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Crítica | Quase Inverno (15º Olhar de Cinema)

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 3 horas
  • 2 min de leitura

Indeciso sobre qual tom e linguagem adotar, longa ensaia e acumula situações que não se resolvem.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Adaptado da peça Três Irmãs, de Anton Tchekov, Quase Inverno transporta o material original da Rússia Imperial para o interior paranaense dos anos 70, no contexto da ditadura. As protagonistas – Catarina (Ondina Clais), Elena (Simone Iliescu) e Valentina (Luiza Quinteiro) – se reúnem com o irmão Ariel (Guilherme Kirchheim) na esteira da iminente morte da mãe, sendo confrontadas por seus passados, traumas e segredos à medida que a presença militar se imiscui na fazendo onde cresceram.


A ideia de retrabalhar a peça de Tchekov nesta nova ambientação é, ao menos no papel, uma decisão instigante que possibilita ao diretor Rodrigo Grota expandir e oferecer novas luzes ao material original – algo que, a meu ver, toda adaptação deveria oferecer. Mas esta questão é, em si, tangencial à obra, não só em termos de caracterização (afora os veículos militares, há pouco ou quase nada na direção de arte que justifica ou convence de que a obra se passa nos anos 70), mas até ao peso trazido para essa presença militar. Os personagens que representam tal presença, Julian (Erom Monteiro) e Esteban (Fernando Alves Pinto), são colocados de forma alheia à trama, mal obtendo algum tipo de destaque na esmagadora maioria da obra.


Pode se argumentar que o foco aqui reside nas irmãs (e no irmão), o que não deixa de ser verdade, mas é também no tratamento a elas e as escolhas formais e de linguagem que o filme apresenta suas maiores fragilidades. As mudanças tonais, entre um registro ficcional e os elementos da linguagem teatral – sobretudo nas inserções dos monólogos –, colocam o filme num estado de tensão e incerteza sobre o que de fato quer ser: uma obra cinematográfica ou uma peça de teatro filmada? E isso se dá numa edição do festival em que vários filmes que têm em alguma medida explorado estes elementos teatrais, mas de maneiras muito mais bem-sucedidas. 


Aqui, a inserção destes elementos só ajuda a prejudicar um ritmo que já vinha sendo lânguido, já que situações dramáticas são ensaiadas e nunca levadas a fundo. Pior: uma vez que o teatro é muito mais dependente do texto do que o cinema, as sequências dos monólogos se convertem justamente nessa dependência excessiva do texto, onde as imagens servem apenas para reforçá-lo e sublinhar o que já está sendo dito pelos atores, o que mostra falta de confiança tanto no texto quanto na imagem.


Embora Quase Inverno encontre amparo em alguns méritos – como as filmagens das paisagens naturais que ajudam a evocar um pouco do estado emocional das protagonistas, bem como algumas das atuações (sobretudo Iliescu) –, sua dependência no texto teatral sem a devida transposição para o universo cinematográfico deixa o filme numa espécie de limbo que o limita na maior parte dos momentos. Sem coragem para ser um ou outro, ou um híbrido mais bem-articulado, o resultado é uma experiência monótona e uma das produções mais fracas do festival até o momento.

Nota: 2/5


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