Entrevista | “É importante que haja referências diversas sobre uma mesma maneira de estar no mundo”: Miriam Garlo e Eva Libertad falam sobre “Surda”
- Giulia Meneses

- há 2 horas
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5 anos após curta de mesmo nome, irmãs refletem sobre a construção da relação entre surdez, maternidade e representatividade no cinema.

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Em 2021, a parceria entre a diretora Eva Libertad e a produtora Nuria Muñoz rendeu frutos que continuaram prosperando 5 anos depois. Após Leo y Álex en pleno siglo XXI (2019) e Nikolina (2020), a dupla decide abordar os dilemas sociais e comunicativos de Ângela, uma mulher surda que decide ser mãe. Protagonizado por Miriam Garlo, irmã de Eva Libertad, Surda se consagrou como o primeiro curta-metragem gravado em Língua de Sinais Espanhola (LSE) a ser indicado aos Prêmios Goya.
Em 2026, Surda se transforma no primeiro longa-metragem da diretora Eva Libertad. Mais uma vez na pele de Ângela, Miriam Gallo, ao lado do ator Álvaro Cervantes, se distancia de sua vivência pessoal, e solidifica a história de uma mulher que busca se adaptar ao mundo de uma mãe não ouvinte. Ao mesmo tempo, seu marido - protagonizado por Cervantes - tenta compreender os menos e dificuldades de Ângela, enquanto ressignifica seus conceitos de parceria e companheirismo.
O Oxente Pipoca teve a oportunidade de conversar com as irmãs para falar um pouco mais sobre o processo de criação do filme, após o curta em 2021, a aprofundização da maternidade e o som na construção da narrativa. Ao serem perguntadas dos desafios em transformar o curta-metragem em algo maior, Libertad destacou a importância em transformar o set de filmagens cada vez mais acessível e confortável.
“Filmar o longa-metragem realmente foi muito mais intenso. Tivemos que tornar o set acessível tanto para minha irmã, como para as outras pessoas surdas que trabalharam no filme. O desafio foi que esse é o primeiro filme da Miriam, e o meu também. E ela estava presente em todas as cenas, então era muito intenso para ela. Eu sabia que se eu ouvisse a Miriam na desconformidade dela, eu como diretora, iria me afetar muito, porque ela é minha irmã. Emocionalmente tinha um vínculo muito grande. Então, minha obsessão foi criar um set de filmagem cuidadoso, amoroso, onde todo mundo pode se sentir bem, inclusive minha irmã - sobretudo ela”, destaca.
Na questão da acessibilidade, o set de filmagens contava com dois intérpretes de línguas de sinais, e aulas de LSE para toda a equipe. Eva Libertad também contou que a equipe realizou um dossiê sobre surdez, explicando a surdez desde ângulos sociais e culturais.
Escolhas técnicas
Para o público ouvinte, o som - ou a falta dele, funciona como um norteamento de toda a narrativa. Em cenas estratégicas, quem assiste se vê praticamente imerso na vida e nas sensações de Ângela. A diretora explica que sempre esteve muito claro que queria explorar a sensibilidade da protagonista, mas ainda precisava descobrir de que forma e em que momento isso aconteceria dentro da narrativa.
“Foi uma escolha feita muito cedo no processo. Testei várias possibilidades até que, na segunda versão do roteiro, surgiu a ideia que acabou se materializando no filme. Esse momento acontece quando Angela entra em crise. Ela acredita que perdeu tudo, não sabe mais o que fazer e não consegue se reconhecer naquele vínculo. Não consegue se conectar nem mesmo com a própria filha. Foi justamente nesse ponto de ruptura que percebi que parte do público ouvinte talvez não conseguisse compreendê-la completamente. Poderiam enxergá-la como egoísta ou birrenta, pensando: ‘Mas o que acontece com essa mulher, se ela tem alguém que a ama?’
Então, naquele momento, eu quis adentrar a Ângela. Até ali, a câmera sempre esteve próxima dela, mas nunca verdadeiramente dentro da personagem. E eu queria justamente isso: colocar o público ouvinte dentro da pele dela, ajudá-lo a compreender sua experiência de maneira mais íntima”.
Entre as escolhas técnicas mais formais, a planificação foi completamente alterada, quase em 180 graus, e, na parte final do filme, passaram a ser utilizados planos subjetivos, fazendo com que a câmara assumisse o olhar da personagem. Paralelamente, toda a construção sonora do trecho em que o som se “perde” também foi pensada para traduzir sua percepção do mundo.
“Na realidade, não existe uma ausência total de som, mas criamos, na pós-produção, uma percepção de como Angela escuta o mundo. E isso foi um grande desafio, porque não existe uma única forma de uma pessoa surda ouvir. Cada experiência é diferente, dependendo da origem da surdez — se é cerebral, do canal auditivo — e também do grau de perda auditiva. Então, investigamos o funcionamento do aparelho auditivo e reunimos Miriam e o designer de som para que ela explicasse como percebe as frequências mais graves e as mais agudas. A partir disso, construímos toda essa última parte sonora do filme, justamente para ajudar o público a entrar na pele da Angela”, destaca a diretora.
Construção da narrativa
Para Miriam Garlo, apesar de se tratar de uma personagem surda, a ideia principal era se afastar de sua vivência real. “Queria que o personagem da Angela fosse totalmente construído muito longe de mim. A Angela é surda de uma maneira diferente da minha. Ela perdeu a audição aos dois anos. Sua biografia e a minha são totalmente diferentes. Isso faz ela transitar por um tipo de surdez muito diferente da minha”.

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Apesar de cogitar a maternidade em um ponto da vida, diferente da personagem, Miriam conta que decidiu não ser mãe. A inspiração de Eva Libertad - pelo menos em um primeiro momento - reforçou a importância de quebrar o estigma que persiste sobre atrizes com deficiências.
“Sou atriz toda vida. Eu me formei em teatro, interpretação, e queríamos sair da minha experiência real para dar a visibilidade ao personagem que uma atriz com deficiência pode construir. Porque a tendência natural é pensar que uma atriz, por ter uma deficiência, está totalmente limitada. Todo mundo está acostumado que uma pessoa com síndrome de Down, seja engraçadinha ou carinhosa..temos vários preconceitos, mitos, estigmas e crenças que fazem a gente projetar isso. Mas a verdade é muito diferente disso. O que a gente queria era construir um personagem autêntico, sólido, de uma mulher surda, que tem muitas complexidades”.
Para a construção da maternidade de Ângela, a parceria entre as irmãs ganhou um importante aliado. Entre algumas entrevistas visando compreender o lado real da maternidade surda, Eva conta que precisou se perguntar qual história deveria realmente contar - foi então que o casal passou a ser um ponto central em todo desenvolvimento da narrativa. Dessa vez, a presença de Álvaro Cervantes e seu companheirismo com Miriam Garlo, trouxe Hector como um pilar para a protagonista, ao mesmo tempo em que representava uma redoma a ser rompida.
“Embora existisse muito amor e muita comunicação, acho que a Angela e a Hector têm uma bolha onde tudo funciona corretamente. Mas o que acontece quando a situação realmente fica tão complexa, onde o amor e a vontade não são suficientes e começam a brotar problemas e conflitos que estão enterrados e escondidos? Eu acho que o personagem do Héctor é como meu alter ego, como experiências e problemas que eu tive com Miriam sobre algumas inseguranças. Também queria construir um personagem masculino com inteligência emocional, com capacidade, que tivesse muito cuidado e disponibilidade emocional. Eu queria explorar uma masculinidade que não possui tantas representações no cinema”, reforça Eva.

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Entre Álvaro e Miram, a sorte de construir uma parceria sólida, foi uma forma de - além de desconstruir barreiras - criar uma confiança profissional e emocional já que seus personagens já tinham anos de relacionamento. A atriz conta que ela e seu parceiro de cena conviveram na residência do casal por um tempo antes das gravações começarem, local em que conseguiram acessar seus planos de intimidade pessoal. Para Álvaro, a oportunidade também serviu para entender o lugar de uma pessoa não ouvinte, e construir uma maior sensibilidade trazida por seu personagem durante a trama.
“O Álvaro não tinha nenhuma consciência sobre a surdez. Ele não sabia como era o dia a dia de uma pessoa surda, nem as dificuldades que uma pessoa surda enfrentava. Isso tudo surgiu de repente para ele. E, de certa forma, para mim também foi um processo. Eu, como pessoa surda, tinha minhas próprias barreiras e precisei ir quebrando cada uma delas aos poucos. Foi necessário tempo, mas tudo aconteceu com muito carinho.
A gente passou por esse processo juntos e também realizou um trabalho intenso de preparação para que nossos corpos se entendessem. E, quando digo isso, me refiro a nós como sujeitos, para que pudéssemos construir confiança, inclusive no nível emocional. Fizemos muitos exercícios e treinamentos com a diretora. Fomos nos preparando porque, quando o filme começa, os personagens já estão juntos há cinco ou seis anos. Então, construímos toda essa trajetória: como foi o primeiro encontro, os primeiros medos, a primeira noite juntos, o momento em que começam a se apaixonar. Criamos todas essas lembranças, porque elas dão uma vivência que permite trabalhar com verdade.
Foi isso que fez essa química real aparecer. O Álvaro é uma pessoa maravilhosa, com uma enorme capacidade de entrega, esforço, escuta, empatia e uma inteligência emocional incrível, o que facilitou muito tudo entre nós. E eu também sou uma pessoa muito sensível. Então, conseguimos nos acompanhar e nos respeitar profundamente. Acho que foi isso que tornou nossa relação tão verdadeira.”
Representatividade
Refletindo sobre a construção da personagem Angela e sobre as experiências que atravessam o filme, as irmãs também destacaram a importância da representatividade de mulheres surdas no cinema e em outros espaços da sociedade. Para elas, a presença de personagens complexas e diversas não apenas amplia o olhar do público ouvinte, mas também oferece às próprias mulheres surdas referências fundamentais para a construção de identidade, autonomia e pertencimento.

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Para Eva, o filme nasceu de um desejo de contar ao mundo algo que observou ao longo da vida com a Miriam. A diretora revive memórias e conta que sempre percebeu a dificuldade e a luta que uma pessoa surda enfrenta para se colocar em um mundo capacitista e ouvinte, lidando diariamente com barreiras de comunicação e problemas de acessibilidade.
“O filme surge também desse impulso de gritar isso para o mundo, de expressar uma certa raiva, uma indignação diante dessa realidade. Eu precisava encontrar a minha forma de contar essa história, porque, no fim das contas, estou falando sobre uma protagonista surda e sobre os conflitos de uma pessoa surda sendo eu uma pessoa ouvinte. A maneira que encontrei de legitimar esse olhar foi justamente me posicionar nesse ponto de encontro entre os dois mundos, através da relação desse casal. Eu queria me aprofundar nesse vínculo, tanto nas partes mais difíceis e sombrias quanto nas mais bonitas.
Também havia um desejo de fazer o público entrar na pele da Angela, sentir o que ela sente e compreender o que acontece com ela. Era uma tentativa de provocar, de despertar algo novo nessas pessoas”.
Quando perguntada sobre qual mensagem gostaria que Surda transmitisse à comunidade não ouvinte, Eva Libertad retoma o ponto principal: Respeito. Se aproximar com curiosidade, escuta e honestidade ao contar a história. “Acima de tudo, existe o desejo de que cada vez mais pessoas surdas possam contar suas próprias histórias e experiências a partir de seus próprios olhares e vivências”.
Ponto de partida para o surgimento dessa narrativa, Miram Garlo aborda a representatividade de mulheres surdas no cinema e em outros espaços de uma maneira fundamental para ampliar o olhar do público e contribuir na construção da identidade de quem se vê retratada na tela.
“Uma mulher surda, como qualquer outra pessoa, consome cinema. E, quando você assiste a um personagem bem construído, isso também ajuda na sua própria formação, na maneira como você se enxerga e se constrói. Afinal, é por isso que consumimos arte: ela contribui para o desenvolvimento cognitivo e simbólico que os seres humanos precisam.
Por isso, considero essencial que existam mais referências para mulheres surdas, para que possamos viver nossas experiências e vivências com mais liberdade. Temos direito de errar, de sermos contraditórias, de nos comportarmos mal às vezes, como qualquer pessoa. E nada deveria acontecer por causa disso. Acho que ter diferentes referências é importante não apenas para pessoas surdas, mas também para pessoas ouvintes, porque isso ajuda a compreender que pessoas com deficiência não precisam ser superprotegidas nem tratadas com paternalismo. São questões que, em teoria, todo mundo entende, mas que, na prática, muitas vezes passam despercebidas”.
Ao final, a mensagem é clara: apoiar, escutar e ajudar pessoas com deficiência é fundamental, mas nunca tomar decisões por elas ou fazê-las acreditar que não são capazes de agir, escolher e conduzir a própria vida. Miriam reforça que são atitudes sutis, muitas vezes naturalizadas no cotidiano, mas que revelam formas silenciosas de paternalismo.
Nesse sentido, a obra também evidencia a importância de permitir que a personagem viva a maternidade da maneira que deseja, sem obstáculos impostos entre ela e a filha. Ao mesmo tempo, o filme constrói uma forte linhagem feminina, marcada pelas complexidades da surdez e pelas relações entre mães e filhas. A relação de Angela com a própria mãe, atravessada por conflitos e incompreensões ligados à deficiência, acaba reverberando também em sua experiência com a filha, criando um retrato sensível e complexo dessas heranças emocionais e afetivas.



















