Crias do Brasil #4 | Ray Tavares: “Eu queria que alguém abrisse um livro meu e sentisse que pertence a alguma coisa”
- Oxente Pipoca

- há 1 dia
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Autora de Os 12 Signos de Valentina e roteirista de produções como De Volta aos 15 e da adaptação de Quinze Dias, Ray Tavares fala sobre literatura, audiovisual, pertencimento, adaptações e os caminhos que a levaram dos fanfics às salas de roteiro

Antes dos livros publicados, dos contratos de adaptação e das salas de roteiro, existiam as fanfics.
Foi escrevendo histórias na internet que Ray Tavares encontrou um espaço para experimentar personagens, romances e conflitos que mais tarde se transformariam em uma carreira consolidada na literatura e no audiovisual. O que começou como um hobby de adolescente acabou se tornando profissão, ainda que o caminho até viver exclusivamente da escrita tenha sido bem mais longo e incerto do que ela imaginava.
Autora de livros como Os 12 Signos de Valentina, Confidências de Uma Ex-Popular, As Vantagens de Ser Você e O Roteiro do Amor, Ray se tornou uma das principais vozes da literatura jovem brasileira contemporânea. Nos últimos anos, expandiu sua atuação para o audiovisual, participando de projetos como Bugados, De Volta aos 15 e da adaptação de Quinze Dias, romance de Vitor Martins.
Entre livros, séries e filmes, existe um tema que atravessa praticamente toda sua trajetória: o pertencimento. Afinal, foi justamente através das histórias que ela encontrou um lugar onde se sentia compreendida quando era mais nova.
Em mais uma edição do Crias do Brasil, Ray fala sobre os anos escrevendo fanfics, a decisão de abandonar uma carreira tradicional para viver de escrita, os desafios das adaptações e a emoção de ver seu próprio livro ganhar vida nas telas.
Confira abaixo a entrevista completa com Ray Tavares:
Dos fanfics ao sonho de viver de escrita
Antes de se tornar autora publicada, Ray era uma leitora apaixonada. Como muitos jovens dos anos 2000, encontrou nas fanfics um espaço para criar histórias e imaginar futuros possíveis. Mas transformar esse amor em profissão levou tempo.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Primeiro eu vou falar um pouquinho sobre mim. Eu sou Gabi, faço parte do Oxente Pipoca, sou formada em Jornalismo e atualmente faço doutorado em Comunicação. E já faz bastante tempo que acompanho seu trabalho. Acho que leio seus livros desde 2018. Inclusive lembro de ter te mandado uma mensagem dizendo que minha avó tinha lido O Roteiro do Amor e amado a história.
Queria começar te perguntando justamente sobre esse início. Você começou escrevendo muito jovem, especialmente fanfics. Em que momento percebeu que a escrita poderia ser mais do que uma paixão e se transformar em profissão?
Ray Tavares: Eu acho que o sonho sempre existiu, sabe? Sempre foi algo que estava ali. Eu consumia muitos livros, lia muito, e acho que quando você ama uma coisa fica aquele pensamento no subconsciente: "Quem sabe um dia eu também consiga fazer isso?".
Mas a escrita começou mesmo por causa das fanfics. Foi uma brincadeira. Eu lia muito um site chamado Fanfic Addiction e chegou um momento em que parecia que eu já tinha lido tudo que existia ali. Aí minhas amigas falaram: "Então escreve uma você". E eu comecei.
Por muito tempo foi um hobby, mas era um hobby que eu levava muito a sério. Eu deixava de sair com meus amigos no fim de semana porque queria ficar em casa escrevendo. Quando chegou aquela fase do ensino médio em que todo mundo começa a pensar no que vai fazer da vida, eu já imaginava que talvez pudesse seguir esse caminho. Só que eu não tinha nenhuma referência próxima.
Não tinha ninguém da minha família trabalhando com arte. Meu pai trabalhava em empresa, minha mãe é professora de português. Não existia ninguém que tivesse seguido esse caminho. Então eu queria muito, mas não sabia exatamente como.
Passei muito tempo enviando originais para editoras porque era o único caminho que eu conhecia. Enquanto isso, fui construindo uma carreira mais tradicional. Fiz faculdade de Gestão Pública, trabalhei em prefeitura, trabalhei em empresa. Mas o sonho continuava ali. Em 2017 consegui publicar Os 12 Signos de Valentina.
Só que nem assim larguei tudo imediatamente. Foi só em 2019 que pedi demissão do meu trabalho para tentar viver da escrita. Porque é uma profissão muito instável. Você não sabe quanto vai ganhar no mês seguinte. Então o sonho sempre existiu. O que demorou foi eu conseguir enxergar uma possibilidade real de realização desse sonho.

Quando a literatura encontrou o audiovisual
A entrada no audiovisual aconteceu por necessidade, mas acabou se transformando em uma nova paixão.
Gabriella Ferreira: E como você fez esse movimento da escrita literária para o audiovisual? Porque são duas coisas bastante diferentes. Queria entender como esses dois mundos acabaram se encontrando.
Ray Tavares: Veio muito da necessidade que eu tinha de viver de escrita. Quando pedi demissão, eu tinha juntado um dinheiro dos anos em que trabalhei como CLT. E fiz um acordo comigo mesma. Pensei: "Vou tentar durante um ano. Se não der certo, volto para uma carreira tradicional". Só que eu percebi muito rapidamente que viver exclusivamente de literatura seria quase impossível.
Eu não conheço praticamente ninguém que viva apenas de literatura. Sempre existe um outro trabalho junto. Tradutor, revisor, roteirista. Então eu pensei: "Preciso descobrir outra forma de viver de escrita". Foi justamente nessa época que os streamings começaram a chegar com mais força ao Brasil e algumas produtoras começaram a procurar meus livros.
E foi a primeira vez que eu pensei: "Cara, talvez eu possa escrever roteiro". Mas eu não tinha formação em cinema, não conhecia ninguém da área. Então peguei o dinheiro que recebi pela venda dos direitos de um dos meus livros e investi tudo em formação. Fiz cursos, participei de festivais, comecei a conhecer pessoas.
O roteiro nasceu de uma necessidade. Mas eu me apaixonei pelo processo. Hoje, muitas vezes, ele acaba sendo a minha principal profissão.
E isso me permitiu manter uma relação muito saudável com a literatura, porque ela deixou de carregar sozinha toda a responsabilidade financeira da minha vida.
Histórias sobre pertencer
Juventude, amadurecimento e pertencimento aparecem de forma recorrente tanto nos livros quanto nos roteiros escritos por Ray.
Gabriella Ferreira: Os seus trabalhos dialogam muito com juventude, afeto e pertencimento. Por que esses temas aparecem tanto nas histórias que você escreve?
Ray Tavares: Eu acho que uma coisa puxa a outra, sabe?
Como eu já escrevia esse tipo de história na literatura, acabou sendo também um lugar onde eu me encontrei muito no roteiro. Histórias infantojuvenis, adolescentes, jovem adulto, essa fase da vida que é tão conturbada. Mas também tem uma coisa muito pessoal nisso.
O que me atraiu para a literatura foi justamente esse sentimento de pertencimento. Eu era uma jovem muito tímida, muito excluída. Queria pertencer a alguma coisa. E a literatura me ajudou muito com isso.
Então eu tento, pelo menos, replicar esse sentimento nos meus livros. A ideia de que alguém possa abrir uma história minha e se sentir ouvido, enxergado, compreendido.Porque eu senti isso como leitora. E eu gosto muito dessas histórias sobre amadurecimento, sobre coming of age, sobre descobrir quem você é.
Talvez porque eu seja ariana e dramática. (risos). Mas eu realmente gosto de falar sobre crescimento, identidade e pertencimento.

As oportunidades que mudaram tudo
Depois de deixar o emprego para apostar na escrita, Ray encontrou em Bugados sua primeira grande oportunidade profissional como roteirista. Pouco depois, viria De Volta aos 15.
Gabriella Ferreira: Você trabalhou em duas séries muito importantes no início da sua trajetória como roteirista, Bugados e depois De Volta aos 15. Como você enxerga esses trabalhos na construção da sua carreira?
Ray Tavares: Nossa, foi tudo. Eu tinha estabelecido aquele prazo de um ano para tentar viver da escrita. E Bugados apareceu justamente quando esse prazo estava terminando. Eu fiz entrevista para ser assistente de sala. Nem era para ser roteirista.
Mas depois do teste o André me chamou para ser roteirista júnior. E eu falei: "Claro que dou conta". Hoje eu posso admitir que estava morrendo de medo. (risos), porque era tudo muito novo.
Mas foi uma experiência incrível, todo mundo foi muito generoso comigo.Foi realmente uma escola.
E depois veio De Volta aos 15, que me abriu muitas portas. Foi um sucesso enorme. E trabalhar com Vitor Brandt também foi outra escola. Então eu sou muito grata às pessoas que acreditaram em mim quando eu ainda estava começando.

Adaptar um livro amado pelos leitores
Com Quinze Dias, Ray teve pela primeira vez a experiência de participar de uma adaptação desde o início.
Gabriella Ferreira: Como foi adaptar um livro tão querido quanto Quinze Dias?
Ray Tavares: Foi outro presente que o Vitor Brandt me deu. E foi muito engraçado porque eu sou muito fã do Vitor Martins. Muito fã mesmo. Então foi uma situação curiosa porque, ao mesmo tempo em que eu pensava "Meu Deus, vou adaptar um livro que eu amo", eu também pensava "Meu Deus, vou adaptar um livro que todo mundo ama".
A pressão era enorme. Nosso principal trabalho foi preservar aquilo que o livro tem de melhor e ao mesmo tempo expandir esse universo. Porque o livro acontece muito dentro da cabeça do Felipe. No cinema você precisa encontrar outras formas de contar aquela história.
Então a gente tentou ampliar coisas que já existiam, fortalecer elementos que já estavam ali. E foi a primeira vez que participei de uma adaptação do zero.
Foi uma responsabilidade enorme.Mas também uma experiência muito especial.

Adaptando a própria história
Se adaptar uma obra de outro autor já é desafiador, adaptar o próprio livro exige um exercício constante de equilíbrio.
Gabriella Ferreira: E como foi adaptar Os 12 Signos de Valentina?
Ray Tavares: É muito engraçado adaptar o próprio livro porque o problema deixa de ser entender o autor.
Quando você adapta uma obra de outra pessoa, fica tentando descobrir o que é essencial naquela história. Quando adapta o seu próprio livro, o problema vira você mesma. Porque eu sou uma pessoa muito autocrítica. Eu escrevi Os 12 Signos de Valentina em 2014. Publiquei em 2017. E estou adaptando em 2025, 2026.
Eu sou outra mulher. Sou outra escritora. Então eu olhava para certas coisas e pensava: "Nossa, hoje eu faria isso diferente". Só que a história fez sucesso por um motivo. As pessoas gostam daquele livro por um motivo.
Então o meu maior desafio foi lutar contra as vozes da minha cabeça e me perguntar o tempo todo: "Eu quero mudar isso porque realmente precisa mudar ou porque eu tenho vontade de reescrever tudo?" Porque são coisas diferentes. E eu precisei encontrar esse equilíbrio.
Respeitar quem ama o livro, mas também permitir que a adaptação crescesse. Não tem nada drástico. Todo mundo pode ficar tranquilo. (risos).
Mas existem mudanças importantes que foram necessárias. E está sendo muito emocionante acompanhar tudo isso.

O momento das adaptações brasileiras
Ray acredita que o audiovisual brasileiro vive um momento importante de aproximação com a literatura nacional.
Gabriella Ferreira: Como você vê esse crescimento das adaptações brasileiras? E existe algum livro que seria o seu sonho adaptar?
Ray Tavares: Eu acho esse movimento incrível.
Quando a gente olha para dentro do nosso mercado e percebe a quantidade de histórias diferentes que estão sendo produzidas, fica muito claro que existe muita coisa boa acontecendo. Tem fantasia. Tem romance. Tem terror. Tem ficção científica. Tem histórias LGBTQIAPN+. Tem muita coisa. Então eu adoro que o audiovisual esteja olhando para isso.
Sobre adaptações dos sonhos... nossa, tem muitas. Conectadas seria incrível. Alguma coisa da Paola Aleksandra. Mais livros do Vitor Martins. Viralizou, do Juan Jullian. As fantasias da Paola Siviero.
Tem muita coisa boa.E eu gosto muito de estar sendo associada às adaptações. Porque tudo o que eu puder fazer para aproximar leitores e audiovisual eu vou fazer com muita felicidade.
Entre Valentina e os próximos capítulos
Gabriella Ferreira: O que podemos esperar dos seus próximos projetos?
Ray Tavares: Valentina vem aí. É o projeto que eu estou mais empolgada para as pessoas assistirem. Também estou escrevendo um novo livro, mas confesso que o processo está um pouco lento porque tenho trabalhado muito. Livro, para mim, é sempre um mergulho.
E é difícil escrever picado. Tem semana que eu não tenho tempo nem para respirar porque é muita coisa acontecendo. Então o próximo livro vem. Só não sei exatamente quando. (risos)
Talvez não este ano. Talvez no ano que vem. Também quero adaptar mais histórias minhas. Eu acho que O Roteiro do Amor daria um filme muito legal. E quero continuar trabalhando com adaptações de outros autores.
É um lugar onde me sinto muito feliz.

A história que fez uma futura escritora sonhar
Gabriella Ferreira: Qual obra você considera fundamental para sua formação?
Ray Tavares: Vou responder com o coração: O Diário da Princesa. Eu poderia citar vários clássicos, mas foi lendo e assistindo O Diário da Princesa que eu senti pela primeira vez que queria causar aquele tipo de sensação nas pessoas. Aquela sensação de pertencimento. De sonhar um pouco. De se reconhecer em uma história.
Claro que, se eu fosse responder racionalmente, talvez falasse Parasita. Mas a resposta verdadeira continua sendo O Diário da Princesa. Porque foi ali que uma leitora começou a imaginar que também poderia contar histórias.
Siga Ray Tavares em suas redes sociais para acompanhar passos futuros de sua carreira. E claro, aqui no Oxente Pipoca, também seguiremos de olho!



















