Crítica | Natal Amargo
- Ávila Oliveira

- há 2 horas
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Almodóvar segue soturno e pessimista em outro filme semi-autobiográfico.

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Natal Amargo acompanha duas histórias paralelas que se desenrolam entre Madri e as Ilhas Canárias. De um lado, a publicitária Elsa (Bárbara Lennie) perdeu a mãe durante as festas de natal e afoga-se no trabalho. Não tendo espaço para lidar com o luto, um ataque de pânico severo a obriga a tirar uma pausa e viajar para Lazarote, nas Ilhas Canárias, ao lado de sua amiga Patricia enquanto o marido, Bonifacio, permanece em Madri. O outro ponto de vista da trama acompanha Raúl Durán (Leonardo Sbaraglia), um diretor e roteirista que enfrenta dificuldades em separar a realidade da ficção.
Pedro Almodóvar mais uma vez volta os olhos para si em Natal Amargo, adaptação de um dos contos de seu livro O Último Sonho, e transforma essa matéria íntima em um exercício melancólico de autoanálise, como um aceno à impossibilidade de reconciliação plena consigo mesmo. O cineasta espanhol constrói novamente uma de suas tradicionais personas sorumbáticas, homens atravessados pela sensação de fracasso afetivo, criativo e existencial. Aqui, porém, essa figura parece ainda mais cansada, como se não houvesse mais qualquer expectativa possível em relação ao futuro, à carreira ou até mesmo ao próprio passado. O diretor Raúl Durán funciona claramente como um espelho fragmentado do próprio Almodóvar.
A narrativa se desenvolve em uma estrutura emaranhada entre realidade, ficção e uma espécie de para-realidade emocional, em que as experiências dos personagens parecem constantemente contaminadas pelas angústias pessoais do cineasta. Almodóvar expõe suas motivações, suas inseguranças e principalmente os desdobramentos de escolhas humanas e criativas que cruzaram sua trajetória. Não é a primeira vez que ele faz do cinema um espaço de confissão indireta, mas em Natal Amargo existe algo mais terminal nessa exposição. Cada diálogo e cada silêncio carregam a impressão de um artista refletindo sobre seus próprios limites, como se o filme inteiro fosse guiado por uma consciência inevitável da finitude.
Esse tom de despedida aparece também nas inúmeras autorreferências espalhadas pelo longa. As participações especiais de atrizes associadas à sua filmografia funcionam quase como fantasmas afetivos revisitando um universo em decomposição lenta. Há um evidente saudosismo na maneira como Almodóvar revisita temas, enquadramentos e relações que marcaram seus grandes filmes, mas agora sem o vigor provocativo de outrora. O humor ácido ainda existe, assim como a crítica mordaz às relações humanas, porém ambos surgem desgastados, contaminados por um abatimento que parece partir diretamente do olhar do diretor sobre si mesmo e sobre sua permanência artística.

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Visualmente, Natal Amargo mantém o requinte estético característico do cineasta espanhol. A composição cromática, os cenários cuidadosamente artificiais e o controle absoluto da mise-en-scène continuam presentes, mas dessa vez até a beleza parece cansada. As cores vibrantes, antes carregadas de desejo e pulsão, surgem esmaecidas emocionalmente, como se já não fossem capazes de sustentar o mesmo fascínio. Existe uma estranha falta de brilho em cena, quase como se Almodóvar estivesse deliberadamente esvaziando os excessos visuais que ajudaram a consolidar sua identidade cinematográfica. O resultado é um filme conciso, mesmo perpassado por uma sensação constante de exaustão.
Ainda assim, Natal Amargo permanece uma obra complexa, amarga e profundamente sentimental. Mesmo sem o ímpeto criativo de trabalhos anteriores, Almodóvar segue sendo um dos cineastas que mais se desnudaram através do próprio cinema, direta ou indiretamente. Sua honestidade artística continua impressionante justamente porque não tenta esconder o desencanto, o medo do esgotamento criativo ou a fragilidade humana que atravessa seus personagens. É um filme que transforma cansaço em linguagem e pessimismo em confissão estética, reafirmando que, mesmo em sua fase mais melancólica, Almodóvar ainda consegue transformar suas ruínas emocionais em cinema vivo.
Nota: 3/5



















