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  • Foto do escritorCaio Augusto

Crítica | La Chimera

A mística de uma quimera que une passado, presente e futuro

Foto: Divulgação


Confesso que grande parte da minha atenção voltada a La Chimera se criou graças à forma que eu conheci o trabalho da diretora Alice Rohrwacher, que me conquistou com o seu longa Feliz Como Lázaro, que se tornou um dos meus filmes favoritos daquele ano. Uma obra que carrego na mente até hoje, cujo seu realismo mágico e o vislumbre por zonas rurais são bastante marcantes, de forma que tanto Feliz Como Lázaro como La Chimera possuem um charme felliniano com seus personagens imagéticos. Se em Feliz Como Lázaro acompanhamos a ingenuidade de um personagem que não se entende em um mundo na era do consumismo, em La Chimera temos um ladrão de sepulturas que está disposto a cavar fundo em busca de algo mesmo que tenha que traçar o limite entre os vivos e os mortos.


Existe um realismo mágico no filme que funciona quase como um poema audiovisual, então quando pensamos na premissa sobre uma gangue de ladrões de artefatos e objetos arqueológicos, nós temos uma abordagem mais abstrata dessa busca por algo que os personagens anseiam encontrar. Nesse sentido temos o protagonista Arthur, que possui uma espécie de habilidade sobrenatural em que ele é capaz de indicar o local exato que estão enterrados os artefatos, muitas vezes se tratando de túmulos com diversos presentes que foram deixados por entes queridos. Em meio a isso tudo, Arthur se encanta por uma mulher chamada Italia, personagem que é interpretada pela atriz brasileira Carol Duarte (A Vida Invisível), que acaba despertando nele uma forma diferente de enxergar a simplicidade das coisas. Ela questiona suas atitudes e o faz entrar em questionamento sobre a forma insensível que ele lida com o sagrado, como se ele não respeitasse o limite que separa os vivos dos mortos. De forma que a diretora Alice Rohrwacher põem a câmera de cabeça pra baixo, quebrando totalmente o eixo para ilustrar a forma que Arthur transita nesses dois mundos.


Dentro dessa visão mágica desse universo que nos é guiado pela visão de Arthur, o filme traz algumas possibilidades estéticas para somar com diversos elementos, como por exemplo a técnica em que a cena tem o seu frame acelerado, trazendo um tom cômico aos personagens que parecem correr a passos curtos em cena. Além de possibilitar cenas com um tom mais voltado pra comédia, também há algumas cenas que brincam com o musical e o romance, o que acaba casando bem com o filme que transborda paixão por seus personagens que parecem estar vivendo um sonho.

Foto: Divulgação


A noção de tempo é nebulosa, dificultando a identificação do período em que a história se passa. Essa falta de linha temporal destaca não apenas a importância dos artefatos antigos encontrados, mas também a sensação eterna de amor e perda, além de toda uma reflexão a respeito da importância da memória. A obscuridade do tempo também destaca a conexão ou distinção entre o mundo real e a vida após a morte, o tangível e o intangível, humano e fantasmas, sonhos e realidade. A câmera de Alice Rohrwacher pinta uma tela em branco a ideia de que o tempo é uma ilusão. Embora utilizemos o tempo como referência para criar estrutura e ordem, ele é algo que não pode ser medido ou quantificado. A potência das coisas e pessoas que perdemos é igual, senão maior, do que aquelas que podemos ver e tocar fisicamente. E quanto ao desejo de viver em uma estação de trem abandonada com outras mulheres e crianças, transformando-a em um lar compartilhado, é um reflexo do encanto poético e intencional de todos os elementos visuais e temáticos presentes no filme.


Por fim, La Chimera convida o espectador a embarcar nessa viagem melancólica por paisagens bucólicas, em um universo particular que talvez gaste todas as suas melhores fichas na primeira metade do filme para a partir disso proporcionar diferentes enigmas que acabam por confundir o que é proposto inicialmente, caindo em alguns clichês que solucionam a trama de maneira mais segura. E dentro dessa utopia que chamamos de “quimera” o filme propõe um dilema fascinante sobre as raízes que nos prendem ao passado.


Nota: 3,5/5



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