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Entrevista | “É um filme sobre mulheres que dão as mãos”: direção e elenco de 'Eclipse' falam sobre o longa

  • Foto do escritor: Ana Beatriz Andrade
    Ana Beatriz Andrade
  • há 3 horas
  • 9 min de leitura

Djin Sganzerla, Sérgio Guizé e Gilda Nomacce comentam os bastidores, a construção dos personagens e os temas centrais do filme.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Nesta quinta-feira (7), chega aos cinemas brasileiros Eclipse, novo longa dirigido e estrelado por Djin Sganzerla.  O filme é um drama psicológico sobre a força de duas mulheres e os vínculos que surgem em meio a circunstâncias profundamente traumáticas.


Protagonizado também por Lian Gaia e Sérgio Guizé, o longa acompanha Cleo (Djin Sganzerla), uma astrônoma bem-sucedida que, enquanto espera seu primeiro bebê, é surpreendida pela chegada de Nalu (Lian Gaia), sua meia-irmã de origem indígena. A convivência entre as duas acontece tardiamente, mas é o suficiente para reacender memórias do passado, ao passo que as conduz para uma jornada de sobrevivência.


Com participações de Gilda Nomacce, Helena Ignez, Luiz Melo e Júlia Katharine, o longa estreia nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Vitória, João Pessoa, Ribeirão Preto, Florianópolis, Maceió, Curitiba, Porto Alegre e Brasília.


Às vésperas da estreia de Eclipse, Djin Sganzerla, Sérgio Guizé e Gilda Nomacce conversaram com o Oxente Pipoca sobre o longa. Confira  a entrevista completa na íntegra.


Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Queria começar essa entrevista parabenizando vocês pelo filme. “Eclipse” me cativou muito do início ao fim, e especialmente o final. E eu queria começar falando com a Djin. Você já tem experiência em dirigir e atuar ao mesmo tempo, mas “Eclipse” parece exigir uma entrega emocional ainda mais intensa. Como você equilibra esses dois lugares? E como foi construir a Cleo a partir desses dois pontos de vista, da direção e da atuação?

Djin Sganzerla: Foi um processo interessante e muito difícil. Parece fácil, mas não é. E levou bastante tempo. Acho que eu só consigo chegar nesse lugar de interpretação porque construo a personagem durante todo o processo. A Cleo nasceu dentro de mim enquanto eu construía o filme.

Quando escrevo, junto com a Vana Medeiros, eu visualizo todos os personagens. É como se eu estivesse atuando cada um deles enquanto escrevo os diálogos. Então a Cleo foi surgindo aos poucos. E depois ela desaparece. Porque aí só existe a diretora: a construção do filme, as escolhas da equipe, das locações, dos atores.

Mas, quando a filmagem se aproxima, ela volta. E justamente no momento em que eu estou mais exaurida, porque a direção me toma por inteiro. Existe um cansaço físico e mental muito grande. Estou acompanhando logística, produção, equipe… e, ao mesmo tempo, preciso acessar um lugar de sutileza, fragilidade, nuances. Um lugar que não pode ser imposto, ele precisa surgir. E, para isso, você precisa ter espaço interno. Isso é muito difícil.

Ainda mais porque nem sempre as condições de um set de segundo longa são ideais. Você não tem tempo infinito, não pode repetir tudo quantas vezes quiser. E, muitas vezes, eu priorizo os atores. O que sobra de mim inteira é para a cena da Cleo.

É como se eu vivesse em estado de prontidão absoluta o tempo todo. Dormindo e acordando. Porque, quando chega o momento da Cleo, eu preciso estar ali inteira. E isso é extraordinário. Muito cansativo, mas extraordinário. Porque me coloca num estado de presença absoluta: é agora.

Passei quatro anos me preparando para esse filme. Então aquele momento era muito especial para mim. E, curiosamente, quando eu fazia essa mudança interna para entrar na personagem, ela vinha. As coisas brotavam.

Claro que depois eu assisto e penso: “Será que eu poderia ter feito diferente?”. Porque a diretora continua ali o tempo inteiro. Eu assisto aos takes pensando no todo, como um grande quebra-cabeça. “Será que aqui eu dei demais? Será que falta equilibrar essa outra camada da Cleo?”. São muitos equilíbrios para compor um personagem.

É um desafio enorme. Quando acaba, você pensa: “Nunca mais vou fazer isso” [risos]. É muito cansativo. Mas, depois que nasce, você olha e pensa: “Nossa, deu certo”.


Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Imagino o alívio que deve ser essa sensação. Gilda, queria te perguntar: seus trabalhos sempre parecem atravessados por escolhas muito específicas. A gente já teve o prazer de conversar com você antes por outros projetos, e queria saber como “Eclipse” chegou até você. Como foi o encontro com esse filme?

Gilda Nomacce: Ah, eu adoro e estou sempre acompanhando vocês. Acho que eu sou uma participação pequena, algo mais pontual. De repente, foi uma coisa pensada para mim nesse filme. A Djin me deu essa honra de me convidar para uma personagem…

Djin Sganzerla: E qual é o nome da personagem? [risos]

Gilda Nomacce: Uma personagem chamada Gilda! [risos]

E essa nossa história é muito antiga. Eu sou colega de teatro dela há 30 anos. Em 1996, estávamos juntas. Então admiro imensamente a Djin. E um roteiro escrito de uma maneira que representa nós, mulheres, de uma forma tão profunda, nesses lugares todos do feminino e do intuitivo… Foi um prazer imenso.

Também a equipe toda do filme, os atores aqui, todos maravilhosos. E tantas participações também. Vocês são muito brilhantes. Fiquei muito honrada em estar num filme com o Sérgio Guizé e a Djin.

E acho que ela fez essa coisa linda de escolher participações pontuais. Então tem a Júlia Katharine, tem tantas atrizes também em papéis como o meu, de participações pequenas. E tive a honra de estar, pela primeira vez, num set com o Luiz Melo.

Então, para além de ser um filme imperdível, feito por uma mulher maravilhosa e falando coisas muito importantes de atualidade, ancestralidade, instinto e concretude… Porque concretizar um filme sendo autora e diretora, absorvendo esse processo, eu nunca tinha pensado nisso. Ela está em todas as personagens que está dirigindo. Estou muito feliz de ter participado.


Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): E foi uma grata surpresa para a gente como espectador! Sérgio, queria te perguntar sobre o Tony. Ele é um personagem complexo, para dizer o mínimo, e opera muito dentro de uma lógica de controle e objetificação. Como foi se aproximar dele? E quais foram as camadas mais desafiadoras para construir essa masculinidade sem simplificá-la?

Sérgio Guizé: Então, o que me chamou a atenção, além de ser convidado pela Djin e de ter um maravilhoso elenco, como a Gilda falou, acho que foi o tema.

Tratar isso em 2026, na época em que foi gravado, em 2023 e 2024, e perceber que isso é tão recorrente. Somos machistas. É um mundo machista. E também está no inconsciente coletivo esse tipo de manipulação, o jeito que os homens fazem. E pensar como transformar isso em entretenimento. Pegar as pessoas de uma forma desavisada, tipo: “Vem pra cá, olha como esse homem é maravilhoso”, e depois mostrar esse outro lado, que nem eu, como ator, conhecia.

Acho que o tema tem que ser discutido. Tem que falar a respeito desses homens, a respeito do personagem do Tony. O filme é uma maneira brilhante de fazer um trabalho social.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Aproveitando essa resposta, o filme chega num momento em que discursos como os movimentos red pill ganham força na internet, ao mesmo tempo em que aumentam os casos de feminicídio e violência contra a mulher no país. Como vocês enxergam a relação do filme com esse contexto?

Djin Sganzerla: O diálogo de “Eclipse” com esse momento atual que a gente está vivendo, e sempre viveu, de certa forma, é muito forte. O tema já estava muito borbulhante quando a gente escreveu e, depois, quando veio rodar o filme, em 2024, continuou. E agora continua infelizmente tão borbulhante quanto, só que cada vez mais vindo à tona.

E, pelo lado positivo, que bom que está vindo à tona. Que bom que tem a Gisèle Pelicot, com capacidade hoje, depois de tudo que viveu, de conseguir ter coragem, força e enfrentar toda a dor. Então a gente está tentando, com uma obra, também dar voz a essas mulheres, empoderar, refletir, só que de uma forma poética, delicada, envolvente. E não de uma forma jornalística. Porque, da forma jornalística, a gente já tem acesso. No telejornal, na televisão, você vê isso o tempo todo.

E a gente pensou: será que dessa forma eu iria envolver o público ou afastá-lo? Eu queria que as pessoas refletissem sobre isso de uma forma criativa, delicada, feminina, sobre temas tão importantes.

Então toca em alguns temas, mas o central, sem dúvida, são as relações de Cleo e Tony.


Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Uma das coisas que mais me tocaram no filme foi a questão da irmandade. Mesmo em meio às tensões e diferenças, é um filme sobre mulheres que se protegem. Queria saber como vocês construíram isso em cena, especialmente nessa relação entre Cleo e Nalu, interpretada brilhantemente pela Lian Gaia.

Djin Sganzerla: Que lindo você colocar isso, porque isso foi pensado na construção do próprio roteiro, nessas diferenças muito explícitas. É um filme sobre mulheres que dão as mãos.

Eu queria dar voz a essa mulher que luta pela sua própria liberdade, que luta pelo seu próprio espaço, que tenta ser protagonista da sua própria existência, mesmo em todas as dificuldades. Mesmo num passado tão difícil de trazer essa informação para a Cleo, que é bombástica. Não quero dar mais informações para o espectador antes de ver o filme, mas é uma mulher sobrevivente.

E eu optei por não deixar uma mulher fragilizada, uma mulher chorosa. A mulher pode chorar e pode chorar muito, mas eu também queria mostrar um outro lado. E eu queria dar voz à ancestralidade, essa voz que nos guia. E esse empoderamento, para mim, deveria estar numa mulher indígena, mais jovem, tecnológica. Eu queria algo que fugisse de todos os estereótipos que acompanham uma mulher indígena.

E ela é essa mulher que você não capta completamente com palavras. É uma mulher misteriosa. E, para mim, era um sonho na construção do roteiro. Ela era o que tinha de melhor em uma mulher E a Cleo é essa mulher branca que aparentemente está ali cercada de uma série de confortos: da gravidez, do casamento “perfeito”, de uma casa muito boa, de ter uma construção social boa, de um bom trabalho. É o que muitas vezes idealizamos como perfeição. Só que o que a gente não vê é que, às vezes, ali tem um buraco muito, muito profundo e que ela não percebe. E o filme também é sobre isso.

Será que eu, como mulher, não conseguiria ver certas coisas? É difícil, porque qualquer uma de nós pode estar sujeita a cair nessa armadilha. Afinal, quem disse que aquele homem não a amava? O mesmo monstro, essa deformidade que ele faz, que planejava e arquitetava tudo… O ser humano é capaz desse tipo de complexidade. E o meu interesse era me debruçar sobre esse tipo de mente humana.

E, sobre a Cleo e a Nalu, foi sobre esse encontro. Duas mulheres que significam esse ato de dar as mãos e, juntas, terem coragem de denunciar, falar e trazer à tona.

Ana Beatriz Andrade: Eu também queria perguntar sobre um momento no set que acabou marcando vocês de alguma forma.

Gilda Nomacce: Eu tenho algo muito simples, mas que me deixou tão extasiada de felicidade… A direção de arte e o figurino são do João Marcos de Almeida. E o João lida com algumas coisas de um detalhe…

Quando eu vi que a minha égua se parecia comigo, que ela era castanha e bege, eu me senti tão integrada àquele animal [risos].

Tudo ali foi muito mágico, realmente. Foi um filme que tinha essa conexão com a natureza, que eu acho que é um lugar muito feminino, esse lugar onde as coisas se conectam. Foi um set muito lindo e muito especial.

Sérgio Guizé: Eu lembro da tensão da cena que fecha o filme, de como chegamos até ali, do processo todo da Djin, do tema, da agressividade da cena e da responsabilidade com atores mais jovens. E de como eu estava trabalhando aquilo tudo no momento.

Foi um filme muito especial e estou feliz de estar aqui.

Djin Sganzerla: Para mim, acho que cada momento foi muito, muito especial. Essa cena final, que praticamente fecha o filme, é uma cena muito importante, que eu elaborei muito mentalmente sobre como ela seria.

E, ao mesmo tempo, é isso que é mágico no cinema. Você tem que estar aberta ao que vier. Porque começou a chover. Era um dia lindo e, de repente, começou a chover. E eu tinha imaginado aquilo de uma forma diferente.

Teve um momento com a Lian na aldeia indígena em que ela chegou e abraçou a avó. Acho que aquele encontro foi muito forte para ela. Ela começou a chorar, e não era a personagem, era ela. E ver a Gilda depois de 30 anos, a gente juntas… No fim, é isso. É ver a obra tomando forma.


Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Que bacana, gente. Já agora no final, queria que vocês falassem um pouco para o público sobre que tipo de experiência vocês esperam que ele tenha ao assistir “Eclipse” no cinema, saindo dessa lógica dos festivais e indo agora para o circuito comercial.

Djin Sganzerla: Espero que o público se envolva, reflita, se apaixone e torça. Acho que todos esses sentimentos estão dentro do filme. E eu vi isso no público mesmo, acompanhando a obra.


Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Agora, fechando, porque já é tradição aqui no Oxente Pipoca, vou pedir que vocês indiquem um filme brasileiro para os nossos leitores.

Djin Sganzerla: Bom, eu vou indicar o que me vem primeiro à cabeça e que eu amo muito. Acho um escândalo de atuação, de humor, de inteligência de diálogos, de mise-en-scène… que é “A Mulher de Todos”, dirigido pelo meu pai, Rogério Sganzerla.

Gilda Nomacce: Eu pensei em indicar “O Último Azul”, que tem uma gênia como Denise Weinberg.

Sérgio Guizé: Eu adorei as duas indicações. Vou indicar “O Agente Secreto” que tá super na moda. Foi o último que eu vi e só consegui ver agora. Vi “O Último Azul” também e amei.


Produzido pela Mercúrio Produções, com co-distribuição da Pandora Filmes, “Eclipse” estreia nos cinemas brasileiros no dia 7 de maio. 



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