Crítica | Cartas Para Meus Pais Mortos (15º Olhar de Cinema)
- Vinicius Oliveira

- há 2 dias
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Ignacio Aguero mescla a dimensão pessoal do luto e da memória com o panorama político do Chile no último meio século.

Demoram alguns minutos até que Cartas Para Meus Pais Mortos comunique o que pretende em suas 2h de duração. Imagens domésticas se sucedem: os interiores de uma casa, um jardim meio malcuidado, gatos que passeiam por ele... e então a voz de seu realizador Ignacio Aguero se revela, abordando as mortes de seus pais – sobretudo a de seu pai, quando tinha apenas 18 anos e Salvador Allende acabara de ser eleito presidente do Chile – e tomando-as como ponto de partida para as investigações que faz sobre a própria história do Chile dos últimos 50 anos, sobretudo os efeitos da ditadura de Augusto Pinochet.
Aguero concilia suas gravações domésticas com imagens de arquivos e outros excertos audiovisuais, enquanto sua voz narra as lembranças do pai, o passado deste na Marinha e sobretudo seu trabalho em uma fábrica até a sua morte. Esta última parte é complementada pelos depoimentos de Manuel Medina, ex-líder sindical da fábrica que conheceu o pai de Aguero e que, como muitos líderes sindicais, sofreu brutalmente nas mãos da ditadura. Os depoimentos de Medina são longos, quase sem cortes, e mesmo em meio à névoa da memória, constituem-se a alma da obra, ou uma das almas, já que no fim das contas Cartas Para Meus Pais Mortos é muitas coisas em um filme só.
Tem-se um documentário que parte desta dimensão particular para evocar o coletivo e o público, algo muito comum – basta pensar em Retratos Fantasmas, de Kleber Mendonça Filho –, mas é a maneira como Aguero faz essa ponte que o destaca nesta seara específica de documentários. Ele brinca com as imagens, com a sua própria narração (marcada por pausas e hesitações, como se esquecesse do que estava falando e que ainda segue gravando a fala), contrapõe imagens e textos que nem sempre conversam entre si. Não que isso sempre funcione, como evidentes em sequências como a que em que narra o assassinato de um amigo na ditadura enquanto sua câmera grava folhas caídas.
De fato, parece haver no início um completo desinteresse na imagem ou na forma como ela é gravada e registrada, sobretudo no que se refere aos seus registros domésticos, como se estes fossem deliberadamente inferiores ao texto narrado (mas ora, não é o cinema uma arte audiovisual?). Mais eficazes são os usos das imagens de arquivo, sobretudo as gravações do pai de Aguero, que de alguma forma prenunciam o caráter questionador da câmera do cineasta décadas depois. Mas à medida que o filme progride, mesmo que sua duração possa ser sentida em determinados momentos, ele vai ganhando força e confiança para explorar esta sua natureza aparentemente contraditória, com alguns resultados até mesmo humorísticos.
Estes caminhos tortuosos podem certamente não agradar a todos, mas pelos menos ajudam Aguero a sair de seu lugar um tanto pequeno-burguês para tratar com ousadia (e também certa sensibilidade) um tema tão espinhoso e ainda doloroso para o Chile e a América Latina como a ditadura. O resultado final pode aparentar ser um tanto errático, mas exitoso em sua proposta de nos marcar de alguma forma a partir das memórias pessoais e familiares do diretor.
Nota: 3/5



















