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  • Foto do escritorVinicius Oliveira

Crítica | Willow (1ª temporada)

Uma legacy sequel (ainda) mais mediana que seu filme original

Divulgação: Disney+


Das propriedades da Lucasfilm, 'Willow' sempre foi o patinho feio. O filme de 1988, dirigido por Ron Howard e estrelado por Warwick Davis e Val Kilmer, navegava na onda de fantasia sombria de outras produções oitentistas, mas nunca conseguiu alcançar o sucesso que as demais franquias da empresa - 'Star Wars' e 'Indiana Jones' - possuem. Assistindo, é fácil saber o por quê: é uma aventura divertida, mas genérica e pouco memorável. Dito isso, o que explica a Disney querer investir numa série para dar sequência a essa história depois de quase 35 anos?


Assistindo a primeira temporada de 'Willow', a resposta ainda me escapa. Alguns poderiam dizer que se trata de mais uma obra vítima do efeito das “legacies sequels”, tal qual as últimas trilogias de Star Wars ou Jurassic World; ou seja, uma obra que ressuscita uma franquia antiga, buscando uma passagem de manto dos personagens clássicos para os novos, mas muitas vezes reciclando as tramas dos filmes clássicos sob o verniz de algo novo. Ainda assim, 'Willow' nunca pareceu uma obra tão influente assim na cultura pop para ser trazida de volta dessa maneira, embora propostas de continuações surgissem nessas últimas quatro décadas. Talvez o fato de ser um filme de impacto modesto pudesse proporcionar à série uma maior liberdade criativa e mais desprendimento das amarras às quais as legacies sequels se veem presas, mas não é o que acontece.


A trama se passa cerca de 20 anos após o filme, com a rainha Sorsha (Joanne Whalley) governando o reino de Tir Asleen e se preparando para casar sua filha Kit (Ruby Cruz) com o herdeiro do reino vizinho, Graydon (Tony Revolori), embora a paixão da princesa seja de fato a cavaleira Jade (Eryn Kellyman). Mas quando o irmão gêmeo de Kit, Airk (Dempsey Brik), é sequestrado durante um misterioso ataque, ela parte com Jade, Graydon, o mercenário tagarela Boorman (Amar Chadha-Patel) e a cozinheira Dove (Ellie Bamber) para encontrá-lo, recorrendo à ajuda de Willow (Warwick Davis) para guiá-los.

Divulgação: Disney+


Se no filme, o mote principal era Willow e Madmartigan (Val Kilmer) protegendo a escolhida Elora Danan, à época um bebê apenas, aqui no primeiro episódio se insinua a seguinte questão: quem é ela e onde está? Contudo, a série não demora a dar a resposta (spoiler: é alguém do grupo principal de personagens) e, se soa frustrante que esse aparente mistério seja resolvido tão cedo, pelo menos dá à personagem em questão um interessante, embora irregular, arco de crescimento.


De fato, alguns dos melhores momentos da temporada vêm através do desenvolvimento dos personagens, seja a relação de Kit e de Jade, a rixa da princesa com Dove que previsivelmente se torna amizade, ou os conflitos internos de Graydon (talvez meu personagem favorito) e seus sentimentos crescentes por Dove. Somente Boorman não parece se distanciar da sua proposta original, que é a de servir como um substituto para Madmartigan (lembra do que falei sobre legacies sequels reciclando o antigo em novo?). Aliás, a própria ausência de Madmartigan é um mote em determinados pontos da trama, lançando uma sombra principalmente sobre Kit, que deseja entender por que o pai escolheu proteger Elora Danan ao invés de cuidar dela e do irmão.


Ironicamente, em meio a essa galeria de novos e promissores personagens, quem acaba escanteado é o próprio personagem que dá nome à série. A figura de Willow por vezes como um coadjuvante já era aparente no filme original, mas aqui se torna um problema crítico, já que a necessidade de passar seu manto para os protagonistas mais jovens faz com que o roteiro muitas vezes o tire de cena ou diminua suas habilidades (a famosa “nerfada”), prejudicando até mesmo sua figura como mentor. Há sugestões de tragédias envolvendo o personagem, especialmente em relação à sua família, mas nunca há espaço o suficiente para isso. O que é uma pena, porque Warwick Davis consegue equilibrar bem a amabilidade e rabugentice do personagem, especialmente em sua relação com Elora Danan, mas os momentos em que seu personagem não tem o que fazer são frequentes demais para uma série que leva seu nome.


E é uma pena ver que os problemas da série vão além da subutilização do seu suposto protagonista. A estrutura episódica do filme é replicada aqui, conferindo à série também um ar de RPG com missões individuais, mas em diversos momentos a impressão que se tem é de os roteiristas estão apenas empurrando a barriga a trama até o conflito com as forças que raptaram Airk, de modo que o último episódio se revela extremamente anticlimático em relação a esse conflito, mesmo com a promessa de uma ameaça muito maior no horizonte. Além disso, embora a série consiga expandir a mitologia delineada na obra original, o apresentado soa extremamente insuficiente e ainda bastante genérico (um problema também herdado da obra original). Há algumas subversões e modernizações bem-inseridas (o casal queer de Kit e Jade ou a piada em torno dos trolls como seres elegantes e não bárbaros), o que não é o caso das canções de rock trazidas nos finais dos episódios, cujas inserções soam sempre forçadas. E embora eu aprecie que aqui não se busque trazer uma fantasia mais adulta como a vista em obras como 'Game of Thrones' e 'The Rings of Power', não são poucos os momentos em que a série se mostra boba até demais, inclusive minando o impacto de muitas cenas por querer adotar um humor fora de tom e também por desperdiçar alguns personagens que poderiam render mais, como atestam as participações de atores como Ralph Ineson, Hannah Waddingham e Christian Slater.


Ao fim, 'Willow' pode ser uma aventura despretensiosa e leve em meio às demandas por fantasias mais realistas e adultas, mas não consegue se livrar de problemas que já existiam no filme original, enquanto também é atrapalhada por problemas próprios. Ao final, não há muito aqui que justifique dar continuidade a um filme tão pouco memorável de 35 anos atrás, mas aparentemente nada pode parar a máquina de dinheiro da Disney, que está disposta a criar sequências ainda mais medianas de um filme que já era mediano.


Nota: 2,5/5

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