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Crítica | The Pitt (2ª temporada)

  • Foto do escritor: Aianne Amado
    Aianne Amado
  • há 8 horas
  • 6 min de leitura

Mesmo sob o peso do próprio sucesso, a série se consolida como uma das produções televisivas mais importantes da década.

Imagem: Divulgação
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Talvez não exista destino mais cruel para uma série do que virar exemplo ilustrativo do meme do cavalo que começa bem desenhado e termina como um rabisco constrangedor. Infelizmente, porém, essa virou quase uma tradição em Hollywood: de Game of Thrones a The Office, não faltam evidências de que não importa o talento da sala de roteiristas, o tamanho obsceno do orçamento ou o número de estrelas no elenco — sustentar consistência narrativa por anos é trabalho árduo.


Os motivos variam, mas o sintoma é sempre o mesmo: personagens que já esgotaram suas possibilidades, universos que não apontam mais para onde ser explorados ou histórias que já atingiram seu ápice e agora só conseguem orbitá-lo, sem jamais alcançá-lo de novo. No fundo, trata-se de um mesmo problema: se perder dentro do seu próprio potencial. 

Dado esse fatídico costume presente na indústria, é de se imaginar o peso do anúncio da segunda temporada de The Pitt, série cuja estreia foi sucesso absoluto de crítica e audiência (quebrando recordes da plataforma e ganhando destaque no Emmy) e inaugurou um novo paradigma na era da ficção seriada para streaming. A expectativa era enorme — e expectativa alta raramente é um bom presságio.


A engrenagem da série é tão simples de descrever e quanto complexa de executar, sustentada por quatro características centrais: (1) hiperrealismo, (2) tempo diegético contínuo (sem recorrer a elipses), (3) enredos que se desenvolvem em um ambiente – quase – único e (4) um elenco numeroso com relevância bem distribuída. Foi essa combinação que transformou a primeira temporada em algo singular, e, obviamente, deveria ser replicada na etapa seguinte. Mas há um paradoxo aqui: as mesmas artimanhas que tornam The Pitt especial também limitam brutalmente suas possibilidades. É como trancar roteiristas numa cozinha com os melhores ingredientes, mas em quantidade mínima — em algum momento, a genialidade começa a dar lugar ao malabarismo.


Mas felizmente, por enquanto, o truque ainda funciona. 


A série continua hipnotizante mesmo que, para quem não é da área da saúde, boa parte do que é dito e feito em cena soe como um idioma alienígena.  É que, ao contrário dos internos, não estamos ali para aprender, mas sim para meramente contemplar a inteligência daqueles profissionais (Noah Wyle, ator e produtor da série, jocosamente descreveu esse efeito como “competence porn, ou pornô pela competência) e, de quebra, observar as fricções humanas que emergem desse ambiente de excelência.


Na nova temporada, os casos clínicos perdem ainda mais protagonismo e assumem sem acanhamento o papel de escada dramática. A morte de um paciente recorrente, o suspense envolvendo o bem estar de uma criança, ou ainda o alívio cômico de amigas bêbadas demais funcionam como recursos acessórios. O verdadeiro motor da narrativa é o efeito cascata que essas situações provocam nos personagens, culminando inevitavelmente no epicentro emocional da série: o Dr. Robby.


É aqui que The Pitt joga um jogo arriscado – que vence com maestria. O arco de Robby se aprofunda na depressão com um rigor que raramente se vê na ficção, afinal, ao contrário do que o audiovisual costuma retratar, essa não é uma doença visualmente dramática e interessante: ela é opaca, repetitiva, por vezes irritante. Por sorte, é exatamente isso que a série abraça.


Se na temporada anterior os traumas de Robby despertavam empatia, agora provocam desconforto. Sua deterioração deixa de ser um drama íntimo e passa a contaminar o coletivo, o que é evidenciado pela progressão do plantão. Nas primeiras horas, ele ainda ocupa o status de referência, aquele a quem todos recorrem em busca de respostas ou validação; à medida que os casos se acumulam, transforma-se em alguém a ser evitado, uma presença que tensiona o ambiente. A máscara funcional desmorona, e o que resta não é exatamente um anti-herói, mas apena… um profissional humano e exausto. Entre grosserias, olhares atravessados e confrontos diretos, torna-se explícito, tanto para quem trabalha ali quanto para nós, que, apesar do respeito pela profissão e pelo hospital, já não há vontade de permanecer. E, como é ele quem dita o ritmo do turno diurno, sua irritabilidade e apatia contagiam os demais. É um retrato incômodo, pouco “televisivo” e – exatamente por isso – potente da doença.


Essa aposta só funciona porque a série se ancora em algo que boa parte da indústria insiste em subestimar: a inteligência do espectador. Aqui, conflitos não vêm mastigados em diálogos explicativos: eles emergem das ações, dos silêncios, dos olhares. Em um cenário dominado por narrativas excessivamente didáticas, pensadas para um público supostamente distraído com o celular na mão, isso soa quase subversivo.

Imagem: Divulgação
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E não se trata apenas do arco de Robby. Todos os personagens atravessam dilemas que não precisam ser verbalizados à exaustão para serem entendidos. Esse tipo de construção só se sustenta graças a um elenco extremamente preciso e a uma direção afiada, que sabe bem explorar as nuances de cada um. O resultado é um conjunto coeso, diverso em todos os sentidos, cuja química é tão palpável entre os personagens quanto entre os próprios atores.

Porém, em certos níveis, é impossível não perceber o esforço constante de sustentar o sucesso e corresponder ao clamor nesses 15 novos episódios. Se na primeira temporada havia um senso de liberdade quase experimental, agora tudo parece operar sob vigilância, como se não houvesse margem para erro e cada cena precisasse ser impecável e, de preferência, levemente épica. Essa auto cobrança tem um preço, sufocando a história, enrijecendo o elenco e polindo a direção para além do necessário. 


Tal preocupação em repetir o feito se evidencia especialmente na metade da temporada, quando, numa tentativa de emular o impacto do evento traumático anterior (do tiroteio no festival de música), há o desligamento completo dos sistemas digitais do hospital. A ideia é até promissora, mas fica muito aquém do caos anterior. Em vez de uma virada dramática, o que surge é um inconveniente prolongado – como se os próprios casos já não fossem incômodos o suficiente. É um enredo que surge de forma abrupta, resolve-se com a mesma pressa e deixa a sensação de ter existido apenas como um artifício para prolongar o turno de alguns personagens por mais um ou dois episódios.


Algo semelhante acontece na expansão das subtramas. A intenção de dar mais densidade aos personagens secundários é válida, mas esbarra na própria premissa da série: se tudo se passa em um único dia, há um limite bastante concreto para o que cabe acontecer nesse intervalo. É aí que surgem pequenas fissuras que, em uma obra menos comprometida com o realismo, talvez passassem batidas, mas aqui incomodam. Como assim a Dra. King tem um depoimento oficial marcado em pleno feriado nacional nos EUA? E como o Dr. Robby realmente espera que a Dra. Mohan resolva, em 15 horas, seus conflitos familiares e ainda decida sua área de especialização? 


(Não vou entrar no mérito do debate interminável que tomou conta do fandom nas últimas semanas, alimentado por ruídos extra-narrativos. Vale pontuar, porém, que o compromisso da série sempre foi bastante claro: refletir a realidade. Nunca houve promessa de fanservice, e cobrar isso agora é menos uma crítica válida e mais um erro de expectativa. Ao que me parece, o público médio, acostumado à lógica do MCU, esqueceu como funcionam produções em que a qualidade não está limitada a agradar fãs.)


Já nos quesitos técnicos, a série segue igualmente impecável. A fim de estabelecer aquele hiperrealismo já mencionado, aposta-se em lentes de distância focal próximas do olhar humano, enquanto os enquadramentos se mantêm dentro de ângulos humanamente possíveis, como se qualquer pessoa ali pudesse servir de câmera. A fotografia com iluminação forte e fria, assim como o branco predominante do cenário, são escolhas óbvias para manter a fidelidade a qualquer ambiente hospitalar, o que na teoria, forma uma equação que pode sugerir uma experiência visual incômoda. Na prática, porém, em meio à epidemia de imagens escuras e dessaturadas que domina Hollywood, há um frescor inesperado que não só funciona como convida o olhar.


O som acompanha essa lógica com a mesma disciplina. Quase não há trilha musical, o que impera é a cacofonia familiar dos “beeps” hospitalares. Sem uma melodia para guiar emoções, o silêncio é mais silencioso e o barulho mais barulhento. 


Mais uma vez, a direção de arte se coloca como um espetáculo à parte. Ouso dizer que o uso de efeitos práticos e props que reproduzem as mais diversas mazelas do corpo humano com esse grau (por vezes até desconfortável) de precisão, é inédito no audiovisual. É graças a esse rigor que a série não hesita em mostrar o que outras preferem sugerir – mais uma vez contribuindo para o tal do hiperrealismo.


Ainda na esfera da arte, é preciso pontuar como, mesmo dentro das limitações do universo hospitalar, os figurinos engenhosamente encontram brechas para pequenas variações que muito refletem cada personagem. E há ainda o cuidado quase invisível, mas extremamente eficaz, da maquiagem, com olheiras que se aprofundam com o passar das horas, numa espécie de relógio visual, marcando no rosto o desgaste que o roteiro não precisa verbalizar.

Mesmo com um final excepcional (não consigo parar de reassistir aquela performance no karaokê!), a segunda temporada não supera a primeira — e dificilmente conseguiria, considerando o fantasma que ela própria criou. Mas tudo bem: algo abaixo do excelente ainda pode ser muito, muito bom. Os novos episódios consolidam The Pitt como uma das melhores e mais importantes séries da década, sustentada por um ensemble forte e por decisões criativas que, na maior parte do tempo, são certeiras. No infame cavalo do meme, as duas primeiras partes já asseguraram o desenho com esmero. Que continue assim. 


Nota: 5/5


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