Crítica | Hora do Recreio
- Vinicius Oliveira

- 6 de mar.
- 3 min de leitura
Um filme sobrecarregado por suas boas intenções e pelo excesso de ideias.

Em tempos aterradores onde se vê todos os dias pelo menos uma notícia sobre violência de gênero e feminicídio, é reconfortante, em alguma medida, ver os jovens apresentados em Hora do Recreio articularem tão conscientemente suas posições a respeito de tantos temas vitais para a sociedade – gênero, raça, sexualidade, etc. Aqui, a câmera de Lúcia Murat dá espaço para que essas meninas e meninos, estudantes da rede pública do Rio de Janeiro, possam expressar suas inquietações em um mundo que cada vez menos dá espaço para tal, especialmente para aqueles que, como eles, vêm de realidades periféricas.
Para tal, Murat adota uma proposta docuficcional, que alterna sequências onde estes jovens discutem entre si estes mais diversos recortes com instantes de encenação, sobretudo na última parte, onde há uma apresentação teatral de Clara dos Anjos, de Lima Barreto, por parte do grupo de alunos que vemos debater. As adversidades encontradas no decorrer da gravação do filme – como a não-permissão por parte da Secretaria da Educação do estado para gravarem numa escola ou uma operação policial – são incorporadas à narrativa também como forma de enfatizar a escolha pelos instantes encenados.
Normalmente sou um grande fã de obras docuficcionais, sobretudo após acompanhar o trabalho de Eduardo Coutinho, que se tornou meu diretor brasileiro favorito. No cinema de Coutinho, sempre me impressionou sua capacidade de ouvir e dar ao Outro espaço para ser ele mesmo, de maneira natural (e não necessariamente real), com todas as suas contradições inerentes. O problema de Hora do Recreio é que, mesmo antes de ser revelado o seu dispositivo ficcional, há algo de não-orgânico na maneira como estes personagens se expressam e se articulam.
Não é que eles não falem de questões contundentes ou defendam suas visões de mundo sem medo perante a câmera, justificando assim a relevância do filme em si; contudo, tudo parece engessado e protocolar demais, como se atendesse a uma cartilha sociopolítica específica, a qual está interessada em saber os posicionamentos destes personagens enquanto pouco se interessa pelo íntimo deles. Mesmo quando abordam experiências pessoais (como as violências que as mães sofreram nas mãos de parceiros), parecem dizer palavras previamente roteirizadas, ao invés de relatarem questões que vêm do amago do seu ser. São realidades que certamente ecoam em milhões de jovens pretos e pretas pelo país, mas é gritante a falta de espaço no filme para se ver a subjetividade a estes indivíduos, como se eles fossem menos sujeitos e mais ideias ou arquétipos ligados aos temas aqui trabalhados.
À medida que o filme avança, fica claro seu excesso de ideias e de diferentes execuções, as quais pecam por uma falta de coesão interna entre elas. O longa oscila entre tons, saindo das entrevistas com os alunos para os momentos de encenação, abordando uma miríade de temas que, em decorrência da sua curta duração, nunca são explorados a fundo, muitas vezes aparecendo como se cumprissem uma mera diretriz (“aqui falamos sobre transfobia”, “agora vamos falar sobre a solidão da mulher preta”, etc.) ao invés de emergirem organicamente na obra.

O dispositivo ficcional nunca é explorado suficientemente a fundo, exceto pelo momento da revelação de sua existência ou das sequências encenadas, sobretudo na adaptação de Clara dos Anjos. Não à toa, os momentos no teatro, intercalados com as falas do grupo de alunos postos em destaque nessa última parte, são o destaque do filme, por sintetizarem com mais eficácia aquilo que foi meramente pincelado nas partes anteriores. Estabelecer a conexão entre o livro, publicado mais de um século atrás, com as questões que atravessam esses jovens na contemporaneidade é um acerto por parte de Murat que me faz desejar justamente que o filme fosse mais centrado nessa parte em específico.
No fim, tem-se uma obra que certamente se justifica pela “relevância” dos seus temas, mas peca na execução que, indecisa sobre que tom e abordagem escolher, parece atirar para muitos lados e carece de um foco tanto narrativo e temático quanto metodológico-formal. Na sua ânsia de dar conta de tantos assuntos relevantes, Hora do Recreio acaba se mostrando um filme inchado demais pra seus modestos 83 minutos, e que, portanto, carece de ímpeto pra ir além da superficialidade e de uma certa cartilha sociopolítica que, mesmo que ainda relevante, já foi retratada em filmes melhores – sobretudo aqueles que encontraram nas subjetividades dos seus personagens o seu maior tesouro.
Nota: 2.5/5



















