Crítica | O Estrangeiro
- Vinicius Oliveira

- há 2 dias
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François Ozon encontra na inexpressividade de Benjamin Voisin o veículo ideal para adaptar o existencialismo e absurdismo do clássico livro de Albert Camus.

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Argélia, década de 1930. A mão colonial francesa se estende pela capital Argel de diferentes maneiras, algumas sutis e outras nem tanto. É nesse universo de veladas tensões entre franceses e árabes que vive Mersault (Benjamin Voisin), um funcionário de uma empresa que perde a mãe e vive em constante demonstração de indiferença para com o mundo e as pessoas ao seu redor. Após matar um jovem árabe a aparente sangue frio, Mersault é julgado, embora menos pelo crime e mais por essa alienação ao mundo.
Escrito por Albert Camus e publicado em 1942, O Estrangeiro refletia talvez muitas das próprias complexidades do seu autor, um argelino de ascendência francesa que estudou na Universidade de Argel, lutou na Resistência Francesa e mais tarde adotou uma posição moderada na guerra de independência da Argélia. Mais do que isso, também foi um veículo para as correntes filosóficas do absurdismo – a qual em essência alega que o universo é irracional e sem sentido – e do existencialismo, embora o próprio Camus rejeitasse sua associação com esta corrente.
Para o diretor François Ozon, traduzir a veia filosófica do livro e as suas camadas ligadas à ambientação no período colonial da Argélia só se tornou possível ao encontrar um ator que pudesse transmitir a indiferença e apatia de Mersault para com tudo e com todos. Entra em cena Benjamin Voisin, que já havia trabalhado com o diretor em Verão de 85 e que dá vida a um protagonista que nos chama a atenção pela sua quase completa ausência de reação ao longo de todo o filme. É um trabalho muito difícil de jogo atoral, já que com exceção da sua última cena com o capelão (Swann Arlaud), Voisin praticamente não demonstra reações, mantendo uma inexpressividade que é cortante. Poderia ser facilmente entendida como uma atuação vazia (ou ruim), mas ele brilha justamente na maneira como essa indiferença vai nos incomodando e desestabilizando, tal qual faz com os demais personagens.
Ozon dispõe de uma linguagem mais clássica que alude a uma transparência do dispositivo fílmico, sobretudo no elegante trabalho da fotografia em preto-e-branco de Manu Dacosse e a soberba reconstituição da Argel dos anos 1930, os quais promovem uma imersividade histórica. A direção prioriza uma encenação mais contida, a qual serve de veículo para a performance do protagonista, o que nos choca ainda mais com a postura (ou falta de postura) dele, já que é o ponto fora da curva num filme todo azeitado nesta linguagem mais clássica. No entanto, ele também se rende a uma certa estilização, como nas cenas na cadeia ou na própria sequência do assassinato em si, onde a luz da faca do rapaz árabe incide sobre os olhos do protagonista, e a câmera e o trabalho de som entregam um certo desequilíbrio por parte dele antes de cometer o ato.

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Ainda assim, nunca há respostas concretas sobre seu comportamento: no tribunal tudo se torna um julgamento das suas ações passadas, sobretudo na maneira como se portou durante o funeral e enterro da mãe. Nem mesmo as defesas de sua noiva Marie (Rebecca Marder), do amigo Raymond (Pierre Lottin) ou do vizinho Salamano (Denis Lavant) bastam, pois não há como ler esse homem tão fora das normas.
Assim, “o estrangeiro” ao qual o título alude não o é meramente por ser um francês em território colonial ocupado, mas também por sua alienação da própria sociedade em que vive. É um esforço curioso pensar nas raízes dessas palavras: alien, em inglês, também pode significar “estrangeiro”, enquanto o título original em francês, L’Étranger, não só é a raiz do nosso termo em português, como ela própria se origina no latim extranĕus (“estranho”, “de fora”). E é nessa estranheza constantemente trabalhada por Ozon, sobretudo a partir do impacto dessa performance tão inexpressiva de Benjamin Voisin, que reside a maior força do filme. E nada mais justo do que terminá-lo com os versos de The Cure também influenciados pelo romance de Camus:
I can turn and walk away or I can fire the gun
Staring at the sky, staring at the Sun
Whichever I chose it amounts to the same
Absolutely nothing
I'm alive
I'm dead
I'm the stranger
Killing an Arab.
Nota: 4/5



















