Entrevista | “Não acho que é um filme totalmente fatalista”: George Walker Torres fala sobre “A Mulher que Chora”
- Vinicius Oliveira

- há 2 horas
- 6 min de leitura
Diretor venezuelano falou ao Oxente Pipoca sobre como buscou aliar a famosa lenda latino-americana com questões de classe e gênero.

Divulgação
Estreia nos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira (9) o filme A Mulher que Chora, dirigido pelo venezuelano George Walker Torres e cuja crítica você pode ler aqui. O longa centra-se em Miguel (Zayan Medeiros), um menino de 7 anos que, no respaldo do divórcio dos pais, vai com a mãe Helena (Julia Stockler) morar no casarão sombrio e um tanto abandonado onde vivem a avó e a bisavó, a qual se encontra em estado catatônico. É lá que também vive Carmen (Samantha Castillo), imigrante venezuelana que é empregada e cuidadora da bisavó, e com quem Miguel constrói um gradativo laço filial e complexo, atravessado pela lenda da Mulher Que Chora, a qual vai sendo narrada por Carmen ao longo do filme.
Em entrevista ao Oxente Pipoca, George Walker Torres falou sobre a decisão de incorporar a lenda da Mulher que Chora (conhecida nos países hispânicos como La Llorona) ao contexto brasileiro, entrelaçando-a a discussões de classe e de gênero. O diretor também comentou sobre como o cenário político da Venezuela nos últimos anos e a presença de imigrantes venezuelanos no Brasil também foi um fio condutor do filme, além das violências exercidas sobre Carmen e Miguel. Você pode conferir a entrevista na íntegra abaixo:
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme usa a lenda de La Llorona para discutir questões de classe e gênero, sobretudo na relação de Carmen e Miguel. Como foi trazer os elementos da lenda para a realidade brasileira, sobretudo com esses elementos do cinema de gênero? Teve filmes brasileiros e latino-americanos que te serviram de referência?
George Walker Torres: A história da Mulher que Chora é um conto folclórico muito latino-americano, não tanto no Brasil, mas nos países hispânicos sim. Eu sou venezuelano, é uma história muito presente na infância da gente, então a gente fica com medo dessa mulher que vai aparecer. Tem um filme de terror muito interessante da Guatemala, de Jayro Bustamante, chamado A Chorona, que trata de outro jeito essa lenda. Então é uma história que já foi tratada na literatura, no cinema bastantes vezes.
Eu quis trazer como personagem que trabalha nessa casa, cuidando do menino, uma imigrante venezuelana, quis trazer essa lenda um pouco para aqui no Brasil, trabalhar o universo feminino através dessa personagem. E tratar de um modo sutil, queria tratar o tema do sexo, gênero, como você falou, da maternidade, do abandono, da violência que permeia a nossa sociedade, não só brasileira, mas latino-americana. Essa foi a ideia de trazer essa história da Mulher que Chora, porque todas as mulheres no filme são mulheres que choram, e talvez o menino seja também uma mulher que chora.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): A gente vê ao longo do filme o tratamento desumano que alguns dos personagens conferem a Carmen por sua origem venezuelana. De que formas você, sendo também venezuelano, buscou atrelar essa questão da xenofobia à própria estrutura do filme? Como isso conversa com a lenda de La Llorona?
George Walker Torres: Nós somos 800 mil [venezuelanos] no Brasil, são mais de 9 milhões de venezuelanos fora do país, que saíram por causas econômicas, políticas, não por escolha, mas porque tiveram que sair para sobreviver, para procurar uma vida digna. A Venezuela realmente nesses últimos anos tem enfrentado um período de crise muito grande, então não é uma migração voluntária, mas na maioria das vezes muita gente não tem escolha, sobretudo os jovens.
E esse caso dessa personagem [Carmen], é uma mulher que de emigrou deixando o filho pequeno, então tem essa separação, tem esse laço mais filho cortado. Tem um abandono aí um pouco que faz espelho com o abandono do Miguel e que acho que é um abandono que a gente que se repete muito em nossas sociedades.
Voltando à sua pergunta, claro que existe a xenofobia, mas acho que o Brasil é um dos países onde os venezuelanos sofrem menos xenofobia. Tem, claro, mas é menos forte do que em outros países como Peru, Colômbia ou mesmo no Chile. Então, mais do que a xenofobia, tem uma violência da desigualdade social, da figura da empregada, dessas classes sociais muito divididas. E aí vem tingida dessa coisa de imigração, uma mulher de fora, uma pobre venezuelana na mentalidade da mãe [Helena], da família do menino, que é uma família de classe alta brasileira.
Então, tem esse preconceito que acho que é muito forte na nossa classe dominante, não só aqui no Brasil, mas na América Latina, e que é normalizado por muita gente. É uma realidade muito violenta, onde há essa naturalidade, essa normalização, essa violência de poder, de opressão. Então há essa questão política também para mim, que tá no filme de um modo sutil, não evidente, mas que para mim é importante.

Divulgação
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme é muito ancorado no olhar de Miguel, e uma questão menor, mas que me chamou muito a atenção, foi a maneira como ele incorpora a violência verbalizada e praticada por seu primo. Pensando em toda a discussão que estamos tendo sobre redpills e o comportamento violento dos homens na sociedade, por quais maneiras a gente pode trabalhar pra que essa violência não seja internalizada desde tão cedo?
George Walker Torres: É uma boa pergunta. Eu queria explorar essa questão e que tem a ver com o gênero, porque ele é um menino, um homem. Então, ele está entre esse mundo feminino, onde cresce com Carmen, a mãe, a avó, a bisavó, são todas mulheres, e ao mesmo tempo há essa imposição dessa violência masculina patriarcal que domina nossas sociedades. Então, ele está um pouco perdido entre essas duas imposições. Um mundo feminino que chora, meio deprimido, vítima por um lado dessa violência, e ao mesmo tempo a imposição dessa violência que você falou, muito forte, física, de gênero, no nosso mundo masculino, na nossa sociedade.
Eu não tenho uma resposta sobre como lidar com isso. Sou pai também, tenho um filho homem, é um grande desafio nosso. Então, como encontrar um caminho, uma identidade para ele? Talvez seja a imaginação. Muitas pessoas falam para mim: "Ah, é um filme um pouco triste". Sim, claro, é um filme que trata de uma perda, de um abandono mais fundamental. Mas talvez na imaginação, para mim no final, nessa lenda, tem uma via de escape, uma redenção na arte ou no mundo imaginário. Tem uma possível liberdade, uma possível saída dessas forças opressoras. E o filme tampouco dá respostas claras, eu queria mais explorar essas questões, mas acho que não é um filme totalmente fatalista. Acho que vias, maneiras de lidar com as feridas, com as perdas, com o abandono e de reparar isso e se refazer.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados que indiquem filmes nacionais que achem que nosso público deva assistir. Vou expandir aqui e pedir indicações de filmes de outros países latino-americanos também para você, até para o público conhecer mais do cinema feito pelos nossos países vizinhos. Quais seriam suas indicações?
George Walker Torres: Aqui no Brasil, o cinema brasileiro agora está num momento muito bom, porque acho que tem uma nova geração, muitos novos realizadores e realizadoras fazendo coisas realmente super interessantes, inovadoras. Mas tem o problema do cinema, que acho que é mundial, as pessoas estão indo menos em salas, e os streaming estão tomando muito espaço. A estética dos streamings tem algumas coisas super boas, mas é um cinema muito padronizado, infelizmente. Então, é muito difícil outros tipos de filmes terem um lugar, acharem um público aparte dos festivais, que são pequenos nichos. Então, é difícil para a gente que quer e que acredita ainda no cinema como arte e não como só um produto de entretenimento, em fazer filmes e não só sobreviver. Mas a gente segue lutando.
Falando dos filmes, tiveram vários filmes venezuelanos que foram importantes para mim. Tem Pelo Malo, da Mariana Rondón e com a Samantha Castillo, um filme também da infância (mas com uma criança um pouco maior), muito interessante, que ganhou prêmio no Festival de San Sebastian.
E tem um outro filme venezuelano, Oriana, que é um pouco intimista, que acontece uma casa e que tem um pouco dessa coisa atmosférica e evocativa que foi uma grande inspiração para mim. É um filme mais antigo, dos anos 1980, é de uma diretora mulher, que se chama Fina Torres, e ganhou a Câmara de Ouro em Cannes em 1985. E é um filme que tem esse espírito da imagem, do mistério, que trabalha a memória. Tem uns personagens crianças também, mas tem essa coisa dessa intimidade, dessa casa grande dos nossos países, e foi uma grande inspiração para mim.
Além desses dois filmes venezuelanos, tem alguns filmes brasileiros também, como Que Horas Ela Volta?, que toca em temas similares, e Casa Grande, filmaços também, que foram grandes inspirações para mim.



















