Crítica | Socorro!
- Caio Augusto

- há 3 horas
- 3 min de leitura
O grotesco como campo de batalha da luta de classes.

Eu sempre tenho curiosidade em conferir novos trabalhos de diretores que se consagraram dentro do cinema de gênero há pelo menos 4 ou 5 décadas. E Sam Raimi é um desses, que se consagrou com Evil Dead (1981) e que, hoje em dia, precisa se desdobrar dentro da indústria para tentar tatuar a sua marca em projetos de grandes estúdios, como foi com a trilogia do Homem-Aranha e até com o mais recente Doutor Estranho no Multiverso da Loucura (2022).
A diferença é que, dessa vez, o projeto parece bem menos ambicioso e aparenta ter uma roupagem mais genérica dentro do próprio gênero, o que acaba não sendo um empecilho, já que Raimi utiliza disso para encontrar soluções divertidas para essas limitações. Logo de cara, percebemos que há uma artificialidade na imagem que, a princípio, parece minar as veias autorais que Sam Raimi costuma reproduzir nesses projetos nos quais é escalado. Mas, ao longo do filme, Raimi se apropria desse padrão para encontrar uma solução através do visual exagerado e, de certa forma, camp que a obra propõe, de modo que a estética higienizada acaba encontrando contraste no exagero conforme a obra vai se desenrolando.
Na trama, acompanhamos uma funcionária subestimada de uma empresa e o seu chefe arrogante, que ficam presos em uma ilha deserta, sendo os únicos sobreviventes de um acidente de avião. Presos na ilha, eles passam a ter que conviver juntos para sobreviver. Antes do acidente acontecer, temos toda uma sequência que alimenta a narrativa de forma bem cartunesca do patrão malvado e da funcionária subestimada. Esse conflito de classe alimenta a narrativa como um todo e eleva o arquétipo desses personagens de forma exagerada, em que o conflito de classe é atravessado por uma dinâmica que remete à lógica animalesca da coisa, na qual a figura do burguês assume contornos monstruosos não apenas por sua posição social, mas pela necessidade de se adaptar a códigos que lhe são estranhos. Desse modo, o patrão se dá conta de que quem está mais suscetível a sobreviver, através da força de trabalho, é justamente quem ele vinha humilhando no trabalho.
Ao longo do filme, somos guiados por essa dinâmica de sobrevivência que, aos poucos, vai caminhando para o horror, mas não como um horror convencional, e sim um horror que se mistura com o lúdico, de modo que cenas grotescas acabam acompanhando um tom cômico. Como, por exemplo, a forma como Raimi brinca com uma cena de possível castração, utilizando apenas um plano que esconde o tema em evidência. É justamente nessa brincadeira com o gore que o filme encontra a sua leveza dentro desse universo.

E, se tratando do autor de Evil Dead (1981), não há como negar que existe um certo carinho pelo grotesco: um diretor que jamais nega suas raízes, que perpassam o cinema de gênero e a estética do exagero. Mesmo em trabalhos mais comerciais, ele consegue trazer referências diretas aos seus filmes e, ainda assim, entregar o que parece ter lhe sido proposto. Há, inclusive, momentos em que o filme lembra bastante o ótimo Arraste-me Para o Inferno (2009), tanto por abraçar o tosco quanto pela forma como brinca com o uso de CGI para ilustrar o horror exagerado de algumas cenas.
Acho também interessante como o roteiro propõe essa dinâmica de levar o conflito de classes para um cenário fora do habitual, ao se tratar de uma ilha. Isso me lembrou, de certo modo, Propriedade (2022), de Daniel Bandeira. Enquanto o filme de Bandeira constrói uma progressão clara em que o medo atravessa os trabalhadores até se inverter e enclausurar a burguesia, Socorro! fragmenta essa lógica ao embaralhar suas tensões: o burguês é simultaneamente fera e figura deslocada, obrigado a se adaptar a um mundo que já não domina; a personagem associada à classe trabalhadora, por sua vez, escapa da posição de subalternidade e se rebela.
No geral, sinto que o filme não se aprofunda tanto nessa questão da vingança entre patrão e funcionária, já que, no fim das contas, ambos acabam assumindo contornos monstruosos, cada um guiado por suas próprias trajetórias e desejos. Resta a dúvida se ainda há espaço para julgamento moral diante das circunstâncias em que os personagens se encontram. O filme tensiona essa bússola ética ao limite, esticando-a ao máximo a cada nova sequência que surge na tela, uma lógica que acaba dialogando com a estética do exagero adotada por Sam Raimi, mas que talvez tenha o risco de se tornar apenas uma ode à vingança que se confunde em meio a tantas concessões. Ainda assim, eu diria que ele é um dos poucos diretores de Hollywood em atividade que sabem utilizar a técnica do disfarce.
Nota: 3,5/5



















