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  • Foto do escritorVinicius Oliveira

Crítica | Creed III

Michael B. Jordan oferece novas possibilidades à icônica franquia

Foto: Divulgação


Poucas franquias definem tão bem a expressão “em time que está ganhando não se mexe” como Rocky. Ela é norteada por uma fórmula bem definida, simples e previsível — um protagonista azarão de bom coração que enfrenta adversários poderosos nos ringues do boxe —, mas graças ao seu carisma e charme conseguiu se elevar para além do lugar comum para entregar uma série de filmes memoráveis, até mesmo os seus mais fracos. A aplicação dessa fórmula se estendeu para sua franquia sucessora Creed, mesmo com o foco migrando de Rocky Balboa (Sylvester Stallone) para Adonis Creed (Michael B. Jordan), filho do seu falecido ex-rival e amigo Apollo Creed (Carl. Weathers).


Na superfície, Creed III não parece divergir muito dessa fórmula, entregando vários dos pontos que já vimos nos filmes anteriores — mais especificamente, Rocky III. No entanto, o filme ao mesmo tempo aponta para novas direções que a franquia pode tomar, principalmente em sair da sombra da franquia-mão. Isso é ainda mais evidente pela notória ausência de Balboa (embora mais por divergências nos bastidores do que por uma real necessidade de tirá-lo de cena) e uma maior e mais autônoma exploração do próprio Creed, que se vê forçado a confrontar seu próprio passado pelo retorno de Damien “Dame” Anderson (Jonathan Majors), um velho amigo da infância e adolescência que passou décadas preso após um crime no qual os dois estiveram envolvidos e agora quer voltar aos ringues para sagrar-se campeão.


Ainda que jamais tenhamos ouvido alguma menção a Dame nos filmes anteriores, sua inserção aqui soa orgânica, e, mesmo que o personagem possua uma clara função narrativa — de catalisador de conflitos entre Creed e sua família e seus negócios —, ele é alavancado por uma performance poderosa de Majors, um dos meus atores favoritos da atualidade. Diferente de outros antagonistas vistos nas obras anteriores, o filme e o trabalho de Majors dão espaço suficiente para entendermos as motivações e nos colocarmos no lugar do personagem, que se revela talvez o antagonista mais notável e complexo que a franquia já teve, mesmo com o arco ligeiramente previsível que recebe. Sua química com Jordan consegue construir toda a história de fundo desses personagens, a camaradagem que um dia existiu e a rivalidade agridoce que é construída até culminar na luta final.

Foto: Divulgação


Ao mesmo tempo, o roteiro de Keenan Cogler (primo de Ryan Coogler, diretor do primeiro Creed) e Zach Baylin também busca olhar a vida doméstica de Creed, permitindo que figuras como sua esposa Bianca (Tessa Thompson) e sua filha Amara (Mila Davis-Kent) não sirvam apenas como acessórios para a evolução do protagonista, mas existam como personagens em seu próprio direito. Aliás, o interesse de Amara pelo boxe não apenas prenuncia um futuro para a franquia, como também abre espaço para vermos as lutas internas de Adonis e como elas se expressam nas lutas externas dele, apontando até mesmo para uma breve discussão sobre masculinidade negra e violência nas figuras dele e de Dame.


Jordan, que tem aqui sua estreia na direção, pode não entregar um trabalho do calibre de Coogler em Creed, mas faz um trabalho notável que aponta para um futuro promissor atrás das câmeras. Ele e o diretor de fotografia Kramer Morgenthau conseguem trazer uma sensação distinta para as lutas, assumindo uma câmera que é mais frenética e nervosa, mas que nos permite sentir cada golpe e soco. Além disso, sua declarada inspiração nos animes shonen é facilmente sentida, especialmente na fantástica luta final, que deve figurar como uma das melhores da franquia, não só pela violência exibida, mas pelo impacto emocional conferido aos personagens, adotando até algumas escolhas estilísticas que fogem do padrão para Rocky/Creed, mas que se encaixam perfeitamente aqui.


Creed III não necessariamente reinventa a roda, mas consegue ser o primeiro filme na franquia que demonstra sua capacidade de andar com as próprias pernas sem estar em constante débito com Rocky. Ainda que a ausência de Rocky Balboa não seja plenamente justificada, é um prazer ver Adonis Creed assumindo cada vez mais o papel de protagonista — e no caso de Michael B. Jordan, esse protagonismo é duplo, já que seu trabalho à frente e atrás das câmeras mostra que sua paixão e dedicação por essa franquia pode levá-la a novos e fascinantes lugares.


Nota: 4/5


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