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  • Foto do escritorVinicius Oliveira

Crítica | Indiana Jones e a Relíquia do Destino

Último capítulo da franquia está no seu melhor quando foca na paixão de Harrison Ford pelo personagem

Foto: Divulgação


Dizem que os pais têm sim seus filhos favoritos, não importa o quanto escondam. Se essa afirmação também vale para personagens do audiovisual e seus intérpretes, então Harrison Ford nunca escondeu sua predileção por Indiana Jones. O arqueólogo mais famoso do cinema pode ter sido criado e escrito por mãos célebres — George Lucas, Lawrence Kasdan e Steven Spielberg —, mas não teria metade do impacto que possui sobre nosso imaginário coletivo não fosse o talento, carisma e dedicação impostos por Ford em sua performance ao longo dos últimos 40 anos.


É por isso que a decisão de reviver o personagem para uma quinta e última aventura soa compreensível, mesmo em tempos onde nenhuma franquia está devidamente encerrada e estamos a todo instante vendo legacies sequels e passagens de manto. Chega a ser curioso, porém, que essa tentativa já havia sido feita quinze anos atrás, com O Reino da Caveira de Cristal — filme que considero injustiçado, ainda que de fato não se equipare à trilogia original. Talvez a má recepção dele (aliada à sanha gananciosa da Disney, é claro) justifique o retorno de Ford ao papel, mesmo no alto dos seus 81 anos. O resultado final não chega a limpar o que foi feito no filme anterior — talvez para muitos tenha soado ainda pior —, mas consegue respeitar a essência do seu protagonista quando lhe dá o espaço devido.


Estamos em 1969, e os EUA celebram a chegada de seus astronautas à lua. Indiana, porém, não tem muito o que comemorar: seu filho morreu na Guerra do Vietnã e ele está prestes a se divorciar de Marion (Karen Allen). Porém, tudo mudo quando ele é abordado por sua afilhada Helena Shaw (Phoebe Waller-Bridge), a quem não vê há quase 20 anos e que quer que ele o ajude a encontrar um poderoso artefato criado pelo matemático grego Arquimedes. Porém, Helena não é exatamente quem diz ser; e para piorar, os arqui-inimigos de Indy, os nazistas, também estão atrás do artefato, capitaneados pelo doutor Jürgen Voller (Mads Mikkelsen).

Foto: Divulgação


Na superfície, A Relíquia do Destino carrega praticamente todos os elementos que caracterizaram a franquia: o prólogo estendido e repleto de aventura que é quase como um curta-metragem; mapas e códigos secretos; ambientações exóticas; a trilha sonora pulsante e deliciosamente retrô de John Williams; antagonistas malvados que incluem um grandalhão com o qual Indy precisa lutar em algum momento; e muito mais. Além disso, há referências diretas aos filmes anteriores e suas estruturas, seja no resgate dos nazistas como os vilões principais (tal qual o primeiro e terceiro filme), o sidekick juvenil (como Ke Huy Quan no segundo), ou a(o) aliada(o) de moral duvidosa (a la Ray Winstone no quarto).


Ou seja, há um trabalho nada sutil de apelar à nostalgia e às referências que cativem o público interessado em ver mais do mesmo. Esse é apenas um dos vícios dos blockbusters modernos ao qual o filme sucumbe; outro digno de nota é o mau uso do CGI (um problema em comum com seu antecessor), o que é potencializado pelo excesso de cenas noturnas que dificulta a compreensão do que está acontecendo durante as sequências de ação. Isso é ainda mais evidente no prólogo, que nos leva a 1944 em meio a (mais) um confronto entre Indy (rejuvenescido digitalmente, com resultados mistos) e os nazistas, mas se estende em diversas outras sequências importantes do longa.


Nesse sentido, não posso deixar de pensar no quanto esse filme poderia ser diferente tendo Spielberg novamente na direção. Não que eu ache James Mangold um mau diretor — não quando se tem filmes como 3:10 to Yuma, Logan e Ford vs Ferrari no currículo —, mas há pouquíssimos arroubos de criatividade ou de alguma identidade visual aqui. Os melhores momentos estão naqueles em que ele chega mais perto de emular o estilo de Spielberg, como na divertida e caótica perseguição em Tangier, que se mostra o ponto alto do filme.


Se A Relíquia do Destino em alguma medida funciona, é porque sabe encontrar em meio a esses vícios de blockbusters modernos um apreço e carinho pelos seus personagens, mesmo que quase todos eles sejam novas versões de outros que vimos nos filmes anteriores. Um dos momentos mais notáveis do filme é justamente uma breve conversa entre Indy e Helena, na qual este fala a respeito da morte do filho e de como ele gostaria de evitá-la não apenas para não o perder, mas também para salvar seu casamento com Marion. Como Top Gun: Maverick no ano passado (embora não com o mesmo brilhantismo), esse é um filme que reconhece a impiedosa passagem do tempo não só sobre seu protagonista, mas também sobre seu intérprete.


Cada vez que A Relíquia do Destino se volta a Indiana e ao homem por trás do personagem, é nítido que o filme se eleva para além da aventura mediana que é. Se houvesse mais de momentos simples como essa conversa, ou da loucura (num bom sentido) que é o ato final, esse seria um último capítulo estrondoso, fechando com chave de ouro uma franquia tão memorável, cativante e divertida. Mas o resultado final, se não chega a comprometer o que vimos antes, também não justifica sua existência nem tem força o suficiente para permanecer no nosso imaginário após o assistirmos. Ao menos nos dá uma chance de vermos Harrison Ford fazendo mais uma vez o papel que ama, e isso compensa (quase) todas as eventuais falhas que o filme possa ter.


Nota: 3/5

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