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Crítica | Hacks (5ª temporada)

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 5 horas
  • 4 min de leitura

Último ano da série coroa a sua consistência como a melhor comédia da década.


Divulgação


Quando nos lembramos do seu início, Hacks parecia uma série modesta: a história de uma comediante de stand-up no crepúsculo da carreira e da vida que encontra sua alma gêmea numa jovem e imatura roteirista de comédia. Certamente tinha tudo para ser uma ótima série, mas a melhor do gênero na década e uma das melhores de todos os tempos? Que nos deixa um vazio imensurável agora que chegou ao fim, depois de cinco temporadas irrepreensíveis? Não era algo que ninguém, nem os envolvidos na série, poderiam prever.


Mas foi isso que acompanhamos desde a exibição da primeira temporada lá em 2021. As trajetórias de Deborah Vance (Jean Smart) e Ava Daniels (Hannah Einbinder) foram construindo um público fiel e cativo, além de uma aclamação crítica que se reflete nos quatro Emmys consecutivos que Smart ganhou (e tudo se encaminha para que o feito se repita neste ano). Caso nos perguntemos o que exatamente fez a série apresentar tamanha consistência, a resposta pode ser resumida em uma só: fidelidade. Esta foi uma série fiel aos seus personagens e, sobretudo, ao seu humor. Em tempos em que vemos as categorias de comédia serem invadidas por comédias dramáticas ou dramas cômicos – não preciso citar nenhuma, eu sei que você pensou em umas aí –, ver uma série desavergonhadamente engraçada conquistar seu próprio espaço é um alívio.


E isso não significa que Hacks não seja desprovida de momentos dramáticos. Nesta temporada final, que dentre outras coisas, faz um balanço do legado dos personagens, mas também da própria série, estes momentos estão presentes (sobretudo no episódio final), mas o time de roteiristas capitaneado pelos showrunners Lucia Aniello, Paul W. Downs e Jen Statsky nunca deixa a peteca cair, confiando de que o público apreciará a linha tênue entre o humor e o drama, sem nunca nos deixar esquecer que o primeiro prevalecerá.


Claro, ajuda muito ter o timing afiadíssimo do seu elenco, que entre suas protagonistas, coadjuvantes e convidados com certeza será um dos mais inesquecíveis da televisão. Este último ano dá mais espaço para alguns personagens pouco trabalhados nas temporadas anteriores, como Marcus (Carl Clemons-Hopkins), ao passo em que a lista de convidados (e principalmente de convidadas) segue indefectível: entre Ann Dowd como uma atriz pintada de alienígena azul, Cherry Jones e Leslie Bibb como um casal lésbico que “força” Deborah e Ava a um fake dating no sétimo episódio (talvez o mais engraçado da série inteira) e Kaitlin Olson e Lauren Weedman roubando a cena como sempre nos papéis de DJ e da prefeita de Las Vegas, é difícil escolher minha participação especial favorita da temporada.


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Seria injusto falar do elenco e não citar nominalmente Jimmy (Paul W. Downs) e Kayla (Megan Stalter), que de personagens secundários e pontuais – e no caso de Kayla, um tanto irritantes – lá no começo da série, foram ganhando mais espaço a partir da terceira temporada e cravando seu espaço para se firmarem como verdadeiros coprotagonistas. A sintonia das duas e os talentos cômicos de Downs e Stalter foram sendo refinados para serem convertidos em verdadeiras joias por si só, e a química dos personagens se converteu na arma secreta da série, ganhando um merecido reconhecimento por parte do público e da crítica. Ainda que tenha alguns problemas com a maneira como o arco deles é encerrado no episódio final (mais pelo tempo que tomam nesse episódio e a rapidez com que tudo se resolve), eu não reclamaria nem um pouco de ver um spin-off centrado neles.


Mas é claro, Hacks é sobre Deborah Vance e Ava Daniels. O que vai ser do mundo sem estas duas personagens? Sem a química inebriante de Jean e Hannah, que construíram uma sintonia mágica, de duas mulheres de gerações e visões de mundo tão diferentes e que se encontraram – e que, neste percurso, nos encontraram? Algumas das melhores histórias de amor do audiovisual não são exatamente histórias de amor romântico: Don e Peggy em Mad Men, Cameron e Donna em Halt and Catch Fire, para citar algumas. É um amor que transcende definições, e basta uma troca de olhares entre as duas personagens para que este amor seja expresso em toda a sua potência e sua beleza.


Diferente dos anos anteriores (sobretudo do último), onde a graça da relação de Deborah e Ava nascia das suas fricções e conflitos, aqui a série aposta muito mais no alinhamento dessas duas mulheres, na compreensão mútua e na conexão que existe entre elas. E é por isso que o último episódio, mesmo não sem suas falhas – sobretudo por centralizar-se numa questão dramática que foi inserida tardiamente na temporada e por isso acaba sendo trabalhada de maneira um tanto apressada – certamente emergirá como um dos melhores finais de todos os tempos em listas futuras por aí justamente porque entende e se concentra naquilo que a tornou tão especial, que foi a jornada desta dupla icônica.


Assim, a última temporada de Hacks pode até não ser sua melhor, mas onde ela se encaixa nos rankings é muito mais uma questão de gosto, porque cada temporada por si só possui seus próprios méritos para figurar como a melhor ou favorita. Quantas séries podem se gabar de uma trajetória tão sólida e irrepreensível? Portanto, o gosto é agridoce por causa da saudade, mas as melhores coisas da nossa vida nos deixam esse gostinho. Que bom ver uma trajetória dessas sendo encerrada no auge, com a sensação de que ao longo destes cinco anos vimos história sendo feita na TV.


Nota: 5/5

 

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