Crítica | Só por Uma Noite
- Gabriella Ferreira

- há 18 horas
- 5 min de leitura
Uma comédia romântica que começa provocadora, mas termina defendendo justamente aquilo que parecia questionar.

Will Gluck sabe fazer comédias românticas. Desde A Mentira, filme de 2010 que continua sendo uma das obras mais interessantes e disruptivas de sua carreira, passando por Amizade Colorida até o recente Todos Menos Você, que se tornou um dos grandes sucessos do gênero nos últimos anos, o diretor entende como poucos a importância de química, ritmo e carisma para fazer um casal funcionar na tela.
Só por Uma Noite parte de uma ideia que parece perfeita para alguém com esse currículo. Em uma versão levemente futurista de Nova York, o sexo antes do casamento é proibido durante 364 dias do ano e liberado apenas durante uma única noite. É nesse intervalo de liberdade que Owen (Callum Turner), dono de uma pizzaria recém-abandonado pela namorada, e Allie (Monica Barbaro), uma cantora de jingles que procura algum tipo de conexão, se encontram. Os dois sentem uma atração imediata, mas uma sucessão de desencontros faz com que passem boa parte das próximas horas tentando se reencontrar.
A premissa, portanto, funciona como uma espécie de Uma Noite de Crime sexual. Só que, em vez de permitir que as pessoas matem umas às outras, o governo autoriza que elas façam sexo. A comparação não é apenas uma brincadeira promocional: o filme constrói uma sociedade em que a intimidade é regulamentada pelo Estado, com biossensores que indicam quando alguém está autorizado a transar. É uma lógica deliberadamente absurda, mas que funciona muito bem como ponto de partida para uma comédia romântica sobre desejo, solidão e a dificuldade de estabelecer conexões em uma sociedade cada vez mais impessoal.
E é justamente aí que Só por Uma Noite começa muito bem. Gluck não perde tempo tentando explicar cada detalhe daquele universo. A repressão sexual simplesmente existe e os personagens vivem dentro dela. Há uma naturalidade interessante na maneira como o absurdo é incorporado à rotina, sem que o filme precise transformar sua mitologia em uma aula de ficção científica. É perfeitamente possível passar boa parte da sessão sem se perguntar de onde surgiu aquela lei ou como exatamente aquele sistema foi implantado. A premissa é, sobretudo, um plano de fundo para falar sobre relacionamentos.
O problema é que, conforme a história avança, o filme começa a entrar em contradição com aquilo que ele mesmo estabeleceu.
A maior delas está no modo como Só por Uma Noite lida com o sexo. O filme apresenta uma sociedade construída em torno da repressão sexual e parece inicialmente interessado em questionar esse modelo. Entretanto, quando chega ao terceiro ato, sua relação com o próprio desejo se torna estranhamente moralista. Aquilo que deveria ser uma sátira sobre uma sociedade que controla a intimidade acaba se aproximando de uma visão em que sexo casual é tratado quase como uma distração inferior diante da "verdadeira" conexão romântica.
O resultado é um final decepcionante justamente porque parece julgador. Há uma sensação quase de "eu escolhi esperar" em uma história que deveria estar interessada em perguntar por que precisamos transformar sexo, amor e intimidade em categorias tão rigidamente separadas.
A contradição fica ainda mais curiosa quando colocamos o filme em diálogo com o próprio discurso de Will Gluck sobre sua produção. Em entrevista à Variety, o diretor afirmou que estudos recentes e sessões de teste mostraram um desconforto crescente do público com sexo e nudez na tela. Segundo ele, muitas cenas de nudez foram retiradas durante a montagem porque as reações do público tiravam sua atenção da história. Gluck chegou a dizer que, depois de observar essas reações, concluiu que os benefícios dessas cenas não compensavam os efeitos negativos.
É uma declaração especialmente curiosa para um filme cuja própria existência depende de uma sociedade obcecada em controlar o sexo. E talvez seja justamente nesse ponto que Só por Uma Noite revele involuntariamente algo mais interessante do que aquilo que pretendia discutir. Se o filme quer falar sobre uma geração que estaria menos interessada em sexo na tela, ele poderia usar sua própria premissa para investigar essa mudança. Em vez disso, parece também recuar diante dela.
Isso não significa que uma comédia romântica precise necessariamente mostrar sexo para falar sobre desejo. Pelo contrário. O problema é a diferença entre não mostrar e parecer ter medo de mostrar. Quando o filme constrói uma sociedade inteira em torno da proibição do sexo e depois evita explorar as consequências dessa repressão de maneira mais provocadora, fica a sensação de que ele está simultaneamente criticando o moralismo e tentando não incomodar ninguém.

A frase de Gillian Anderson sobre a relação das novas gerações com o sexo na tela ajuda para Elle Brasil a iluminar essa discussão. Ao comentar a crescente relutância em relação a cenas sexuais, a atriz questiona como o excesso de tempo diante de telas e a crescente impessoalidade das relações digitais podem afetar nossa percepção de algo tão essencialmente físico quanto duas pessoas se tocando. É uma questão que Só por Uma Noite poderia explorar profundamente, mas prefere deixar na superfície.
E é uma pena, porque o filme encontra algo genuinamente especial quando simplesmente deixa seus protagonistas juntos. Monica Barbaro e Callum Turner são, de longe, a melhor coisa do longa. A química entre os dois é absurda. Cada encontro, conversa, olhar ou desencontro funciona porque existe uma energia muito natural entre eles. Barbaro, especialmente, confirma que a indicação ao Oscar por Um Completo Desconhecido não foi um acaso. Ela consegue transformar Allie em uma personagem vibrante, engraçada e vulnerável, enquanto Turner encontra no jeito desajeitado de Owen um contraponto perfeito.
É um daqueles casos em que dois atores conseguem elevar um roteiro que nem sempre sabe o que fazer com eles. As melhores cenas de Só por Uma Noite são justamente aquelas em que o filme abandona temporariamente sua grande premissa e se transforma em uma comédia romântica tradicional. O flerte, os desencontros, as conversas interrompidas e a expectativa de saber se os dois finalmente conseguirão ficar juntos são deliciosos de acompanhar. É possível entender completamente por que o filme funciona quando está simplesmente contando uma história de amor.
Outro grande acerto é Nova York. A cidade não funciona apenas como cenário, mas quase como uma terceira personagem. Gluck aproveita as ruas, os restaurantes, as multidões e a arquitetura para criar uma versão ligeiramente deslocada da cidade que conhecemos. O filme transforma a noite em uma espécie de corrida caótica por Nova York, e existe um prazer genuíno em acompanhar Allie e Owen atravessando diferentes espaços enquanto todo o resto da cidade está igualmente tomado pela única noite em que aquela sociedade pode finalmente transgredir suas próprias regras.
Esse contraste entre uma cidade completamente caótica e dois personagens tentando encontrar uma conexão genuína é provavelmente a melhor ideia do filme.
Por isso, é difícil simplesmente chamar Só por Uma Noite de uma comédia romântica ruim. Ele é divertido, tem ótimos momentos, uma dupla de protagonistas excelente e uma premissa suficientemente inventiva para sustentar boa parte dos seus 102 minutos. O problema está justamente no potencial desperdiçado. A ideia poderia render uma sátira muito mais ácida sobre conservadorismo, repressão, solidão, tecnologia e a transformação do sexo em algo simultaneamente hiperexposto e cada vez mais impessoal. Em vez disso, Will Gluck parece encontrar um meio-termo seguro demais.
E talvez o mais curioso seja que Só por Uma Noite tenha chegado aos cinemas praticamente ao mesmo tempo que obras como Acampamento Miasma, que também utilizam o sexo e a repressão como elementos centrais para discutir juventude, desejo e os mecanismos sociais que determinam o que pode ou não ser desejado. A diferença é que Só por Uma Noite começa com uma sociedade que proibiu o sexo e termina parecendo ter medo dele.
No fim, sobra uma ótima comédia romântica escondida dentro de uma ideia muito melhor do que o próprio filme consegue desenvolver.
Nota: 3/5



















