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Entrevista | “Uma minoria também tem o direito de existir com sua própria cultura”: Jean Claude Barny fala sobre “Fanon”

  • Foto do escritor: Giulia Meneses
    Giulia Meneses
  • há 3 dias
  • 5 min de leitura

Longa que explora vida e trabalho do psiquiatra francês Frantz Fanon durante Guerra da Argélia estreia 14 de maio nos cinemas brasileiros.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Dirigido por Jean Claude Barny, o longa francês Fanon chega aos cinemas do país no próximo dia 14 de maio. Sessão de abertura do Festival Internacional de Brasília no último dia 29, o filme é uma celebração aos 100 anos de existência e trajetória do psiquiatra e filósofo Frantz Fanon (1925 - 1961). Natural da Ilha Martinica, uma colônia francesa no Caribe, Fanon chega à Argélia na década de 50 para chefiar o hospital Blida-Joinville, onde iniciou a sua pesquisa sobre os impactos psicológicos da colonização.


Ambientado, em sua maior parte, durante seus anos de atuação no país africano, o longa explora as relações entre colonos e colonizadores, conflitos ideológicos e a violência com a população local, uma das principais razões que levou Fanon a se juntar à Frente de Libertação Nacional e lutar contra o colonialismo africano. Obras como “Pele Negra, Máscaras Brancas” e “Os Condenados da Terra” se consolidaram como marcos da luta racial e colonial, e influenciam movimentos de mudança até os dias atuais.


Em entrevista ao Oxente Pipoca, o diretor Jean Claude Barny falou um pouco sobre o processo de criação do filme, as influências de Frantz Fanon em sua carreira e na organização contemporânea, além dos desafios de transformar uma importante figura histórica em uma narrativa cinematográfica. Confira a entrevista abaixo:


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Primeiramente Jean queria agradecer pela disponibilidade. Este é o seu segundo trabalho como diretor, certo? Queria saber o que te motivou a retratar essa trajetória, especialmente em um contexto político tão efervescente.

Jean-Claude Barny: Na verdade é o meu quinto filme mas o meu terceiro longa-metragem. E você tem razão ao dizer que este é um filme que conclui temáticas que venho trabalhando há 25 anos: a questão da desculturalização e também a forma como precisamos reconhecer que um país, um lugar com uma origem cultural, também tem o direito de participar do cinema. Este quinto filme fecha esse fio condutor — que é a pessoa que me ajudou a construir todos os outros filmes. Esse fio é justamente como explicar a uma população dominante que uma minoria também tem o direito de existir com sua própria cultura.


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Por que você decidiu escolher esse momento específico da vida dele?

Jean-Claude Barny: Para mim, esse foi o momento mais importante, quando Fanon realmente conseguiu reunir todas as temáticas que defendia. A Argélia foi o laboratório onde a colonização foi mais brutal, mais radical. Foi ali que ele escreveu “Os Condenados da Terra”. Não foi por acaso. Ao me inscrever nessa escrita, consegui também contar a revolta de todos os povos dominados. É o momento mais importante da vida dele, quando ele enfrenta a colonização mais dura - quando ele vê e escreve diretamente a partir dessa experiência. O filme fala justamente disso: do momento em que ele está ali, vivenciando e escrevendo. É uma forma de compreender todo o sistema e também de não fazer um filme superficial, mas algo que venha do coração da questão.


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Houve algum momento da vida de Fanon que você decidiu não mostrar?

Jean-Claude Barny: Não, fui muito transparente. Tentei mostrar tudo, inclusive aspectos mais íntimos. É um filme muito autêntico. No fim, é um filme que ajuda a entender quem era o ser humano por trás de Fanon, seu processo de pensamento, escrita e análise.

Imagem: Divulgação
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Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Quais foram os maiores desafios ao transformar um pensador tão complexo em linguagem cinematográfica? Foi difícil equilibrar o lado humano com o peso histórico?

Jean-Claude Barny: Isso foi o mais arriscado. O mais difícil era não glorificar demais o personagem, para não esvaziar sua radicalidade. O não “desossar” o personagem, ou seja, não tirar sua essência. Manter sua radicalidade e, ao mesmo tempo, oferecer ao público um filme acessível, usando todas as ferramentas do cinema. Um filme aberto ao público, que se comunique com todos, como a música, os cenários, os figurinos, o roteiro — tudo com a mesma precisão que encontramos na escrita de Fanon.


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Que recursos e abordagens foram utilizados para construir os personagens, e como foi esse processo especialmente com o elenco principal?  


Jean-Claude Barny: Foi um trabalho de quase três anos. Quando lidamos com a psique, especialmente em alguém como Fanon, é complexo. Era preciso mostrar que estamos lidando com traumas e identificá-los, a psiquiatria entra muito nisso. A força do cinema é trabalhar a psicologia, mas Fanon vai além: ele trabalha a psique, que inclui o acúmulo de traumas. Ele busca esses traumas para curá-los. Então, na escrita, precisávamos definir bem esses traumas. Isso levou à criação de elementos visuais, como o quadro vermelho, a floresta e a relação simbólica entre os personagens.


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Considerando que o Brasil também vive crises políticas intensas, como você espera que o público brasileiro receba o filme?

Jean-Claude Barny: Acho que o Brasil é um espelho de outros lugares onde a colonização foi brutal. Esse povo ainda precisa de elementos para continuar seu processo de crescimento, essa “mutação” ainda não terminou, e Fanon é necessário para o povo brasileiro. Minha intenção é que o filme se torne popular e seja exibido nas escolas, para que os jovens cresçam com consciência.


Que alcance diferentes realidades, tanto jovens das favelas quanto os mais privilegiados. E Fanon fala disso: não podemos construir uma sociedade sem enfrentar essas relações, não são apenas sociais mas humanas.


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Para finalizar, no Oxente Pipoca sempre pedimos para que o entrevistado nos indique um filme de sua preferência. Você poderia indicar um filme e um livro do Fanon para o nosso público?

Jean-Claude Barny: Vou indicar um filme que vi recentemente, um filme cubano chamado “Ao Oeste, em Zapata”. Para mim, é uma obra-prima absoluta, quase perfeita, pela estética e pela forma como conta o que normalmente não é dito. É uma obra atemporal, de grande força emocional, feita por um jovem diretor.


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): E um livro?

Jean-Claude Barny: Vou indicar dois. Primeiro, “Irmãos Soledad”, um livro afro-americano marcante sobre injustiça. E claro, “Os Condenados da Terra”, Fanon. Esses livros são complementares, pois mostram que o problema central é a opressão sistêmica de uma minoria por uma maioria sobre uma maioria. Se você pegar apenas a Argélia, terá a Argélia como referência. Mas, se você pegar também outro país, terá algo mais amplo. Não se deve ficar somente na questão argelina; é preciso realmente focar na questão de quem domina, do opressor.

No caso “Os Condenados da Terra” não é uma questão argelina, mas sim sobre estruturas de dominação, ele assume todas as formas. Assume a forma do capitalismo, assume a forma dos patrões, de relações de poder… é um sistema amplo.

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