Crítica | Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha (15º Olhar de Cinema)
- Vinicius Oliveira

- há 3 horas
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Uma odisseia onírica pela memória e os laços de sangue em busca de reparação.

Rosa (Veronica Cavalcanti) precisa fazer um exame de ressonância magnética, e é instruída a pensar em um momento feliz da vida. Mas esta não é uma tarefa fácil para alguém abandonada pela mãe, Dalva (Luciana Souza), na infância e que está passando por uma separação dolorosa. Para encontrar alguma lembrança feliz, Rosa então embarca numa jornada pelo seu inconsciente ao lado de Dalva, de modo a reconstruir (ou neste caso, construir) a relação com a mãe.
Sou do time que evita guiar minhas percepções sobre um filme a partir do que seu realizador(a) diz, mas antes da exibição de Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha a diretora Janaína Marques nos convidou a “embarcar” na viagem proposta pelo filme e resolvi que acataria seu pedido. Um acerto: o filme evidencia seu caráter onírico e ligeiramente surreal desde os primeiros minutos e, embora esteja longe de ser a obra mais experimental e hermética que vi neste festival, ela não se incomoda em explicar em detalhar os eventos aparentemente desconexos (e por vezes hilariamente absurdos) que ocorrem em tela.
O trabalho de direção de arte de Patrícia Passos é primoroso nesse sentido, já que cada espaço – desde o interior de um carro de cachorro-quente, o quarto e o salão de uma pousada ou formações naturais como pedras e dunas – conferem esse aspecto de sonho à obra, usa essa dimensão onírica para mergulhar no âmago de Rosa. A própria textura e composição da imagem e dos planos, na fotografia vibrante de Ivo Lopes Araújo e os planos fixos construídos por ele e Janaína, só nos convidam a imergir nesse espaço do inconsciente da protagonista, ao mesmo tempo em que extraem humor a partir dessas composições (o melhor exemplo sendo a cena em que um cachorro-quente gigante flutua pelas águas de um açude de maneira inesperada).
Mas certamente a grande força e alma de Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha está na dinâmica de Rosa e Dalva e, por extensão, nas performances de suas duas atrizes, que sozinhas sustentam quase 90% do filme. Cavalcanti compõe uma personagem melancólica e ferida, que gradativamente vai encontrando sua própria liberdade à medida que se reconcilia com a figura da mãe. Esta, na pele de Souza, é talvez o grande destaque do filme: a atriz baiana dá conta de interpretar uma figura meio irreal, meio construída a partir de memórias antigas e relatos de terceiros, de modo que sua transformação ao longo do filme é sutil, mas perceptível, saindo de um lugar impulsivo e caótico para uma figura mais “materna” e acolhedora, mesmo quando suas falhas e contradições são postas em xeque. Tamanho é o seu magnetismo em tela quando aparece que o filme até perde um pouco do seu fôlego quando a personagem é posta de lado em determinado momento, ainda que recupere esse fôlego nos lindíssimos minutos finais.
Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha é uma jornada complexa e repleta de altos e baixos entre duas mulheres ligadas por mais do que o mero laço de mãe e filha. Como conciliar as memórias com a verdade? Existe uma verdade, afinal de contas? Nesse sentido, o filme pode até lembrar de Aftersun, mas com um toque de humor – e com um espaço geocultural muito próprio e nosso. Na condição de último longa exibido na Mostra Competitiva Brasileira do festival, certamente a encerrou com chave de ouro, se firmando como um dos mais queridos e memoráveis desta edição como um todo.
Nota: 4.5/5



















