top of page

Resultados de busca

Buscar neste site

1407 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Crítica | Pânico 7

    Filme não é ruim como querem que você pense…é pior. Imagem: Divulgação Nesta quinta-feira (26), chega aos cinemas o sétimo capítulo de uma das franquias mais icônicas dentro do universo do terror. Pânico, que revolucionou o subgênero do slasher, lança seu mais novo filme e traz Sidney Prescott (Neve Campbell) novamente ao centro da sua trama principal. Com a saída de Melissa Barrera e Jenna Ortega do elenco, demitidas após Melissa defender a Palestina, a Spyglass trouxe de volta Kevin Williamson como roteirista (e também como diretor) para tentar colocar Pânico de volta aos trilhos, mas o resultado é um descarrilamento de proporções épicas. Na trama de Pânico 7, um novo Ghostface surge para aterrorizar novamente a vida de Sidney. O assassino chega agora na pacata cidade onde Prescott cria sua filha, novo alvo do terror do serial killer. Focada em proteger sua família, Sidney precisará enfrentar os horrores e traumas do passado para dar fim a essa perseguição de uma vez por todas. Primeiramente, gostaria de dizer que fui pra esse filme de coração aberto, tanto que escolhi assistir à pré-estreia, na primeira sessão, para evitar me contaminar com opiniões de terceiros. Mesmo sendo uma situação complexa, via o retorno de Neve Campbell ao elenco como algo positivo, já que não sou uma grande entusiasta do sexto longa em sua totalidade, mesmo gostando do arco das irmãs Carpenter. Sou uma grande fã de Pânico, a franquia me fez gostar de filmes slasher, moldou uma grande parte da minha cinefilia durante a minha pré-adolescência e até se intersecciona com o que eu estudei no mestrado e agora no meu doutorado. Mas voltando a Pânico 7, o início até parece promissor. A cena de abertura, já famosa pelas suas mortes, revisita um dos famosos cenários da série, apelando um pouco para nostalgia ao fazer referência aos seus icônicos momentos. É um fanservice legal, que te deixa curioso ao tentar entender como aquilo vai se encaixar durante a trama e remete um pouco a tão maravilhosa metalinguagem que Wes Craven dominava com maestria. Mas tudo é apenas um lampejo e o filme entra em uma derrocada que deve ter feito o próprio Wes se revirar no túmulo com o rumo de uma de suas maiores criações. Kevin Williamson, que ora foi um grande roteirista para Pânico, é um péssimo diretor. É óbvio que o sarrafo da franquia é alto, afinal, os quatro primeiros filmes são dirigidos por um homem que é considerado um mestre do gênero, que subverteu conceitos e que tem um estilo próprio, era difícil se manter no nível. Tyler Gillett e Matt Bettinelli-Olpin (que dirigem o 5 e 6) tentam seguir com o legado de Wes mas imprimem uma assinatura muito particular na direção, os dois, inclusive, estão se firmando no gênero com bons longas como Casamento Sangrento e o divertido Abigail e fazem um trabalho competente com os dois filmes. Mas Williamson como diretor é algo difícil de ser assistido, é quase como uma emulação de algum genérico de streaming. É fraca e em alguns momentos parece a direção de um dos capítulos mais fracos da série de Pânico para a MTV. Imagem: Divulgação Se como diretor ele é um completo fiasco, no roteiro você poderia pensar: “Ei, aqui é a área dele, deve ter saído algo bom”. Lamento te informar que a decepção é dupla. A trama tenta caminhar para uma crítica aos deep fakes, a inteligência artificial e as relações parassociais, mas esquece que é necessário desenvolver personagens para fazer isso com maestria. A relação de Sidney com a filha Tatum não vai para lugar nenhum, a relação da Tatum com os amigos não nos faz criar nenhuma empatia com eles (então as mortes não nos impactam sentimentalmente, apesar de serem muito gráficas), a relação de Gale e Sidney não se desenvolve e a própria Gale parece totalmente deslocada dentro da narrativa. É impossível criar conexão com alguém e durante o filme nenhuma morte significou algo. Pra mim, ao tentar trazer a presença do Stu Macher (Matthew Lillard) como uma possível ameaça, Pânico 7 decide não desenvolver os seus outros possíveis culpados. Pra causar choque e surpresa ao revelar quem seria o verdadeiro Ghostface? Não sabemos. Porém, isso faz com que essas relações, como eu falei acima, não se desenvolvam, fazendo com que nós (o público) simplesmente não nos importássemos com quem está debaixo daquela máscara. Para evitar spoilers, não vou me aprofundar nessa questão mas, na minha opinião, é o pior Ghostface da franquia e ninguém vai me convencer do contrário, apesar da boa atuação do seu vilão principal. É uma perda total de tempo? Não. Você ainda consegue se divertir ali, lá no fundo, com algumas boas cenas de perseguições e cenas de mortes bem criativas. Mas é sem alma, sem a essência da franquia que tanto gostamos, mostrando um desgaste latente de uma trama que parece só decair. No fim das contas, Pânico 7 evidencia que a franquia chegou a um ponto crítico em que repetir fórmulas, apostar em nostalgia vazia e tentar comentar o “espírito do tempo” sem aprofundamento não é mais suficiente. Há momentos pontuais de entretenimento e lampejos do que Pânico já foi, mas eles são engolidos por uma direção sem personalidade, um roteiro que levanta temas interessantes sem saber desenvolvê-los e personagens que passam sem deixar marcas. O resultado é um filme que existe, mas não significa. Um capítulo que reforça o desgaste de uma saga que sempre foi brilhante justamente por entender o gênero, rir dele e, ao mesmo tempo, respeitar o público. Aqui, resta a sensação incômoda de que a máscara continua icônica, mas por trás dela já não há muito a dizer. Nota: 2/5

  • Crítica | All Her Fault (Minissérie)

    Sarah Snook brilha em uma história marcada por reviravoltas demais Divulgação Uma mãe chega para buscar o filho na casa de um amiguinho, mas quem abre a porta é uma senhora que não faz a menor ideia de quem ela é ou do que está acontecendo. Assim começa a sequência de acontecimentos inquietantes de All Her Fault, minissérie baseada no livro homônimo de Andrea Mara, que explodiu na internet mundial no início deste ano. A trama da série criada por Megan Gallagher é direta, mas construída para manter a desconfiança o tempo todo: todos os personagens se tornam suspeitos pelo desaparecimento de Milo. Cada um guarda segredos, apresenta inconsistências em suas versões e carrega algo que parece fora do lugar. Seria a mãe que deixou o filho brincar com alguém que mal conhecia? Ou o pai, que faz questão de parecer correto, mas já no primeiro episódio deixa claro que não é tão confiável quanto aparenta? Ou talvez até os irmãos dele, que também escondem histórias turbulentas que parecem longe de vir à tona por acaso. É justamente nisso que All Her Fault se sustenta, na culpa que assombra cada envolvido. A culpa corrói, mesmo quando não é a principal causa do problema que aconteceu. Ela nasce em motivos banais. Uma culpa de ter se atrasado por causa de um engarrafamento, comer algo sem realmente querer, planejar uma viagem sem ter dinheiro suficiente. Algo aparentemente tão chulo pode se transformar em um sentimento enorme quando se mistura a uma tragédia. Gallagher se debruça sobre esse sentimento para causar o maior impacto possível, até que o choque inicial seja substituído pela frustração e pela sensação de que foi prometido mais do que a série realmente entrega. All Her Fault acaba caindo nas armadilhas comuns a esse tipo de narrativa. Ao se levar excessivamente a sério, perde o próprio sentido dramático e passa a apostar quase exclusivamente no choque e em uma sucessão de reviravoltas que não conseguem recuperar o fôlego que a minissérie vai perdendo ao longo do caminho. Recorre ainda à artimanha preguiçosa de explicar tudo em um único episódio, simplificando o entendimento do espectador e tentando controlar artificialmente o que ele deve sentir durante toda a jornada. Divulgação Em compensação, boa parte do elenco de All Her Fault, especialmente Sarah Snook - como é bom ver ela de volta nas telinhas - e Dakota Fanning, está plenamente em sintonia com o tom da série. Discordo de quem afirma que as performances se apoiam na canastrice, pois todos entregam exatamente o que o texto exige, conduzindo o espectador a tentar entender onde cada personagem se encaixa nesse quebra-cabeça, como se também fosse mais um detetive dentro da história. Há motivos tanto para gostar quanto para desgostar deles, misturando as caixinhas de bonzinhos e vilões e dando um pouco mais de fôlego à trama. Ela pode até não fugir do genérico das séries de mistério, mas também não dá para dizer que não diverte. As diretoras Minkie Spiro e Kate Dennis instigam o espectador ao máximo a cada reviravolta, fazendo com que nos questionemos constantemente se nossas teorias ainda fazem sentido ou não. Foi interessante acompanhar o desenrolar dessa história, mas, ao mesmo tempo, também foi cansativo. De forma geral, ao longo de seus oito episódios, All Her Fault não reinventa a fórmula, e nem precisa, mas cumpre seu papel de entreter na rinha de ricos, em meio a um roteiro tendencioso e marcado por boas atuações. Pensando pelo lado positivo, pelo menos são oito episódios assistindo Sarah Snook brilhar. Nota: 3/5

  • Cineasta de Sergipe é selecionado para formação internacional promovida pelo ator Antonio Banderas

    Sidjonathas Araújo participará do Campus Málaga Talent, evento que reunirá jovens talentos da América Latina e da Europa na Espanha em março Imagem: Divulgação O cineasta formado pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), Sidjonathas Araújo foi selecionado para participar do Campus Málaga Talent, programa internacional de formação audiovisual que acontece entre os dias 5 e 14 de março de 2026, na Espanha. A iniciativa integra a programação oficial do 29º Festival de Málaga e reúne jovens talentos da América Latina e da Europa. Promovido pelo ator espanhol multipremiado Antonio Banderas, presidente de honra do Festival de Málaga, o Campus Málaga Talent seleciona anualmente 20 profissionais do audiovisual em início ou consolidação de carreira. O objetivo do programa é estimular a troca criativa, a colaboração profissional e a inserção dos participantes no mercado internacional, por meio de uma imersão formativa intensiva. Durante dez dias, os selecionados participam de atividades divididas em módulos que envolvem análise e desenvolvimento de projetos, estudo de novas estratégias narrativas e integração ao mercado audiovisual europeu. A programação inclui mentorias personalizadas, estudos de caso com profissionais do setor e participação direta nas atividades da área industrial do festival.“Para mim, ser selecionado para esse evento foi uma alegria muito grande. É um espaço que pensa exatamente na formação de novos talentos do cinema mundial, conectando experiências diversas de diferentes partes do globo”, afirma Sidjonathas. A participação do cineasta ocorre por meio de uma parceria entre o Festival de Málaga/Campus Málaga Talent e o Projeto Paradiso, instituição filantrópica voltada ao fortalecimento da indústria audiovisual brasileira, da qual faz parte por meio da Rede Paradiso de Talentos. “Tenho certeza de que essa experiência será de grande valia para a minha carreira profissional, enquanto cineasta baiano-sergipano em consolidação de trajetória. O intuito do evento é justamente apostar em jovens talentos, contribuindo para a nossa formação e ampliando as nossas conexões pelo mundo. Por isso, me sinto muito lisonjeado com esse reconhecimento e bastante motivado a aproveitar ao máximo todas as oportunidades”, relata Sidjonathas. Sidjonathas é sócio da Floriô de Cinema e graduado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Possui especialização em Direção pelo Centro Afrocarioca de Cinema (2020) e em Roteiro pela EICTV (2023), em Cuba. Em 2020, venceu o LAB Negras Narrativas com o curta-metragem Ímã de Geladeira, exibido em festivais como a Mostra de Tiradentes, o Festival de Gramado, o Chicago Latino Film Festival, o Seattle Black Film Festival e o Festival de Vitória.

  • Temporada de prêmios 2026-2027: Previsões cedo demais

    Um olhar ansioso sobre os filmes que podem dominar a próxima corrida por estatuetas antes dos consensos e das campanhas Imagem: Divulgação Ainda está se encerrando a temporada de prêmios 2025-2026, mas porquê não brincar do ansioso jogo de tentar prever o que a próxima temporada trará para o centro das atenções da imprensa, da indústria, dos cinéfilos, dos tuiteiros e de tudo mais que habita entre esses grupos. O primeiro semestre do ano traz alguns dos principais festivais internacionais de cinema, e com eles se inicia a especulação de quais daqueles filmes manterão o fôlego durante o ano até a chegada da temporada anglófona de prêmios que culmina com o Oscar. Sundance, Berlim, Cannes, Rotterdam e South by Southwest (SXSW) viram os indicadores iniciais dos possíveis e prováveis títulos que cairão na boca de especialistas profissionais e especialistas de internet durante o restante do ano. Levantando alguns dos títulos mais aguardados, projetando possíveis destaques de crítica e/ou público e alimentando expectativas a partir de métricas quase empíricas (e de um bom tanto de intuição cinéfila), esta publicação reúne produções que não surpreenderiam se, em alguns meses, ostentassem cartazes adornados por pequenas folhas de louro, símbolo clássico de uma trajetória premiada. A seguir, apresento uma lista de apostas para a temporada 2026–2027. Algumas podem se revelar escolhas certeiras, outras talvez acabem como grandes e memoráveis furadas. Mas essa é a graça do exercício: arriscar, especular e se deixar levar pelo entusiasmo antes que os consensos estejam formados. Wild Horse Nine Imagem: Divulgação Agentes da CIA são enviados ao Chile de 1973 para uma missão extraoficial que rapidamente se transforma em um jogo de paranoia, lealdade e manipulação política em plena ebulição do regime militar. Entre paisagens áridas e dilemas morais, a confiança se torna o bem mais escasso. Direção: Martin McDonagh Elenco: Sam Rockwell, Parker Posey, Steve Buscemi, John Malkovich, Tom Waits, Mariana Di Girólamo Possíveis indicações: Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro Original, Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Fotografia Digger Imagem: Divulgação O filme acompanha o homem mais poderoso do mundo em uma missão frenética para se redimir e provar ser o salvador da humanidade após causar um desastre global. Direção: Alejandro G. Iñárritu Elenco: Tom Cruise, Riz Ahmed, Aetheria Angel, Robert John Burke, John Goodman Possíveis indicações: Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Ator, Melhor Roteiro Original, Melhor Filme, Melhor Fotografia, Melhor Trilha Sonora, Melhor Montagem, Melhor Direção de Elenco A Odisseia Imagem: Divulgação Após a Guerra de Troia, o guerreiro grego Odisseu enfrenta criaturas míticas e deuses em sua épica jornada de volta para casa, onde sua esposa Penélope o aguarda. Direção: Christopher Nolan Elenco: Matt Damon, Tom Holland, Anne Hathaway, Robert Pattinson, Lupita Nyong'o, Zendaya, Charlize Theron, Mia Goth Possíveis indicações: Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia, Melhor Trilha Sonora, Melhores Efeitos Visuais, Melhor Design de Produção, Melhor Som, Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Penteados, Melhor Som Duna – Parte 3 Imagem: Divulgação Segue Muad'dib, herdeiro de um poder inimaginável, enquanto ele concretiza o antigo esquema de criar um governante supremo entre os homens, não nos céus. Direção: Denis Villeneuve Elenco: Timothée Chalamet, Zendaya, Florence Pugh, Rebecca Ferguson, Jason Momoa, Anya Taylor-Joy, Robert Pattinson Possíveis indicações: Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia, Melhor Trilha Sonora, Melhor Design de Produção, Melhor Figurino, Melhor Som, Melhores Efeitos Visuais, Melhor Maquiagem e Penteados Amizade em Altitude Imagem: Divulgação Quando o entretenimento de bordo falha em um voo de 17 horas, o tédio dos passageiros leva a interações sociais. Direção: Ruben Östlund Elenco: Keanu Reeves, Kirsten Dunst, Tobias Menzies, Daniel Brühl, Daniel Webber, Julie Delpy Possíveis indicações: Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro Original, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Fotografia, Melhor Som, Melhor Montagem, Melhor Direção de Elenco Nárnia Imagem: Divulgação A trama narra as origens de Nárnia, focando nas crianças Digory e Polly, que exploram mundos mágicos usando anéis do tio Andrew, testemunhando Aslan criar o reino e o surgimento da Feiticeira Branca. Direção: Greta Gerwig Elenco: Daniel Craig, Emma Mackey, Carey Mulligan, Denise Gough Possíveis indicações: Melhor Filme, Melhor Design de Produção, Melhor Figurino, Melhores Efeitos Visuais, Melhor Trilha Sonora, Melhor Som, Melhor Fotografia, Melhor Maquiagem e Penteados The Adventures of Cliff Booth Imagem: Divulgação Derivado centrado no dublê carismático apresentado em Era Uma Vez em… Hollywood, explorando seu passado nebuloso e suas aventuras no submundo de Los Angeles. Direção: David Fincher Elenco: Brad Pitt, Elizabeth Debicki, Yahya Abdul-Mateen II, Carla Gugino Possíveis indicações: Melhor Ator, Melhor Roteiro, Melhor Fotografia, Melhor Montagem, Melhor Som, Melhor Figurino Dia D Imagem: Divulgação Se você descobrisse que não estamos sozinhos, se alguém abrisse seus olhos e mostrasse para você, você ficaria com medo? Direção: Steven Spielberg Elenco: Emily Blunt, Josh O'Connor, Colin Firth, Colman Domingo Possíveis indicações: Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Fotografia, Melhor Som, Melhor Montagem, Melhor Trilha Sonora Original, Melhores Efeitos Visuais The Social Reckoning Imagem: Divulgação Segue Frances Haugen, uma jovem engenheira do Facebook, que contou com a ajuda de Jeff Horwitz, repórter do Wall Street Journal, para revelar os segredos mais guardados da rede social. Direção: Aaron Sorkin Elenco: Jeremy Allen White, Wunmi Mosaku, Mikey Madison, Betty Gilpin Possíveis indicações: Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro Original, Melhor Atriz, Melhor Ator, Melhor Montagem, Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Som O Morro dos Ventos Uivantes Imagem: Divulgação Nova adaptação do clássico romance de Emily Brontë, focando na intensidade destrutiva da relação entre Heathcliff e Catherine. Deve apostar em atmosfera sombria e força interpretativa. Direção: Emerald Fennell Elenco: Margot Robbie, Jacob Elordi, Hong Chau, Shazad Latif, Alison Oliver, Martin Clunes Possíveis indicações: Melhor Figurino, Melhor Design de Produção, Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Maquiagem e Penteados, Melhor Fotografia Devoradores de Estrelas Imagem: Divulgação O professor de ciências Ryland Grace acorda em uma nave espacial sem nenhuma lembrança de quem é ou como chegou lá. Conforme sua memória retorna lentamente, ele logo descobre que deve resolver o enigma por trás de uma misteriosa substância que está fazendo o sol se apagar. Direção: Phil Lord, Christopher Miller Elenco: Ryan Gosling, Sandra Hüller, Lionel Boyce, Ken Leung, Milana VayntrubPossíveis indicações: Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Trilha Sonora, Melhor Som, Melhores Efeitos Visuais, Melhor Fotografia Jack of Spades Imagem: Divulgação Romance gótico de mistério ambientado na Escócia dos anos 1880. Direção: Joel Coen Elenco: Josh O'Connor, Damian Lewis, Frances McDormand, Lesley Manville Possíveis indicações: Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Roteiro Original, Melhor Montagem, Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Penteados Michael Imagem: Divulgação Cinebiografia de Michael Jackson, explorando ascensão meteórica, genialidade artística e controvérsias públicas do Rei do Pop. Direção: Antoine Fuqua Elenco: Jaafar Jackson, Colman Domingo, Nia Long, Miles Teller, Kendrick Sampson, Kat Graham Possíveis indicações: Melhor Ator, Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Cabelo, Melhor Som, Melhor Direção de Arte, Melhor Montagem

  • O sotaque nordestino na dublagem brasileira: como a voz também é instrumento de pertencimento

    Num país que ainda centraliza produção audiovisual e circulação simbólica, ouvir múltiplos sotaques ocupando protagonismo, mesmo em narrativas que vêm de fora, é também uma forma de redistribuir imaginários Imagem: Divulgação A dublagem brasileira sempre ocupou um lugar curioso e aguçado dentro do nosso imaginário relacionado ao audiovisual. Ao olhar para dentro de nossas próprias vivências, é praticamente impossível não ter na memória o som da voz de algum personagem de um desenho que passávamos as manhãs de sábado assistindo. A sensação de nostalgia e identificação é sempre muito forte ao acessar esses momentos; e, é justamente nesse sentimento que evocamos junto à voz dublada, no português brasileiro, um lugar que nos remete ao nosso próprio cotidiano, um lugar de pertencimento. Mas será que esse é um sentimento universal do povo brasileiro? A voz que eu ouvia/ouço nas telas é igual à minha? Às vozes que eu ouço no meu dia a dia? É inegável que o simples fato de ter nossos personagens favoritos falando a mesma língua que nós já fomenta uma grande conexão, em especial quando somos crianças. Porém, ao vislumbrar com um olhar mais regionalista, será que essas vozes representam a totalidade desse Brasilzão? Estamos falando de um país em que mais de 70% do público que vai ao cinema escolhe consumir conteúdo dublado (dados do Metrópoles, 2022); e isso não diz respeito apenas à preferência, mas também à acessibilidade. Ainda que esse recorte seja central, vale colocá-lo momentaneamente entre parênteses para olhar outro ponto: a forma como esse público majoritário escuta essas vozes e se identifica não só com o conteúdo das falas, mas com sua entonação, sua musicalidade, seu modo de existir na voz. Ao mesmo tempo em que a dublagem brasileira é celebrada como uma das melhores do mundo, pela técnica, pela direção e pela capacidade de adaptação do externo ao interno, ela também revela, quando observada de perto, certas padronizações que dizem muito sobre como o Brasil se escuta na tela. No decorrer das décadas, consolidou-se a ideia de que personagens estrangeiros precisam falar um português “neutro” para serem plenamente aceitos pelo público nacional. A neutralidade virou convenção; e, como toda convenção, acaba por ser pouco questionada. Nesse contexto, o paradoxo é evidente: num dos países mais diversos do ponto de vista fonético, a dublagem muitas vezes brasileira muitas vezes se coloca em um lugar de uniformização sonora justamente no campo em que a voz é a principal ferramenta de construção de personagem. A dublagem de obras estrangeiras sempre foi, em essência, um exercício de tradução cultural. Muito além da língua, gírias, ritmos de fala, timing cômico e referências locais são adaptados para que a obra dialogue com o público e a realidade brasileira, cujo público se vê consumindo conteúdo dublado desde muito jovem. Não à toa, o primeiro contato que temos com obras de entretenimento é um contato com conteúdo dublado. Ainda assim, quando o assunto é sotaque, a regra implícita (e às vezes explícita) era suavizar diferenças, aproximando tudo de um centro sonoro historicamente ligado ao eixo Rio–São Paulo, local em que os grandes estúdios de dublagem estão baseados; um “sotaque de aeroporto”, em que não se identificava de certo a origem regional da voz por trás desses personagens. E talvez não exista prova mais popular da potência criativa da dublagem brasileira do que suas frases que escaparam da tela e viraram cultura oral. Quem não conhece, ainda que não saiba ao certo de onde é, expressões como “taca a mãe pra ver se quica”, ou o não-tão-recente clipe resgatado pelas redes sociais “pega ele, frita ele, faz purê”? Adaptações mais livres que ganharam tom quase carnavalesco mostram que o público nunca buscou fidelidade literal, buscou identificação. Muitas dessas frases não existem no original daquela forma, mas funcionam aqui porque conversam com nosso humor, nossa musicalidade, nossa teatralidade cotidiana, nosso “jeitinho brasileiro”. A dublagem brasileira sempre brilhou justamente quando deixou de traduzir palavra por palavra para traduzir sensação. Não à toa, esse exercício criativo é recompensado inclusive com proteção legal, justamente por contar com um pedaço da personalidade dos dubladores por trás dessas adaptações. A dublagem, no Brasil, não é vista apenas como execução técnica de um texto alheio, mas como interpretação artística, e é nesse ponto que entram os chamados direitos conexos. Explico (e desculpem por isso): são aqueles assegurados aos artistas intérpretes ou executantes sobre suas performances. Ao emprestar voz, respiração, ritmo, pausa, intenção e, sobretudo, repertório cultural, o dublador imprime algo que não estava integralmente dado na obra original: sua própria leitura sensível daquele personagem, sua personalidade. Há, portanto, um espírito criativo que atravessa o microfone. É como se a obra dublada passasse a carregar duas camadas de alma: a do ator ou personagem que aparece em cena e a daquele que o faz existir vocalmente para outro território cultural. Quando a dublagem funciona, e a brasileira, historicamente, funciona muito, o público não escuta apenas uma tradução; escuta uma presença. E essa presença, moldada por escolhas artísticas individuais, é justamente o que o direito conexo se propõe a proteger: a marca pessoal, intransferível, de quem transforma voz em interpretação e interpretação em memória coletiva, histórica e territorial. Essa mesma lógica se aplica ao sotaque. Quando produções começam a permitir que personagens estrangeiros falem com marcas regionais brasileiras mais assumidas, algo interessante acontece. A obra deixa de ser apenas traduzida e passa a ser verdadeiramente localizada. O personagem continua sendo estrangeiro em sua origem narrativa, mas sua voz ganha uma ponte afetiva mais direta com quem assiste. O humor se aproxima, o drama se enraíza e a experiência se torna menos mediada. Não se trata de descaracterizar o original, mas de reconhecer que a dublagem brasileira sempre foi uma arte de recriação, não de reprodução. Se já adaptamos piadas, bordões e expressões que se tornaram patrimônio afetivo do público, por que a musicalidade regional da fala precisaria ser excluída como ferramenta legítima de construção narrativa? Como nordestino, a falta de uma carga fonética que me permita associar meu modo de fala ao de um personagem é como ver esse filme com o áudio levemente dessincronizado: eu entendo tudo, acompanho a história, me envolvo, mas há um pequeno descompasso que impede a imersão total. Eu me escuto ali, na piada, no afeto, na construção emocional, mas não completamente. O sotaque acaba sendo esse “quê” que ainda não entrou no tempo exato da cena para que a identificação feche por inteiro. Em entrevista recente ao Oxente, Pipoca?, o dublador Rafael Sadovski comentou esse processo ao falar sobre dar voz a um protagonista de animação que dialoga diretamente com regionalidade. Em meio às reflexões técnicas sobre construção vocal, ele mencionou ter recorrido à própria família e amigos, incluindo ligações para a avó em Natal/RN, para resgatar expressões e cadências do seu sotaque e imprimí-los no Zeca Brito, seu personagem no filme “Um Cabra Bom de Bola”, que chega aos cinemas em fevereiro e chama atenção justamente por seu protagonista carregar consigo esse sotaque nordestino. O relato é simples, mas revela uma camada profunda da dublagem: a de que construir voz também é acessar memória, afetividade e pertencimento, mesmo quando o personagem é estrangeiro em sua origem. Diferentemente do live-action, em que o corpo do ator, sua fisicalidade e sua presença já impõem certa verossimilhança, na animação a voz é quem funda o personagem. É ela que organiza idade, temperamento, humor, intenção. Sem um corpo real para ancorar a experiência, a dimensão fonética ganha ainda mais peso como elemento de reconhecimento. E é nesse tipo de escolha que se desloca a lógica tradicional de neutralização permanente e abre espaço para uma dublagem que continua tecnicamente rigorosa, mas culturalmente mais rica. Ao ouvir personagens estrangeiros com vozes que carregam ritmos brasileiros diversos, o público não perde imersão, só ganha. Há, claro, desafios. O uso de sotaque não pode escorregar para caricatura nem virar marcador automático de comicidade ou subalternidade, como tantas vezes ocorreu no passado justamente com nosso sotaque nordestino. O equilíbrio está em permitir identidade sem reduzir personagem a estereótipo. É uma questão de direção, de escala e de intenção dramática. O fato é que a dublagem brasileira sempre brilhou quando se permitiu criar, não apenas replicar. Foi assim que ela transformou traduções em memória afetiva coletiva. Expandir o repertório de vozes, inclusive na adaptação de obras estrangeiras, não ameaça essa tradição. Porque traduzir cultura é, no fim das contas, encontrar equivalências emocionais, não apenas linguísticas. Num país que ainda centraliza produção audiovisual e circulação simbólica, ouvir múltiplos sotaques ocupando protagonismo, mesmo em narrativas que vêm de fora, é também uma forma de redistribuir imaginários. A voz deixa de ser neutra e passa a ter origem. E quando a dublagem permite que o público se reconheça não só na história, mas também na forma como ela é contada, ela deixa de ser apenas mediação técnica e passa a ser experiência cultural plena, daquelas que a gente leva do cinema pra vida, repetindo bordões no caminho de casa sem nem perceber que, ali, a tradução já virou cultura. E isso não é, jamais, uma crítica velada à dublagem brasileira, tão importante e com qualidade inquestionável. Pelo contrário: parte justamente do reconhecimento de sua força, de sua sofisticação técnica e de sua capacidade histórica de criar identificação com o público. É porque a dublagem brasileira funciona tão bem, porque construiu uma linguagem própria e tão reconhecível, que faz sentido pensar seus próximos passos e suas possibilidades de ampliação, sem negar o que já foi consolidado.

  • O FANTÁSTICO JASPION: Sato Company desenvolve nova adaptação com herói nipo-brasileiro — European Film Market (EFM) da Berlinale

    Janaína Tokitaka assina o roteiro da superprodução que conta com coprodução da Toei Company Divulgação Produzido pela Sato Company, O Fantástico Jaspion dá sequência à cobertura especial do Oxente Pipoca sobre os projetos brasileiros apresentados no European Film Market (EFM), da Berlinale 2026. Com roteiro de Janaína Tokitaka, o filme acompanha Jonas, um nipo-brasileiro de 22 anos de São Paulo, que descobre a lendária armadura de Jaspion e é arrastado para um conflito nascido do colapso ambiental da humanidade. Guiado pela androide Anri, ele precisa redefinir o heroísmo para proteger o planeta como o novo Fantástico Jaspion. O projeto prevê um orçamento de 10 milhões de dólares, com filmagens em territórios brasileiros (São Paulo, Rio de Janeiro e Amazônia) e japoneses (Tóquio e Okinawa), com produção e distribuição da Sato Company. Atualmente em fase de captação de recursos, O Fantástico Jaspion busca financiamento, coprodução, distribuição, festivais, merchandising e mais no EFM. Leia também: *Esta matéria faz parte de uma série especial do Oxente Pipoca dedicada aos filmes brasileiros em destaque no European Film Market (EFM) 2026, o mercado audiovisual que integra a programação oficial do Festival de Berlim. Em cada publicação, aqui e nas nossas redes sociais, você vai encontrar detalhes como: sinopse, equipe envolvida, diretores, produtoras e muito mais que tivermos acesso. Fonte: Cinema do Brasil

  • Crítica | O Cavaleiro dos Sete Reinos (1ª temporada)

    Série se beneficia de menor escopo e pretensões para entregar o melhor momento no universo de Game of Thrones em anos. Imagem: Divulgação A ideia de spin-offs de Game of Thrones sempre foi repleta de controvérsias, dado o fim catastrófico da série e o gosto amargo deixado na boca do público. Se A Casa do Dragão apresentou potencial em sua primeira temporada, nos relembrando dos melhores momentos da obra original, a segunda rapidamente acendeu os alertas, nos remetendo aos piores momentos das últimas temporadas. Apesar destes receios, porém, o anúncio de uma adaptação de O Cavaleiro dos Sete Reinos ainda veio coberto com certa expectativa por parte do público que teve contato com as novelas originais escritas por George R.R. Martin, as quais se passam 90 anos antes dos eventos adaptados em Game of Thrones. É inegável, porém, que devido à recepção morna de A Casa do Dragão, a HBO tratou essa nova série quase como um produto de segundo escalão. Se a duração menor dos episódios (na faixa dos 30 minutos) fazia sentido devido ao tamanho diminuto das novelas originais, a divulgação consideravelmente menos extensa e o horário de exibição – à meia-noite do domingo para a segunda, longe do horário nobre em que as outras duas séries foram exibidas – eram sinais de uma certa cautela por parte da emissora. Que felicidade, portanto, ver como ao longo dos seus seis episódios O Cavaleiro dos Sete Reinos conseguiu superar as expectativas de praticamente todo mundo. Parece até apropriado para uma série cujo protagonista, o cavaleiro andante Dunk (Peter Claffey), é um azarão cujo arco na temporada centra-se em tentar provar seu valor num torneio onde estão presentes cavaleiros, lordes e até príncipes da Casa Targaryen. Na sua primeira cena, vemos Dunk enterrar seu mestre, Arlan de Centarbor (Danny Webb), e refletir sobre o que fazer a partir de agora. O crescendo da icônica música-tema de Game of Thrones nos induz a uma epifania gloriosa por parte do personagem, bem como a um estado épico nostalgia, mas o corte seco para a cena seguinte dele cagando já nos diz (sem muita sutileza): isso aqui não é Game of Thrones 2.0, ainda que estejamos no mesmo universo. E essa é a grande força da série. O showrunner Ira Parker, consciente de que não tem em mãos uma superprodução com o orçamento das duas anteriores, usa isso ao seu favor, empregando uma maior liberdade criativa que permite que sua obra cresça gradativamente em personalidade. Os dois primeiros episódios demarcam um tom mais leve e cômico, mas mesmo quando a temporada vai se tornando mais séria e trágica, ainda é capaz de o fazer de uma maneira muito autônoma e até mesmo autoral. Nem todas as marcas dessa autoralidade funcionam para mim (a recorrência do humor escatológico cansa depois da terceira ou quarta piada envolvendo fezes, cuspe ou vômito), mas é nítido que a série se esforça em se apresentar como algo próprio, longe da pressão de viver sob a sombra da série original (que tem sido exatamente o problema de Casa do Dragão). Imagem: Divulgação Longe das intrigas palacianas e das épicas batalhas com dragões e seres sobrenaturais, O Cavaleiro dos Sete Reinos revela seu coração pulsante quando acompanha seus personagens, em especial a dupla principal formada por Dunk e Egg (Dexter Sol Ansell), o menino que se agarra a ele como escudeiro e cujas verdadeiras origens logo assumem o centro da temporada. Ainda que eu evite fazer comparações com o material original, é inevitável não comentar do carinho que sempre tive pela relação de Dunk e Egg nas novelas, e a capacidade da série de captar tão habilmente os altos e baixos dessa relação, através da química de Claffey e Sol Ansell, é seu verdadeiro trunfo. Sol Ansell, aliás, é talvez a grande revelação da temporada, imbuindo seu Egg de uma ingenuidade e astúcia quase complementares, revelando camadas agridoces que enriquecem ainda mais a sua personalidade, de modo que é impossível não querer protegê-lo de todo mal. O carisma dos protagonistas também se estende aos coadjuvantes. Ainda que nem todos recebam um tempo de tela satisfatório, vários deles deixam suas marcas, seja o leal Raymun Fossoway (Shaun Thomas) ou o núcleo Targaryen da vez: o bondoso e justo Baelor (Bertie Carvel), o amargo Maekar (Sam Spruell) ou o cruel Aerion (Finn Bennett), cujas ações desencadeiam a cadeia de eventos que formam a segunda metade da temporada. Tais eventos culminam num penúltimo episódio que, mesmo prejudicado por um flashback excessivo das origens de Dunk, traz em seus 10 minutos finais uma sequência que, mesmo longe do escopo épico de Game of Thrones e A Casa do Dragão, deixa a sua própria marca, apostando em brutalidade, catarse e perdas que nos fazem lembrar como este universo é inclemente com os personagens que amamos. Mesmo com algumas decisões narrativas que não se pagam sempre, O Cavaleiro dos Sete Reinos se mostra o respiro que precisávamos e o lembrete de que ainda há espaço para o universo de Game of Thrones nos cativar e nos surpreender. Valendo-se das expectativas moderadas (para dizer o mínimo) que todos, fossem a própria HBO ou o público, tinham a seu respeito, a série usa isso a seu favor para construir um novo tipo de história em Westeros. Mal posso esperar para ver mais das aventuras de Dunk e Egg pelos reinos, e isso diz muito da marca positiva que a série nos deixa ao seu fim. Nota: 4/5

  • Crítica | Yellow Letters (Festival de Berlim 2026)

    Vencedor do Urso de Ouro deste ano aposta no drama familiar pequeno-burguês para se acomodar ao falar de questões políticas transnacionais Imagem: Divulgação À luz das polêmicas que cercaram a 76ª edição do Festival de Berlim – onde vários dos artistas presentes se negaram a comentar questões ditas “políticas”, em especial o genocídio em Gaza – a vitória de Yellow Letters com o Urso de Ouro, a honraria máxima do festival, parece uma decisão curiosa dado os temas abertamente políticos vistos em tela desde os seus primeiros minutos. Contudo, à medida que o filme se desenrola e cai em um lugar cômodo e polido sobre esses temas, fica claro que sua vitória foi mais do que merecida. Dirigido por İlker Çatak, diretor alemão de origem turca, Yellow Letters acompanha o casal Derya (Özgü Namal), renomada atriz de teatro, e Aziz (Tansu Biçer), dramaturgo e professor universitário. Ambos são fortemente engajados politicamente nesta Turquia contemporânea – a qual sofre com as censuras impostas pelo atual presidente Recep Tayyip Erdoğan – e Derya se nega a tirar foto com o governador, o qual está presente na noite de estreia da última peça dos dois. É a gota d´água para o casal ser perseguido politicamente, sendo forçado a se mudar de Ankara para Istambul com sua filha adolescente, Ezgi (Leyla Smyrna Cabas). A partir daí eles tentam recomeçar a vida e lidar com a própria relação, fragilizada à medida que seus privilégios pequeno-burgueses são cada vez mais afetados. Ao longo do primeiro ato, Çatak constrói um clima de opressão e silenciamento que demarca muito bem a mudança de status que Derya e Aziz enfrentam, à medida que eles são destituídos dos seus trabalhos, assim como amigos e colegas próximos. Os letreiros indicando “Berlim as Ankara” e “Hamburg as Istambul” são uma estratégia instigante, especialmente considerando que a população de ascendência turca na Alemanha representa a maior parcela da diáspora turca. No entanto, salvo algumas cenas específicas, pouco se extrai desse intercâmbio entre as realidades turca e alemã. Inegavelmente, Çatak obtém mais êxito em ilustrar que, no mundo atual, onde a democracia corrói em vários países, a classe artística e intelectual é sempre uma das primeiras a sofrer nas mãos de regimes autoritários. Contudo, quando há o deslocamento para Istambul, o filme resolve se encolher, saindo da esfera macro para apostar ainda mais no micro, na dinâmica do relacionamento de Derya e Aziz, bem como das relações deles com a filha adolescente. Usar a esfera pessoal para tratar da esfera política não é uma novidade, tampouco fazer isso a partir de um núcleo familiar pequeno-burguês (Ainda Estou Aqui é um exemplo recente e muito bem-sucedido), mas é nítido como o filme gradativamente vai se contentando com uma camada superficial nos dramas familiares e também nas suas questões políticas. Por exemplo, tudo envolvendo Ezgi cansa rápido, tanto pela personagem nunca sair do estereótipo da adolescente emburrada e inconsequente quanto pelo roteiro apostar nas escolhas mais óbvias possíveis para criar o conflito entre ela e os pais. Muito mais interessante é a ênfase na gradual dissolução do casamento de Derya e Aziz, sobretudo pelas performances de Biçer e Namal. Esta recebe a oportunidade de ouro de fazer um jogo atoral que invoca os diferentes conflitos que sua personagem vivencia, além da capacidade camaleônica de transitar por diferentes registros audiovisuais, como nas duas sequências seguidas em que ela faz um teste para uma novela e depois no teatro, na nova peça escrita pelo marido. Imagem: Divulgação O filme encontra força quando investe na tensão sobre qual dos dois cederá primeiro para este sistema, à medida que as pressões institucionais, sociais e econômicas se assomam sobre eles. No entanto, essa tensão é esporádica e só aparece em algumas cenas específicas (como a discussão visceral do casal dentro do carro no último ato), nunca permitindo que o longa alcance o mesmo clima sufocante dos seus primeiros trinta minutos. Depois de certo tempo se torna difícil importar com as perdas que eles sofrem — e o fato do filme tentar reconhecer numa única cena que estamos vendo personagens privilegiados não conta muito em seu favor. Por isso, quando chegamos aos minutos finais de Yellow Letters, fica claro que a escolha em dar o Urso de Ouro foi mais do que apropriada, visto que se o filme termina não exatamente de forma covarde, certamente escolhe um comodismo que diz muito das visões políticas não só do seu diretor, mas também do júri deste ano em Berlim. Derya e Aziz parecem, portanto, refletir então uma classe política que escolhe se acovardar e se omitir para poder continuar existindo, algo muito simbólico num festival realizado num país que, em razão do seu histórico genocida, prefere se apoiar na ideia de uma “Razão de Estado” para justificar o apoio ou silêncio diante de outro genocídio em curso. Nota: 3/5

  • CONTOS DE MULUNDUS: Thriller político e religioso de Luis Lomenha e Edwin Thomas será filmado no Maranhão e Rio de Janeiro — European Film Market (EFM) da Berlinale

    O filme está atualmente em desenvolvimento e possui roteiro de Lomenha e Bruna Aguiar Divulgação Produzido pela Jabuti Filmes em parceria com a britânica ORCA Lab Group, Contos de Mulundus dá sequência à cobertura especial do Oxente Pipoca sobre os projetos brasileiros apresentados no European Film Market (EFM), da Berlinale 2026. Dirigido por Luis Lomenha e Edwin Thomas, o filme se passa em um território com escassez de água governado pela fé, um sistema teocrático que divide aqueles que têm acesso de uma população marginalizada. Criada dentro desse sistema, uma jovem torna-se uma ponte entre dois mundos, confrontando o poder e redefinindo a fé como dominação ou libertação. O roteiro de Contos de Mulundus é assinado por Lomenha e Bruna Aguiar, que trabalharam juntos no roteiro da minissérie ‘Os Quatro da Candelária’, da Netflix. Em agosto de 2025, nas redes sociais, o diretor e roteirista Luís Lomenha escreveu um pouco sobre o início do projeto e a busca por locações: Divulgação “Trinta dias de imersão total entre Rio de Janeiro, São Luís, Vargem Grande, e os deslumbrantes Lençóis Maranhenses. Uma jornada intensa e inspiradora para lançar a sala de roteiros para Mulundus. […] Conheci [o outro diretor] Edward Thomas pela primeira vez no EFM onde ele compartilhou a visão de desenvolver um projeto no Maranhão. De lá para o Marche du Film [de Cannes], a colaboração só se aprofundou - até que fui convidado a liderar esta desafiadora sala bilingue.” A roteirista Bruna Aguiar também compartilhou algumas imagens desta pesquisa pelas locações do filme, e escreveu: “Dias de imersão no Maranhão para pesquisa de roteiro do novo longa-metragem. Uma experiência incrível de escuta, aprendizado e imersão na cultura.” Divulgação Atualmente em fase de desenvolvimento, Contos de Mulundus busca financiamento, coprodução, agentes de vendas e mercado de festivais no EFM. Leia também: *Esta matéria faz parte de uma série especial do Oxente Pipoca dedicada aos filmes brasileiros em destaque no European Film Market (EFM) 2026, o mercado audiovisual que integra a programação oficial do Festival de Berlim. Em cada publicação, aqui e nas nossas redes sociais, você vai encontrar detalhes como: sinopse, equipe envolvida, diretores, produtoras e muito mais que tivermos acesso. Fonte: Cinema do Brasil e Redes Sociais dos envolvidos

  • Entrevista | “Resgatar meu sotaque foi um presente”: Rafael Sadovski fala sobre dublar Zeca Brito em Um Cabra Bom de Bola, nova animação da Sony que chega aos cinemas brasileiro

    Em entrevista ao Oxente Pipoca, o dublador Rafael Sadovski comenta o processo de construção de Zeca Brito, protagonista da animação, a importância da representatividade nordestina na dublagem e como o personagem dialoga com seu próprio início de carreira. Imagem: Divulgação Com protagonismo do sotaque nordestino e forte identidade regional presente na versão brasileira, Um Cabra Bom de Bola chega ao público trazendo não apenas uma narrativa esportiva inspiradora, mas também um marco de representatividade na dublagem nacional. Responsável por dar voz ao carismático Zeca Brito, o dublador Rafael Sadovski conversou com o Oxente Pipoca sobre o processo de encontrar o tom do personagem, o uso do sotaque como ferramenta de interpretação e o impacto do filme em sua própria trajetória profissional. Leia abaixo: Matheus Gomes (Oxente Pipoca): Oi, Rafael! Tudo bem? Eu faço parte do Oxente Pipoca, que é um portal de cultura e entretenimento com um olhar totalmente nordestino, voltado também para nossas produções e artistas. É uma honra falar com você, ainda mais sendo um nordestino em papel de protagonismo [na animação]. Queria começar perguntando: como foi o processo de encontrar o tom do Zeca Brito? Como você entrou nos “sapatos” do personagem? Rafael Sadovski: A Honra toda minha! Fico muito feliz de estar aqui falando com um portal do Nordeste. Pra mim é uma felicidade enorme poder representar o Nordeste numa produção grande como Um Cabra Bom de Bola. Olha, o processo [de dublagem] é curioso, porque a gente nunca sabe exatamente o que vai fazer até chegar na hora. A gente estuda e treina para tomar decisões muito rápidas. Como eu gravei o trailer meses antes, já comecei a construir o personagem na cabeça, isso ajudou muito depois. A gente se inspira muito no original, né? No que a gente tá ouvindo, pra achar o tom. E eu me inspiro muito na imagem, muito no que a imagem tá me propondo. Eu tenho que colocar a minha voz ali, tenho que convencer que a voz tá saindo daquele corpo e daquela expressão. Então a imagem, pra mim, é tudo pra achar o tom do personagem. Então a gente se baseia muito no material original, porque já foi criado uma ideia; a gente respeita isso, mas usa essas ferramentas, a imagem, e traz pra nossa realidade. A gente coloca um “molho brasileiro”, um jeitinho de falar que funciona pra gente. E o sotaque só agregou isso, só facilitou esse processo de chegar nesse público brasileiro. E além das gírias que eu fui propondo muito durante as gravações, a Andréa Murucci, que é a diretora de dublagem do filme, me deu muita liberdade também. Tipo, caramba, se a gente colocar um “boy” aqui, e se a gente colocar uma gíria diferente, você acha que vai funcionar? Vamos tentar. Então teve toda essa troca, que deixou o processo bem legal, bem divertido de fazer. Matheus Gomes (Oxente Pipoca): Sim! A brasilidade da dublagem é algo muito forte, essa conversa direta com o público, e eu acho que isso ficou muito bem transmitido no decorrer do filme. Queria que você falasse mais sobre o uso do sotaque e do regionalismo. Como foi trazer isso pro personagem e como você enxerga mais vozes nordestinas ocupando esses espaços? Rafael Sadovski:Eu acho que é uma porta de entrada muito legal para isso acontecer mais vezes, né?. Um protagonista com sotaque nordestino numa animação grande, que chega em vários tipos de público, principalmente na criançada que já vai crescer com esse imaginário de ter um personagem com sotaque, é muito legal. É uma responsabilidade muito grande, um desafio, mas ao mesmo tempo um presente. Na dublagem, geralmente se usa o chamado “sotaque neutro”, o sotaque de aeroporto, que na prática é mais Rio e São Paulo. Quando surgiu essa oportunidade, eu pensei: vou ter que usar meu sotaque de Mossoró, de Natal, de onde eu vim. Eu moro no Rio há muito tempo, então sei neutralizar, mas resgatar o meu sotaque foi muito legal, foi um presente. Eu fui atrás disso de forma muito afetiva também. Liguei pra minha avó, que mora em Natal, e falei: “Vó, me fala umas gírias aí da senhora”. Comecei a conversar mais com minha família, ouvir expressões, resgatar esse jeito de falar. Foi muito legal, cara, foi um barato e muito divertido fazer. Imagem: Divulgação Matheus Gomes (Oxente Pipoca): E falando agora do filme como um todo: como foi a dinâmica com o elenco de vozes e o que esse projeto representa pra você nesse momento da carreira? Rafael Sadovski: [Esse filme] reflete muito o que o Zeca vive na história. A mensagem de que ninguém é pequeno demais pra sonhar grande conversa muito comigo. E eu me coloco muito nesse lugar também; eu tô há dois anos na dublagem, ainda no começo, então me identifiquei demais com ele [o Zeca] buscando espaço, do tipo “Caramba, eu tô entrando aqui e já tem muita fera”, mas eu tô conquistando meu espaço e do meu jeitinho, né? Trazendo a minha verdade, a minha realidade. Foi muito bonito compartilhar isso com o elenco também. O Enzo, que faz o Zeca criança, é nordestino. A Gilza, que faz a “mainha” dele, também; ela é do Recife. Todo mundo ficou muito feliz, muito emocionado com essa representatividade. Acho que isso fortalece a mensagem do filme e aproxima o público. Matheus Gomes (Oxente Pipoca): Foi uma conversa muito rica, tocamos em pontos super importantes. Desejo todo sucesso pra você, nesse e nos próximos projetos.

  • Crítica | The Paper (1ª temporada)

    Sempre bom voltar para o universo de The Office Divulgação As versões dos Estados Unidos e do Reino Unido de The Office já ocupam um lugar quase mítico entre as grandes comédias da televisão. O desgaste do tempo, que costuma atingir produções longevas, principalmente as cômicas, curiosamente nunca parece ter alcançado a série, mesmo após mais de 20 anos desde a estreia da versão original. Talvez alguns elementos hoje soem datados e fora do tom, mas nada realmente sério a ponto de impedir que, ano após ano, novas gerações a descubram e que diferentes países tentem replicar sua fórmula. The Paper é uma tentativa de Greg Daniels e Michael Koman de dar continuidade a esse legado. Tratada como um spinoff da versão americana de The Office, a série chegou cercada de grandes expectativas e da inevitável pressão de corresponder ao legado de seu antecessor. Após alguns anos em desenvolvimento, foi oficialmente lançada no fim de 2025, já com uma segunda temporada garantida, uma escolha interessante considerando que a primeira temporada da versão americana original é, de longe, a mais fraca da série. Se ambientar nesse mundo de personagens complicados, porém carismáticos, nunca foi tarefa simples, e os criadores claramente têm consciência disso. Apostando em um elenco sólido, que emula levemente a química de sua referência original, The Paper se mostra sincera ao ponto de admitir que ainda precisa se encontrar. Alguns episódios, especialmente na segunda metade da temporada de estreia, evidenciam esse crescimento e sugerem que a série pode, aos poucos, conquistar sua própria identidade dentro do universo de The Office, equilibrando a nostalgia com um olhar refrescante e inédito. Continuando no formato de falso documentário, a trama acompanha a equipe de um jornal em decadência que está sendo seguida pela equipe de documentaristas que, 20 anos atrás, acompanhou os trabalhadores da filial da Dunder Mifflin em Scranton. Domhnall Gleeson vive o novo editor-chefe do jornal, que chega com o gás que todo o restante da equipe não tem. Sua presença define o tom satírico da série, funcionando de maneira natural dentro de um gênero que depende do equilíbrio entre todos os elementos para fluir como o esperado. A atuação de Gleeson é carismática, engraçada e envolvente, fazendo com que o público torça genuinamente para que ele consiga colocar a redação nos trilhos. Divulgação Seu personagem tem uma ligação mais direta, de formas diferentes, com outras duas figuras centrais. Chelsea Frei interpreta a empolgada Mare, diagramadora e repórter do jornal, que cumpre o papel de elo “Jim e Pam” desta adaptação. A dupla tenta replicar a química clássica da série original e, apesar de alguns tropeços, demonstra estar no caminho certo para construir um relacionamento que, mesmo sem atingir a força do original, consegue envolver, fazer o público se importar e trazer tópicos mais maduros com esse futuro (?) casal. Sabrina Impacciatore vive a antiga editora-chefe, determinada a impedir que Ned alcance seus objetivos. Difícil, astuta e engraçada, ela forma o equilíbrio perfeito para o personagem de Gleeson, garantindo que a química entre eles acrescente um tempero diferente à comédia e ofereça o contraponto necessário de uma suposta vilã, mesmo que, lá no fundo, ambos compartilhem o mesmo objetivo. Destaco especialmente sua performance no episódio "Churnalism", que explora suas inseguranças e acrescenta camadas importantes à construção de sua personagem. No fim das contas, The Paper entrega uma primeira temporada interessante, mesmo que segura, ao nos estabelecer novamente nesse universo antes liderado pelo Michael Scott, de Steve Carell. Domhnall Gleeson e o restante do elenco demonstraram o domínio necessário, enquanto o roteiro tenta amadurecer e revelar aos poucos o seu potencial, para fazer com que essa ideia funcione. Pelo menos é o que esperamos. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out

    Rian Johnson traz Benoit Blanc para mais um caso que, acima de tudo, é simpático Divulgação Após dois filmes desse projeto, o público já tem uma noção bastante clara do que esperar. Uma morte, provavelmente de forma acidental, com pistas espalhadas por toda parte e a sensação constante de que estamos sendo distraídos até que a revelação final se torne inevitável. O molde deste tipo de narrativa já é familiar, mas Rian Johnson ainda encontra maneiras de dar um tempero próprio à fórmula. O cineasta retorna em Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out com mais uma história do detetive, novamente interpretado por Daniel Craig. Desta vez, ele é atraído para um caso que foge levemente do padrão habitual: um jovem padre de passado nebuloso se torna o principal suspeito pela morte de seu superior, figura que exerce forte influência sobre um pequeno grupo de fiéis em uma cidadezinha dos Estados Unidos. O mais curioso nesse projeto é que, embora Craig seja considerado o protagonista evidente da história, muitas vezes tenho a sensação de que os chamados coadjuvantes ocupam um espaço dramático ainda mais central do que ele. Aconteceu isso nos dois primeiros filmes da franquia, e se repete nesse. Josh O'Connor segue construindo uma filmografia invejável e rouba a cena com uma performance extremamente equilibrada como Jud Duplenticy, um ex-boxeador problemático que se torna padre e que, após um desentendimento, é transferido para a paróquia comandada pelo Monsenhor Jefferson Wick, interpretado por Josh Brolin. É justamente na relação entre esses personagens que o filme começa a revelar melhor o seu potencial dramático. Wick é uma figura sombria, quase diabólica, se assim posso dizer. Por meio de sabotagens, mentiras e ameaças veladas, ele constrói uma relação de domínio sobre seus fiéis que beira a obsessão, algo muito próximo de uma codependência emocional. A atuação de Brolin funciona bem durante boa parte do filme, sustentando essa aura inquietante do personagem. Em determinado momento, porém, a composição perde a medida e passa a soar exagerada, quase como uma paródia da figura ameaçadora que havia sido construída até então. O mesmo não acontece com a performance de Glenn Close. A oito vezes indicada ao Oscar entrega exatamente o que se espera de uma das grandes damas do cinema estadunidense. Sua Martha Delacroix vai além do que se poderia imaginar de uma fiel profundamente traumatizada que encontra na igreja uma forma de redenção, tornando-se o braço direito do Monsenhor. É ela quem faz o final dessa história, ainda que previsível, funcionar de maneira genuinamente satisfatória. Divulgação Craig, por sua vez, conduz Benoit Blanc com uma naturalidade impressionante. Existe uma leveza no modo como ele ocupa o papel, como se estivesse plenamente à vontade naquele universo. É um personagem que permite explorar bem suas habilidades cômicas e dramáticas, sempre atravessadas por uma tensão discreta que já se tornou sua marca registrada. E talvez seja justamente aí que o filme começa a perder força. Há uma sensação de conforto generalizado no projeto, como se todos estivessem plenamente acomodados dentro da fórmula que já dominam. Falta o impulso de arriscar mais, de tensionar os próprios limites da franquia, algo que se torna cada vez mais necessário à medida que ela cresce e se consolida. Curiosamente, esse excesso de conforto não se reflete no trabalho técnico, que arrisco dizer ser o melhor de todos os lançados até o momento. Steve Yedlin e Nathan Johnson retornam, respectivamente, como diretor de fotografia e compositor, ainda mais afiados. A tensão se constrói exatamente como o esperado, graças a esse trabalho, que nos envolve na atmosfera do filme mesmo quando a narrativa parece perder o foco. Mesmo com esses reveses, Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out é um filme confortável, mas sincero, e com a vontade no lugar certo. Com um elenco que cumpre bem seu papel dentro desse universo, Rian Johnson sustenta mais uma história de detetive e lembra que o gênero ainda pode respirar, mesmo quando aposta no básico. Nota: 3,5/5

bottom of page