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Crítica | Telúrica, a Íntima Utopia (15º Olhar de Cinema)

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 3 horas
  • 2 min de leitura

Documentário se ampara no teatro, na horizontalidade e no afeto para diminuir estigmas em torno de pessoas em sofrimento psíquico.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Originária do latim tellus (que significa “terra”), a palavra “telúrica” pode se referir a diversas dimensões relacionadas àquilo que é relativo à Terra, seja na geofísica, astronomia ou nas artes. Em Telúrica, a Íntima Utopia, a palavra norteia o título e os bastidores da nova peça da companhia teatral Ueinzz, formada em São Paulo em 1996 e que é composta em grande parte por pessoas em sofrimento psíquico, bem como profissionais da área da saúde e das artes.


Neste cenário multidisciplinar e multirreferencial, o documentário de Mariana Lacerda evita maiores didatismos para trazer os cotidianos da companhia e dos seus atores. Foca nos ensaios, nas trocas e sobretudo nos afetos, visibilizando esses indivíduos sem limitá-los às suas condições e sofrimentos. Os melhores momentos do longa vêm nestes instantes mais íntimos, onde eles compartilham suas reflexões, suas trajetórias e propostas para a peça. De maneira inteligente, não há demarcação de quem é “paciente” e quem é profissional, porque não se trata disso; todos são apresentados numa perspectiva horizontalizada que os respeita e confere-lhes humanidade. 


Ainda assim, essa proposta também não vem sem certas limitações. O filme se desenrola todo dentro de um galpão onde os ensaios são feitos, e com isso a ênfase se dá neste processo criativo rumo à peça e na existência dos personagens ali dentro, mas não na existência para fora daquele espaço – a qual certamente seria inegável para mensurar aquilo que eles trazem para este universo (ainda que alguns relatos e monólogos “supram” tal lacuna). Além disso, se em determinados momentos a câmera de Lacerda transita com naturalidade pelo espaço e captura movimentos e instantes muito orgânicos, em outros a encenação parece controlada demais (como em algumas trocas entre atores e lideranças da companhia), inclusive no aspecto formal. Nesse sentido, até a trilha sonora reflete essa irregularidade; ao final entendemos que ela faz parte da peça em si, mas sua utilização ao longo do filme parece quase manipuladora, ou ao menos destoante do tom que as imagens dos bastidores assumem.


No fim, também é preciso fazer um questionamento: longe de qualquer julgamento moral sobre estes personagens, mas em que medida eles têm algum controle e autonomia sobre sua própria imagem que vemos no filme? Pode a horizontalidade e os afetos suprirem questões ligadas a consentimento e ética? Não é uma questão que o filme tem interesse em responder, mas que a permeia de uma maneira um tanto desconfortável. Ainda assim, é louvável que ele se comprometa a não estigmatizar estas pessoas, reforçando o papel libertador e catártico da arte. Ou como cantaria Rita Lee em Ovelha Negra, música que fecha o filme com uma mensagem um tanto óbvia, mas ainda assim certeira:


Baby baby

Não adianta chamar

Quando alguém está perdido

Procurando se encontrar

Baby baby

Não vale a pena esperar, oh não

Tire isso da cabeça

E ponha o resto no lugar


Nota: 2.5/5


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