Crítica | Salvação (15º Olhar de Cinema)
- Vinicius Oliveira

- há 3 horas
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Drama turco apresenta no texto uma escalada de tensão e violência que raramente se concretiza na imagem.

Filmes de encerramento de festivais sempre sofrem com uma experiência ingrata por parte do público. Depois de 10 dias intensos, alguém ainda realmente está 100% disposto a assisti-los? Ainda assim, havia curiosidade pela premissa de Salvação, longa turco de Emin Alper que ganhou o Prêmio do Júri na última edição do Festival de Berlim. Ambientado no interior da Turquia, o filme acompanha os embates entre dois clãs através sobretudo dos olhos de Mesut (Caner Cindoruk), o qual gradativamente contesta a liderança do irmão Ferit (Feyyaz Duman) para engajar seu clã contra os rivais.
Com ecos de tragédia shakespeariana, Salvação propõe uma interessante (e desconfortável) discussão sobre genocídio, violência e fanatismo religioso. As ações de Mesut e seus eventuais companheiros e seguidores são sustentadas pelo “nome de Deus”, ou do avô do personagem, que foi uma liderança proeminente no clã. O uso dos sonhos e as aparições misteriosas e inexplicáveis de figuras fantasmagóricas e sobrenaturais até ancoram o longa num realismo mágico e numa curiosa ambiguidade, especialmente porque só temos acesso a determinados sonhos de Mesut, enquanto outros que ele declara ter tido para justificar suas ações cada vez mais violentas não são vistos, deixando-nos incertos sobre até que ponto ele está manipulando esta comunidade ou se realmente teve tais visões.
O problema é que Alper parece nunca ter coragem o suficiente para levar o desconforto do texto para a tela. A violência é mais sugerida do que frontalmente trabalhada, e mesmo no clímax suas escolhas formais (as tomadas noturnas, a fotografia escura, os cortes bruscos, a câmera trêmula) revelam um receio de explorar a culminação da escalada de tensão e violência que vinha se desenrolando. Toda vez que parece que o filme irá adentrar sem medo um território mais perigoso e ousado em termos da intensificação do conflito, há um corte que revela que tudo não passou de um sonho. Da primeira vez que isso acontece é até tolerável pelo fator surpresa, mas é um recurso usado à exaustão durante praticamente todo o filme, esvaziando assim qualquer peso que quer se dar à discussão dentro da narrativa.
Assim, Salvação é um filme que ensaia um impacto que nunca chega, já que desvia os olhos constantemente do seu próprio objeto de estudo – e faz com que nós, espectadores, sejamos forçados a desviar os nossos também. Tamanha polidez e “cuidado” para tratar de um tópico tão desconfortável só se convertem, no fim das contas, em covardia, o que faz do longa um encerramento morno e decepcionante para um festival que contou com obras muito melhores.
Nota: 2.5/5



















