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Crítica | Obsessão

  • Foto do escritor: Gabriella Ferreira
    Gabriella Ferreira
  • há 1 hora
  • 3 min de leitura

Quando o desejo masculino transforma o amor em pesadelo.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

“Se você pudesse fazer um desejo, qual seria?”


É a partir dessa pergunta simples na superfície, mas corrosiva nas consequências, que Obsessão constrói toda a sua espinha dorsal narrativa. O filme de terror dirigido por Curry Barker parte de um objeto sobrenatural, o misterioso “One Wish Willow”, para transformar um conto de desejo realizado em um estudo perturbador sobre amor, posse e os limites entre a romantização e a obsessão.


Na trama, Bear (Michael Johnston) é um jovem romântico incurável, funcionário de uma loja de discos, que compra o artefato místico acreditando que ele pode resolver sua maior frustração afetiva, conquistar Nikki (Inde Navarrette), sua amiga de infância e paixão idealizada. O desejo se realiza de forma imediata, quase perfeita demais, mas o filme rapidamente desloca essa fantasia para um terreno instável, onde o amor passa a ter aparência de distorção, controle e ruína.


O que começa como uma fantasia de realização amorosa se converte pouco a pouco em uma narrativa de horror corporal e psicológico. Bear não é apresentado como um vilão imediato, mas como alguém moldado por inseguranças e pela incapacidade de lidar com a rejeição. O problema é que, mesmo quando percebe que algo está profundamente errado, ele escolhe permanecer na ilusão, desde ajustar o desejo até tolerar os sinais de sofrimento da própria Nikki. Nesse ponto, o filme deixa de ser apenas sobre um feitiço e passa a falar sobre consentimento, ego e a violência emocional embutida em certas idealizações românticas.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Há uma leitura possível de que Obsessão funciona como uma alegoria sobre masculinidade tóxica e o desejo de posse disfarçado de amor. A ideia de “ter” a pessoa amada, mesmo que isso signifique deformar sua autonomia, atravessa toda a narrativa. Nikki, por sua vez, se torna o eixo emocional mais forte da obra, e a performance de Navarrette sustenta o impacto do filme ao alternar vulnerabilidade e estranhamento de forma constante, como se houvesse sempre alguém preso dentro da própria imagem que o desejo criou. 


Em termos estéticos, o longa aposta em uma atmosfera crescente de desconforto. A fotografia trabalha sombras e proximidade, o som amplifica pequenos ruídos cotidianos até torná-los ameaçadores, e a montagem intensifica a sensação de perda de controle. Em alguns momentos, a construção de tensão lembra o uso de câmera e enquadramento de Corra!, especialmente na forma como os rostos são explorados como territórios de instabilidade emocional.


O equilíbrio entre horror e humor ácido transforma Obsessão em uma experiência ao mesmo tempo perturbadora e envolvente, que parte de uma premissa clássica do “cuidado com o que deseja” para levá-la a um terreno mais físico, desconfortável e atual. O resultado é um filme que não se limita à ideia de moral da fábula, mas faz o incômodo atravessar o corpo e a relação entre os personagens. 


No fim, Obsessão não está interessado apenas no desejo realizado, mas no que acontece quando esse desejo é atravessado por controle, ego e incapacidade de reconhecer o outro como sujeito. O horror do filme não vem do elemento sobrenatural em si, mas da forma como ele expõe uma lógica afetiva marcada pela posse, em que o amor é confundido com domínio e a vontade masculina de ser correspondida se sobrepõe à autonomia da outra pessoa. Nesse sentido, a narrativa funciona como um espelho incômodo de uma cultura que ainda romantiza a insistência, mesmo quando ela já deixou de ser afeto e passa a ser invasão. 


O que sobra é uma crítica amarga à misoginia embutida em certas idealizações românticas, onde o “ser amado” importa mais do que o direito de existir do outro fora desse desejo.


Nota: 4/5


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