Entrevista | “É um filme sobre retomada de poder”: Everlane Moraes dá novos detalhes sobre ‘O Segredo de Sikán’
- Gabriella Ferreira

- há 2 horas
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Cineasta comenta a construção de sua primeira ficção, que parte de um mito africano para discutir ancestralidade, território e protagonismo feminino.

A cineasta Everlane Moraes prepara o lançamento de O Segredo de Sikán, seu primeiro longa de ficção, previsto para 2027. O filme nasce de uma longa pesquisa iniciada durante um período em Cuba e atravessa mais de uma década de desenvolvimento até chegar às filmagens.
Misturando realismo fantástico, mitologia africana e contemporaneidade, a obra reconstrói o mito da princesa Sikán a partir de uma perspectiva feminina, conectando territórios da Nigéria ao Recôncavo Baiano.O filme reúne nomes consagrados do cinema nacional, como Grace Passô, Sérgio Laurentino, Noélia Montanhas e Severo D’Acelino, além de talentos locais da região.
A produção traz um elenco majoritariamente composto por atores negros, incluindo também Taise Paim, Sara Barbosa e Heraldo de Deus, em uma narrativa que reimagina o mito da princesa africana Sikán, subvertendo seu destino em uma trama de drama, suspense e mistério.
Ambientado em um universo distópico, o filme acompanha a história de Sikán, que, para proteger um segredo, se lança ao rio Oddán, na Nigéria. Transformada em um peixe luminoso, sua chegada ao rio Paraguaçu, no Recôncavo Baiano, provoca conflitos entre Cachoeira, cidade matriarcal, e São Félix, cidade patriarcal.
Grace Passô interpreta Sara, inspirada na artista cubana Belkis Ayón; Sérgio Laurentino vive Ajamu, guerreiro que busca controlar a energia de Sikán; e Severo D’Acelino é Nasakô, ancião cego que guarda segredos nas águas do Paraguaçu. Outros personagens incluem Matriarca Perpétua (Noélia Montanhas), Naira (Sara Barbosa), Eno (Heraldo de Deus), Tânia (Taise Paim), Zita (Manuela Neves) e Leda (Andreia Anjos).
Confira a entrevista com Everlane, realizada na EGBÉ — Mostra de Cinema Negro, em Aracaju (SE):
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Você pode falar um pouco sobre o projeto e como surgiu O Segredo de Sikán?
Everlane Moraes: O Segredo de Sikán, que é um projeto que iniciou quando eu estava em Cuba. Foram quatro anos de pesquisa, que foi o tempo que eu fiquei lá, mais oito anos de captação no Brasil, passando por vários laboratórios, várias ideias de projeto, até conseguir finalmente, no ano passado, filmar.
Agora eu vou passar para o processo de edição e espero poder lançar em 2027.
Então, é um filme que conta uma lenda, um mito antigo que surgiu em Calabar, na Nigéria, que conta a história da princesa Sikán. Uma princesa que supostamente contou um segredo que não deveria contar e foi condenada e julgada por indiscrição, por ter revelado esse segredo. No mito original, é um mito muito violento.
Mas eu pego esse mito e reconto desde uma perspectiva feminina e mudo o destino de Sikán. Em vez de uma mulher indefesa, indiscreta, que contou o segredo, eu digo: e se ela não contou o segredo? E se foi mentira?
Ela não contou o segredo. Ela conseguiu fugir da condenação e se lançou no rio, levando consigo o segredo, se transformando em um peixe que nadou por rios e oceanos por vários séculos, até chegar ao Rio Paraguaçu, em Cachoeira, no Recôncavo da Bahia, onde eu moro, onde eu nasci.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): E como essa transposição entre territórios e tempos acontece no filme?
Everlane Moraes: Então, eu conto essa história na contemporaneidade, a partir desse mito transformado, desse peixe que se encontra dentro do rio.
E as mulheres vão ter que se reunir em sororidade, num mundo que é regido por homens, pela masculinidade, pela violência. Elas precisam ter esse segredo ancestral para salvar o mundo, trazer a luz de volta, unificar territórios, devolver o poder à mulher, que foi perdido quando Sikán supostamente contou o segredo.
É bem complexo, são várias camadas.
Mas também tem uma coisa muito interessante que é a questão do território. No mito original, existiam duas tribos inimigas, Efik e Efor, separadas pelo grande rio Odan. Esses territórios existem, eu fui até lá na Nigéria.
E aí eu descobri que eu poderia transpor essa história para a contemporaneidade porque onde eu moro, em Cachoeira, existe Cachoeira de um lado e São Félix do outro, também separadas por um rio, o Paraguaçu.
Então é o mesmo tipo de cartografia, o mesmo tipo de território. Eu peguei esse mito antigo e trouxe para um território contemporâneo que tem essa mesma divisão.
Foi fácil transpor essa cartografia. O difícil foi fazer a ressignificação do mito, retomar essa história, reviver um mito que estava um pouco esquecido, apagado.

Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): O filme parece trabalhar com muitas camadas simbólicas. Como você define essa proposta estética e narrativa?
Everlane Moraes: É um filme com muitas camadas, é difícil até explicar.
Mas é um filme de realismo fantástico, minha primeira ficção. E tem um desafio plástico muito grande, porque ele é filmado todo à noite, é um filme cheio de mistérios, de segredos, até porque é o segredo de Sikán.
Então é um filme em camadas de segredo.
É um filme que fala sobre liberdade, sobre retomada de poder, sobre um mundo que está em trevas e que as mulheres recuperam e trazem a luz.
É sobre uma perspectiva do mundo que a gente quer criar, com integridade entre mulheres, com outras formas de existência.
Tem muitos temas, muitas camadas, mas é isso. Foi muito difícil de fazer, mas eu espero que as pessoas gostem.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Para finalizar, você poderia indicar filmes ou cineastas que te influenciam ou que você recomenda para o público?
Everlane Moraes: Eu recomendo toda a filmografia da Sara Gómez, que é uma cineasta pioneira, com um documentário híbrido, social, crítico, muito consciente. Uma gênia.
Indico também os filmes do Eduardo Coutinho, que é um mestre do documentário, dos encontros, das fabulações.
E eu diria para as pessoas assistirem cinema brasileiro, de todos os gêneros, de todos os temas, do mais simples ao mais complexo.
Assistir os clássicos, revisitar o cinema do Glauber Rocha, entender o que construiu a identidade do nosso cinema.
Porque a gente precisa entender o que foi construído para poder ressignificar, criar novas formas, novas abordagens.
Olhar para dentro para poder transformar.
E assistir filmes brasileiros, ver o nosso povo, nossos atores, nossas histórias. É nessa diversidade de olhares que a gente consegue desenvolver um olhar crítico e imaginar novas possibilidades.



















