Entrevista | “É um filme sobre circo, memória e insistência”: Fábio Meira reflete sobre ‘Mambembe’ e o processo de quase uma década até o lançamento
- Gabriella Ferreira

- há 51 minutos
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Longa que estreou nesta quinta (14) revisita um projeto iniciado em 2010 e transforma a trajetória interrompida em uma reflexão sobre as condições de fazer arte no Brasil.

A estreia de Mambembe nos cinemas brasileiros aconteceu na última quinta-feira, 14 de maio, marcando a chegada do novo longa de Fábio Meira às salas após uma trajetória que atravessa mais de uma década de desenvolvimento. O filme parte de um projeto iniciado em 2010 e interrompido por falta de financiamento, que acabou sendo retomado anos depois em uma nova configuração narrativa.
No centro da história, três mulheres de um circo itinerante, Índia Morena, Madonna Show e Jéssica, cruzam o caminho de um topógrafo errante, em uma trama que mistura ficção e realidade para refletir sobre memória, tempo e as próprias condições de produção do cinema brasileiro. Entre o circo e o processo de filmagem, o longa transforma sua própria história interrompida em linguagem e matéria dramática.
Dirigido por Fábio Meira, cineasta nascido em Goiânia e formado na Escola de Cinema de Cuba, o filme também dialoga com sua trajetória anterior, que inclui obras como As Duas Irenes e Tia Virgínia, consolidando uma pesquisa sobre processos de criação, atuação naturalista e narrativas em construção.
Leia à entrevista completa com o diretor a seguir:
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Deixa eu me apresentar primeiro, né? Eu sou Gabriela, do Oxente Pipoca, aqui de Sergipe. Assisti ao filme ontem e preciso dizer que amei. Antes da gente começar, eu queria falar que vocês têm dois filmes que a gente costuma chamar de “queridinhos” aqui no Oxente Pipoca: Inferninho, do Guto Parente, e Tia Virgínia.
A nossa equipe ama esse filme e, sempre que pode, indica e fala sobre ele. Então, é um prazer estar conversando com você. Quando todo mundo soube que eu faria essa entrevista, pediram para dizer que são muito fãs de Tia Virgínia. Nossa equipe inteira mesmo.
Fábio Meira: Eu lembro super dos posts que vocês fizeram, lembro de tudo. E Mambembe… Mambembe chega um pouco perto?
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu adorei. Inclusive, eu fiz a crítica. Posso até enviar para vocês depois darem uma olhada. Acabei de postar no site. Gostei muito do filme. Acho que ele toca especialmente quem acompanha o cinema mais de perto, sabe? Meu marido trabalha com audiovisual, então o filme bate muito nesse lugar da reflexão sobre cinema.
Eu tive uma sensação parecida, apesar de serem filmes diferentes, com a que senti vendo Retratos Fantasmas. É aquela sensação de enxergar o cinema pelos bastidores, de perceber o que existe por trás daquilo tudo. Enfim, gostei muito mesmo.
E acho que já posso entrar na minha primeira pergunta. Como foi para você revisitar esse processo? Porque esse é um filme que você começou a pensar lá em 2010. Como foi voltar para isso tudo e decidir que faria o filme dessa forma específica que ele acabou tomando?
Fábio Meira: Na verdade, Gabriella, eu nunca desisti do filme. O que acontece é que eu escrevi esse roteiro quando estava terminando meu último ano na escola de cinema de Cuba, ali entre 2007 e 2008. Depois consegui filmar uma parte dele em 2010, junto com colegas da escola. Tinha uma fotógrafa boliviana, um sonidista cubano, um técnico de som cubano e um montador mexicano. A gente foi para o Norte e Nordeste fazer essas filmagens, junto com a Maíra da Rin, que produzia essa etapa do projeto. Era uma equipe meio imaginária, muito especial.
A Daniela Cajías, por exemplo, depois se tornou a primeira mulher a ganhar um Goya de fotografia com Las Niñas e fotografou Alcarràs, da Carla Simón, que ganhou o Urso de Ouro. Então era um grupo muito forte ali na Ilha do Marajó e no Agreste de Pernambuco tentando fazer esse filme.
Na pesquisa, eu encontrei Índia Morena, Madonna e Jéssica, e fiquei completamente fascinado pelas três. Eu queria muito fazer o filme com elas. Então eu sempre soube que aquele material tinha muito valor. O problema é que eu não consegui financiamento para terminar o filme. Eu achava que, se mostrasse uma parte do material já filmado, conseguiria levantar recursos para continuar, mas isso não aconteceu.
Só fui conseguir financiamento depois que lancei As Duas Irenes. Só que aí já tinham passado quase dez anos. E como retomar uma filmagem de 2010 tanto tempo depois, tentando continuar tudo da mesma forma? Era muito difícil.
Foi aí que decidi montar aquele material de ficção como se fosse um documentário. Então o filme virou um filme sobre a tentativa de fazer um filme. Ele nasce desse processo dolorido, porque é muito tempo convivendo com um filme inacabado. E isso é uma falta. Você convive com essa falta o tempo inteiro, tentando, tentando, tentando, e muitas vezes sem conseguir.
Quando finalmente consegui terminar, foi muito bonito revisitar aquele material. Porque existem dois diretores ali. Na verdade, o mesmo diretor em duas fases da vida, justapostos. Um muito jovem, animado, cheio de energia, que filmou aquele começo. E outro mais cansado, talvez, mas já conhecendo alguns atalhos pela experiência de ter feito e lançado outros filmes.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu ia até perguntar justamente isso. Como as experiências dos seus outros filmes se refletem nesse processo de revisitar essa história? Porque obviamente elas atravessam o filme de alguma forma, né?
Como foi para você encontrar esse “você” do passado depois de tudo o que viveu e aprendeu realizando outros dois filmes? Que tipo de choque, ou até de diálogo, aconteceu entre esses dois momentos da sua trajetória?
Fábio Meira: A primeira coisa é que Mambembe acabou influenciando As Duas Irenes de uma maneira bem forte. Principalmente pelo método que eu usava com as atrizes. Elas não eram atrizes profissionais de cinema, embora fossem artistas profissionais, mas nunca tinham atuado em um filme. Então esse método de trabalho que desenvolvi com elas acabou sendo levado também para As Duas Irenes, porque eram duas meninas fazendo cinema pela primeira vez.
Agora, sobre o impacto dos outros filmes nesse reencontro com Mambembe, eu não sei dizer exatamente, porque os dois filmes seguintes partiam de roteiros muito estabelecidos. Existia uma estrutura clara durante as filmagens, uma evolução já desenhada para os personagens. Claro que algumas coisas mudavam no processo, mas havia um roteiro sendo seguido.
Mambembe não. Mambembe era um filme muito livre. Então o processo dele acabou sendo completamente diferente dos outros dois.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Você falou um pouquinho de As Duas Irenes, em que também trabalhou com atrizes que nunca tinham feito cinema. E em Mambembe existem essas três personagens muito marcantes, como você já citou, que o filme também revisita depois de tantos anos.
Como foi reencontrar essas três mulheres? Porque elas são pessoas completamente distintas, mas ao mesmo tempo se completam de uma forma muito bonita dentro da história. Eu achei isso impressionante.
E a Madonna… nossa senhora. Todas são incríveis, mas ela tem uma presença muito forte. Uma estrela mesmo. Dá até aquela sensação de “como essa pérola estava escondida esse tempo todo?”, sabe?
Fábio Meira: As três são estrelas. Quer dizer, o elenco inteiro é muito forte, mas a Índia e a Madonna têm uma presença muito marcante. A Índia é meio a cabeça do filme e a Madonna, o coração. A Índia talvez seja mais a alma.
Desde o começo eu procurava pessoas que me inspirassem para aquilo que queria fazer. E depois, quando decidi trabalhar com atores naturais, como se costuma dizer, fiquei completamente fascinado por elas. Só que, no roteiro original, as personagens eram diferentes. Não eram exatamente o perfil que eu estava procurando.
Mas elas eram tão fantásticas que eu achei melhor mudar o roteiro para tê-las no filme do que insistir na ideia inicial. Foi uma decisão muito clara para mim.
E toda vez que reencontro elas, tenho a sensação de estar diante de estrelas de cinema.

Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Outra coisa que me pegou muito no filme foi essa sensação que tive logo no início, quando o circo aparece pela primeira vez. Eu tenho uma memória muito visual desses circos pequenos, familiares, com poucas pessoas, que a gente vê pelo interior, às vezes passando de carro. Isso despertou uma memória afetiva muito forte em mim.
Queria saber como o circo chegou até você e por que contar uma história através desse universo te interessou tanto.
Fábio Meira: Então, isso vem muito da minha infância. Eu sou de Goiânia, que naquela época, nos anos 1980, era uma cidade mais pacata. E eu lembro dessa sensação de ver um pedaço da cidade se transformar quando um terreno vazio, que antes tinha mato, de repente era ocupado por um circo que passava uma temporada ali.
Aquilo me fascinava. Os figurinos coloridos, o espetáculo em si, mas também a vida ao redor. Eu gostava muito de observar a rotina deles nos trailers. Durante muito tempo sonhei em morar em um trailer. E, de certa maneira, acho que ainda sonho um pouco com isso, com essa ideia de viver de forma itinerante, viajando, ficando um tempo em cada lugar.
E eu acho que, no fim das contas, segui um pouco esse caminho do circo. Esse filme é quase uma prova disso, porque fazer cinema se parece muito com fugir com o circo, principalmente para alguém que vem de uma família conservadora, de um ambiente mais conservador.
Hoje, por exemplo, estou lançando o filme e vou passar por 13 cidades em duas semanas. Cada dia estou com uma pessoa diferente. Hoje estou com a Madonna, amanhã com a Dandara, depois com Murilo, depois com Jéssica. É uma vida itinerante, de apresentação, de contato com o público.
E, de certa forma, também estamos tentando arrancar um sorriso da plateia, emocionar as pessoas, exatamente como acontece no circo. Acho que o cinema tem muitas semelhanças com isso. A dinâmica de vida é muito parecida: itinerante, por temporadas. Cada filme acaba sendo uma temporada também.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca):Tem outra coisa que eu achei muito política no filme, que é mostrar como ele quase não existiu por falta de recursos. A gente chega a pensar que talvez não fosse ver essas três histórias de forma alguma, que talvez não fosse conhecer essas personagens.
Queria que você falasse um pouco sobre como você vê isso, sobre como o nosso país perde histórias quando faltam condições para que certos filmes sejam feitos.
Fábio Meira: Não só na política audiovisual, mas na cultura no geral. Você pensa nesses circos que aparecem no final do filme, nessas várias trupes de circo. Quantas delas existem até hoje?
O que o governo está fazendo para a manutenção desses circos, dessas companhias de teatro que foram tão importantes? Fernanda Montenegro, por exemplo, surgiu de uma companhia de teatro.
E também para esses talentos do cinema. A gente acaba ficando muito à mercê dos governos e, muitas vezes, justamente daqueles dos quais esperávamos mais apoio. Mesmo assim, seguimos tendo que lutar muito, porque faltam condições reais de trabalho.
E, no fim, um dos grandes orgulhos de Mambembe é justamente mostrar para o Brasil a Índia Morena e a Madonna. Como você mesma disse, são grandes estrelas, artistas gigantescas que ainda não são conhecidas do grande público.
Espero que o filme ajude a mudar um pouco isso, porque o Brasil merece conhecer a Índia Morena e merece conhecer a Madonna. Elas são mulheres brilhantes e artistas fenomenais.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca):Você já tinha a intenção de fazer isso desde o início? E como essa dimensão mais melancólica que existia no roteiro original foi atravessada e chegou até a versão atual do filme?
Fábio Meira: Olha, isso eu acho que tem a ver com a sua pergunta anterior também, sobre as condições que a gente tem para fazer arte no Brasil. Eu acho que isso, por si só, já gera melancolia e gera angústia, entende?
Porque é muito difícil conviver com frustração quando você tem um grande desejo, quando acredita em um projeto. Imagina no meu caso, que fiquei convivendo com esse projeto durante tanto tempo. Eu nunca desisti dele.
E isso, eu acho, acontece com muitos artistas no Brasil: projetos em que eles acreditam profundamente, mas que não conseguem sair do papel, porque não basta vontade, é preciso recursos.
Então essa melancolia que você menciona é muito inerente a essa situação do circo no Brasil e das artes em geral. É uma vida difícil também. Assim como o audiovisual, que é um campo em que são poucos os que conseguem trabalhar continuamente e levar público para as salas de cinema.
Então, infelizmente, por várias razões, essa melancolia faz parte da própria condição do artista brasileiro.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): O que você espera que o público sinta ao assistir ao filme? E o que você gostaria que ele reverberasse nos próximos anos?
Fábio Meira: A primeira coisa é que eu espero que o público tenha vontade de ir ao circo. Isso é algo que eu acredito mesmo que Mambembe pode despertar em muitas pessoas que já não têm mais esse hábito ou interesse pelo circo.
Também espero que o público olhe para cada artista brasileiro de uma maneira diferente, entendendo um pouco mais a batalha que existe por trás de cada obra e o quanto de tempo, dedicação e vida são investidos para que ela exista. Isso vale para um espetáculo de teatro, de dança, uma exposição de fotografia, um filme, um espetáculo de circo, enfim, tudo.
Como aconteceu comigo em Mambembe, e como acontece com tantos outros artistas no Brasil que passam anos tentando realizar seus projetos.
Então eu espero que as pessoas sintam isso, esse desejo de valorizar mais a nossa arte. Porque, de certa forma, é até uma contradição, sabe? O brasileiro é extremamente criativo por natureza. Isso está na nossa música, no nosso cinema, na nossa literatura. A gente vê isso em tudo.
Mas, ao mesmo tempo, muitas vezes não temos as condições ideais para colocar esse trabalho em prática. E eu gostaria que as pessoas olhassem para isso de outra maneira e valorizassem mais o trabalho de cada artista brasileiro.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Para finalizar, uma pergunta que eu faço para todo mundo: se você pudesse dar uma dica de filme ou série brasileira, qual você indicaria? Só não pode ser a obra que a gente está conversando no momento.
Fábio Meira: Vou falar primeiro o que me veio à cabeça, tá? Que é A Hora da Estrela, da Suzana Amaral, com a Marcélia Cartaxo.
É um filme que abre para várias discussões, porque é uma obra majestosa, que vem de um livro fantástico de A Hora da Estrela. E isso já me interessa muito: aquela literatura que parece simples, mas que no fim é extremamente profunda. A Clarice, naquele livro tão fininho, está falando de uma alma, de um tipo de brasileiro, de brasileira, no caso da Macabéa, que atravessa gerações justamente por essa profundidade.
E também tem essa atriz de teatro fantástica que é a Marcélia Cartaxo, que a Suzana Amaral conheceu através do teatro. Então é um filme que nasce desse encontro entre linguagens.
De certa forma, quando a gente fala sobre artistas, eu acho que esse filme é muito especial porque, além de ser maravilhoso em si, com uma atuação fantástica e uma direção primorosa, ele une diferentes campos da nossa cultura.



















