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Crítica | A Mulher que Chora

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 10 horas
  • 3 min de leitura

Famosa lenda hispano-americana é transmutada em conflitos de classe e papéis de gênero, com resultados mistos.


Divulgação


Amplamente conhecida nas porções hispânicas da América, a lenda de La Llorona, ou “A Mulher que Chora”, diz respeito a uma mulher que, após descobrir a infidelidade do marido, afoga os filhos em uma crise de ciúmes e vaga perto de corpos d’água lamentando pelas mortes que causou. Embora pouco relacionada à cultura e tradição brasileira, a lenda ganha, nas mãos do diretor venezuelano George Walker Torres, corpo e nova vida ao ser transmutada dentro de questões ligadas às relações de classe e os papéis de gênero aqui em A Mulher que Chora.


O longa centra-se em Miguel (Zayan Medeiros), um menino de 7 anos que, no respaldo do divórcio dos pais, vai com a mãe Helena (Julia Stockler) morar no casarão sombrio e um tanto abandonado onde vivem a avó e a bisavó, a qual se encontra em estado catatônico. É lá que também vive Carmen (Samantha Castillo), imigrante venezuelana que é empregada e cuidadora da bisavó, e com quem Miguel constrói um gradativo laço filial e complexo, atravessado pela lenda da Mulher Que Chora, a qual vai sendo narrada por Carmen ao longo do filme.


George Walker Torres encontra no cinema de gênero uma possibilidade de exercício das temáticas e da forma do filme, mas sob uma condução poética e bastante melancólica. O filme é construído em cima de constantes silêncios que intentam atestar para o distanciamento emocional entre os personagens, sobretudo entre Miguel e Helena. O jogo de sombras que permeia o casarão reflete o vazio que consome essas personagens, mesmo Carmen, distante de seu lar e do seu filho enquanto é exposta a um tratamento muitas vezes desumanizante, não só pelo seu lugar como empregada, mas também como imigrante; essas disparidades de classe (com um adicional de xenofobia) evocam obras latino-americanas como O Pântano, Que Horas Ela Volta e Roma. A violência que a atinge é do tipo simbólico, expresso em comentários como o “é por causa dessa gente vindo pra cá que tamo fodido”, como diz um primo de Miguel em determinado momento.


Essa figura do primo, mesmo que limitada a poucas cenas, também alude para um outro tipo de violência, mais física, que constitui homens desde crianças. Em tempos de movimento redpill, discursos misóginos e a violência de gênero, é muito notório ver como a figura de Miguel reproduz tais discursos e violências sem sequer pensar sobre, por ser ainda uma criança. Se no início a atuação de Zayan Medeiros parece limitada pelas questões naturais de uma atuação mirim, gradativamente ela vai ganhando sentido na medida em que o vemos internalizar e refletir o ambiente ao seu redor.


Ainda assim, o filme não consegue ganhar o ímpeto que poderia justamente por não encontrar muito êxito na tentativa de conciliar esses aspectos do cinema de gênero (sobretudo o terror e suspense) com esta abordagem mais meditativa e poética. Os silêncios aludem distanciamento emocional, mas também corroboram para uma apatia que percorre o filme, com um uso tão diminuto de trilha musical que mais parece um problema de mixagem do que uma escolha intencional. Os cortes bruscos em determinados momentos, com elipses que minam o teor emocional de determinadas cenas, também prejudicam para que haja um envolvimento por parte do espectador com os caminhos e as relações desses personagens, os quais em geral acabam servindo mais como arquétipos ou alegorias do que figuras palpáveis de fato.


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Talvez a única exceção se dê justamente na relação de Miguel com Carmen e na abordagem desta própria, tratada como uma figura ambígua e desestabilizante dentro daquela casa. Há algo de maternal na maneira como ela se relaciona com Miguel, o que novamente remete a obras como Que Horas Ela Volta? e Roma, no sentido de mostrar esse papel materno que empregadas assumiram com os filhos de suas patroas enquanto elas mesmas eram privadas deste papel com os seus. No entanto, George Walker Torres provoca um certo despertar sexual nas interações entre os dois que, se não deixa de ser desconfortável de ver, também não está distante do lugar de objetificação e desejo sexual que mulheres empregadas foram historicamente postas para seus senhores e seus filhos desde tempos coloniais.


Sendo assim, A Mulher Que Chora passeia por gêneros distintos, bem como temáticas diversas, ao incorporar uma lenda que em certa medida é distante de nós, brasileiros, para discutir questões que são muito presentes na nossa realidade, bem como da América Latina como um todo. O resultado é único, certamente, mas as tímidas intersecções com o cinema de gênero levam a um saldo final que é também irregular.


Nota: 3/5

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