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Crítica | Entrevista com o Vampiro / O Vampiro Lestat (3ª temporada)

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 3 dias
  • 4 min de leitura

Série se reinventa corajosamente em temporada tão ousada quanto caótica, e Sam Reid se reafirma como sua estrela incontestável.


Divulgação


Em tempos em que a lógica das franquias invadiu o mundo da televisão, não é incomum ver séries se desdobrarem em revivals, spin-offs, prequels e muito mais. Muito mais incomum, contudo, é ver uma série que, ao invés de ser encerrada e ter sua história continuada em outras séries, é renovada para uma nova temporada, mas assumindo um novo nome e sendo praticamente repaginada do zero.


É exatamente esse o caso de Entrevista com o Vampiro, que após duas temporadas adaptando o livro homônimo de Anne Rice, volta para uma terceira temporada, mas ostentando o nome de O Vampiro Lestat, nome do segundo livro da saga escrita pela autora. Mas não é apenas o nome a única mudança: seu tom e identidade foram completamente reformulados, deixando de lado os ares de gótico sulista ou da tragédia teatral das temporadas anteriores para uma verdadeira explosão de glam rock (e caos, muito caos) neste novo ano.


Assim como nas duas primeiras temporadas, a narrativa não-linear alterna entre passado e presente, embora com mais camadas: começamos com uma cena que alude a uma catástrofe global, e aparentemente Lestat (Sam Reid) teve algum papel nisso. Então retrocedemos alguns meses, para encontrarmos Lestat na estrada com sua banda, e no segundo episódio retrocedemos séculos para mergulharmos na vida do protagonista antes e depois de sua transformação em vampiro, tudo isso guiado por discos de vinis nos quais ele gravou suas confissões pessoais.


Se parece muito, é porque é. Em tempos em que os streamings cada vez mais investem em séries didáticas e rasas, para se adequarem a um público que se divide entre assistir à TV e olhar o celular, a existência de O Vampiro Lestat é quase uma anomalia. A série sempre prezou pelo lirismo e riqueza dos seus diálogos, mas aqui eles atingem um novo nível em meio à profusão de referências culturais, monólogos e a narração frenética e explosiva de Lestat, que substitui o caráter quase erudito e melancólico da narração de Louis (Jacob Anderson) nas temporadas anteriores. A escala e intensidade dos eventos acompanha esse frenesi e loucura, e muita, mas muita coisa, acontece nos episódios, sustentados num equilíbrio frágil, mas que funciona em boa parte do tempo. Além disso, o caráter mais sombrio das duas primeiras temporadas é substituído por um tom evidentemente mais camp, que não tem medo de abraçar o humor e a galhofa de vez em quando, com constantes quebras de expectativa.


Essa mudança narrativa e tonal faz todo o sentido para a mudança de protagonismo na temporada, e para aqueles que sentiram falta de Lestat na segunda temporada, é um prazer anunciar que ele é o destaque inconteste deste terceiro ano, e por extensão a performance de Sam Reid. É até difícil pôr em palavras as muitas maneiras como Reid é capaz de trazer o personagem à vida, porque trata-se de uma leva de episódios que traz muitas nuances para ele, algumas já vistas antes, outras completamente novas. Ora se comportando como uma prima donna, ora sendo a figura mais quebrada e triste do mundo (e com muitas, muitas camadas entre esses dois extremos), Reid rouba – não, devora – cada cena em que aparece, reforçando aquilo que já se poderia deduzir das temporadas passadas: é uma das melhores performances da televisão contemporânea, quiçá da história da televisão como um todo.


Entretanto, O Vampiro Lestat não é apenas um novo começo para Entrevista com o Vampiro, mas também uma continuação das narrativas que a série vinha trabalhando. Louis retorna sob um novo prisma, num arco onde sua culpa pela morte de Claudia (Delainey Hayles) é levado a lugares extremos e surpreendentes; e temos também o retorno de figuras como Daniel (Eric Bogosian), que ganha um papel ainda mais ativo na trama ao acompanhar Lestat e sua banda em turnê, e Armand (Assad Zanan), tão dissimulado e enigmático como sempre.


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Ao mesmo tempo, a inserção de novas figuras como Gabriella (Jennifer Ehle) ajuda a elucidar e destrinchar da figura complexa que é Lestat, e também mostra como a série continua disposta a não fazer concessões quanto à moral dos seus personagens. Em meio à atual safra televisiva que precisa se justificar e aliviar os comportamentos dos protagonistas para não ofender o seu público, é um alívio assistir a uma série que nos remete ao período dourado das décadas passadas da televisão, com protagonistas moralmente complexos e complicados.


Porém, apesar do seu ritmo caótico e frenético ser uma mudança bem-vinda e inspirada, a temporada em determinados momentos ameaça se dobrar sob o peso desse caos, sobretudo com os flashbacks de Lestat. É compreensível que haja uma inversão aqui em relação ao que vimos nas temporadas passadas (onde os flashbacks assumiam a centralidade da narrativa), mas é perceptível a maneira como os episódios passam de maneira até superficial pelos eventos no passado, ou até se desencaixando com os eventos narrados no presente.


Em alguns momentos isso até se dá pela escolha de acompanhar a subjetividade não-confiável do narrador – como evidente no seu processo traumático de transformação pelo vampiro Magnus (Damien Atkins) –, enquanto outros servem para apontar o futuro da série, como a inserção de Akasha (Sheila Atim, que se mostra um dos destaques da temporada, mesmo aparecendo um único episódio). Ao final, com o cliffhanger deixado, pode se assumir que os eventos desta e da próxima temporada estarão conectados num grande arco tal qual foi o caso das duas primeiras temporadas. Entretanto, essas, por adaptarem um livro só, davam muito mais espaço ao material original respirar, o que parece faltar em alguns momentos aqui.


Mas apesar dessa falta de equilíbrio em determinados momentos entre suas linhas temporais e narrativas, O Vampiro Lestat se revela um verdadeiro acerto em sua missão ousada de reinventar a série anteriormente conhecida por Entrevista com o Vampiro. Ainda é a mesma série, e ao mesmo tempo não é; e, embora essa mudança tonal, narrativa e estilística possa desagradar uma parcela do público, é completamente coerente com o espírito anárquico e excêntrico do seu novo protagonista. E só pelo prazer de ver Sam Reid incorporar Lestat com tamanha ferocidade e facilidade, já se pode dizer que as mudanças aqui feitas valeram muito a pena.  


Nota: 4.5/5 



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