Entrevista | “Precisamos enxergar a trabalhadora doméstica como profissional, e é importante que esse olhar seja construído coletivamente”: Karol Maia fala sobre ‘Aqui Não Entra Luz’
- Giulia Meneses

- há 5 horas
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Em entrevista ao Oxente Pipoca, a diretora e roteirista reflete sobre herança colonial no trabalho doméstico, e a necessidade de dar voz ao movimento das trabalhadoras.

Hoje (7), estreia nos cinemas o documentário Aqui Não Entra Luz, dirigido por Karol Maia. Entrelaçando a vida de trabalhadoras domésticas de 4 estados diferentes (Rio de Janeiro, Maranhão, Minas Gerais e Bahia), o filme reforça como a herança escravocrata brasileira ainda se vê presente no trabalho doméstico contemporâneo.
Tendo como ponto de partida o “quarto de empregada”, um lugar escuro e com um tamanho desproporcional à casa grande que o comporta, o documentário mostra o cotidiano e os desafios dessas mulheres na luta pelos direitos da classe e por um rompimento de ciclo das gerações futuras.
O Oxente Pipoca teve a oportunidade de conversar com a Karol Maia um dia após um marco importante, o Dia Nacional da Trabalhadora Doméstica, celebrado em 27 de abril. A vencedora de Melhor Direção no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2025 falou um pouco sobre o processo de criação do documentário, a mãe como fonte de inspiração e as relações domésticas como questões de gênero e raça.
Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Primeiro, Karol, parabéns pelo filme e obrigada pela disponibilidade. Seu interesse nessa temática claramente surgiu pela sua mãe, o que é maravilhoso e pessoal. Mas eu queria saber como se deu o processo de criação desse documentário. Você menciona que sua mãe não queria aparecer ali de primeira, né? Como foi entrar em contato com todas aquelas domésticas e fazer com que elas se abrissem de uma maneira tão íntima?
Karol Maia: Eu acredito que o resultado do bom encontro que eu tive com as trabalhadoras domésticas foi porque eu entendi que para aquele encontro ser legal, assim, eu também teria que dar alguma coisa pra elas, né? Eu acho que é bem comum a gente, às vezes na hora de entrevistar alguém, só pedir e não dar nada de volta. Mas naquela situação era inegavelmente importante que eu também compartilhasse fragmentos da minha história, porque eu não estava ali por um motivo que só passava pelo meu interesse artístico e autoral. Era também um interesse de vida, né? Era um assunto primordial na minha própria vida, que é ter uma mãe trabalhadora doméstica, que foi trabalhadora doméstica, e ter passado algumas experiências no trabalho dela.
Eu já fui gravar o filme com a falta da minha mãe, com a lacuna da participação da minha mãe. Então a minha mãe fazia parte do meu encontro com essas mulheres, porque eu trazia um pouco dela para também encontrar algum fragmento da minha mãe nelas. Também, claro, o que fez esse encontro ser tão bonito foi porque a gente tinha uma equipe bem pequena, majoritariamente de mulheres. Então, a gente conseguiu criar um ambiente íntimo e de confiança.
Giulia Meneses (Oxente Pipoca): O documentário também tem um paralelismo muito grande com a relação Casa Grande e Senzala, né? Tem cenas que eu particularmente me senti muito mexida e me tocaram bastante. Isso foi uma decisão narrativa tomada desde o início para essa associação?
Karol Maia: Sempre. Meu primeiro ponto de interesse nesse filme foi falar de arquitetura. Era falar sobre a senzala e o quarto de empregada. Era minha primeira obsessão, vamos dizer. E, consequentemente inevitável e que bom falar com mulheres que já dormiram neste lugar. Então, sempre foi um desejo trazer a arquitetura num ponto de vista de contraste. O pequeno e o grande, o iluminado e o escuro, o arejado e o que é sufocante. Sempre foi um ponto de partida, desde a pesquisa até a gravação, até a pós-produção.
Trazer esse contraste, porque é um contraste que na prática, não faz sentido, né? Por exemplo, por que uma casa de 200 metros quadrados tem um quarto tão pequeno? Não é falta de espaço. Esse lugar não é pequeno por falta de espaço. Esse lugar é pequeno porque existe um tratado claro, ou não, que esse espaço destinado a essas pessoas seja pequeno. A mesma coisa falta de janela.
Não seria interessante, por exemplo, para um dono de uma casa ter um cômodo com mofo, porque naquele cômodo não entra ar, não entra sol. Não é interessante você ter mofo na sua casa. Porém, alguém decidiu que aquele cômodo não precisa de ar nem de luz, e que naquele cômodo pode ter mofo. Então é uma série de absurdos que são tão cotidianos que às vezes passa despercebido.

Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Que bom que você falou dessa parte da arquitetura, porque outra coisa que me deixou intrigada, que você mencionou agora foi essa dualidade. O tamanho da casa e aquele quartinho de empregada que já estamos, infelizmente, tão acostumados com isso que acaba passando batido. E aí, quando vemos o documentário que tem esse choque de realidade, mexe bastante com a gente. E uma coisa que eu queria saber, como foi gravar na casa dessas pessoas? Teve algum impasse por causa de algum patrão? Alguma coisa do tipo?
Karol Maia: Então, eu só gravei no serviço de uma trabalhadora doméstica. E ela é uma exceção porque ela tem uma boa relação com os contratantes e eles foram abertos. A gente, claro, não teve acesso à casa inteira, aos ambientes mais íntimos a gente não pôde entrar, mas foi relativamente simples entrar lá porque eles têm essa boa relação com ela. Mas nas outras casas que eu entrei, consegui chegar nelas por meio de uma pesquisa no Facebook, na época que o Facebook era uma rede social muito usada, assim, isso foi 2018.
Lançamos um formulário pedindo para pessoas em cidades determinadas cederem suas casas com um quarto de empregada para a gente pesquisar e a partir dessa pesquisa poderia surgir um interesse de gravar. Então foi assim que eu cheguei até os espaços arquitetônicos modernos.
Já a pesquisa da arquitetura colonial foi mais tradicional mesmo, no Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) artigos de história, dados que são mais históricos, assim, são mais simples de chegar. Porque esses casarões também, alguns viraram museu, aí eles também são abertos à visita turística, tem um guia e tal. Então é relativamente mais simples de chegar neles.
Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Você falou do formulário no Facebook que você usou para poder chegar a essas casas. Para a seleção das domésticas que você retratou no documentário, foi dessa forma também?
Karol Maia: Não! Pesquisamos elas em sindicatos de empregadas domésticas. Também teve um caso que foi numa ONG que tem Belo Horizonte, assim como também teve indicação de conhecidos da equipe. Mas a maior parte da nossa pesquisa foi no sindicato. Batemos na porta dos sindicatos das cidades e pedimos para o sindicato conectar a gente com as profissionais.
Era comum a gente chegar no sindicato e ter algumas trabalhadoras fazendo denúncia, por exemplo, da relação de trabalho. Uma delas que estava lá fazendo denúncia entrou no filme que é a Cristiane e eu a conheci nesse contexto. Fui conhecer o sindicato, ela estava lá denunciando o patrão, e aí ela me contou um pouco da história dela e eu achei que fazia sentido. Mas o sindicato foi um caminho importante para a gente chegar até essas trabalhadoras.
Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Ontem foi o Dia Nacional da Trabalhadora Doméstica, e acredito que pra você deva ser muito significativo ter a pré estreia em uma data que celebra uma profissão tão importante. Confesso que os momentos finais, e os takes da sua formatura me emocionaram demais e foi lindo ver você quebrando esse ciclo que é bastante mencionado no filme. Quais diferenças em relação à profissão você observou de 10 anos pra cá, e como você espera que o país absorva esse filme?
Karol Maia: Eu sou fruto das políticas públicas do país, eu me formei no ensino superior com bolsa do ProUni 100% e tenho muitos colegas que também são dessa mesma geração, né? Que também são filhos de trabalhadoras domésticas e conseguiram seguir numa outra profissão também por conta das políticas públicas. Eu acho, e a gente sabe também que só ter acesso à universidade não é o bastante, porque quando você chega lá você precisa se locomover pela cidade, precisa se alimentar, comprar o material, precisa de tempo para estudar, para pesquisar…e esse, com certeza, foi um conflito que eu tive quando eu entrei na faculdade. Parecia muito lindo quando chegou a notícia, mas na prática tinha outras necessidades, além da bolsa por si só.
Mas eu acredito que essas políticas públicas são as políticas que estão dando a oportunidade para jovens periféricos, negros, indígenas, LGBT, de acessar esses lugares que pareciam impossíveis há poucas décadas dentro da nossa família. E essa cena da formatura é uma cena que eu tenho muito carinho, porque eu não lembrava que tinha esse material. E quando acessei ele, assim, foi quase como um acidente encontrar ele no meu drive. E foi muito bonito rever esse dia. Foi realmente um grande dia pra todo mundo.
Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Como você espera que o país absorva esse filme?
Karol Maia: Eu espero que as pessoas assistam o filme e não se fechem para o convite…a ação que ele faz. Eu acho um pouco difícil sair de uma sessão do Aqui Não Entra Luz e não pensar sobre as coisas que foram ditas ali. E eu quero convidar as pessoas que se abram para sair com um pouco do filme, levar pra casa, e ter conversa sobre o filme. Para que essas pessoas também repensem o comportamento delas. E quando eu falo essas pessoas, eu tô falando de pessoas brancas.
No filme, eu deixei muitas partes onde as trabalhadoras domésticas falavam o branco. Tem até um caso que uma delas fala barão. Ela é um pouco mais velha e usa a palavra barão. Então, é importante racializar essa relação. Também é uma questão de classe, mas também é uma questão de raça e de gênero, já que o trabalho doméstico é tão feminino. Então, esse é o meu desejo, que as pessoas não se fechem dentro de uma bolha de ego, vaidade e uma autoproteção confortável, para não ter essas conversas desconfortáveis e não ter essas ações que vão mexer em algum tipo de privilégio.
Então, o dinheiro é importante. Pagar melhor a trabalhadora é importante, enxergar essa mulher como uma profissional é importante, entender com ela o que é dignidade dentro do trabalho é importante. Quais ferramentas ela quer usar para trabalhar, se ela precisa de uma vassoura melhor, de um produto melhor. Então, esse tipo de coisa é o meu desejo.
Vamos lançar daqui a alguns dias, um manual que a gente está chamando de Manual de Como Lavar Louças, que é um manual para dialogar com contratantes, para criar esse tipo de relação que é mais profissional, mas que também é de mais respeito. Porque a trabalhadora doméstica é uma profissional, e é importante que esse olhar seja construído coletivamente.
Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Karol, por fim, aqui no Oxente Pipoca temos uma tradição de pedir aos nossos entrevistados que indiquem um filme nacional, pode ser um documentário também, que o nosso público deveria ver.
Karol Maia: Olha, eu sou completamente apaixonada por um filme chamado Escasso. É um curta-metragem que está no Globoplay. Ele é dirigido pela Clara Anastácia e pela Gabriela Gaia Meirelles. E é um curta absolutamente genial, onde a Clara Anastácia também atua e escreve. E ele faz parte de uma pesquisa dela chamada Melodrama Decolonial, que é um conceito onde ela investiga o melodrama dentro do universo brasileiro e das nossas referências brasileiras e,
consequentemente, negras também.



















