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Crítica | Leite em Pó (54º Festival de Cinema de Gramado)

  • Foto do escritor: Oxente Pipoca
    Oxente Pipoca
  • há 2 horas
  • 3 min de leitura

Primeiro longa-metragem de ficção de Carlos Segundo aborda o estranhamento do luto e reafirma a originalidade do cinema feito no Nordeste.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Por: Diego Benevides (Colaboração especial para o Oxente Pipoca do 54º Festival de Cinema de Gramado)


É comum que, em filmes sobre luto familiar, o drama transborde nas ações e nos diálogos dos personagens como estratégia emocional que, além de conduzir a narrativa por caminhos previsíveis, favorece a identificação do público diante do bombardeio sentimental provocado pela temática. Leite em Pó, longa-metragem dirigido por Carlos Segundo, opta pela direção inversa. Há uma contenção emocional na jornada do protagonista Vicente, interpretado por Vinícius de Oliveira, que precisa repensar a vida após a morte trágica de sua avó, Helena, papel de Zezita Matos.


Essa economia é consciente e, ainda que possa frustrar quem busca maior intensidade emocional, pode ser entendida como uma estratégia mais efetiva para refletir sobre os efeitos das perdas familiares explorados pela obra. Em seu lugar, há uma série de escolhas dramáticas maduras que o roteiro de Segundo, em parceria com Rafael Copel, prefere explorar, sem prejudicar a trama ou transformá-la em uma experiência apática. A originalidade autoral de Segundo, já presente em trabalhos anteriores, com destaque para os curtas-metragens Sideral (2021) e Big Bang (2022), adiciona, aos poucos, camadas afetivas à narrativa de Leite em Pó, sem convertê-la em um grande lamento.


Vicente, o “Paulista”, é um homem pacato e sem muito carisma que leva uma vida ordinária em Natal (RN). O protagonista tem o sonho de ser cantor de rock, ainda que falte a ele não só a oportunidade para despontar como artista, mas também um pouco de talento. A morte de sua avó o deixa sozinho e complica a sua situação financeira. Após tomar uma decisão mórbida envolvendo a falecida, ele precisa agir para garantir a sua permanência na cidade. É assim que Vicente começa a trabalhar como vendedor de álbuns de fotografias de formatura e conhece diversas pessoas que afetam a sua visão de mundo. 


Cada encontro traz novas perspectivas para Vicente, em especial os que acontecem com Iara, papel de Rejane Faria, e com Shirley, interpretada por Priscilla Vilela. As conversas criam um ecossistema de relações de pertencimento, que contribui para a tentativa de reorganizar essa nova fase de vida do personagem, interpretado com precisão por Vinícius de Oliveira. Vicente é um ouvinte que analisa sem pressa o que começa a descobrir sobre as pessoas e sobre o espaço social em que está inserido, transformando sua letargia em movimento, guiado com destreza pela direção de Segundo. 

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Em paralelo a esses encontros, Vicente recebe um diário escrito por sua avó, que revela um histórico de violência que ele desconhecia, confrontando-o com traumas do passado e colocando em pauta outra dimensão política da história. Ainda que, neste ponto, o roteiro seja excessivamente expositivo, pela forma direta como apresenta os fatos, a atmosfera fantasmagórica da voz de Zezita Matos adensa o debate sobre as estruturas históricas que ainda afetam a existência das mulheres na sociedade. De todas as mensagens cravadas por Segundo, talvez a mais contundente seja aquela que reflete sobre a coragem que precisamos tanto para viver quanto para morrer. 


A melancolia da narrativa é interrompida, algumas vezes, por figuras cômicas que aliviam o peso da estrutura dramática, como a personagem de Titina Medeiros, em seu último papel no cinema, que vive a chefe de Vicente na empresa de fotografias, ou mesmo um casal libertário que injeta desejo e aventura na vida do protagonista. Segundo traz uma variedade de personagens e de corpos que surgem para compor essa jornada, sob uma condução formal rigorosa, característica de seu cinema. A construção sonora de Waldir Xavier ajuda na caracterização dos espaços e das pessoas que atravessam o percurso do protagonista, enquanto a montagem de Jéròme Breau preserva o equilíbrio entre humor e estranhamento.


Durante a coletiva de imprensa no 54º Festival de Cinema de Gramado, a primeira pergunta dirigida a Segundo e à equipe foi sobre as limitações de filmar em Natal (RN). Ainda há quem ache exótico que filmes indomáveis como Leite em Pó nasçam fora do eixo tradicional de produção, quando, na verdade, são obras como essa que reafirmam a diversidade da experiência autoral no cinema nacional. Mais importante do que saber se houve estrutura suficiente para a realização do filme é entender por que uma obra com essa consistência consegue se destacar entre os demais títulos da programação. Não é possível contar a história do cinema brasileiro sem passar pela persistência da produção nordestina, e realizadores como Segundo continuam ampliando essa tradição.


Nota: 4/5



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