Crítica | O Convite
- Vinicius Oliveira

- há 2 horas
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Texto inteligente e direção afiadíssima de Olivia Wilde mostram que ainda há espaço para a comédia adulta nas salas de cinema.

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Como já comentei em outras críticas, o advento dos streamings, a reformulação da ideia de “blockbuster” a partir do sucesso dos filmes da Marvel e os efeitos da pandemia levaram a uma sensível reconfiguração de quais gêneros e tipos de filmes mereciam ir para as salas de cinema. É até bizarro que 14 anos atrás um filme como Ted, de Seth MacFarlane, chegou a faturar 550 milhões de dólares, uma bilheteria praticamente impensável para os dias de hoje. Contudo, num ano em que produções como Devoradores de Estrelas, Obsessão e Backrooms têm feito bilheterias consideráveis (ao passo que produções de super-heróis, live-actions da Disney e de universos como Star Wars naufragam), pode se observar um possível novo cenário em relação aos potenciais filmes de sucesso.
Nesse sentido, O Convite, de Olivia Wilde, emerge como o lembrete de um tipo de comédia adulta que tinha seu espaço fixo nos cinemas até os anos 2000 e simplesmente foi relegada aos streamings na década seguinte. Adaptado do longa espanhol Sentimental, o filme se concentra exclusivamente em dois casais, Joe (Seth Rogen) e Angela (Wilde) e Hawk (Edward Norton) e Piña (Penélope Cruz), ao longo do jantar cada vez mais desastroso que se desenrola durante uma noite, especialmente quando Hawk e Piña fazem uma oferta a Joe e Angela.
Quando me refiro ao filme como uma “comédia adulta”, é no sentido de que seus temas – centrados sobretudo nas dinâmicas dos relacionamentos conjugais contemporâneos - dizem respeito a uma faixa etária específica, assim como seu humor. Um dos grandes méritos do texto de Will McCormack e Rashida Jones é justamente em como tratam o público com a inteligência que lhes é devida, o que se reflete no tom das piadas e na quebra de tabus para falar com naturalidade de tópicos ligados à sexualidade e relações. Além disso, trata-se de um texto que sabe dar cadência e sequenciamento orgânicos dos eventos narrativos e de criar respostas criativas dos personagens a estes eventos, de modo que o filme nunca se revela enfadonho, mesmo sendo limitado a uma única locação e a apenas quatro personagens.
A inteligência e fluidez natural do roteiro são ainda mais reforçadas pela direção precisa e afiada de Wilde, que volta ao terreno da comédia (que explorou tão habilmente em seu longa de estreia Fora de Série) após o seu controverso Não se Preocupe, Querida. Seja na direção de arte que vai pincelando novos e novos detalhes do apartamento de Joe e Angela, ou na montagem que ajuda a sustentar o ritmo imprimido pelo texto, Wilde e seu time conferem um dinamismo bem-vindo à obra, e mais do que isso: conseguem traduzir a vontade e o timing cômico deste texto, sobretudo em como pensam a encenação e a direção de atores para que as temáticas do filme possam ser gradualmente exploradas.

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Para além de debater o status dos casamentos contemporâneos, O Convite discute também o lugar do desejo e do sexo nesses casamentos, mas não está preocupado em ser didático. Por isso, nada mais apropriado para um filme que fala sobre desejo do que usar o olhar como dispositivo desse desejo, e é muito perspicaz como Wilde constantemente enquadra os atores em molduras que os fazem objeto desse olhar – as janelas, sobretudo, têm um lugar simbólico e narrativo importantíssimo – bem como os põem diretamente sob os olhares dos seus companheiros de tela.
O quarteto principal está afinadíssimo na sintonia e na química, com destaque a Penélope Cruz e a própria Wilde, esta última encarnando um certo espírito de Diane Keaton que mais do que justifica a dedicatória no final. E, enquanto diretora, Wilde faz da blocagem o aspecto mais crucial e bem-sucedido do filme, já que a disposição e movimentação dos personagens pelo espaço é o que dita não apenas o ritmo da sua câmera e, por extensão, da obra, mas sobretudo a narrativa. Basta ver como Joe e Angela estão sendo constantemente filmados em planos separados, ou com elementos físicos que os “separam”, ou com ela sendo posicionada em primeiro plano e ele em segundo e vice-versa, o que já alude ao status decadente do casamento deles antes que qualquer um em cena aponte para isso.
Onde o filme talvez encontre um pouco de fragilidade é justamente no seu clímax, primeiro por tentar tirar do nada um conflito para Piña e Hawk (que, no entanto, não foram suficientemente desenvolvidos da forma como Joe e Angela, visto que eles têm um papel mais esquemático na narrativa, inclusive como espelho para o outro casal) e depois por inserir de um drama de maneira um tanto abrupta, especialmente frente ao trabalho cômico que vinha sendo desenvolvido, ainda que não seja exatamente uma surpresa. O que talvez seja uma surpresa, e das boas, é o plano final (um enquadramento em moldura, veja só), que oferece um comentário pungente e até ambíguo para o futuro de Joe e Angela após os eventos dessa noite e traz um encerramento corajosamente agridoce para um filme que não se envergonhou de ser uma comédia até aqui.
Recentemente, Olivia Wilde fez um apelo apaixonado para que filmes como O Convite reencontrem seu espaço nos cinemas, e, a julgar pela minha sessão (com diversos casais que se acabavam de rir), é possível ver que há sim demanda por esse tipo de filme. Em tempos de produções cuja “estética de streaming” é cada vez mais evidente, onde a comédia ainda é vista como um gênero menor e onde estúdios esperam por resultados irreais de bilheteria, a existência e o sucesso de O Convite soam como um milagre. Felizmente, parte da magia do cinema está em constatar que milagres como esse ainda existem.
Nota: 4/5



















