filme poético e quase documental. O Céu Não Sabe Meu Nome é uma experiência sinestésica e objetiva sobre pertencimento: físico, emocional e espiritual; sobre coletividade, sobre a fluidez da vida e sobre fé. Tudo isso montado de forma cirúrgica e muito bem desenhado com o auxílio de uma direção de arte rica. Seus breves 20 minutos se expandem com força e magnitude e parecem projetar o trabalho para fora da tela. Melhor Curta-Metragem - Empate: Ataques Psicotrônicos (Calebe Lopes) Em meio à tradição do realismo social presente no nosso cinema, fazer uma obra de gênero incorre em diversos desafios. Felizmente, Calebe Lopes supera esses desafios com facilidade ao construir em "Ataques Psicotrônicos" um filme que jamais nega as suas referências - "Eraserhead", "Tetsuo - O Homem de Ferro", o body horror do cinema de David Cronemberg - mas que não se acanha em "antropofagizá-las" para construir uma obra com a qual nos identificamos facilmente por causa dos nossos contextos socioculturais e brasileiros. A atmosfera de paranoia, dúvida e opressão que permeia os poucos mais de 20 minutos do filme servem bem a uma narrativa que se volta para as experiências traumáticas de viver no meio evangélico brasileiro, tudo isso em meio a uma mise-en-scéne que reflete o amadurecimento de Calebe e seu potencial para ser uma das figuras mais notáveis do cinema de gênero do nosso país. Melhor Atriz: Shirley Cruz (A Melhor Mãe do Mundo) Shirley Cruz é o corpo e a alma de A Melhor Mãe do Mundo. Ela é a âncora visceral que amarra todos as nuances do longa mesmo quando ele patina entre tons que não chegam a dialogar diretamente entre si. É impossível desviar o olhar da força, da bravura, da verdade e da qualidade do desempenho da atriz. Entregando uma força no olhar arrebatadora e capaz de expressar tanta verdade quanto as palavras verbalizadas ditas nos diálogos, a atuação de Shirley permanece por muito após os créditos finais. Melhor Ator: Jesuíta Barbosa (Homem com H) Sim, Jesuíta Barbosa não é fisicamente semelhante a Ney Matogrosso, mas chega uma hora em "Homem com H" que nos esquecemos disso, tão assombrosa é a maneira como o ator incorpora o músico, abraçando todo o seu lado animalesco, performático, histriônico e expansivo. É sobre fisicalidade e sobre usar o corpo como um próprio instrumento, e o mérito de Jesuíta é capturar a maneira pela qual Ney fez (e faz) isso dentro e fora dos palcos. O mais impressionante disso tudo é que ele ainda faz parecer fácil, algo que só um grande ator seria capaz. Melhor Atriz Coadjuvante: Gilda Nomacce (Prédio Vazio) Desde a estreia no curta Um Ramo (2007), Gilda Nomacce construiu uma das carreiras mais prolíficas e ricas do cinema brasileiro contemporâneo, transitando com naturalidade entre o terror e o drama, sempre marcada por grande entrega física e emocional. Com mais de uma centena de obras e dezenas de curtas no currículo, tornou-se musa de uma geração de jovens cineastas justamente por essa disponibilidade radical ao risco. Em Prédio Vazio, de Rodrigo Aragão, Nomacce condensa essa trajetória em uma atuação que sustenta o terror urbano do filme não apenas pelo susto, mas pela atmosfera: sua personagem encarna o mal-estar cotidiano, o medo que nasce do espaço e da solidão, transformando o edifício em um organismo vivo. Mais do que um exercício de gênero, sua performance reafirma a força de uma atriz que entende o horror como experiência humana, íntima, social e profundamente contemporânea. Melhor Ator Coadjuvante: Elenco de Oeste Outra Vez Em um filme marcado pelas ausências femininas e dominado por figuras masculinas, era fundamental um elenco masculino à altura da tarefa de interpretar homens quebrados, movidos por suas naturezas violentas e, ainda assim, patéticas, abraçando um certo humor perverso e cínico que rege o texto de Érico Rassi. Felizmente, Ângelo Antônio, Babu, Rodger Rogério, Daniel Porpino, Adanilo e Antônio Pitanga mais do que dão conta do recado, oferecendo diversas perspectivas do que é ser homem ao passo em que são unidos (ou divididos) por aquilo que têm de comum. Certos nomes podem se destacar mais que outros (impossível não se deslumbrar com a facilidade com a qual Rodger Rogério rouba a cena), mas a sinergia do elenco mais do que justifica esse prêmio coletivo. Melhor Ator Revelação: Isaac Amendoim (Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa) Isaac Amendoim (Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa): A grande alma do filme está em Isaac Amendoim, que entrega um Chico Bento capaz de transbordar os sentimentos mais genuínos que sempre habitaram os quadrinhos da Turma da Mônica. Há algo de profundamente verdadeiro na sua interpretação, que respeita a essência do personagem ao mesmo tempo em que a expande para o cinema com naturalidade e sensibilidade. Como dito em nossa crítica, o humor inocente que ele "deposita no personagem, a energia caótica típica de suas ações e até mesmo uma tremenda dose de sensibilidade são marcas de um talento em ascensão". Isaac é, sem dúvida, a própria definição de revelação, ainda mais impressionante por sustentar com tanta segurança um papel dessa magnitude. Melhor Atriz Revelação: Jamilli Correa (Manas) O potencial de Jamilli é imenso. Em Manas, ela constrói uma atuação silenciosa, mas ao mesmo tempo grandiosa, que foge do óbvio e faz o filme escapar da cartilha mais comum do gênero. É justamente nessa contenção cheia de força que o longa encontra parte da sua identidade e se afirma como um dos grandes dramas do cinema brasileiro de 2025. Cercada por um elenco repleto de nomes fortes, Correa se apoia nessa troca para crescer em cena e entregar exatamente o que o filme de Marianna Brennand exige: uma sensibilidade sem igual, capaz de fazer esse tema tão urgente ressoar em todo o mundo. Melhor Filme de Comédia: O Melhor Amigo Comédia romântica, queer, musical, nordestina e tropical. Qual outro filme nacional contempla essas características? O Melhor Amigo já nasceu clássico por levantar suas bandeiras sem deixar de lado a diversão, e o entretenimento do espectador. Com as cores vibrantes do litoral cearense refletindo a intensidade, o tesão e o delírio febril dos romances tórridos de seus personagens, o longa-metragem de Allan Deberton não tem receio de exagerar nem de se curtir, e faz tudo isso com qualidade visual. Melhor Documentário: Apolo (Tainá Müller e Isis Broken) A trajetória de Ísis Broken, Lourenzo Gabriel e do pequeno Apolo se constrói em meio a uma luta cotidiana por direitos básicos. Apolo carrega em seu cerne a busca por dignidade, arte e afeto, fazendo com que essa experiência ressoe no espectador de maneira singular e profundamente sensível. Ambientado no contexto da pandemia da Covid-19, o filme acompanha Lourenzo e a sergipana Ísis Broken ao narrar os desafios enfrentados durante uma gestação trans no Brasil contemporâneo. O que poderia se limitar a um relato íntimo se expande e ganha força, transcendendo o pessoal para se afirmar como um potente manifesto sobre identidade, existência e resistência. Imperdível.

  • As melhores séries de 2025

    O que realmente se destacou entre tantas séries disponíveis em 2025 para parte da nossa equipe editorial Divulgação Com a variedade de serviços de streamings hoje em dia, não é novidade para ninguém que a quantidade de séries se multiplica cada vez mais, então é natural que haja tanta coisa mediana por aí. Ainda assim, entre estreias e retornos aguardados, surgem séries que conseguem se destacar de verdade. Diante dessas questões, fazer listas nunca é uma tarefa fácil, por isso, Filipe Chaves, Rafael Carvalho e Vinicius Oliveira resolveram trazer suas favoritas em listas individuais, ainda que com algumas semelhanças, para celebrar também visões diferentes. Para facilitar a vida do leitor, todas as séries vêm acompanhadas, entre parênteses, das plataformas de streaming em que podem ser assistidas. Então, vamos lá: as melhores séries de 2025 são... Divulgação Filipe Chaves Efeitos Colaterais, 1ª temporada (HBO Max) A animação mistura drama, suspense, ficção científica, comédia e te deixa na ponta do sofá durante os 10 episódios que contam a história de um homem que descobre um cogumelo super poderoso que pode mudar os rumos da indústria farmacêutica e da humanidade como um todo. Pssica (Netflix) Em quatro episódios, a minissérie trata de temas difíceis como tráfico sexual, vingança e o ciclo de violência de uma maneira crua, intensa e emocionante, quando a vida de três pessoas totalmente distintas se cruzam nos rios do Norte do Brasil. É um retrato de uma realidade pouco abordada ainda e a produção dá uma dramaticidade muito envolvente à narrativa, amparada pelas excelentes atuações do elenco principal. Slow Horses, 5ª temporada (Apple TV) Ainda que não seja a melhor temporada, é muito acima da média do que está no ar hoje em dia. Os pangarés continuam afiados dosando humor e suspense sem deixar de lado a política atual e dando os holofotes a personagens que ainda não tinham tido muito destaque. Ah sim, e ainda tem a melhor cena de morte do ano, ou pelo menos a mais inusitada. A Cadeira, 1ª temporada (HBO Max) Criada e estrelada por Tim Robinson, a série é totalmente fora da casinha. Usa bem aquele humor constrangedor estilo ‘The Office’, mas consegue ir além contando uma história sobre uma conspiração que envolve uma empresa de cadeiras. Surpreende no suspense e na comédia, porque não fazer ideia do que esperar é um dos pontos mais altos aqui. Tudo pode acontecer, inclusive nada. Morrendo por Sexo (Disney+) Michelle Williams vive de forma magistral uma mulher com câncer terminal e que nunca teve um orgasmo, mas agora quer ter. De início, o tom dramático e cômico demoram um pouco para se encontrarem, mas quando acontece, a minissérie atinge o clímax, com perdão do trocadilho, rs. O último episódio é o encontro perfeito disso e fecha com chave de ouro, sendo impossível segurar as lágrimas. Pablo e Luisão, 1ª temporada (Globoplay) Paulo Vieira usa de sua genialidade para contar histórias absurdamente reais de seu pai, Luisão (Ailton Graça), e do inseparável melhor amigo dele, Pablo (Otávio Muller). É hilária, identificável e ainda sobra espaço para emocionar. Além de Graça e Muller, ainda tem Dira Paes irretocável no papel de Lucimar, a matriarca da família. Facilmente uma das melhores comédias do ano e não poderia ser mais brasileira. Ruptura, 2ª temporada (Apple TV) Depois de uma longa espera, a aclamada série retornou e não decepcionou. Explorando mais os lados internos/externos dos protagonistas, respondendo mistérios e criando tantos outros, a temporada teve muito mais altos do que baixos e mais um fim de temporada épico, onde a ficção científica e o drama se unem magistralmente e te deixam querendo mais. Espero que não demore três anos de novo. Task, 1ª temporada (HBO Max) Sabendo que a série é do criador de ‘Mare of Easttown’, as expectativas já estavam altas e elas foram superadas. Acompanhando a vida de dois pais de família em lados opostos da lei, mas com tantas coisas em comum, a produção mostra que a forma de contar a história pode impactar muito mais do que simples reviravoltas. Emocionante e tensa, os protagonistas Mark Ruffalo e Tom Pelphrey têm algumas das melhores atuações do ano. Long Story Short, 1ª temporada (Netflix) Uma drama familiar em forma de animação do mesmo criador de ‘BoJack Horseman’ - a melhor série original da Netflix -, que conta a história dos Scwhooper indo e voltando no tempo, passando por eventos importantes e banais. Sem esquecer da comédia, a produção usa muito bem seu formato e emociona genuinamente abordando as relações parentais. Adolescência (Netflix) Para além de ser filmada em plano sequência, o que de fato impressiona à primeira vista, a história de um adolescente que comete um crime terrível e as consequências para ele e sua família é absolutamente devastadora. Não só pela temática de apelo social e extremamente atual, mas a forma como a narrativa explora os percalços do fato é brilhante e não foi à toa que se tornou um fenômeno mundial. The Pitt, 1ª temporada (HBO Max) A vencedora do Emmy de Melhor Série de Drama mereceu a estatueta, não só pela inegável qualidade, mas por mostrar que a televisão ainda pode abraçar a tradição e o novo e fazer algo realmente especial. Praticamente uma junção de clássicos como ‘Plantão Médico’ e ‘24 Horas’, a produção conseguiu ter identidade própria e se sobressair com uma narrativa honesta, tensa e que conseguiu emocionar organicamente, sem esquecer de desenvolver os maravilhosos personagens. E para mostrar que é TV de verdade, a 2ª temporada já estreia no próximo dia 8 de janeiro. Pluribus, 1ª temporada (Apple TV) Vince Gilligan, criador de ‘Breaking Bad’ e ‘Better Call Saul’, resolveu retornar às suas raízes da ficção científica de quanto foi roteirista de ‘Arquivo X’, mas sem perder a essência dramática. Protagonizada pela espetacular Rhea Seehorn na pele da hilariamente amarga escritora Carol Sturka, a série te prende logo no espetacular primeiro episódio, mas mostra que vai além dos mistérios abordando temáticas universais sobre luto, solidão e paixão, além de fomentar debates e teorias sobre o que está acontecendo, sempre te deixando louco pelo próximo episódio. Verdade Oculta, 1ª temporada (Disney+) Estrelada por um espectacular Ethan Hawke no papel de um jornalista investigativo que é viciado em se meter nos lugares mais perigosos para descobrir a verdade, a série criada por Sterlin Harjo - da espetacular ‘Reservation Dogs’ - dosa suspense, drama e comédia de uma maneira única, lembrando a excentricidade de ‘Twin Peaks’ e ‘Fargo’. Para além de toda a violência, o texto excelente faz cada episódio ser, acima de tudo, extremamente divertido. Não importa somente o final, mas a jornada é muito bem aproveitada, como deve ser em uma série de tv. O Ensaio, 2ª temporada (HBO Max) Nathan Fielder, você é um gênio! Não há outra palavra para definir o brilhantismo deste homem e desta temporada, onde ele quis simplesmente entender o porquê de aviões caírem e foi a fundo investigar a mente dos pilotos. Não é só o fator surpresa que importa, mas como Fielder apresenta cada vertente por onde ele quer seguir. É imprevisível e impressionante, um formato meio documental, mas absurdamente engraçado e emocionante de certa forma. É um ponto fora da curva na televisão atual e realmente não há nada igual. Andor, 2ª temporada (Disney+) Condensar quatro temporadas em apenas uma tinha tudo para dar errado, mas surtiu o efeito contrário e ‘Andor’ entrou para a história da televisão, indo além de ser apenas mais um spin off de ‘Star Wars’. Forte, emocionante, política e extremamente atual e relevante, contando sua história através de personagens muito bem construídos, com alguns dos melhores episódios não só do ano, mas da TV no geral. A tensão sendo construída gradualmente como nas melhores tramas de espionagem até atingir o ápice, sempre levantando debates e mexendo com os diversos sentimentos do telespectador, coroa esta como a melhor série do ano. Divulgação Rafael Carvalho: Alien: Earth, 1ª temporada (Disney+) A Cadeira, 1ª temporada (HBO Max) Adultos, 1ª temporada (Disney+) Pablo e Luisão, 1ª temporada (Globoplay) Natal dos Silva (Globoplay+ Canal Brasil) Slow Horses, 5ª temporada (Apple TV) A Diplomata, 3ª temporada (Netflix) Ruptura, 2ª temporada (Apple TV) Pluribus, 1ª temporada (Apple TV) Task, 1ª temporada (HBO Max) Andor, 2ª temporada (Disney+) O Ensaio, 2ª temporada (HBO Max) Hacks, 4ª temporada (HBO Max) Verdade Oculta, 1ª temporada (Disney+) The Pitt, 1ª temporada (HBO Max) Divulgação Vinícius Oliveira: Mythic Quest, 4ª temporada (Apple TV) A Roda do Tempo, 3ª temporada (Prime Video) Dark Winds, 3ª temporada (Netflix) The White Lotus, 3ª temporada (HBO Max) Slow Horses, 5ª temporada (Apple TV) A Diplomata, 3ª temporada (Netflix) Ruptura, 2ª temporada (Apple TV) Alien: Earth, 1ª temporada (Disney+) Pluribus, 1ª temporada (Apple TV) Verdade Oculta, 1ª temporada (Disney+) The Bear, 4ª temporada (Disney+) The Pitt, 1ª temporada (HBO Max) Hacks, 4ª temporada (HBO Max) O Ensaio, 2ª temporada (HBO Max) Andor, 2ª temporada (Disney+) E para você? Quais as melhores séries de 2025?

  • Os Melhores Filmes Brasileiros de 2025

    De um faroeste goiano a um musical cearense, passando por uma espionagem pernambucana, 2025 se desenhou como um dos anos mais fortes do cinema nacional recente Divulgação Estamos vivendo o melhor momento recente do cinema nacional? Em 2025, o cinema brasileiro entregou de tudo um pouco: dramas intensos, faroestes à brasileira, cinebiografias, musicais nordestinos, narrativas LGBTQIAPN+ e tantas outras histórias originais. O mais importante? Tudo isso sem jamais perder o seu tempero. A partir desse cenário, o Oxente Pipoca preparou a lista dos melhores filmes nacionais lançados em 2025. A regra foi simples e objetiva: apenas longas-metragens com lançamento comercial nos cinemas brasileiros a partir de 1º de janeiro entraram na seleção. Produções exibidas exclusivamente em festivais, sem estreia oficial, ficaram de fora. A lista não segue uma ordem de ranking - os títulos estão dispostos de forma totalmente aleatória. Lembrando que em dezembro anunciamos os vencedores da 1ª edição do Prêmio Arara do Audiovisual Brasileiro, uma realização Oxente Pipoca, que celebra os melhores filmes do ano. Não deixem de conferir! Dito isso, vamos ao que interessa: os melhores longas brasileiros lançados em 2025 foram... Oeste Outra Vez Dir. Erico Rassi Divulgação “O texto de Rassi também brinca com um humor duro e quase involuntário existente entre seus personagens mal resolvidos, uma ironia presente na eterna e cordial guerra fria de egos rivais almejando a mesma meta: uma dignidade que só existe no plano das ideias. Interessante é ver também como aqueles homens trabalham sua codependência no trabalho e na socialização, “é bom ter uma pessoa por perto que é um ajudando o outro” é a forma mais próxima de demonstrar o apreço pela amizade, mesmo marcado a ferro quente pelos parceiros de trabalho eles são como família onde “um cuida do outro”, e onde cuidado significa meramente a manutenção básica da vida.” – Ávila Oliveira Crítica completa do Oxente Pipoca | Entrevista do Oxente Pipoca com o diretor Kasa Branca Dir. Luciano Vidigal Divulgação "Um dos afetos mais profundos que existem, sem dúvidas, é a relação entre avós e netos, especialmente dentro do contexto do país em que vivemos, onde muitas assumem a criação dos seus netos para que seus filhos possam trabalhar ou não cumprir com suas funções familiares mesmo. É uma realidade cruel e é essa que vemos em Kasa Branca. A mãe de Dé faleceu, o pai é ausente e ele só tem a avó e se ela cuidou dele, ele agora cuida dela já debilitada com os graves sintomas do Alzheimer. É uma relação silenciosa entre os dois, com muito carinho e dedicação que o diretor, Luciano Vidigal, mostra nos mínimos detalhes com uma sensibilidade através do olhar que poucos conseguem entregar." – Gabriella Ferreira Crítica completa do Oxente Pipoca | Entrevista do Oxente Pipoca com o diretor e elenco Homem com H Dir. Esmir Filho Divulgação "O cineasta Esmir Filho consegue, mesmo dentro dessa estrutura preconcebida, criar sequências bastante originais, ainda que deixe claro suas referências em alguns momentos, sempre dando frescor à narrativa. O texto acompanha a inquietude de Ney desde a infância, marcada pelo abuso físico do pai, até a vida adulta cheia de conquistas. Visualmente, o filme também faz jus à genialidade do artista-protagonista. Esmir opta por apresentar as inspirações e motivações de Ney de forma clara, mas nunca expositiva, costurando essas referências dentro dos números musicais e das situações que carregam o peso da construção simbólica." – Ávila Oliveira Crítica completa do Oxente Pipoca Ainda Não É Amanhã Dir. Milena Times Divulgação Janaína é uma jovem de 18 anos que mora com a mãe e a avó em um conjunto habitacional na periferia do Recife. Ela é a primeira pessoa da família que pode obter um diploma universitário, mas uma gravidez indesejada ameaça os planos que havia traçado para sua vida. Entrevista do Oxente Pipoca com a diretora e atriz protagonista Manas Dir. Marianna Brennand Divulgação "Manas tem um enredo cruel de amadurecimento, mas em nenhum momento Brennand se interessa em explorar, no sentido negativo da palavra, essa crueldade. O roteiro não está focado no melodrama ou no sofrimento de Marcielle. Ele mostra como aquela menina lida com tantas descobertas dolorosas e o que ela escolhe fazer dentro de suas limitações para quebrar aquele ciclo de desventuras. O texto aborda o micropoder da condescendência religiosa, a relação harmônica com a natureza quase como um refúgio, e a ajuda limitada que os poderes externos tentam oferecer dentro de um ecossistema viciado e fechado numa espiral de silêncio e falso moralismo." – Ávila Oliveira Crítica completa do Oxente Pipoca Baby Dir. Marcelo Caetano Divulgação Logo após ser liberado de um Centro de Detenção para jovens, Wellington (João Pedro Mariano) se vê à deriva nas ruas de São Paulo. Durante uma visita a um cinema pornô, ele conhece Ronaldo (Ricardo Teodoro), um garoto de programa, que lhe ensina novas formas de sobreviver. Aos poucos, a relação dos dois se transforma em uma paixão cheia de conflitos, entre a exploração e a proteção, o ciúme e a cumplicidade. Entrevista do Oxente Pipoca com o diretor Betânia Dir. Marcelo Botta Divulgação Após a morte do marido, Betânia (Diana Mattos), uma parteira de 65 anos, é convencida pelas filhas a voltar ao seu povoado, na orla das dunas do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, onde o resto da família ainda vive. Ela deixa para trás uma vida simples e agrária, sem eletricidade, e chega a um lugar em que tradição e modernidade colidem. Impulsionadas pelos sons ancestrais do Maranhão, Betânia e seus familiares buscam renascer —enquanto o mundo acaba. Entrevista do Oxente Pipoca com o diretor O Agente Secreto Dir. Kleber Mendonça Filho Divulgação "Aliás, é através dessa atmosfera que O Agente Secreto trabalha uma das suas premissas principais: a disputa pela verdade, e a manipulação desta. Dentre as muitas subtramas abertas no decorrer do filme, a mais instigante é certamente a da “perna cabeluda”, que não apenas permite a Kleber flexionar sua paixão pelo cinema de horror, mas também reflete as muitas maneiras pelas quais a verdade foi controlada e imposta à população. A ambientação do filme durante o Carnaval faz com que muito do que vemos em tela pareça um sonho febril, onde a euforia do momento é contraposta à violência praticada nas sombras e disfarçada sob as premissas mais absurdas. Uma das cenas mais emblemáticas é aquela com a impressão do jornal com a matéria sobre a perna cabeluda, enquanto a população entoa um canto carnavalesco e é filmada em ângulos holandeses que apontam para o desequilíbrio do momento." Crítica completa do Oxente Pipoca | Entrevista do Oxente Pipoca com o ator O Último Azul Dir. Gabriel Mascaro Divulgação "O Último Azul é uma metáfora de nosso Brasil: um pouco místico, terno e inquietante. Ele nos faz perguntar: até que ponto uma sociedade é justa se ignora quem já viveu a maior parte da vida? Tereza propõe uma resposta: um último passeio, uma viagem simbólica que, mesmo por dias, devolve a ela — e a nós — um pouco da humanidade que insistimos em perder." Crítica completa do Oxente Pipoca | Entrevista do Oxente Pipoca com o diretor Capitão Astúcia Dir. Filipe Gontijo Divulgação Santiago (Paulo Verlings) é um ex-astro mirim frustrado com a carreira de pianista. Para escapar de um revival na TV, o rapaz se refugia com o avô (Fernando Teixeira), mas encontra o velho decidido a se tornar super-herói. A parceria improvável vai se transformando em uma bela amizade conforme o neto é cativado pelo amor que o avô tem pela vida. À sua forma, Santiago se tornará um ajudante de super-herói para que o avô enfrente a velhice com a mesma valentia que encarna o herói Capitão Astúcia. A Praia do Fim do Mundo Dir. Petrus Cariry Divulgação "A direção de Petrus segue espetacular, e é muito satisfatório a forma como ele conduz cenas e atores, nos dando um conjunto de obra que encanta pelo trabalho bem executado. Marcélia Cartaxo, que é uma atriz sensacional, entrega aqui a sua personagem mais introversa com uma atuação acertada em todos os níveis que Helena pede. Seu maior poder está nos momentos de silêncio, em que ela conduz a personagem de tal maneira que torna impossível não apreciá-la e admirá-la ainda mais." Crítica completa do Oxente Pipoca | Entrevista do Oxente Pipoca com o diretor e elenco Os Enforcados Dir. Fernando Coimbra Divulgação "Leandra Leal e Irandhir Santos estão irretocáveis com papéis bem construídos em cima de várias camadas e sensíveis à todas elas. O texto, às vezes expositivo demais, faz quase um estudo antropológico da pilantragem dos personagens, usando os coadjuvantes como reflexo, apoio, causas e vítimas de um anseio que nunca pode ser suprido, de uma obra que não acaba nunca. E neste cenário, literalmente falando, a casa dos protagonistas sempre prestes a cair, literal e metaforicamente falando, reflete a ruína dos que sempre estão com a corda no pescoço." Crítica completa do Oxente Pipoca A Natureza das Coisas Invisíveis Dir. Rafaela Camelo Divulgação "O texto de Camelo também abraça as vivências das personagens e de suas mães para construir um olhar mais plural acerca da própria natureza da morte. Sem oferecer respostas conclusivas, ele evidencia o lado mais clínico e científico na primeira metade antes de incorporar os elementos do sincretismo religioso brasileiro na segunda, visto que a bisavó de Sofia era uma benzedeira. O filme brinca com o onírico e o fantasmagórico, ao passo que usa a noção da morte para muito além do físico, especialmente no que concerne a revelação feita em determinado momento sobre Sofia." Crítica completa do Oxente Pipoca | Entrevista do Oxente Pipoca com o diretor e elenco Cyclone Dir. Flávia Castro Divulgação "No restante da condução, a diretora brasileira continua com essa assertividade quando o assunto é proximidade e provocação. Apesar de Cyclone, por se passar no Brasil do início do século XX, se encaixar em um exemplar de filme de época, a diretora abre mão de um classicismo de decupagem e encenação em detrimento da câmera na mão, com planos em travellings fechados na ação dos atores em cena. A abertura da diretora para experimentações é outro destaque de seu retrato cuidadoso e imaginativo. No auge da perturbação opressora que vive Cyclone, a trilha sonora é de ruídos intensos e os planos se sobrepõem ou se alternam em cortes desconcertantes pela montagem." Crítica completa do Oxente Pipoca | Entrevista do Oxente Pipoca com o diretor e elenco Apolo Dir. Ísis Broken, Tainá Müller Divulgação "Apolo constrói uma narrativa tocante e política a partir do cotidiano do casal, entrelaçando as dores e alegrias de uma gestação com as violências e invisibilidades enfrentadas por corpos dissidentes. O longa não se furta de mostrar as dificuldades financeiras, os medos, os preconceitos e os afetos, apostando numa estética da intimidade que humaniza seus personagens e convida o público a repensar noções normativas de família, gênero e amor." Crítica completa do Oxente Pipoca | Entrevista do Oxente Pipoca com as diretoras

  • Crítica | Stranger Things (5ª temporada, Parte 1)

    Apesar de voltar melhor nestes quatro episódios, a série ainda luta para reencontrar seu charme de outrora. Imagem: Divulgação Depois de uma 4ª temporada desnecessariamente inchada e megalomaníaca, onde somente a trama que se passava no núcleo de Hawkings funcionou, finalmente a série volta a se centrar na cidade e no grupo unido, mas ainda há alguns problemas. Hawkings agora está sendo controlada por militares liderados pela Dra. Kay (Linda Hamilton), enquanto nossos heróis agem por túneis secretos em busca de Vecna (Jamie Campbell Bower). O primeiro episódio deste volume mostra essa nova realidade e como cada um está lidando com ela, mas há um problema: o longo período sem vermos aqueles personagens enfraquece nossa conexão com eles, com suas dinâmicas e até a química, que antes era um ponto tão forte. Passado um certo tempo, fui me habituando de novo, mas ainda com a sensação de que faltasse algo. Eles estão evidentemente mais velhos, mas não mais maduros, assim como a série. Tentarei falar mais sem dar qualquer spoiler. O segundo episódio abre com uma excelente sequência, mas mostra o medo que os criadores têm em matar personagens e a pouca evolução que houve em tanto tempo que se passou. Depois de anos sobrevivendo com monstros, Mike (Finn Wolfhard) e Nancy (Natalia Dyer) ainda questionam as coisas estranhas – com perdão do trocadilho – que acontecem no local, na tentativa do roteiro de criar uma virada, que estava previsível desde o começo da trama de Holly e seu amigo imaginário, por exemplo. E os planos estapafúrdios são vários que dariam orgulho ao Cebolinha. Não fazem qualquer sentido e, felizmente, nem todos dão certo porque a trama precisa andar de uma forma ou de outra. Explicações e diálogos extremamente expositivos acontecem aos montes para que ninguém se perca em algo que não é difícil de entender. Neste sentido, os Duffer recusam a amadurecer o texto e por consequência seus protagonistas. E mesmo que haja uma piadinha ou outra que seja mais inspirada, elas se perdem no mar de exposição, infantilizando a série ainda mais do que nas suas três primeiras temporadas. Imagem: Divulgação Ainda assim, eles conseguem construir uma atmosfera mais apocalíptica, de que tudo realmente está chegando ao fim, com o senso de urgência em alta e fazer a gente torcer de novo por aqueles personagens. Steve (Joe Keery), Robin (Maia Hawke) e Dustin (Gaten Matarazzo) continuam sendo o melhor trio e eu não posso deixar de mencionar a sempre ótima Erica (Priah Ferguson). É com eles que percebemos que ainda há esta conexão. Will (Noah Schnapp) ainda possui aquela conexão com os demogorgons que vimos anteriormente e é abordado de uma maneira bacana, ainda que mostre as limitações de Schnapp como ator, mas a ligação que ele cria com Robin ajuda a humanizá-lo e tira o peso de ter que lidar com o humano e sobrenatural ao mesmo tempo, mas deixando claro que ele seja uma peça-chave na história. É algo já antecipado, assim como as reviravoltas que envolvem Eleven (Millie Bobby Brown) e Max (Sadie Sink). Eu nunca assisti Stranger Things pelas grandes viradas geniais na trama, mas não lembrava de ser tão previsível assim. Não é algo que necessariamente incomode, mas que mais uma vez mostra a limitação dos Duffer em ir além de ser uma série ‘crowd pleaser’, ou seja, para agradar a audiência. É um fenômeno inegável por isso, apesar dos monstros e tudo mais, é um arroz com feijão – quase sempre – bem feito e com um elenco muito carismático. David Simon (criador de The Wire, uma das melhores séries da história da televisão) uma vez disse que “o telespectador sempre vai querer sorvete, mas é necessário que ele também coma os legumes”, ou seja: quem assiste, vai querer a zona conforto, mas é ousando sair dessa zona que a série realmente se mostra grande. Isso não acontece em Stranger Things, onde a audiência é servida com sorvete a todo instante e isso não muda neste início de temporada. Vai entrar para a história da televisão, pelo grande público que possui, mas não figurando entre as grandes em termos de qualidade. Pelo menos como blockbuster está funcionando e pelos ganchos deixados para os episódios vindouros o entretenimento está garantido e o que nos resta é se contentar com ele. Nota: 3/5

  • Entrevista | Diretora e atrizes de A Natureza das Coisas Invisíveis falam sobre luto, afeto e força feminina no cinema brasileiro

    Rafaela Camelo, Camila Márdila e Larissa Mauro em uma conversa sobre despedidas, memórias e a potência do encontrar. Imagem: Divulgação Eleito pela crítica como o melhor filme brasileiro da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e vencedor do Prêmio Prisma Queer, A Natureza das Coisas Invisíveis marca a estreia de Rafaela Camelo na direção de longas com uma sensibilidade rara. O filme acompanha Glória (Laura Brandão) e Sofia (Serena), duas meninas de dez anos que se conhecem durante as férias de verão em um hospital e, ali, entre corredores, visitas e silêncios, encontram uma amizade capaz de iluminar o que há de mais íntimo no luto, na memória e no crescer. A obra chega aos cinemas no dia 27 de novembro de 2025 evocando temas profundos a partir do olhar infantil, transformando experiências delicadas em poesia audiovisual. Nesta entrevista ao Oxente Pipoca, conversamos com Rafaela Camelo e com as atrizes Camila Márdila e Larissa Mauro sobre o processo de criação do filme, a origem da história, os desafios de filmar cenas de grande carga emocional e a força feminina que atravessa toda a narrativa. Elas refletem sobre a relação com o luto, a dignidade ao envelhecer, a importância das redes de apoio e a potência de retratar personagens femininas que cuidam, resistem e se encontram. Entre bastidores, memórias pessoais e escolhas criativas, a conversa revela as camadas invisíveis de um dos filmes brasileiros mais tocantes do ano. Confira a íntegra da entrevista abaixo: Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Oi, eu sou a Gabi, do Oxente Pipoca, uma página aqui do Nordeste dedicada a falar sobre cinema, especialmente o cinema brasileiro. É um prazer enorme estar conversando com vocês hoje. Eu adorei o filme. De verdade, foi um dos meus favoritos do ano. Ele me tocou muito. E eu queria começar perguntando algo que ficou comigo depois da sessão: é um filme que fala sobre lutos a partir de uma ótica infantil, trabalhando temas fortes de maneira muito delicada, muito sutil. Queria saber como essa história nasceu, primeiro para a Rafaela. Rafaela Camelo: É uma história que eu comecei a desenvolver em 2018. Na época, eu estava em busca de um tema, de uma história que pudesse ser o meu primeiro projeto de longa-metragem. Sempre fui uma pessoa muito interessada nesse lado mais assombroso da vida. Sempre fui espectadora de filmes e narrativas que falam sobre o luto e sobre a finitude. Nessa época, eu também estava trabalhando em um projeto no Ministério da Saúde e lidava muito com pessoas que estavam passando pelo hospital. Grande parte do meu trabalho era encontrar histórias de pessoas que usavam o SUS. E teve uma história específica que me marcou muito, de uma pessoa que tinha passado por um transplante de coração. A partir disso, surgiram os primeiros escritos desse filme, que foi se transformando bastante ao longo do tempo. Segui desenvolvendo o projeto durante a pandemia, e acho que isso deixou muitos reflexos no filme, principalmente essa questão do luto não vivido, não processado. A ideia era fazer um filme que refletisse um pouco dessa experiência, sem medo e com honestidade, mas colocando duas crianças no centro. Acho que isso facilita o acesso até para quem não gosta muito de olhar para esse tema. Acompanhando o luto junto com as crianças, existe uma possibilidade de “resetar” tudo o que a gente já viveu ou processou sobre luto e redescobrir as coisas com elas. Com o tempo, fui desenvolvendo outras camadas do luto no filme, entendendo também a morte que não é só biológica: a morte da identidade, a morte biográfica. Isso aparece muito na personagem da bisa, que enfrenta o Alzheimer. Então tudo isso foi virando um grande caldeirão de ideias. Eu não sabia exatamente para onde estava indo, mas sabia que esse era o universo que eu queria retratar. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Uma das cenas que mais me tocou é a da Camila com a Bisa. Aquele momento em que elas estão juntas, a Bisa não reconhece ela e, ainda assim, dá conselhos, pergunta se ela já disse que ama a avó. Aquilo me pegou muito. Não só pela despedida em si, mas porque, para quem tem um parente com Alzheimer, aquilo provoca uma reflexão muito profunda. Eu lembrei bastante, mesmo sendo cenas completamente diferentes, daquela sequência de Viva - A Vida é uma Festa entre o menino e a avó. As duas cenas me despertaram a mesma sensação. Eu queria saber, tanto da Camila quanto da Rafaela e da Larissa, como vocês veem essa cena. O que ela significa para vocês? Eu queria muito ouvir vocês sobre esse momento. Camila Márdila: Nossa, essa cena me pega muito também. Toda vez que eu vejo, eu me vejo ali com várias pessoas. Eu penso na minha avó, penso na minha mãe, penso no meu pai. Acho que é um pouco aquele sonho de “e se eu pudesse reencontrar?”. Brinca com essa possibilidade de poder dizer as últimas coisas que você queria dizer, de ter aquela conversa que não aconteceu. Acho que todo mundo passa por isso, seja na experiência do luto ou no medo de um luto iminente. É até difícil falar dessa cena. Eu fico meio empacada só de lembrar de ter feito ela com a Aline, porque o que ela realiza ali é uma coisa brilhante. Aquele abraço vale por toda a minha vida. Cada take que a gente fez foi uma experiência inesquecível de set, certamente uma das cenas mais marcantes que eu já fiz. Eu posso sentir aquele abraço até hoje. E é um plano único no filme. Tem uma sustentação que eu acho muito bonita de ver, porque conforme a cena acontece, o espectador vai primeiro tentando entender o que está rolando e, quando percebe, já está completamente entregue, envolto naquele abraço. É maluco falar sobre esse filme, sobre várias cenas e muitos aspectos, porque tudo é tão da ordem do sentimento que às vezes é difícil racionalizar. A gente acaba só transbordando essas sensações. Rafaela Camelo: Eu queria aproveitar, já que você falou dessa cena, que para mim também é uma das minhas favoritas do filme. Eu gosto muito dela e sempre me emociono muito, porque acho que ela toca profundamente nesse lugar do afeto, do coração, e também nesse espaço intangível do “se você pudesse dizer algo para a sua avó que já morreu, qual seria sua última palavra de despedida?”. E só compartilhando uma pequena curiosidade sobre essa cena: a primeira vez que eu li essa sequência com a Aline, a Aline Marta Maia, havia uma rubrica descrevendo a casa. Eu falava sobre como a casa estava fechada há muito tempo, descrevia o sofá perto da janela, algumas plantas secas, e então vinha o diálogo da Biza. Quando a Aline leu essa cena, ela me disse: “Nossa, Rafa, eu amei que o que ela fala para as plantas, na verdade, é o que ela queria dizer para a neta. É quase o que a neta gostaria de ouvir.” E isso não estava no roteiro. Essa ideia de ela falar com as plantas surgiu da Aline, meio que na própria dinâmica da cena, trazendo esse mal-entendido que existe ali. Quando ela falou isso, eu só respondi: “É.” E virou o que a cena é hoje. Ela fala com as plantas, mas a neta está ali, ouvindo, e tudo o que é dito para as plantas também vale para ela. “Poxa, ninguém cuidou de você. Como assim?” Na primeira versão, tudo isso era falado diretamente para a neta. E eu achei muito bonito esse mal-entendido que a Aline propôs, incorporando também as plantas secas da casa. Eu nem sei se você sabia disso, Camila. Acho que não, né? Larissa Mauro: Comentando também, eu acho que essa cena, especificamente, que é tão marcante e tão bonita, fala em muitas camadas sobre a dignidade ao morrer. A morte como um direito digno. E também fala muito sobre o respeito pelos nossos velhos. A gente sabe da sociedade em que vive, o quanto ela é etarista e o quanto vamos abandonando nossos idosos, menosprezando saberes, histórias e uma sabedoria inteira. Isso é muito triste, e também diz muito sobre o tipo de sociedade que somos. Então, quando isso aparece em uma obra cinematográfica, em uma construção artística, acho que resgata valores dos quais estamos carentes enquanto indivíduos e enquanto sociedade. Ter dignidade no momento em que se deixa este mundo é algo muito profundo. E é algo que esse filme traz de uma forma muito forte. Me toca profundamente. E só comentando rapidamente sobre o roteiro, a primeira vez que eu li esse roteiro, eu sabia que esse filme ia ser babado, porque eu amei muito o texto. Amei mesmo. E marcou muito, porque talvez tenha sido o melhor roteiro que eu já peguei para ler até então. Eu sou suspeita para falar, mas talvez tenha sido mesmo. Era como se eu estivesse lendo um livro. Eu me emocionava, conseguia passar por todas as delicadezas, e aquilo me tocou profundamente. E aí, quando caiu a ficha de que eu tinha um convite para contar essa história, foi um combo. Foi muito, muito encantador. Imagem: Divulgação Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu acho que “encantador” é realmente uma excelente palavra para definir o filme. Funciona muito bem. Outra coisa que me pegou bastante é essa questão do protagonismo feminino, de como o filme perpassa por temas como a mãe solo e de como ele é, basicamente, inteiramente feminino. Existe um protagonismo não só das mães, mas também das filhas, e isso me tocou muito enquanto eu assistia. Há esse destaque para a força dessas mulheres, dessas mães que cuidam das suas filhas e que cuidam das suas avós. Tem aquela mãe que está ali no hospital todos os dias, fazendo tudo para que a filha cresça e tenha uma vida melhor, ao mesmo tempo em que também cuida da avó, e ainda enfrenta uma dificuldade de comunicação com a filha mais nova. Eu acho que essa força feminina que o filme transborda é uma das coisas de que eu mais gostei. Eu queria que vocês comentassem um pouco sobre isso também. Rafaela Camelo: Ele é um filme em que os personagens homens estão muito posicionados nas bordas da história. Existe esse protagonismo escancarado das mulheres, mas eu confesso que, a princípio, isso não foi proposital. Eu tinha essas duas crianças no centro da narrativa e, quando comecei a pensar em qual seria o universo adulto ao redor delas, como roteirista eu queria construir algo que fosse sintético, que permitisse ao público entender rapidamente o contexto e o status daquelas relações. E é impossível ignorar o fato de que, no mundo em que a gente vive, as mulheres são as responsáveis pelo cuidado. Então, a relação direta que eu poderia ter ali com as duas crianças era a das duas mães. E, se essas duas mães fossem mães solo, no momento em que elas se olham, o público já entende muita coisa: entende que a relação delas é consequência da aproximação das crianças, mas também entende que elas têm muito em comum. Quando eu fui aprofundando essas mães, naturalmente surgiram outras mulheres. Veio a Biza, veio toda essa rede do campo. Na cidade, elas vivem uma maternidade mais solitária. No campo, quando chegam lá, tem a tia, tem a prima, e todo mundo cuida. Então, mesmo sem falar diretamente sobre o tema do cuidado, o filme acaba fazendo um comentário sobre isso. E é impressionante como as pessoas notam esse aspecto. É um filme muito feminino, mesmo sem ter sido pensado assim desde o início. Larissa Mauro: Eu acho que isso não foi exatamente pensado, como a Rafa comentou, mas inevitavelmente acaba sendo um retrato da nossa sociedade. A gente vive, infelizmente, essa grande epidemia da ausência parental e da sobrecarga colocada sobre o papel da mulher como cuidadora, guerreira, forte, aquela que dá conta de tudo. Mesmo que não tenha sido uma intenção direta, isso aparece porque faz parte do que vivemos e do que somos enquanto sociedade. É impressionante como as mães precisam descansar, como precisam de apoio. O filme também traz essa camada da importância da rede de apoio. Falar sobre rede de apoio é fundamental. Ao mesmo tempo, mostra o esforço constante dessas mulheres para se manterem bem, para permanecerem sãs em meio a tantos abandonos e tanta sobrecarga. Quando essas duas mães se encontram, se olham e trocam algo genuíno, a partir do vínculo das filhas, mas também expandindo para a relação entre elas, existe um alívio. Eu realmente sinto isso. Penso: graças a Deus elas se encontraram. É o que eu desejo para as mulheres que estão ao meu redor, que elas se encontrem, se vejam, se apoiem. Porque, independente de serem mães ou não, as mulheres têm percorrido uma rota muito solitária na nossa sociedade. E isso também é um tema importante para reflexão. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Gente, para finalizar, já que meu horário está terminando, eu queria fazer uma pergunta que faço para todo mundo que eu entrevisto aqui no Oxente. Queria pedir uma dica de filme ou série brasileira que vocês gostariam que o público assistisse, sem ser o filme que estamos comentando agora. Algo que vocês acham que pode ressoar em alguém, enfim, uma dica mesmo. Rafaela Camelo: É um filme que eu vi recentemente no festival, chamado Mambembe, do Fábio Meira. É um documentário maravilhoso, fabuloso, que me pegou desde os primeiros minutos. O crédito inicial já é belíssimo. Eu já era super fã do Fábio Meira, mas esse filme é realmente muito maduro, muito cru. Não quero contar nada sobre o que é o filme, até porque é muito interessante assisti-lo sem informações prévias. Mas é uma obra que eu recomendo sem nenhuma dúvida. Larissa Mauro: Nossa, eu sempre bugo quando me pedem para escolher um filme. Até fiquei nervosa aqui, mas respirei e me veio um título que tem a ver com o que eu falei sobre etarismo: O Último Azul. Acho que é um filme importantíssimo, que a nossa sociedade precisa assistir para enxergar os nossos mais velhos com dignidade — com corpos que ainda sentem desejo, que ainda têm muita vida e que merecem a nossa atenção, nosso respeito, nossa escuta e, principalmente, a nossa humildade em aprender com eles. Camila Márdila: Ah, eu vou de Ela Volta na Quinta, do André Novais. Não foi uma influência prévia, mas lembrei agora porque me remeteu à personagem da Amanda, e a gente falando da cena da avó com a Simone… eu consigo enxergar uma relação nesse campo do emocional, algo que também transcende certas lógicas cronológicas da vida. Enfim, é um filme que me faz chorar tanto quanto O Natureza.

  • Crítica | Zootopia 2

    Continuação segue com humor afiado, mas não consegue fugir das repetições. Imagem: Divulgação Os heróis e policiais novatos Judy Hopps e Nick Wilde estão de volta para mais uma aventura extravagante pela grande metrópole animal de Zootopia. Em Zootopia 2, após desvendarem o maior caso da história da cidade, Judy e Nick são surpreendidos por uma ordem do Chefe Bogo: os dois detetives precisarão frequentar o programa de aconselhamento Parceiros em Crise. A união da dupla é colocada à prova quando surge um mistério ligado a um recém-chegado à cidade: o misterioso e venenoso réptil Gary De’Snake. Para encontrar as soluções para o caso envolvendo a víbora, Judy e Nick devem desvendar novas partes da cidade, sendo testados o tempo todo. O primeiro filme da franquia de Zootopia conseguiu acertar no alvo e nos detalhes todas as metáforas e piadas antropomorfas que mirou. Sem desperdiçar as mais óbvias e nem as mais refinadas, o texto do filme contemplou um universo de lições para adultos e crianças usando o reino animal como analogia para o mundo real das formas mais criativas possível sem perder o ritmo, sem perder a força e sem perder a graça. O segundo longa mantém a força, o ritmo e também a graça, mas inevitavelmente aparecem situações, falas e até mesmo sequências de ação que parecem repetir o que já foi visto anteriormente. Zootopia 2 também apresenta uma trilha sonora envolvente, que acompanha bem o clima investigativo e os momentos de humor. As músicas ajudam a criar tensão e empolgação de forma precisa. Imagem: Divulgação No entanto, visualmente falta um apelo diferente. A produção segue a estética característica do primeiro longa, sem se arriscar tanto quanto outras animações recentes. Um exemplo é Os Caras Malvados 2 (2025), que explora texturas e referências visuais inspiradas em quadrinhos e jogos eletrônicos, criando frescor e ampliando o campo de possibilidades narrativas. Zootopia 2 traz novas referências de cultura pop que enriquecem as entrelinhas e geram momentos muito divertidos. São os detalhes que se destacam mais do que o conjunto, mas ainda assim o filme mantém sentimento, charme e carisma suficientes para agradar quem já se encantou com esse universo. A mensagem agora aponta para grupos sociais diferentes, marginalizados, imigrantes, excluídos. Os répteis, grupo deslocado que tenta se reinserir em Zootopia, são apresentados como um visual inspirado na estética moura-árabe que destoa nas cores, nas formas e nos objetos dos cenários mais urbanos já conhecidos. Além disso, o longa demonstra cuidado na construção do cotidiano da cidade, trazendo pequenos elementos que expandem a vida urbana de Zootopia de forma natural e divertida. A forma como os cenários revelam hábitos, modas, programas de televisão e manias dos habitantes cria uma sensação de mundo vivo e em constante transformação. Mesmo que o visual não avance tanto quanto poderia, a riqueza de detalhes mantém o interesse do espectador e mostra que a franquia ainda tem fôlego para explorar novas camadas do seu universo, algo que os próprios personagens principais chegam a verbalizar. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Hedda

    Tessa Thompson e Nina Hoss abrilhantam o jogo de seduções e aparências dirigido por Nia DaCosta. Imagem: Divulgação Há uma constante atmosfera de morte pairando sobre Hedda desde sua primeira cena, onde a personagem-título (Tessa Thompson) reage com certa indiferença ao fato de que uma pessoa foi baleada na festa realizada em sua casa. Mesmo quando voltamos aos eventos que culminaram nesse tiro, essa atmosfera permanece, seja na tentativa de suicídio implícita de Hedda (e que dialoga com sua cena final) ou na constante exibição de armas antes e durante a festa. Essa sensação de mau agouro ajuda a nos lembrar constantemente de que o que estamos vendo em tela é uma grande farsa, um jogo de aparências onde todos usam máscaras enquanto fazem de tudo para serem aceitos neste meio social. A começar pela própria Hedda, interpretada por Thompson como uma mulher disposta a tudo (tudo mesmo) pelo controle da própria vida. A fala mansa, o olhar sedutor, os gestos calculados, o meio-sorriso: Thompson faz uma performance tão dissimulada que é impossível não se deliciar com suas maquinações, bem como o descontrole que emerge a partir do momento em que vemos Eileen Lovborg (Nina Hoss) entrar em cena. Mesmo antes de Hoss aparecer em tela, a direção e o texto de Nia DaCosta não nos negam que essa mulher é o grande amor da vida de Hedda, ao invés do seu patético marido George (Tom Bateman) ou o cínico amante Brack (Nicholas Pinnock). A primeira cena de Hoss é filmada com tanto impacto – reduzindo os sons ambientes e a música quase ao silêncio – que é impossível dissociar nossa reação da de Hedda, como se ficássemos sem ar tanto quanto a personagem. Assim, a grande força de Hedda vem da oposição e da tensão entre as duas personagens, e é quando orbita entre elas e se centra nas performances de Thompson e Hoss que ele mais brilha. Não que o restante do elenco não seja competente, mas sabiamente DaCosta confere o maior foco da obra a elas. Imagem: Divulgação A diretora também se empenha em conferir o maior dinamismo possível ao filme, como se numa tentativa de afastá-la das suas raízes teatrais (trata-se de uma adaptação da peça homônima do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen). Assim, os movimentos de câmera, sempre acompanhando intensamente os personagens ou adotando uma câmera mais trêmula e instável, a trilha percussiva e jazzística de Hildur Guðnadóttir, ou as releituras em termos de questões de raça, gênero e sexualidade, são alguns dos meios pelos quais DaCosta cria uma obra ligeiramente anacrônica, interessada em oferecer uma nova visão sobre a peça de Ibsen. Tenho para mim, contudo, que na tentativa de se afastar da natureza teatral do texto, a diretora acaba por fazer um trabalho que está um tom acima do próprio filme. Como resultado, diversas cenas que pedem por maior silêncio e introspecção, ou que estão mais ancoradas no texto e na performance do elenco, acabam por ser sobrecarregadas pela câmera enérgica ou a trilha um tanto intrusiva de Guðnadóttir. A própria atmosfera agourenta do filme acaba sendo saturada pelo mergulho numa tensão que quase nunca se concretiza, até mesmo no clímax ou na sequência final. Apesar dessa discrepância tonal, Hedda é um interessante estudo sobre desejos, repressões e dissimulações, sobre até onde se é possível ir para se obter tudo que queremos ou achamos ter direito. É um desvio interessante por parte de DaCosta, que consegue imprimir uma visão aqui certamente mais autoral do que nos blockbusters recentes que dirigiu, e brilha sobretudo pela intensidade magnética de Thompson e Hoss, com duas das minhas performances favoritas do ano. Nota: 3.5/5

bottom of page