Entrevista | Fil Braz, roteirista de “Minha Mãe é uma Peça”, fala sobre escrita, comédia e novo musical em homenagem a Paulo Gustavo
- Gabriella Ferreira

- há 1 dia
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Projeto integra nova fase do roteirista, que revisita o universo de Paulo Gustavo em montagem prevista para o fim de maio no Rio de Janeiro.

Roteirista e dramaturgo, Fil Braz é um dos nomes associados a alguns dos maiores sucessos recentes da comédia brasileira no audiovisual e no teatro. Parceiro criativo de Paulo Gustavo, ele assinou os roteiros da franquia cinematográfica Minha Mãe é uma Peça, fenômeno de público que consolidou a personagem Dona Hermínia como um marco do humor nacional. Ao longo dos anos, também participou de diferentes projetos ligados à televisão e ao teatro, sempre com foco na construção de narrativas de forte apelo popular e estrutura cômica.
Atualmente, Braz integra a equipe criativa de “Meu Filho é um Musical”, espetáculo que estreia em 28/05, no Rio de Janeiro, e que revisita a trajetória de Paulo Gustavo a partir de uma narrativa musical construída em parceria com familiares e colaboradores próximos do humorista. O projeto marca um novo momento em sua atuação, ao deslocar sua escrita para um formato híbrido entre memória, musical e dramaturgia teatral de grande escala.
É a partir desse percurso que ele reflete, nesta entrevista ao Oxente Pipoca, sobre sua relação com a comédia, o processo de escrita do humor e a percepção de que o gênero exige mais do que técnica: exige disposição. Confira a entrevista na íntegra a seguir:
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Primeiro eu vou me apresentar, eu sou Gabriela, eu faço parte da gente Pipoca, que é um portal destinado a falar sobre cinema, cultura e entretenimento com foco no cinema brasileiro. Então é uma honra estar falando com você, aqui de Sergipe.
E primeiro, eu dei uma lida em algumas entrevistas suas e vi você comentando como a arte chegou até você, né? Como você era professor e como isso chegou até você, mas eu queria saber especificamente como a comédia chegou primeiro a você.
E eu tenho um feeling de que a comédia é mais difícil de escrever, muita gente acha que não, mas eu acho a comédia mais difícil de escrever do que outros gêneros. Então eu queria que você falasse um pouquinho dessa sua relação com esse lado da comédia.
Fil Braz: Cara, eu acho que a comédia que escolhe a pessoa, sabia?
Eu acho que não tem nada mais triste do que a pessoa que tenta ser engraçada e não consegue, né? A pessoa tenta fazer uma piada e é ruim. Então, assim, eu acho que, pelo menos as pessoas, não vou nem falar de mim, mas vou falar das pessoas ao redor de mim, Paulo Gustavo, Marquinhos Majella, Samantha Schmütz, que são pessoas que eu não conheci já artistas.
Eu conheci antes. Eu conheci em Niterói, conheci Paulo Gustavo depois na CAL estudando teatro, aí fiquei amigo de Marquinhos. Essas pessoas já eram engraçadas, né? Elas foram para comédia porque já eram engraçadas. Elas não eram pessoas não engraçadas que resolveram tentar ser engraçadas, né?
E eu acho a mesma coisa comigo. Eu sempre fiz palhaçada. Eu acho que a comédia é um desespero, na verdade.
Então, assim, a minha maneira de tentar sair de um desespero, de uma angústia, ou de uma raiva, ou de uma revolta, ou de qualquer coisa desse tipo era através de uma piada, entendeu? Era através de uma brincadeira. E eu e o Paulo Gustavo a gente se conectou nisso, inclusive. Quando a gente ficou amigo, ele sempre foi aquilo que o Brasil conheceu, sempre foi muito engraçado, e viu em mim também essa pessoa engraçadinha.
Então eu acho que a comédia é que escolhe a pessoa. Ela não é para todo mundo, não.
E eu também acho que é bem difícil escrever comédia.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Tem uma coisa que eu achei muito interessante quando estava lendo sobre a peça, que é o fato de ser um musical. Eu sou apaixonada por musicais e vi você comentando em alguns textos que você e o Paulo também gostam bastante.
Como foi para você, como roteirista, se aventurar nessa nova trajetória, tendo que inserir cenas musicais? Eu imagino que deve ter sido divertido, mas também desafiador.
Fil Braz: Desafiador, com certeza. Divertido também.
Quando a gente escreveu Minha Mãe é uma Peça, a gente nunca tinha escrito um roteiro de cinema. Quando a gente fez o 220 Volts no Multishow, a gente nunca tinha feito um programa de TV.
Quando o Paulo foi fazer a reunião no Multishow, perguntaram: “quem vai escrever?”. E ele respondeu: “eu e o Felipe, meu amigo lá de Niterói”.
Então meu currículo era isso: “amigo lá de Niterói”. Eu era professor do Estado, formado em Letras. Mas faculdade de Letras não forma roteirista. Ela forma crítico, forma leitor, forma alguém do universo da linguagem, mas não te ensina a escrever roteiro de cinema, TV ou musical.
Eu não sabia escrever programa de TV, não sabia escrever filme. E escrevi. E por quê? Eu acho que todo mundo pode escrever um programa de TV, um filme e até um musical.
Porque a gente consome essas coisas o tempo todo. Cresce vendo novela, série, filme de televisão. Eu sou de uma geração que cresceu vendo Sessão da Tarde, Corujão, Tela Quente.
A gente aprende a falar ouvindo. Ninguém ensina uma criança a falar: ela ouve e repete. Com audiovisual é parecido.
A gente não aprende o nome das coisas primeiro. Na escola você aprende sujeito, verbo, essas estruturas, mas você já usava isso antes. Então, de alguma maneira, a gente já sabe como funciona a narrativa porque consome a narrativa.
Com o musical é um pouco diferente, porque no Brasil isso ainda é menos acessível. Você não cresce consumindo musical como cresce consumindo TV e cinema. Mas isso também tem mudado.
Eu fui ver meu primeiro musical em Nova York com 32 anos. Antes disso, tinha visto alguns aqui, mas não era algo tão presente. Então a gente “meio que sabe” como funciona. E tem uma coisa nisso: não saber perfeitamente como é também te dá liberdade. Te dá liberdade para fazer do jeito que você acha que deve ser.
Eu acho que fiz isso no cinema, fiz isso na TV e estou fazendo agora no musical. Com o mínimo de conhecimento técnico e o máximo de vontade de fazer, com muito de emoção e de humor.

Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Teve algum musical que te inspirou de certa forma quando você estava elaborando o projeto?
Fil Braz: Tem dois. Se você me perguntar qual musical mais me impressionou, foi um chamado Big Fish, que também tem um filme (Peixe Grande). Eu assisti na Broadway, em Nova York.
Ele era muito impressionante. Eu procurei muito depois para rever, ver se tinha gravado, se tinha no YouTube, mas não tinha encontrado. Era muito forte em efeitos especiais. Tinha uma hora em que brotava um jardim de tulipas no palco. E você ficava: “meu Deus, como isso aconteceu?”.
Tinham passagens de tempo, coisas muito mágicas. Esse foi o musical que mais me impressionou. Eu queria muito rever para tentar entender mais tecnicamente, mas não consegui — fiquei só com a memória. E tem um filme musical também, Billy Elliot. Eu amo profundamente o filme e assisti também ao musical. Não gostei tanto do musical quanto do filme, mas ele me serve como exemplo.
No caso de Billy Elliot, o que me interessa como referência é a ideia de comunicação da história.
Quando eu escrevi a história do Paulo Gustavo, pensei que qualquer pessoa poderia assistir, mesmo sem saber quem ele era. Eu sempre falava isso: se vier um gringo, um francês, alguém sem a barreira da língua, ele vai entender. Mesmo entendendo só 10% da língua, ele entende outras coisas.
A ideia era essa: alguém de fora conseguir assistir, entender e se emocionar, mesmo sem conhecer o Paulo Gustavo, sem conhecer Minha Mãe é uma Peça ou os personagens dele. Eu quis fazer um musical que se sustentasse sozinho. Que não fosse só para fãs, ou só para matar a saudade.
Porque a história do Paulo é muito forte. Eu conheci ele e a família desde os 15 anos, então sei o quanto essa trajetória é interessante, o quanto foi difícil ele se assumir artista.
Nesse sentido, a jornada dele se parece com a de Billy Elliot: um garoto que começa meio perdido, numa família mais conservadora, com dificuldades de relação dentro de casa, e que encontra na arte uma transformação. No caso do Paulo, ele também passa por essa trajetória de adolescente meio perdido, sem direção, até se assumir artista e se transformar completamente, usando a própria família como inspiração e, ao mesmo tempo, transformando essa família.
Mas isso eu só percebi depois. Não foi algo pensado antes. Depois que já tinha feito, eu pensei: “isso aqui é tipo um Billy Elliot”. E claro, ao revisitar essa história, você acaba revisitando muitas memórias também.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Por exemplo, eu estava relembrando recentemente que fiz a crítica do documentário Paulo, Filho da Mãe, que saiu na Prime Video, e comecei também a revisitar as memórias do que eu lembrava dele.
Eu imagino que, para você como roteirista, também deve ter sido isso: relembrar essas memórias e decidir o que era mais legal ou não de entrar. Teve algum momento em que você pensou em alguma história que queria colocar e acabou não entrando? Fil Braz: Ah, muita coisa. Imagina. Na hora de escrever, eu já editei muita coisa. Tem coisa que nem cheguei a escrever, já foi cortada antes porque não caberia.
Do que eu escrevi na primeira versão da peça, também cortamos algumas coisas, não muita coisa, mas cortamos, porque estava longa. Mas eu posso te dar exemplos. A gente não fala no 220 Volts, não fala no Vai Que Cola, que foram importantíssimos para o Paulo, para a carreira dele. O 220 Volts foi importantíssimo, o Vai Que Cola também.
O próprio Minha Mãe é uma Peça 1, 2 e 3 é uma jornada. Ele vai para o cinema, depois faz o um, o dois, o três, cada um com sua história. Eu poderia ter colocado cenas e situações de cada um desses projetos, mas no musical isso virou um outro recorte: o momento do cinema e do sucesso no cinema.
Então muita coisa não cabia, porque eu priorizei a pessoa. Eu priorizei o Paulo Gustavo como pessoa, na relação com a família. Primeiro porque essa história é muito bonita. Segundo porque o convite já veio com esse recorte, o título Meu Filho é um Musical. Então o foco já estava dado: a mãe.
Mas eu acho que, mesmo se não viesse com esse recorte, talvez eu tivesse feito esse recorte de qualquer forma, porque é o que mais me interessa e o que eu acompanhei mais de perto. A gente fez pesquisa também. Eu lembrava de muita coisa, mas a pesquisa ajudou.
Tinha detalhes que eu não sabia. O Fábio Porchat me contou coisas da CAL que eu não conhecia, uma frase, uma situação. Outras pessoas trouxeram memórias diferentes. Mas, no geral, eu lembrava de muita coisa.
Nas entrevistas, às vezes eu fazia uma pergunta e via a pessoa travar, não lembrava direito, e eu lembrava. Eu perguntava só para ver como ela ia contar, e também para confirmar minha memória. Às vezes a pessoa ficava presa tentando lembrar, e eu dizia: “acho que foi assim, acho que teve um dia que aconteceu isso”. E a pessoa: “meu Deus, foi isso”. E a memória dela destravava.

Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Você, como pessoa e roteirista, acabou escrevendo um dos maiores sucessos recentes da comédia brasileira. O que você aprendeu com o público a partir desse retorno?
Vi uma fala sua em um texto da Revista Piauí, em que você comenta mensagens que recebeu depois das sessões, como a de uma pessoa que disse que, na cena do casamento, a mãe apertou a mão mais forte.
São relatos muito emocionantes. Para você, como roteirista que ajudou a construir essa história junto com o Paulo, isso é o tipo de retorno que faz tudo valer a pena?
Fil Braz: Muito, muito impressionante isso. Muito bonito. E eu vou te dizer uma coisa: isso, sim, em Minha Mãe é uma Peça 3, foi a culminância disso. O 1 já tinha, o 2 já tinha. No primeiro filme, por exemplo, tem uma cena que, para a comunidade gay, é muito importante e pouco vista no cinema na época: a mãe desconfiando do filho, do Juliano. Ele passa com o namorado, ela provoca, pergunta onde eles se conheceram, ela já sabe, ela está sondando.
Ele responde atravessado, sai da cena, e ela comenta sozinha: “é, até que ele é bonitinho, o namorado, né?”. Então, desde o primeiro filme já havia essa construção de uma mãe lidando com a possibilidade de um filho gay. Isso continua no 2, mas o 3, com o casamento, é a culminância disso tudo.
E eu acho que o musical agora é quase como um “quarto capítulo”, entre aspas, de Minha Mãe é uma Peça. Não é mais Minha Mãe é uma Peça, porque agora não é a Dona Hermínia, agora é a Déa. Não é mais Juliano e Marcelina, agora é a Ju e o Paulo Gustavo.
Nos filmes, é uma autoficção que o Paulo fez da própria vida. Ele não era o Juliano, ele era o Paulo Gustavo. A Déa não era a Dona Hermínia, era a mãe dele. Mas agora, no musical, não é autoficção. Não é sequer ficção.
Agora é a vida real. É a mãe mesmo aceitando o filho gay mesmo. É o casamento acontecendo de fato. Então, em certo sentido, esse trabalho dá mais um passo adiante em relação a tudo isso.
E sem dar spoilers, o que eu acho que o público pode esperar é isso: uma história que não é só sobre personagens, mas sobre pessoas reais. Quando um artista sobe no palco, ou entra num set, ou aparece na tela, existe uma força ali que o público reconhece, mesmo quando não conhece todos os bastidores.
Eu penso muito nisso quando falam de nomes como Procópio Ferreira, Cacilda Becker… artistas de uma linhagem de grande potência cênica. E eu penso: “o Paulo estava nessa linhagem, e eu vi”.
Quem viu sabe: o Paulo em cena era uma força. Mas ao mesmo tempo, essa força vinha junto de medo, de dúvida, de quase não ter acontecido. Por pouco ele não teria sido o Paulo Gustavo que o público conhece.
E isso é algo que o musical mostra também. A gente costuma ver artistas como se eles tivessem uma trajetória linear, como se tudo levasse inevitavelmente ao sucesso, como Lady Gaga, Madonna, Shakira, ou a Fernanda Torres no Oscar.
Mas não é assim. Essas pessoas também têm medo, recuam, duvidam, enfrentam caminhos difíceis. E eu acho que isso é muito inspirador, não só para quem quer ser artista, mas para qualquer pessoa. Talvez alguém queira mudar de profissão, entrar em outra área, recomeçar. E acha que não vai dar. Mas dá. Pode levar tempo, pode ser difícil, mas pode dar certo.
Então eu acho que o musical não é só sobre revisitar o Paulo Gustavo ou o carisma dele. É sobre uma inspiração de ser humano para ser humano.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Para encerrar, eu vou fazer uma pergunta que eu faço para todas as minhas entrevistadas, que é pedir uma dica de filme ou série brasileira que tenha marcado sua trajetória, ou algo que você queira recomendar para o público.
Fil Braz: Nossa, essa é muito fácil para mim. Eu não seria roteirista se não tivesse existido um programa chamado Comédia da Vida Privada. Ela é baseada em crônicas do Luis Fernando Verissimo. Existe o livro, vários volumes, e depois a Globo adaptou isso para uma série.
É um trabalho genial porque eles pegavam crônicas curtas, de duas páginas, e transformavam em narrativas completas, com começo, meio e fim. E era a nata do humor brasileiro: Fernanda Torres, Débora Bloch, Luiz Fernando Guimarães, Diogo Vilela, Marco Nanini, entre outros.
Era uma comédia inteligente, sofisticada, baseada nas pequenas situações do cotidiano. Uma comédia da vida privada mesmo, de identificação.Eu era obcecado por esse programa. Eu gravava em fita VHS e isso inclusive virou uma cena da peça que acabou ficando de fora.
Eu andava na rua com uma mochila cheia dessas fitas nas costas. O Paulo Gustavo me obrigava: “leva as fitas, Felipe”. A gente andava com isso porque às vezes encontrava alguém e perguntava se tinha videocassete em casa. Se tivesse, a gente dizia: “a gente tem umas coisas para mostrar”, e ia até a casa da pessoa para colocar na televisão.
Era uma obsessão mesmo. E eu acho que foi a primeira vez que eu pensei: “meu Deus, quem escreve isso?”. Aquelas frases eram muito engraçadas, muito bem construídas.
Ver a Débora Bloch e a Fernanda Torres em cena, naquele tipo de diálogo, foi algo que marcou profundamente minha cabeça. Aquilo ali mudou completamente a forma como eu via comédia.



















