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Crítica | Yellow Letters (Festival de Berlim 2026)

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 13 horas
  • 3 min de leitura

Vencedor do Urso de Ouro deste ano aposta no drama familiar pequeno-burguês para se acomodar ao falar de questões políticas transnacionais


Imagem: Divulgação
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À luz das polêmicas que cercaram a 76ª edição do Festival de Berlim – onde vários dos artistas presentes se negaram a comentar questões ditas “políticas”, em especial o genocídio em Gaza – a vitória de Yellow Letters com o Urso de Ouro, a honraria máxima do festival, parece uma decisão curiosa dado os temas abertamente políticos vistos em tela desde os seus primeiros minutos. Contudo, à medida que o filme se desenrola e cai em um lugar cômodo e polido sobre esses temas, fica claro que sua vitória foi mais do que merecida.


Dirigido por İlker Çatak, diretor alemão de origem turca, Yellow Letters acompanha o casal Derya (Özgü Namal), renomada atriz de teatro, e Aziz (Tansu Biçer), dramaturgo e professor universitário. Ambos são fortemente engajados politicamente nesta Turquia contemporânea – a qual sofre com as censuras impostas pelo atual presidente Recep Tayyip Erdoğan – e Derya se nega a tirar foto com o governador, o qual está presente na noite de estreia da última peça dos dois. É a gota d´água para o casal ser perseguido politicamente, sendo forçado a se mudar de Ankara para Istambul com sua filha adolescente, Ezgi (Leyla Smyrna Cabas). A partir daí eles tentam recomeçar a vida e lidar com a própria relação, fragilizada à medida que seus privilégios pequeno-burgueses são cada vez mais afetados.


Ao longo do primeiro ato, Çatak constrói um clima de opressão e silenciamento que demarca muito bem a mudança de status que Derya e Aziz enfrentam, à medida que eles são destituídos dos seus trabalhos, assim como amigos e colegas próximos. Os letreiros indicando “Berlim as Ankara” e “Hamburg as Istambul” são uma estratégia instigante, especialmente considerando que a população de ascendência turca na Alemanha representa a maior parcela da diáspora turca. No entanto, salvo algumas cenas específicas, pouco se extrai desse intercâmbio entre as realidades turca e alemã. Inegavelmente, Çatak obtém mais êxito em ilustrar que, no mundo atual, onde a democracia corrói em vários países, a classe artística e intelectual é sempre uma das primeiras a sofrer nas mãos de regimes autoritários.


Contudo, quando há o deslocamento para Istambul, o filme resolve se encolher, saindo da esfera macro para apostar ainda mais no micro, na dinâmica do relacionamento de Derya e Aziz, bem como das relações deles com a filha adolescente. Usar a esfera pessoal para tratar da esfera política não é uma novidade, tampouco fazer isso a partir de um núcleo familiar pequeno-burguês (Ainda Estou Aqui é um exemplo recente e muito bem-sucedido), mas é nítido como o filme gradativamente vai se contentando com uma camada superficial nos dramas familiares e também nas suas questões políticas.


Por exemplo, tudo envolvendo Ezgi cansa rápido, tanto pela personagem nunca sair do estereótipo da adolescente emburrada e inconsequente quanto pelo roteiro apostar nas escolhas mais óbvias possíveis para criar o conflito entre ela e os pais. Muito mais interessante é a ênfase na gradual dissolução do casamento de Derya e Aziz, sobretudo pelas performances de Biçer e Namal. Esta recebe a oportunidade de ouro de fazer um jogo atoral que invoca os diferentes conflitos que sua personagem vivencia, além da capacidade camaleônica de transitar por diferentes registros audiovisuais, como nas duas sequências seguidas em que ela faz um teste para uma novela e depois no teatro, na nova peça escrita pelo marido. 


Imagem: Divulgação
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O filme encontra força quando investe na tensão sobre qual dos dois cederá primeiro para este sistema, à medida que as pressões institucionais, sociais e econômicas se assomam sobre eles. No entanto, essa tensão é esporádica e só aparece em algumas cenas específicas (como a discussão visceral do casal dentro do carro no último ato), nunca permitindo que o longa alcance o mesmo clima sufocante dos seus primeiros trinta minutos. Depois de certo tempo se torna difícil importar com as perdas que eles sofrem — e o fato do filme tentar reconhecer numa única cena que estamos vendo personagens privilegiados não conta muito em seu favor.


Por isso, quando chegamos aos minutos finais de Yellow Letters, fica claro que a escolha em dar o Urso de Ouro foi mais do que apropriada, visto que se o filme termina não exatamente de forma covarde, certamente escolhe um comodismo que diz muito das visões políticas não só do seu diretor, mas também do júri deste ano em Berlim. Derya e Aziz parecem, portanto, refletir então uma classe política que escolhe se acovardar e se omitir para poder continuar existindo, algo muito simbólico num festival realizado num país que, em razão do seu histórico genocida, prefere se apoiar na ideia de uma “Razão de Estado” para justificar o apoio ou silêncio diante de outro genocídio em curso. 


Nota: 3/5



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