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Crítica | The Groove Under the Groove: Os Sons de Paulinho da Costa

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • 15 de abr.
  • 4 min de leitura

Documentário protocolar e americanizado encontra respaldo no carisma e genialidade de seu protagonista.


Divulgação


Você pode nunca ter ouvido falar de Paulinho da Costa, mas certamente já o ouviu em algumas das músicas mais famosas de todos os tempos. A percussão que abre La Isla Bonita, de Madonna; a cuíca em Wanna Be Startin’ Something, de Michael Jackson; I’Ve Had (The Time of My Life), da trilha sonora de Dirty Dancing; Footloose, de Kenny Loggins; Up Where We Belong, da trilha sonora de A Força do Destino; Serpentine Fire, do Earth, Wind and Fire; Crazy, de Seal; Snow (Hey Oh), de Red Hot Chilli Peppers; e muito, muito mais. O percussionista, radicado nos EUA desde os anos 1970, tocou em incontáveis gravações indicadas e vencedoras do Grammy e também do Oscar, e será o primeiro brasileiro nato a receber uma estrela da Calçada da Fama, em maio.


Como tamanho legado pode ser expresso nas telas e chegar a um público talvez alheio às vastas contribuições de Paulinho à música pop do último meio século? É o grande desafio enfrentado por The Groove Under the Groove: Os Sons de Paulinho da Costa, documentário dirigido por Oscar Rodrigues Alves sobre o músico. Gravado ao longo de um período de seis anos, o documentário cobre desde a infância de Paulinho no bairro do Irajá, no Rio de Janeiro, centrando-se no auge profissional nos EUA, até chegar em tempos mais recentes, com sua reconexão com as raízes brasileiras.


Para além do próprio Paulinho, que serve como fio condutor principal da sua própria história, The Groove Under the Groove também conta com um desfile de músicos de alto calibre, que relatam suas parcerias com o artista e exaltam seus feitos e sua genialidade. Nomes como Quincy Jones, George Benson, Verdine White, Philip Bailey, Natahan East, Greg Philinganes Lalo Schifrin, além de produtores e engenheiros de som que trabalharam com ele ao longo das décadas, e também a aparição de artistas nacionais celebrados (Roberto Carlos, Carlinhos Brown, Zeca Pagodinho, Ivete Sangalo e João Marcello Bôscoli).


Divulgação


Assim, estruturalmente o filme me faz lembrar de Milton Bituca Nascimento, ao recorrer a essas figuras lendárias nacionais e internacionais para destacar o seu personagem principal. Como no documentário sobre Milton, porém, a ênfase é muito mais sobre as figuras internacionais, e embora faça certo sentido em decorrência da carreira de Paulinho ser muito mais conhecida lá fora do que aqui no Brasil, de modo que até a participação dos artistas brasileiras soa deslocada, já que suas contribuições são ínfimas e superficiais perto do que ouvimos uma figura como Quincy Jones falar sobre Paulinho. Assim, a impressão é de que o produto final é mais pensado para o público estrangeiro do que para o brasileiro – ainda que as contribuições do artista para músicos brasileiros sejam também vastas. Isso é perceptível na escolha pela própria narração em off ser em inglês, assim como a maior parte das entrevistas com o próprio Paulinho.


O filme fica então neste lugar híbrido que talvez até refletisse a própria identidade plural do seu protagonista, mas soa mais como um produto protocolar e voltado a um mercado específico. Isso em si não seria um problema, mas a impressão que se tem ao final é de um desperdício de uma oportunidade valiosa de trazer mais visibilidade a um artista nosso tão celebrado lá fora. Não à toa alguns dos momentos mais pungentes do filme vêm na sua parte final, quando Paulinho retorna ao Rio e tem a oportunidade de tocar num desfile da Portela, sua escola do coração. A emoção vívida do artista reflete muito da saudade que ele certamente sentiu do Brasil por tantas décadas, mesmo construindo uma carreira tão consolidada nos EUA.


De fato, os momentos de maior destaque do filme vêm justamente quando a câmera se volta a Paulinho, e é impossível não se deixar contagiar pelo seu carisma radiante, o sorriso tão característico e sobretudo pela genialidade e humildade. Cenas como a em que ele conta sobre como utilizou um par de colheres ou um cowbell para tocar em algumas das músicas mais icônicas do Earth, Wind & Fire, ou as imagens de arquivo que mostram suas performances assombrosas em palco com vários artistas diferentes, conseguem refletir muito mais do peso e da relevância de Paulinho do que todo um desfile de convidados e entrevistados.


É louvável o esforço em lançar luz a um músico tão subestimado, e ao mesmo tempo tão valioso para a música popular dos últimos 50 anos. Mas ao se amparar em toda uma estética estrangeira, The Groove Under the Groove parece apenas manter o distanciamento que o público brasileiro já poderia ter em relação ao Paulinho. Se isso não acontece por completo, é porque o músico (e o homem) é essa figura tão fascinante de acompanhar e conhecer quando tem espaço para ele próprio se apresentar. Passaria horas ouvindo contar causos e anedotas sobre as músicas em que participou – e de preferência em português, e não em inglês.


Nota: 2.5/5

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