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Entrevista | “Entre o desejo e ambição”: Marcio Reolon e Filipe Matzembacher falam sobre “Ato Noturno”

  • Foto do escritor: Giulia Meneses
    Giulia Meneses
  • há 5 dias
  • 8 min de leitura

Após estreia no Festival de Berlim, os diretores refletem sobre as influências do cinema maneirista e construção de performances ao longo da trama


Divulgação: Rafael Barion


Eleito Melhor Filme Brasileiro no Prêmio Félix, que contemplou as narrativas LGBTQIAPN+ na 27ª edição do Festival do Rio, Ato Noturno chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (15). O novo thriller erótico dos diretores Márcio Reolon e Filipe Matzembacher conta a história de Matias (Gabriel Farias) um ambicioso ator que vive um caso sigiloso com Rafael (Cirillo Luna), um político em ascensão que descobrem ter fetiche por sexo em lugares públicos. À medida que constroem sua fama, se torna mais intenso o desejo de se colocarem em risco. 


“Ato Noturno” ainda venceu três categorias na principal mostra competitiva do Festival do Rio 2025: Melhor Roteiro, Melhor Ator para Gabriel Faryas e Melhor Fotografia para Luciana Baseggio. Você pode conferir a crítica dele aqui. 


Em entrevista ao Oxente Pipoca, os diretores falaram um pouco sobre a mudança de ares em relação aos projetos anteriores, as construções performáticas de cada personagem, articuladas às dificuldades de se moldar às expectativas da sociedade neoliberal, e o cenário gaúcho como um personagem ativo na trama. Você pode conferir a entrevista na íntegra abaixo:


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Primeiro eu queria que vocês falassem um pouquinho sobre a influência do cinema maneirista, principalmente o De Palma no longa, considerando que a abordagem foi um pouco diferente dos anteriores.


Filipe Matzembacher: Eu acho que é muito bom você estar falando dessa ideia do cinema maneirista e da relação com o nosso cinema anterior, com Beira-Mar, com Tinta Bruta, porque com o passar do tempo eu acho que a gente foi abandonando pouco a pouco um cinema que era muito centrado numa ideia naturalista, realista, e a gente começou a se aproximar um pouco desse cinema que brinca mais com o gênero, mais com as ferramentas de cinema. Visivelmente, ela apresenta essas ferramentas de maneira mais direta para o espectador. E nesse processo, nesse interesse de brincar com essas ferramentas e de se afastar um pouco desse naturalismo, quando a ideia do filme surgiu, a gente pensou, vamos mergulhar primeiro no cinema noir. Logo a gente começou a perceber, é próximo disso, mas não é exatamente isso. E daí a gente foi revisitar esse cinema erótico dos anos 70, 80 e 90, que é um cinema que a gente adora, um cinema que dialoga muito com o universo do Ato Noturno. E nesse processo foi um processo muito interessante, criar um diálogo contemporâneo, claro, nosso, brasileiro, mas que dialoga com esse cinema ali do De Palma, do Verhoeven, de tantos outros filmes também que eu acho que foram necessários, mas o De Palma, talvez como uma das grandes referências. Definitivamente foi muito prazeroso poder criar essa comunicação com o filme. 


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Queria perguntar também como vocês enxergam essa relação entre vivências queer e a performance, principalmente a performance teatral tão abordada no filme?


Filipe Matzembacher: Sim, eu acho que tem um aspecto que é muito importante no conceito de performance, que a gente trabalha desde o Tinta Bruta, na verdade, mas aqui a gente mergulha um pouco mais ainda, que é pensar a performance enquanto ofício, no sentido de teatro, que você comentou, e na performance social. Que todos nós fazemos isso, né? Mas quando nós pertencemos a determinados marcadores sociais, a gente repensa o tempo todo, a maneira que a gente se veste, a maneira que a gente senta, a maneira que a gente fala, o desejo que a gente vai expressar para o público ou não. E esses são elementos que nos interessam muito. E a possibilidade de ter personagens que exploram performance nesses dois âmbitos nos interessa muito. Acho que é um prato cheio para poder brincar um pouco com isso, com essa ideia desse palco constante. Esses personagens saem do palco do teatro, entram na coxia e eles seguem num outro palco. Eles só mudam de certa forma de personagem, mas eles seguem tendo que exercer determinados pensamentos, tendo uma autoconsciência muito grande. 


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Falando de performance, uma coisa que me deixou muito entusiasmada no filme, no geral, é como as necessidades dos protagonistas são construídas ao longo do filme, apesar de eles possuírem posições muito diferentes, que socialmente são normalizadas como algo praticamente quase oposto, um político e um ator. Ambos têm essa necessidade de entregar uma persona muito forte, que vai mudando de acordo com o filme. Não vou dar spoiler aqui, mas o final me chocou bastante e eu gostei muito. Então, queria que vocês falassem um pouquinho sobre isso. 


Marcio Reolon: Eu concordo com você, que acho que são profissões muito distintas, por mais que eu ache que ambas têm, de novo, a performance como um elemento muito forte. O ator, claro, por motivos óbvios, subiu no palco, ele está interpretando um personagem, mas o político também depende dessa imagem e dessa necessidade de vender uma persona pública, seja no palanque, seja no debate, seja na frente das câmeras, e isso para a gente era muito fascinante. 


Filipe Matzembacher: Eu acho que tem um aspecto também que é interessante que o Márcio comenta dessa performance, como eu comentei antes, dessa autoconsciência, que vai para um... que os personagens começam a perceber que para ascender socialmente nessa sociedade ultra neoliberal, eles vão ter que começar a abrir mão de quem eles são, eles vão ter que começar a criar esses personagens, moldar, e isso começa a pressionar eles e começa a pressionar o desejo deles. E isso é uma força motora do filme muito forte. Então vira esse duelo entre desejo e ambição. A gente brinca que é como entre Eros e Thanatos. O tempo todo o filme fica nesse diálogo. E os personagens também fazem uma jornada um pouquinho na mesma direção, mas é um pouquinho contrária, no sentido que o Rafael inicia o filme entendendo que tem que jogar esse jogo dessa forma. A convivência com o Matias vai tencionando, ele vai se soltando aos poucos, vai entrando um pouco mais em conflito. Enquanto o Matias, ele é muito confiante com quem ele é no início do filme. E pouco a pouco ele começa, então, a entender: “Não, tá! Se eu preciso e quero virar o galã da série, vou ter que abrir mão um pouco disso”, e ele começa a aprender, jogar o jogo com o Rafael nessa perspectiva. 


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Outra coisa também que me deixou muito impressionada foram as localidades do filme, eu não conheço Porto Alegre, mas li muitas críticas gaúchas e eles trouxeram como um ponto positivo essa parte da capital como um personagem mesmo, isso foi algo pensado desde o início do filme? 


Marcio Reolon: Sim, Porto Alegre costuma ser um cenário recorrente nos nossos filmes, porque, enfim, é a cidade onde a gente nasceu, onde a gente cresceu, mas, claro, cada vez eu acho que a cidade entra de uma maneira um pouco diferente. No nosso filme anterior, no Tinta Bruta, Porto Alegre era quase uma antagonista. Enquanto nesse filme agora, eu acho que ela assume mais uma posição quase de uma femme fatale, se é para falar de cinema noir, que ela é uma cidade que é perigosa, mas ao mesmo tempo ela seduz e pode ser um caminho de perdição dos personagens, mas eles se sentem mesmo assim muito atraídos por ela. E foi muito bacana poder explorar a cidade, especialmente o centro histórico da cidade, que é onde a maior parte das locações estão. Através dessas lentes, através desse olhar, e ainda mais porque sendo um filme que fala muito sobre performance, que tem uma lógica estilizada, a gente quis trazer essa estilização que está nos palcos também para as ruas. Então, pensando quase os postos de luz como refletores de um palco de teatro, os faróis dos carros iluminando os prédios, criando, assim, esses contornos de um cinema neo-noir ou de um suspense erótico que, de certa forma, acabaram repaginando um pouco a estética da cidade. 


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): O filme estreou no Festival do Berlim, passou pelo Festival do Rio, inclusive, parabéns por todos os prêmios, foi incrível.  Queria saber se vocês sentiram a recepção diferente lá em Berlim, lá no Rio, e como vocês esperam que ele seja recebido no resto do Brasil? 


Marcio Reolon: Eu acho que para cada público que a gente exibe, a gente tem reações que são próprias, talvez, daquele público, e também reações que tendem a ser comuns. E, claro, eu acho que o público alemão recebe de uma forma, o público brasileiro talvez de outra, mas tem coisas que a gente tem visto com uma certa frequência, que é o engajamento que as pessoas conseguem ter com a história. A gente criou um filme que queríamos muito que o espectador pudesse se divertir enquanto assistisse o filme. Por mais que estivéssemos falando de temas muito sérios, e pra gente essa jornada era fundamental que as pessoas pudessem ter uma jornada prazerosa durante a assistência, mas quando o filme terminasse, queríamos que aqueles temas que trazidos pelo filme estivessem pulsantes na cabeça delas, que elas saíssem da sala de cinema debatendo. Então, acho que a nossa expectativa agora para a estreia nos cinemas é que as pessoas vão lá, compareçam e desbravem essas noites dessa Porto Alegre e encarem o perigo, a diversão. Tudo isso de peito aberto para que consigam entrar em contato com essas outras realidades que o filme traz, com o gênero que o filme propõe e participar desse debate dos temas que o filme suscita. 


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): E para terminar, eu queria que vocês indicassem três filmes brasileiros que o nosso público deveria ver?  


Marcio Reolon: Então eu vou começar com um que foi uma influência muito grande para esse filme, que é o República de Assassinos, do Miguel Faria Júnior. Ele é um filme policial, ou talvez neo-noir, queer, brasileiro, é um filme muito bacana. A gente inclusive fez uma homenagem para esse filme dentro do Ato Noturno. Os personagens, o Matias e o Rafael, no apartamento deles, eles têm um quadro do República de Assassinos na parede. E, na nossa opinião, tem uma das, talvez, a maior femme fatale da história do cinema brasileiro. 


Filipe Matzembacher: Eu acho que um outro filme, assim mesmo com tanto filme bom, porque é difícil escolher só um. Assim, talvez, O Menino e o Vento…Poderia ser? Porque é um filme muito lindo, do Carlos Hugo Christensen. Que é um filme que fala sobre desejo também. E sobre repressão numa sociedade muito conservadora e como o desejo é uma força incontrolável. É muito lindo como o filme lida com isso. Acho que é uma pérola do cinema brasileiro, definitivamente. 


Marcio Reolon: E vou encerrar, então, o terceiro com o filme contemporâneo e daí falar do Sem Coração, da Nara Normand e do Tião, que é um filme lindo, que nos toca demais. Eu acho que é um cinema super sensível e muito bem feito. Eu lembro que quando a gente assistiu a pré-estreia desse filme em Porto Alegre, a gente saiu, assim... encantados, chorando. Tanto a Nara quanto o Tião, acho que tem um cinema muito interessante, muito propositivo e que nos encanta demais 


Filipe Matzembacher: E ainda fizeram uma dobradinha com um curta que é lindo também, algo que é muito difícil. Eles já tinham feito um curta que era maravilhoso, e ao adaptar em longa metragem, às vezes isso não dá muito certo, mas nesse caso deu completamente certo. 


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