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Crítica | Nosso Segredo

  • Foto do escritor: Gabriella Ferreira
    Gabriella Ferreira
  • há 3 horas
  • 4 min de leitura

O luto como herança.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Há algo de sufocante em Nosso Segredo. Não apenas porque o filme de Grace Passô acompanha uma família negra atravessada pelo luto, mas porque, desde os primeiros minutos, existe a sensação de que aquela casa está tomada por uma ausência. Uma ausência que ninguém consegue nomear completamente, mas que está presente em cada silêncio, em cada gesto e em cada relação.


Escrito e dirigido por Grace Passô, Nosso Segredo marca a estreia da mineira na direção de um longa-metragem. O filme chega aos cinemas nesta quinta-feira, dia 27, depois de conquistar três Kikitos no Festival de Gramado: Melhor Filme, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte.


A história acompanha uma família negra que tenta retomar a rotina depois de uma perda. Enquanto cada integrante encontra sua própria maneira de lidar com o luto, o filho caçula guarda um segredo que pode fazer com que todos precisem encarar as raízes daquela dor.


É uma premissa simples, mas que Grace Passô transforma em algo muito maior. O filme constrói um relato profundo sobre luto, racismo e memória, mostrando como determinadas experiências não terminam em uma única geração. Elas são herdadas, transformadas e, muitas vezes, silenciadas dentro das próprias famílias.


Na primeira meia hora, Nosso Segredo faz uma escolha bastante interessante: não tem pressa para explicar o que aconteceu. Antes de entregar respostas, o filme quer que o espectador compreenda aquela família.


Aos poucos, conhecemos a dinâmica entre os personagens, seus silêncios, suas tensões e a maneira particular como cada um reage à perda. O mais interessante é que o filme consegue fazer com que o espectador também se sinta oprimido pelo luto, mesmo sem conhecer completamente o personagem cuja ausência provocou toda aquela atmosfera.


A casa se transforma em uma extensão desse sentimento. Os cômodos, os objetos e os próprios corpos dos personagens parecem carregar o peso daquilo que aconteceu. A direção de Passô demonstra bastante segurança ao trabalhar com esses elementos, especialmente na construção dos planos.


É uma direção muito madura para uma estreia. Grace entende quando precisa deixar a câmera observar e quando pode transformá-la em parte da própria experiência dos personagens. A fotografia e a direção de arte ajudam ainda mais nessa construção, criando um ambiente que parece cada vez menor conforme o filme avança.


Também é difícil assistir a Nosso Segredo sem pensar na trajetória de Grace Passô como atriz e nas experiências cinematográficas que ela acumulou ao longo dos anos. Existe algo de Temporada, No Coração do Mundo e O Dia que Te Conheci naquilo que aparece na tela. Os três filmes são produções da Filmes de Plástico e compartilham uma sensibilidade muito particular na maneira de observar personagens, espaços e relações.


Isso não significa que Nosso Segredo seja uma extensão desses filmes. Grace Passô encontra uma voz própria como diretora. Ainda assim, principalmente em sua primeira metade, existe uma familiaridade estética que remete bastante ao cinema produzido pela Filmes de Plástico.


O filme começa a caminhar por um registro mais próximo da ficção de suspense, construindo uma atmosfera sufocante em que existe constantemente a sensação de que alguma coisa está prestes a acontecer. É nesse momento que o surrealismo fantástico aparece de maneira mais evidente. A realidade da família começa a se misturar com uma dimensão mais estranha, quase como se o próprio luto alterasse a percepção daqueles personagens. Essa escolha funciona muito bem porque não transforma o fantástico em um elemento gratuito. Ele está diretamente relacionado aos sentimentos que o filme quer investigar.


O grande mérito de Nosso Segredo, porém, está na maneira como ele conecta o luto às questões raciais. O racismo não aparece como um tema isolado ou como uma discussão inserida artificialmente na narrativa. Ele atravessa a história dos personagens e interfere na maneira como aquela família compreende suas próprias dores.


O filme entende que o sofrimento também possui uma dimensão histórica. Algumas experiências não pertencem apenas a quem as viveu diretamente. Elas atravessam gerações, aparecem nos comportamentos, nos medos, nos silêncios e na forma como determinadas famílias aprendem a sobreviver.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Por isso, o luto em Nosso Segredo nunca é apenas sobre uma morte. Ele também diz respeito a tudo aquilo que veio antes dela. Grace Passô encontra uma maneira bastante sensível de relacionar essas duas dimensões. A família precisa lidar com uma ausência concreta, mas também com dores muito mais antigas, que continuam presentes mesmo quando ninguém fala sobre elas.


Outro grande destaque é o elenco. Os personagens parecem ter uma vida própria, como se suas relações existissem antes mesmo de a câmera começar a acompanhá-los. Essa naturalidade é fundamental para que o filme funcione. Grace não transforma seus personagens em instrumentos para apresentar uma tese sobre racismo ou luto. Eles são pessoas com contradições, afetos, ressentimentos e maneiras diferentes de lidar com aquilo que aconteceu.


É justamente essa dimensão íntima que impede Nosso Segredo de se tornar excessivamente explicativo.O filme confia nas imagens, nos silêncios e nas relações para construir seus sentidos. Em alguns momentos, isso funciona melhor do que qualquer diálogo poderia funcionar.


Se existe um problema, ele está principalmente na maneira como o filme transita entre seus diferentes registros. A primeira metade estabelece uma atmosfera muito particular, próxima do suspense e do fantástico, e nem sempre a narrativa consegue manter a mesma força quando começa a revelar suas cartas. Ainda assim, isso não diminui o impacto da estreia de Grace Passô como diretora de longa metragem.


Nosso Segredo é um filme que demonstra consciência de imagem, espaço, ritmo e atmosfera. Mais do que isso, demonstra uma diretora interessada em entender como experiências individuais podem carregar histórias coletivas.


É um filme sobre luto, mas também sobre aquilo que permanece depois dele. Sobre segredos que atravessam gerações. Sobre famílias que aprendem a conviver com aquilo que não conseguem dizer. E talvez essa seja a maior força de Nosso Segredo: entender que algumas dores não desaparecem quando deixam de ser mencionadas.


Nota: 4.5/5


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