Entrevista | “O samba também pode impedir que nós morramos por dentro”: roteiristas de “Barulho” falam sobre os bastidores do curta
- Ana Beatriz Andrade

- há 1 hora
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Julyfrans e Leonardo Lumas comentam sobre o curta-metragem que transforma a música em ferramenta para navegar o luto.

“Barulho”, dirigido por Karen Suzane, é um curta-metragem que acompanha Humberto, um homem viúvo e solitário que vê sua rotina ser transformada pela chegada de dois vizinhos sambistas, Nilson e Xis. Com roteiro de Julyfrans, Leonardo Lumas e Caio Pudenzi, o curta utiliza o samba como ponto de encontro para discutir temas como luto, amizade e memória.
Em fase de circulação por festivais de cinema, o curta-metragem estreou em março, durante uma sessão especial do Cine 72, em Minas Gerais, participou em maio pelo II Festival Curta Aparecida, em Goiás, e foi selecionado para o 8º FestCine Pedra Azul International Film Festival, no Espírito Santo.
Assistindo a “Barulho”, me peguei pensando naquela ideia de que nós, brasileiros, vivemos em um eterno musical. Afinal, ninguém relaciona coletividade e música da forma que fazemos. Talvez por isso o curta de Karen Suzane provoque uma sensação curiosa. O filme busca lembrar que, na tristeza ou na alegria, a vida raramente acontece sem trilha sonora.
O Oxente Pipoca conversou com dois dos três roteiristas que assinam o filme, Julyfrans e Leonardo Lumas, sobre a construção da história e os temas que atravessam o curta.
Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Queria perguntar a vocês como nasceu a ideia do curta e em que momento vocês perceberam que essa história poderia virar um filme.
Julyfrans: Olha, inicialmente foi uma homenagem ao meu bisavô. Ele passava por um período de luto que o fez se tornar muito recluso. Confesso que não foi só ele que teve essa dificuldade de lidar com o luto. Eu também sou uma pessoa que tem dificuldade de lidar com o luto.
Apesar de ser uma pessoa caucasiana, por parte materna toda a minha família é racializada. Isso influenciou parte da minha vida, não só no sentido educacional, mas também cultural. Ver essas vivências, experiências e como o olhar social influencia o convívio me fez trazer isso para a forma como me relaciono com as outras pessoas.
Com isso surgiu “Barulho”. Só que, junto ao Léo e ao Caio, nós não quisemos centralizar a história apenas no meu bisavô ou apenas nos lutos que estávamos vivendo naquele momento. Queríamos falar também sobre conflito geracional, através do Humberto, do Nilson e do Xis, mas principalmente sobre como o homem negro gerencia suas emoções e como isso afeta a sociedade. O ato mais brutal que se pode fazer é a desumanização, é retirar das pessoas suas ações e emoções. E como isso acontece? Através de frases que ouvimos desde sempre: "Você é o provedor da casa", "Homem que é homem não chora". Mas a quem essa frase é dita com mais frequência? Ao homem negro.
Tem um livro maravilhoso que traz uma frase muito bonita: "As mulheres negras são as que têm mais motivos para chorar, mas a elas não são dadas nem permissão nem tempo". Então daí surgiu “Barulho”. E qual gênero é mais político, mais nosso e mais histórico do que o samba?
Leonardo Lumas: Toda a construção de “Barulho” surgiu dessa homenagem que a Ju comentou. Quando a gente estava escrevendo, estávamos em plena pandemia. Então sentíamos muito aquela situação do luto e do isolamento. Não podíamos sair de casa.
E o Humberto, mesmo não estando numa pandemia dentro da história, está isolado no apartamento justamente por causa do luto. Então a pandemia acabou criando uma camada a mais para a narrativa. Eu confesso que nunca tive muita ligação com o samba. Nasci no interior de São Paulo e, dependendo da cidade, não existe uma tradição muito forte. O máximo que a gente conhecia eram as antigas marchinhas.
Participar dessa história me fez aprender bastante sobre o gênero, sobre sua história e sobre as pessoas que construíram o samba. Conheci muitas músicas. Utilizamos canções antigas, clássicas, de domínio público, que ajudaram a formar o samba que conhecemos hoje. Foi muito gratificante participar desse projeto, não só para contar nossas histórias, nossas dores e alegrias, mas também para entender um pouco mais da história do Brasil e da música brasileira.
Ana Beatriz Andrade: Uma coisa que eu achei muito bonita no filme é que ele traz aquela sensação de que nós, brasileiros, vivemos um eterno musical. A gente é muito fiel ao ditado de que "quem canta seus males espanta", e foi exatamente isso que senti assistindo ao filme. Como foi para vocês trabalhar essa relação entre o samba, o afeto e o luto do Humberto? Como amarrar tudo isso dentro do roteiro?
Leonardo Lumas: Quando estávamos escrevendo e produzindo essa história, queríamos que tanto o silêncio quanto o barulho fossem personagens. Só que não qualquer barulho, estamos falando literalmente da música.
O Humberto tem suas razões, além do próprio luto, para buscar paz e sossego. Então criamos essa antítese entre o silêncio e o barulho para falar tanto dos sentimentos dele quanto dos sentimentos do Nilson e do Xis. Porque eles vivem o luto de formas completamente diferentes. Os dois meninos celebram a vida que a avó teve. Já o Humberto ainda está triste e ressentido pela perda.
Julyfrans: Tem um samba maravilhoso sobre a chegada de um sambista ao céu. Eu até tenho uma foto com meus avós no Instagram. Ela fala sobre os clarins anunciando a chegada de mais um sambista e sobre transformar esse encontro em um terreiro.
Para mim, essa musicalidade é muito importante. É como entrar na avenida. É transformar sua vida, sua musicalidade e sua existência em etapas, assim como acontece num desfile. Eu acho que o samba é exatamente isso. Por isso que ele é tão político. E foi por isso que escolhemos o samba, para unir essas musicalidades e unir também duas gerações. Nada melhor do que o gênero mais político que existe, mas sem necessariamente fazer uma roda de samba.
Ana Beatriz Andrade: Outra coisa que me chamou atenção foi que “Barulho” tem apenas 17 minutos. Imagino que vocês tenham precisado fazer algumas escolhas importantes sobre o que manter e o que deixar de fora. Como foi esse processo de selecionar o que entrava e o que tinha que ser deixado para trás?
Leonardo Lumas: É engraçado porque, quando estamos falando de uma produção audiovisual, esses cortes já começam a acontecer durante a gravação. Então a gente já sente essa dor nessa etapa. Tem coisas que simplesmente não dá para fazer. Às vezes, por conta do cenário ou das condições da produção, você precisa adaptar ou fazer de um jeito completamente diferente.
Tinha uma cena muito importante para a gente, que era a cena da chaleira. Queríamos enfatizar um pouco mais essa questão do barulho e do silêncio. Mas, na ordem do dia, ela não conseguiu ser gravada a tempo. Era uma cena em que o Humberto estaria enclausurado pelo silêncio, ouvindo a chaleira apitar e sem conseguir ir até ela. Infelizmente, essa cena precisou ser cortada ainda durante a produção.
Eu diria que, na edição, os cortes foram mais pontuais, porque muita coisa já tinha sido resolvida antes. Então o processo acabou sendo mais fácil nessa etapa. Nossa principal preocupação era que, mesmo com tantos cortes, a história continuasse fazendo sentido. Então, ainda bem que o curta ficou coeso e a história continuou viva.
Julyfrans: A gente teve muita sorte de contar com a Karen na direção, sempre trabalhando em sintonia com a gente. Antes mesmo das filmagens, já conversávamos muito sobre isso, porque todo curta - na verdade, todo projeto audiovisual - vai passar por cortes no processo final.
O que você escreve é aquilo que imagina. Mas a locação, o tempo disponível, os recursos e os imprevistos fazem com que o resultado final seja diferente do que estava no papel. Ter a Karen [Suzane] ali como diretora ajudou muito. Ela é uma diretora incrível. Eu sempre quis trabalhar com ela e sou muito fã do trabalho dela.
Acho que, quando você é roteirista, é natural criar apego ao que escreveu. Mas a arte de desapegar também é um ato de maturidade. Você precisa estar pronto para encontrar soluções, acrescentar novas possibilidades e até criar algo melhor do que aquilo que imaginou inicialmente, sem impedir o que a direção está tentando construir.
Além disso, tivemos um elenco muito natural. Eu e o Léo compartilhamos bastante essa visão. Nunca fomos do tipo que exige que cada palavra seja dita exatamente como está no roteiro. Claro que existe o diálogo e a estrutura da cena, mas gostamos de deixar espaço para a improvisação, para o momento e para a naturalidade.
Tivemos a honra de trabalhar com um elenco maravilhoso: Carlos Francisco, Elisa Lucinda, Dan Ferreira, Vitor Brito e Alícia dos Anjos. Esse elenco é realmente extraordinário.
Leonardo Lumas: Queria complementar o que a Ju falou sobre a Karen. Além de roteiristas, nós também fomos coprodutores do curta. Então ela sempre nos consultava sobre tudo. Ela perguntava: "Vamos precisar mudar essa cena?", "Vamos cortar essa?", "Vamos adaptar aquela?". Foi uma diretora que fez questão de ouvir nossa opinião durante todo o processo. Por isso, a parceria foi muito interessante.

Ana Beatriz Andrade: Com o filme alcançando novas audiências e novos públicos, o que vocês esperam que as pessoas levem consigo depois de assistir ao curta?
Julyfrans: Eu não diria necessariamente cura. Talvez musicalidade. Talvez a possibilidade de entender o luto de uma maneira diferente. Que as pessoas percebam que a presença de alguém não existe apenas na fisicalidade, mas também nas memórias. Que o caminhar de uma pessoa pode continuar sendo visto de diversas maneiras.
Todos nós passamos por dores, por perdas e por momentos difíceis ao longo da vida. Mas acredito que também podemos nos reinventar e nos reencontrar. Às vezes, aquilo que precisamos está logo ao lado da nossa porta. Pode estar em um vizinho, em um som ou até mesmo em um silêncio profundo que nos permita refletir e nos reencontrar.
Leonardo Lumas: Uma das coisas que aprendi é que perder a presença física de alguém não significa perder essa pessoa por completo. Significa encontrar uma nova forma de mantê-la presente na sua vida. Quando escrevo uma história, não costumo pensar primeiro em qual mensagem quero transmitir. Penso muito mais no que quero contar.
Mas, respondendo à pergunta, acredito que a música é uma linguagem universal, independentemente do gênero. Escolhemos o samba por várias razões, mas poderia ser outro gênero também. Poderia ser rock, poderia ser forró.
A música conecta as pessoas de maneiras diferentes. E o luto também é um sentimento universal. De certa forma, estamos unindo duas universalidades.
O que espero é que as pessoas não enxerguem o fim apenas como um fim. Existem diferentes formas de lidar com a perda, e cada um encontra o seu caminho. Mas também não podemos permanecer afogados nela para sempre. Como Elisa Lucinda fala: não podemos deixar o samba morrer. E, às vezes, o samba também pode impedir que nós morramos por dentro.
Ana Beatriz Andrade: Para encerrar a entrevista, vocês poderiam recomendar um filme brasileiro para quem acompanha o Oxente Pipoca? Essa pergunta é tradicional por aqui.
Julyfrans: Nossa, são tantos. Tenho um carinho enorme por “O Auto da Compadecida”. Eu sei que é uma recomendação quase óbvia, que muita gente já assistiu, mas é um filme que amo profundamente. Cheguei até a comprar o roteiro. São tantos, “Branco Sai, Preto Fica”...
Leonardo Lumas: Um filme que gosto muito pela dinâmica da história e pelas dualidades que apresenta é “Durval Discos”. Foi o primeiro filme que uma professora de roteiro me apresentou na universidade e me marcou bastante. Gosto muito da direção, do roteiro e da forma como a narrativa é construída. Ele também possui uma certa musicalidade. É um daqueles filmes que mereciam ser lembrados e comentados com mais frequência.
“Barulho” é patrocinado pela BrasilCap, produzido pela Maruti Blue Produções, com produção associada de Tina Tigre, e distribuição da Tarrafa.



















