Festival de Berlim 2026 fica marcado por cearenses premiados e omissão em discurso de grandes nomes
- Rafael Carvalho

- há 16 horas
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O panorama de uma Berlinale política

Divulgação/Berlinale
Festivais são políticos?
No último sábado, 21 de fevereiro, Wim Wenders e seu júri, formado por Bahadur Bham (Nepal), Bae Doona (Coréia do Sul), Shivendra Singh Dungarpur (Índia), Reinaldo Marcus Green (EUA), HIKARI (Japão) e Ewa Puszczyńska (Polônia), anunciaram os Ursos da competição oficial do Festival Internacional de Cinema de Berlim, o primeiro dos três grandes festivais europeus do ano.
Como já vinha se desenhando nas últimas edições e em sintonia com a condução política de sua presidência, esta foi uma edição marcada de forma profundamente negativa. Um festival que escolhe se omitir politicamente no momento histórico que vivemos é, antes de tudo, um festival covarde. E, o mais contraditório disso tudo, é que se você for analisar os filmes vencedores do ano, você nem imagina que tomaram essa decisão.
Sim, os filmes podem falar por si. Mas até que ponto seus realizadores, muitos deles assumidamente políticos em suas abordagens, conseguem realmente se abster quando questionados sobre como seus trabalhos dialogam com aquilo que vemos diariamente na televisão e nas redes?

Divulgação/Berlinale
Antes mesmo da exibição do primeiro filme da competição ser exibido, o presidente do Júri, Wenders, declarou durante a conferência de imprensa que os cineastas têm que se "manter afastados da política". Segundo eles, se fizerem filmes que sejam declaradamente políticos, estarão entrando no campo da política. "Mas somos o contrapeso da política, somos o oposto da política. Temos que fazer o trabalho do povo, não o trabalho dos políticos.", continuou.
Na mesma sessão de perguntas e respostas, a produtora polonesa Ewa Puszczyńska, envolvida em grandes produções como Guerra Fria e Ida, reagiu, ao júri ser questionado sobre o apoio que o governo da Alemanha demonstra a Israel, já que ele é um dos grandes financiadores do evento, que achou a pergunta "um pouco injusta".
“É claro que estamos tentando conversar com as pessoas — com cada um dos nossos telespectadores — para fazê-los refletir, mas não podemos ser responsabilizados pela decisão deles de apoiar Israel ou a Palestina... Há muitas outras guerras em que genocídio é cometido, e não falamos sobre isso. Portanto, esta é uma questão muito complexa e acho um pouco injusto nos perguntarem o que pensamos, como apoiamos ou não, se devemos ou não dialogar com nossos governos.”, afirmou.
Não pareceu um início de festival promissor, afinal, todos os dias aconteceriam sessões de perguntas e respostas com os envolvidos e, como esperado, política, genocídio palestino e a situação anti-imigrante nos Estados Unidos seriam temas amplamente abordados.
Para completar esse início turbulento, a diretora do Festival de Berlim, Tricia Tuttle, emitiu uma declaração defendendo os comentários do júri e definiu a recepção nas redes como uma "tempestade midiática". “Não se deve esperar que os artistas comentem sobre todos os debates mais amplos a respeito das práticas passadas ou presentes de um festival, sobre as quais não têm controle.”, escreveu. Leia a declaração completa aqui.
Não sou daqueles que acreditam que as sessões de Q&A precisam ser dominadas sobre questões políticas, já que estão ali para falar do filme, mas, como disse anteriormente, é inevitável que isso aconteça. E, considerando o tom da primeira coletiva, todas as outras iriam acabar sendo atravessadas por isso, levando os jornalistas presentes a se debruçarem sobre ele. Acho isso mais do que justo. A função jornalística em festivais como esse, além do evento em si, é justamente questionar o que não querem que seja questionado e fazer as perguntas que precisam ser feitas.
Não é à toa que diversos artistas vieram a público se posicionar contra essa postura. O cineasta Xavier Dolan foi um dos que criticaram diretamente o presidente do júri: “De onde vem essa ideia de que a política deve ficar de fora da arte?”.
Além disso, mais de 100 nomes assinaram uma carta aberta criticando o que classificaram como o “silêncio” do Festival de Berlim. “Apelamos à Berlinale para que cumpra seu dever moral e declare claramente sua oposição ao genocídio, aos crimes contra a humanidade e aos crimes de guerra de Israel contra os palestinos, e que cesse completamente seu envolvimento em proteger Israel de críticas e exigências de responsabilização”, diz o texto.

Divulgação/Berlinale
Com tudo isso dito, sabe o que também era inevitável? Fazer com que os vencedores da última noite do Festival de Berlim, majoritariamente estrangeiros fora do eixo europeu, optassem pelo silêncio e evitassem demonstrar publicamente de que lado estão.
A cerimônia de encerramento começou com a libanesa Marie-Rose Osta, vencedora do Urso de Ouro de Melhor Curta-Metragem por Yawman ma walad (Someday a Child), relembrando o sofrimento dos palestinos em seu país e em Gaza:
“Na realidade, as crianças em Gaza, em toda a Palestina e no meu Líbano não têm superpoderes para protegê-las das bombas israelenses... Nenhuma criança deveria precisar de superpoderes para sobreviver a um genocídio fortalecido por poderes de veto e pelo colapso do direito internacional.”
Logo após, veio um dos mais vocais da noite. O detentor do Prêmio de Melhor Primeiro Longa-Metragem, Abdallah Al-Khatib, foi direto: “Estou feliz por estar aqui para receber este prêmio, mas sou palestino, então preciso aproveitar este momento para falar sobre a Palestina. Sofri muita pressão para participar da Berlinale por um único motivo: estar aqui e dizer que os palestinos serão livres e que um dia teremos um grande festival de cinema no meio de Gaza, no meio de outras cidades palestinas.”
E o que acontece em seguida? A cerimonialista da noite, Désirée Nosbusch, faz questão de afirmar que as opiniões expressas pelos artistas não refletem a posição do Festival Internacional de Cinema de Berlim. Um momento que soou, muito provavelmente, como uma orientação direta dos responsáveis pelo evento, em mais uma tentativa de preservar o "silêncio" que vem sendo imposto desde o início.
Crítico do Oxente Pipoca, Vinicius Oliveira assistiu ao vencedor do Urso de Ouro, o prêmio máximo da Berlinale, Yellow Letters, e escreveu em sua crítica: “A vitória de Yellow Letters parece uma decisão curiosa dado os temas abertamente políticos vistos em tela desde os seus primeiros minutos. Contudo, à medida que o filme se desenrola e cai em um lugar cômodo e polido sobre esses temas, fica claro que sua vitória foi mais do que merecida.”
Ao encerrar a cerimônia, Tricia Tuttle, a mesma que havia defendido publicamente os comentários do júri dias antes, afirmou que o festival abraça a “complexidade” e a liberdade de expressão. Uma declaração que, diante de tudo o que se viu ao longo do evento, parece mais um esforço para controlar a narrativa.
No fim das contas, para mim, a questão nem é discutir se festivais de cinema têm ou não uma posição política. A real é se vale a pena nos importarmos com aqueles que escolhem se manter omissos diante do mundo em que existem? Afinal, cinema é política. E, se é assim, como pode existir um festival de cinema que tente se colocar fora dela? Espero uma abordagem diferente durante o Festival de Cannes em maio.
2026 é do Cinema Cearense
Do lado de cá, do cinema brasileiro, a passagem pelo Festival Internacional de Cinema de Berlim foi motivo de celebração. Com um total de dez produções nacionais exibidas em diferentes mostras, algumas delas merecem destaque especial, particularmente dois filmes cearenses que conquistaram reconhecimento.

Dirigido por Allan Deberton, Feito Pipa foi o grande vencedor da Mostra Generation Kplus, levando os prêmios de Melhor Filme pelo Júri Jovem e o Grand Prix de Melhor Filme pelo Júri Internacional.
Protagonizado por Lázaro Ramos, Teca Pereira e Yuri Gomes, o filme acompanha a história de Gugu, um menino de quase doze anos com sonhos de se tornar jogador de futebol, é criado sob os cuidados acolhedores de sua avó, Dilma. À medida que ela se torna cada vez mais frágil e o mundo deles começa a mudar, ele luta para proteger o lugar onde é livre para ser quem é.
O júri composto por Rosa Sophie Krasznahorkai, Vera Marsh, Emir Efe Özeren, Alma Sofia Villanueva Bullemer, Walter Moritz Arndt, Gustav Arnz e Thabani Dabulamanzi justificou a decisão afirmando: “As emoções de cada personagem nos tocaram profundamente. Fomos levados pela emocionante história, como se fizéssemos parte da ação. Questões importantes foram abordadas e merecem mais atenção”.
Outro que se destacou foi Fiz um Foguete imaginando que Você Vinha, em minha opinião, o filme com nome mais bonito de todo o evento, de Janaína Marques, que ganhou um Prêmio especial: o ‘Tagesspiegel Readers Jury Award’ na seção Fórum.
“Estou imensamente feliz; é muito emocionante ver um filme tão íntimo se conectar com o público em um festival tão especial como o de Berlim. O Forum é um espaço que acolhe obras autorais e arriscadas, e ser reconhecida ali tem um significado muito especial para mim”, destacou a diretora.

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Abaixo, confira todos os vencedores do Festival de Berlim 2026:
Competição Oficial:

Divulgação/ Berlinale
• Urso de Ouro de Melhor Filme: Gelbe Briefe (Yellow Letters), de İlker Çatak
• Urso de Prata – Grande Prêmio do Júri: Kurtuluş (Salvation), de Emin Alper
• Urso de Prata – Prêmio do Júri: Queen at Sea, de Lance Hammer
• Urso de Prata de Melhor Direção: Grant Gee por Everybody Digs Bill Evans
• Urso de Prata de Melhor Performance Principal: Sandra Hüller em Rose, de Markus Schleinzer
• Urso de Prata de Melhor Performance Coadjuvante: Anna Calder-Marshall e Tom Courtenay em Queen at Sea, de Lance Hammer
• Urso de Prata de Melhor Roteiro: Geneviève Dulude-de Celles por Nina Roza
• Urso de Prata de Contribuição Artística: Yo (Love is a Rebellious Bird), de Anna Fitch e Banker White
GWFF Best First Feature Award

Divulgação/ Berlinale
• GWFF Best First Feature Award: Chronicles From the Siege, de Abdallah Alkhatib
• Menção Especial: Forêt Ivre (Forest High), de Manon Coubia
Berlinale Shorts:
• Urso de Ouro de Melhor Curta-Metragem: Yawman ma walad (Someday a Child), de Marie-Rose Osta
• Urso de Prata – Prêmio do Júri (Curta-Metragem): A Woman’s Place Is Everywhere, de Fanny Texier
Generation:

Divulgação/ Berlinale
Júri Infantil – Generation Kplus
• Urso de Cristal de Melhor Filme: Feito Pipa (Gugu’s World), de Allan Deberton
• Menção Especial: Not a Hero, de Rima Das
• Urso de Cristal de Melhor Curta-Metragem: Whale 52 – Suite for Man, Boy, and Whale, de Daniel Neiden
• Menção Especial: Under the Wave off Little Dragon, de Luo Jian
Júri Jovem – Generation 14plus
• Urso de Cristal de Melhor Filme: Chicas Tristes (Sad Girlz), de Fernanda Tovar
• Menção Especial: A Family, de Mees Peijnenburg
• Urso de Cristal de Melhor Curta-Metragem: Memories of a Window, de Mehraneh Salimian e Amin Pakparvar
• Menção Especial: Allá en el cielo (Nobody Knows the World), de Roddy Dextre
Júri Internacional – Generation 2026
• Grande Prêmio do Júri Internacional de Melhor Filme – Generation Kplus: Feito Pipa (Gugu’s World), de Allan Deberton
• Menção Especial – Generation Kplus: Atlasul universului (Atlas of the Universe), de Paul Negoescu
• Prêmio Especial do Júri Internacional de Melhor Curta – Generation Kplus: Spî (White), de Navroz Shaban
• Menção Especial – Generation Kplus: Under the Wave off Little Dragon, de Luo Jian
• Grande Prêmio do Júri Internacional de Melhor Filme – Generation 14plus: Chicas Tristes (Sad Girlz), de Fernanda Tovar
• Menção Especial – Generation 14plus: Matapanki, de Diego “Mapache” Fuentes
• Prêmio Especial do Júri Internacional de Melhor Curta – Generation 14plus: The Thread, de Fenn O’Meally
• Menção Especial – Generation 14plus: Memories of a Window, de Mehraneh Salimian e Amin Pakparvar
Berlinale Documentary Award

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• Melhor Documentário: If Pigeons Turned to Gold, de Pepa Lubojacki
• Menção Especial: TUTU, de Sam Pollard
• Menção Especial: Was an Empfindsamkeit bleibt (Sometimes, I Imagine Them All at a Party), de Daniela Magnani Hüller
E é isso, fim do Festival de Berlim 2026. Acompanhe as redes sociais do Oxente Pipoca para não perder nenhum dos desdobramentos!
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