Entrevista | “Resgatar meu sotaque foi um presente”: Rafael Sadovski fala sobre dublar Zeca Brito em Um Cabra Bom de Bola, nova animação da Sony que chega aos cinemas brasileiro
- Matheus Gomes

- 12 de fev.
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Em entrevista ao Oxente Pipoca, o dublador Rafael Sadovski comenta o processo de construção de Zeca Brito, protagonista da animação, a importância da representatividade nordestina na dublagem e como o personagem dialoga com seu próprio início de carreira.

Com protagonismo do sotaque nordestino e forte identidade regional presente na versão brasileira, Um Cabra Bom de Bola chega ao público trazendo não apenas uma narrativa esportiva inspiradora, mas também um marco de representatividade na dublagem nacional. Responsável por dar voz ao carismático Zeca Brito, o dublador Rafael Sadovski conversou com o Oxente Pipoca sobre o processo de encontrar o tom do personagem, o uso do sotaque como ferramenta de interpretação e o impacto do filme em sua própria trajetória profissional. Leia abaixo:
Matheus Gomes (Oxente Pipoca): Oi, Rafael! Tudo bem? Eu faço parte do Oxente Pipoca, que é um portal de cultura e entretenimento com um olhar totalmente nordestino, voltado também para nossas produções e artistas. É uma honra falar com você, ainda mais sendo um nordestino em papel de protagonismo [na animação]. Queria começar perguntando: como foi o processo de encontrar o tom do Zeca Brito? Como você entrou nos “sapatos” do personagem?
Rafael Sadovski: A Honra toda minha! Fico muito feliz de estar aqui falando com um portal do Nordeste. Pra mim é uma felicidade enorme poder representar o Nordeste numa produção grande como Um Cabra Bom de Bola.
Olha, o processo [de dublagem] é curioso, porque a gente nunca sabe exatamente o que vai fazer até chegar na hora. A gente estuda e treina para tomar decisões muito rápidas. Como eu gravei o trailer meses antes, já comecei a construir o personagem na cabeça, isso ajudou muito depois.
A gente se inspira muito no original, né? No que a gente tá ouvindo, pra achar o tom. E eu me inspiro muito na imagem, muito no que a imagem tá me propondo. Eu tenho que colocar a minha voz ali, tenho que convencer que a voz tá saindo daquele corpo e daquela expressão. Então a imagem, pra mim, é tudo pra achar o tom do personagem. Então a gente se baseia muito no material original, porque já foi criado uma ideia; a gente respeita isso, mas usa essas ferramentas, a imagem, e traz pra nossa realidade.
A gente coloca um “molho brasileiro”, um jeitinho de falar que funciona pra gente. E o sotaque só agregou isso, só facilitou esse processo de chegar nesse público brasileiro. E além das gírias que eu fui propondo muito durante as gravações, a Andréa Murucci, que é a diretora de dublagem do filme, me deu muita liberdade também.
Tipo, caramba, se a gente colocar um “boy” aqui, e se a gente colocar uma gíria diferente, você acha que vai funcionar? Vamos tentar. Então teve toda essa troca, que deixou o processo bem legal, bem divertido de fazer.
Matheus Gomes (Oxente Pipoca): Sim! A brasilidade da dublagem é algo muito forte, essa conversa direta com o público, e eu acho que isso ficou muito bem transmitido no decorrer do filme. Queria que você falasse mais sobre o uso do sotaque e do regionalismo. Como foi trazer isso pro personagem e como você enxerga mais vozes nordestinas ocupando esses espaços?
Rafael Sadovski:Eu acho que é uma porta de entrada muito legal para isso acontecer mais vezes, né?. Um protagonista com sotaque nordestino numa animação grande, que chega em vários tipos de público, principalmente na criançada que já vai crescer com esse imaginário de ter um personagem com sotaque, é muito legal. É uma responsabilidade muito grande, um desafio, mas ao mesmo tempo um presente.
Na dublagem, geralmente se usa o chamado “sotaque neutro”, o sotaque de aeroporto, que na prática é mais Rio e São Paulo. Quando surgiu essa oportunidade, eu pensei: vou ter que usar meu sotaque de Mossoró, de Natal, de onde eu vim. Eu moro no Rio há muito tempo, então sei neutralizar, mas resgatar o meu sotaque foi muito legal, foi um presente.
Eu fui atrás disso de forma muito afetiva também. Liguei pra minha avó, que mora em Natal, e falei: “Vó, me fala umas gírias aí da senhora”. Comecei a conversar mais com minha família, ouvir expressões, resgatar esse jeito de falar. Foi muito legal, cara, foi um barato e muito divertido fazer.

Matheus Gomes (Oxente Pipoca): E falando agora do filme como um todo: como foi a dinâmica com o elenco de vozes e o que esse projeto representa pra você nesse momento da carreira?
Rafael Sadovski: [Esse filme] reflete muito o que o Zeca vive na história. A mensagem de que ninguém é pequeno demais pra sonhar grande conversa muito comigo. E eu me coloco muito nesse lugar também; eu tô há dois anos na dublagem, ainda no começo, então me identifiquei demais com ele [o Zeca] buscando espaço, do tipo “Caramba, eu tô entrando aqui e já tem muita fera”, mas eu tô conquistando meu espaço e do meu jeitinho, né? Trazendo a minha verdade, a minha realidade.
Foi muito bonito compartilhar isso com o elenco também. O Enzo, que faz o Zeca criança, é nordestino. A Gilza, que faz a “mainha” dele, também; ela é do Recife. Todo mundo ficou muito feliz, muito emocionado com essa representatividade. Acho que isso fortalece a mensagem do filme e aproxima o público.
Matheus Gomes (Oxente Pipoca): Foi uma conversa muito rica, tocamos em pontos super importantes. Desejo todo sucesso pra você, nesse e nos próximos projetos.



















