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Crítica | A Noite Já Está Partindo (15º Olhar de Cinema)

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 4 horas
  • 2 min de leitura

Comédia dramática argentina escreve uma carta agridoce ao cinema sem ousar os voos mais altos aos quais tem potencial.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Talvez poucos assuntos interessem ao cinema como falar sobre si mesmo. Basta pensar em Cantando na Chuva, que em 1952 já discorria sobre a passagem do cinema silencioso para o sonoro no fim dos anos 20, ou até exemplos mais locais (e ainda mais antigos), como Hollywood Studios, filme paranaense de 1930 exibido no Olhar de Cinema em que seu diretor, Arthur Rogge, visitou Hollywood para pensar estratégias de desenvolvimento de uma indústria cinematográfica local.


A Noite Já Está Partindo, de Ramiro Sonzini e Ezequiel Salinas, se veste do verniz ficcional para discutir o cinema como lugar de escape e acolhimento, mas também o inserindo num panorama dolorosamente real das faltas de investimentos e políticas públicas. Ambientado em Córdoba, na Argentina, o filme acompanha Pelu (Octavio Bertone), um projecionista de um cinema de rua decadente na cidade que perde o emprego devido aos cortes de gastos, e para se manter trabalhando ali em meio às dificuldades financeiras aceita o bico de segurança noturno do lugar, criando aos poucos uma pequena comunidade de amigos que frequentam o espaço.


O filme se desenrola numa sucessão de pequenos eventos, quase sketches, à medida que Pelu passa a não apenas vigiar o cinema, mas também a viver nele, e traz para dentro estes amigos. Há o ensaio de algumas situações narrativas que parecem indicar um determinado foco da obra, mas Sonzini e Salinas se contentam nesse aspecto cotidiano e repleto de mini situações em seu geral bastante humorísticas, concentrando-se majoritariamente em Pelu, mas gradativamente abrindo espaço para os outros personagens, como o flanelinha Jose (Rodrigo Fierro) e a produtora de conteúdo adulto Vale (Juana Oviedo).


Não é um problema em si que o filme se detenha sobre esse cotidiano dos personagens, mas é perceptível como há instantes em que ele demonstra uma vontade de ser mais do que isso e, no entanto, nunca abraça por completo essa vontade – e esse potencial. Isso é evidente no bloco com Vale, sobretudo na sequência em que ela se grava enquanto Pelu a assiste ao longe, e a dupla de diretores brinca com os pontos de vista, fundindo os planos para colocar os personagens praticamente lado ao lado, numa exibição sensual de voyeurismo e escopofilia que deixaria Brian DePalma orgulhoso. 


No entanto, é um instante inspirado e de grande destaque num filme que se contenta com o básico. Não que se trate de básico malfeito, pelo contrário: Sonzini e Salinas conferem um certo brilho e textura a essa imagem P&B que lhe conferem um aspecto de sonho (ainda que a própria escolha pelo P&B pouco importe, no fim das contas), e a atuação de Bertone, se parece em geral feita de uma nota só, também não ofende, se destacando em uma determinada cena onde ele se emociona com um dos filmes que está assistindo.


Mas, no fim das contas, A Noite Já Está Partindo é esta carta agridoce ao cinema, pontuada por instantes apaixonados, mas esparsos. Outras cartas mais contundentes e pungentes já foram escritas, de modo que o filme se revela num bom e velho arroz e feijão: nutre em alguma medida, mas está longe de ser o melhor prato que já provamos. 


Nota: 3/5


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