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Crítica | Salvação (15º Olhar de Cinema)

Vinicius Oliveira

15 de jun de 2026 · 2 min de leitura

Drama turco apresenta no texto uma escalada de tensão e violência que raramente se concretiza na imagem.
Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Filmes de encerramento de festivais sempre sofrem com uma experiência ingrata por parte do público. Depois de 10 dias intensos, alguém ainda realmente está 100% disposto a assisti-los? Ainda assim, havia curiosidade pela premissa de Salvação, longa turco de Emin Alper que ganhou o Prêmio do Júri na última edição do Festival de Berlim. Ambientado no interior da Turquia, o filme acompanha os embates entre dois clãs através sobretudo dos olhos de Mesut (Caner Cindoruk), o qual gradativamente contesta a liderança do irmão Ferit (Feyyaz Duman) para engajar seu clã contra os rivais.


Com ecos de tragédia shakespeariana, Salvação propõe uma interessante (e desconfortável) discussão sobre genocídio, violência e fanatismo religioso. As ações de Mesut e seus eventuais companheiros e seguidores são sustentadas pelo “nome de Deus”, ou do avô do personagem, que foi uma liderança proeminente no clã. O uso dos sonhos e as aparições misteriosas e inexplicáveis de figuras fantasmagóricas e sobrenaturais até ancoram o longa num realismo mágico e numa curiosa ambiguidade, especialmente porque só temos acesso a determinados sonhos de Mesut, enquanto outros que ele declara ter tido para justificar suas ações cada vez mais violentas não são vistos, deixando-nos incertos sobre até que ponto ele está manipulando esta comunidade ou se realmente teve tais visões.


O problema é que Alper parece nunca ter coragem o suficiente para levar o desconforto do texto para a tela. A violência é mais sugerida do que frontalmente trabalhada, e mesmo no clímax suas escolhas formais (as tomadas noturnas, a fotografia escura, os cortes bruscos, a câmera trêmula) revelam um receio de explorar a culminação da escalada de tensão e violência que vinha se desenrolando. Toda vez que parece que o filme irá adentrar sem medo um território mais perigoso e ousado em termos da intensificação do conflito, há um corte que revela que tudo não passou de um sonho. Da primeira vez que isso acontece é até tolerável pelo fator surpresa, mas é um recurso usado à exaustão durante praticamente todo o filme, esvaziando assim qualquer peso que quer se dar à discussão dentro da narrativa.


Assim, Salvação é um filme que ensaia um impacto que nunca chega, já que desvia os olhos constantemente do seu próprio objeto de estudo – e faz com que nós, espectadores, sejamos forçados a desviar os nossos também. Tamanha polidez e “cuidado” para tratar de um tópico tão desconfortável só se convertem, no fim das contas, em covardia, o que faz do longa um encerramento morno e decepcionante para um festival que contou com obras muito melhores.

Nota: 2.5/5 


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15 de jun.
2 min de leitura

Atualizado: 8 de out.

Drama turco apresenta no texto uma escalada de tensão e violência que raramente se concretiza na imagem.
Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Filmes de encerramento de festivais sempre sofrem com uma experiência ingrata por parte do público. Depois de 10 dias intensos, alguém ainda realmente está 100% disposto a assisti-los? Ainda assim, havia curiosidade pela premissa de Salvação, longa turco de Emin Alper que ganhou o Prêmio do Júri na última edição do Festival de Berlim. Ambientado no interior da Turquia, o filme acompanha os embates entre dois clãs através sobretudo dos olhos de Mesut (Caner Cindoruk), o qual gradativamente contesta a liderança do irmão Ferit (Feyyaz Duman) para engajar seu clã contra os rivais.


Com ecos de tragédia shakespeariana, Salvação propõe uma interessante (e desconfortável) discussão sobre genocídio, violência e fanatismo religioso. As ações de Mesut e seus eventuais companheiros e seguidores são sustentadas pelo “nome de Deus”, ou do avô do personagem, que foi uma liderança proeminente no clã. O uso dos sonhos e as aparições misteriosas e inexplicáveis de figuras fantasmagóricas e sobrenaturais até ancoram o longa num realismo mágico e numa curiosa ambiguidade, especialmente porque só temos acesso a determinados sonhos de Mesut, enquanto outros que ele declara ter tido para justificar suas ações cada vez mais violentas não são vistos, deixando-nos incertos sobre até que ponto ele está manipulando esta comunidade ou se realmente teve tais visões.


O problema é que Alper parece nunca ter coragem o suficiente para levar o desconforto do texto para a tela. A violência é mais sugerida do que frontalmente trabalhada, e mesmo no clímax suas escolhas formais (as tomadas noturnas, a fotografia escura, os cortes bruscos, a câmera trêmula) revelam um receio de explorar a culminação da escalada de tensão e violência que vinha se desenrolando. Toda vez que parece que o filme irá adentrar sem medo um território mais perigoso e ousado em termos da intensificação do conflito, há um corte que revela que tudo não passou de um sonho. Da primeira vez que isso acontece é até tolerável pelo fator surpresa, mas é um recurso usado à exaustão durante praticamente todo o filme, esvaziando assim qualquer peso que quer se dar à discussão dentro da narrativa.


Assim, Salvação é um filme que ensaia um impacto que nunca chega, já que desvia os olhos constantemente do seu próprio objeto de estudo – e faz com que nós, espectadores, sejamos forçados a desviar os nossos também. Tamanha polidez e “cuidado” para tratar de um tópico tão desconfortável só se convertem, no fim das contas, em covardia, o que faz do longa um encerramento morno e decepcionante para um festival que contou com obras muito melhores.

Nota: 2.5/5 


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