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  • Crítica | O Segredo de Widow’s Bay (1ª temporada)

    Série se apropria com segurança da linguagem do horror num equilíbrio impecável do gênero com a comédia. Imagem: Divulgação Mesmo à primeira vista diametralmente opostos, horror e comédia são gêneros que de alguma forma se encontram na quebra de expectativa e na manipulação que exercem sobre o público, bem como no fato de apostarem em reações extremas (seja o riso ou o susto). Não à toa a última década tem visto a emergência de diversos realizadores egressos da comédia que se lançaram no horror – mas sem deixar de lado suas raízes –, como Jordan Peele e Zach Cregger. Agora, com O Segredo de Widow’s Bay, a fusão entre os dois gêneros alcança um novo patamar. Criada por Katie Dippold, ela própria egressa da comédia (tendo sido roteirista da saudosa Parks and Recreation), a série é ambientada na cidadezinha insular homônima, que há séculos lida com seu isolamento do continente e fenômenos mais do que estranhos, mas que, contudo, são relevados ou só ignorados pelos seus habitantes, a começar pelo seu cético prefeito Tom Loftis (Matthew Rhys), que quer fazer do lugar um ponto turístico na Nova Inglaterra. Mas, como se não bastasse a excentricidade de habitantes locais como o pescador Wyck (Stephen Root), a dificuldade de lidar com seus colegas de trabalho como Patricia (Kate O’Flynn) ou até os conflitos com o filho adolescente Evan (Kingston Rumi Southwick), aos poucos Tom começa a perceber que talvez os mitos de Widow’s Bay tenham sim um embasamento na realidade, e que forças ocultas atuam sobre a ilha. O Segredo de Widow’s Bay não se furta a indicar as referências de que bebe, seja dos clássicos da literatura de horror de Stephen King, do cinema de John Carpenter ou até de outras séries como Lost, Twin Peaks e a já referida Parks and Recreation (no humor extraído da burocracia do serviço público e das excentricidades locais). Pelo menos cada episódio aponta para um tropo ou referência específica – seja a casa assombrada do segundo episódio, o folk horror do sexto ou o slasher do oitavo. O que Dippold faz com maestria é pegar esse conjunto de referências e embalar em uma obra com muita identidade própria, que chega muito consciente do que quer entregar, especialmente à medida que vai revelando suas cartas acerca da mitologia local e dos elementos sobrenaturais. Imagem: Divulgação A direção do veterano Hiro Murai – cujo trabalho em Atlanta, Legion, Barry, Station Eleven e outras séries o reputou como um dos diretores mais conceituados da televisão contemporânea – já nos três primeiros episódios ajuda desde o início a estabelecer o tom da série, que se equilibra nessa linha tênue entre horror e comédia sem pesar a mão sobre um gênero em detrimento do outro, mas sabendo exatamente qual é o mais apropriado para aquele momento. Assim, é uma constante ao longo da temporada que o susto venha acompanhado do riso e vice-versa, e esse controle seguro sobre o tom adotado pela série só é possível pelo respeito que ela tem por ambos os gêneros, exibindo sua autoconsciência a respeito dos tropos e clichês com que trabalha, mas evitando cinismo ou desprezo como tantas produções atuais. Esse tom também é refletido nas atuações da série, a começar pela de Matthew Rhys no papel principal. Para quem, como eu, tem na memória seu soturno e angustiado Philip Jennings de The Americans (talvez meu personagem masculino favorito da história da televisão), ver Rhys exercendo suas habilidades cômicas é uma grande surpresa, mas o ator acerta em toda a composição de Tom, como uma figura cética, cansada e desesperada por trazer vida à cidade. À medida que a temporada avança e o personagem é forçado a confrontar os horrores de Widow’s Bay, Rhys ainda consegue aprimorar ainda mais esse timing cômico, sobretudo no quinto episódio; mas também há espaço para ele oferecer momentos pungentes de drama e ternura, como no último episódio. Ainda assim, ouso dizer que Rhys não é o grande destaque da temporada, porque esse posto talvez pertença a Kate O’Flynn. Sua Patricia começa discreta, mas já chamando a atenção pela figura socialmente desajustada e que serve tanto de apoio quanto contraponto a Tom. Mas quando ela recebe os holofotes no quarto episódio – e mais tarde no oitavo –, fica claro que tanto a personagem quanto a atriz são a verdadeira arma secreta da série, roubando a cena até em episódios na qual aparece menos. Outros nomes também se sobressaem, como Stephen Root, Dale Dickey (que tem toda uma sequência no nono episódio que disputa fácil pelo posto de mais hilária da série), a veterana K Callan e aparições especiais como Betty Gilpin e Hamish Linklater. Talvez Kingston Rumi Southwick tenha o trabalho mais ingrato aqui, já que todo o núcleo adolescente da série atende bem demais aos tropos de horror em termos de serem figuras insuportáveis e imbecis pelas quais torcemos que morram rapidamente, figurando como o único elo fraco da temporada. Ainda assim, fica evidente pelo episódio final que há grandes promessas no futuro para ele, então é torcer para que sua figura seja amadurecida e melhor trabalhada nas temporadas futuras. Com uma primeira temporada praticamente irrepreensível, O Segredo de Widow’s Bay pode figurar como talvez a melhor estreia do ano até o momento. Felizmente, o boca-a-boca ajudou a dar gás e trazer público para a série (que, como tantas outras da AppleTV, sofre com o marketing porco do streaming), e com a confirmação da sua segunda temporada, mal vejo a hora de voltar a esse lugar esquecido por Deus e rir e me assustar em igual medida. Nota: 4.5/5

  • Entrevista | “O corpo fala quando não conseguimos processar certas coisas”: diretora e protagonista falam sobre "As Correntes"

    Milagros Mumenthaler e Isabel Aimé Gonzalez-Sola comentam a criação de uma personagem que tenta compreender um gesto sem explicações fáceis. Imagem: Divulgação Imagine que você está no auge da sua carreira. Acabou de receber um convite para um prêmio na Suíça e passa os dias cercada por admiradores e pessoas que acompanham seu trabalho. Em meio ao evento, você encontra uma brecha para sair daquele lugar e caminhar pela cidade. Sem pressa, sem rumo, apenas observando as ruas ao redor. Então, ao passar por uma ponte, em um ato tão espontâneo quanto respirar, você se joga no rio. É assim que começa As Correntes, novo filme da diretora e roteirista argentina Milagros Mumenthaler. A história acompanha Lina, interpretada por Isabel Aimé Gonzalez-Sola, uma mulher que já não consegue habitar a própria vida da mesma forma. De forma silenciosa, uma fobia à água começa a reorganizar sua rotina, seus vínculos e a imagem de controle que ela construiu ao redor de si. O Oxente Pipoca pôde assistir ao filme com antecedência e conversar com Milagros Mumenthaler e Isabel Aimé Gonzalez-Sola sobre a origem da história, o processo de construção da personagem e os desafios de dar forma a uma narrativa que prioriza o sentimento ao entendimento. Depois de circular por festivais no Brasil e no exterior, incluindo o Festival do Rio, As Correntes estreia nos cinemas brasileiros em 18 de junho, com distribuição da Filmes do Estação. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Poderia falar sobre o processo criativo de “As Correntes”? O que veio primeiro para você: uma personagem, um roteiro, um sentimento ou algo completamente diferente? Milagros Mumenthaler: A semente deste filme foi uma imagem. Eu estava em Genebra caminhando à beira do rio e imaginei uma mulher se jogando na água. É uma imagem que permaneceu comigo por muito tempo e que me levantou muitas perguntas. Quem é ela? É um ato consciente? É um ato inconsciente? E havia também a questão da água. Então já existiam três elementos muito fortes. Um gesto, uma ação e um elemento. A partir daí comecei a desenvolver esta história. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Lina parece experimentar uma sensação de não pertencimento à própria vida, embora, do lado de fora, tudo pareça estável. Ela tem a carreira, o marido, a família… Então, quando você leu o roteiro pela primeira vez, qual foi sua primeira impressão da personagem? E como foi construir um sentimento tão difícil de definir, mas ao mesmo tempo tão reconhecível para tantas pessoas? Isabel Aimé Gonzalez-Sola: Quando li o roteiro, li uma vez só. Ele me provocou uma emoção muito forte, mais física do que intelectual. Não surgiram tantas perguntas; surgiu uma sensação muito intensa, como se eu tivesse entrado no imaginário de alguém. Senti uma conexão muito forte com o que ela estava vivendo. Sempre tentei conservar essa primeira emoção o mais pura possível dentro de mim, além de todo o processo, que foi muito longo, muito rico e muito fértil, que fizemos para entrar formalmente na personagem. Mas eu sempre voltava àquela primeira sensação. No fundo, parecia haver algo do estado dessa personagem: alguém muito próximo da própria vida, muito vital, mas que atravessa uma distância dentro de si mesma. Uma mulher que volta a se perguntar quem é, por que está ali e que coloca tudo novamente em questão, tudo o que construiu. Esse estado vertiginoso foi o que o roteiro mais produziu em mim quando o li, e foi isso que tentei manter vivo na atuação, sem responder essa pergunta. Como se não fosse algo psicológico, mas realmente um estado. Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Algo que ficou comigo após assistir ao filme é que o salto de Lina não parece totalmente racionalizado ou mesmo inteiramente intencional. Ele parece nascer menos de um desejo de morrer e mais de um profundo esgotamento. Como você trabalhou para construir uma ação que funciona mais como impulso do que como explicação? Milagros Mumenthaler: Sim. Eu estava interessada em trabalhar a ideia de que o corpo tem memória e de que o corpo fala muitas vezes, manifesta-se quando a pessoa não quer ver ou não consegue processar certas coisas mentalmente. É como se, de repente, o corpo falasse. Também me parecia importante que esse gesto não fosse o fim de alguma coisa, mas o começo de alguma coisa. Que a personagem tivesse de voltar e se perguntar: “Por que eu fiz o que fiz?”. Esse caminho inverso me parecia muito mais interessante para contar esta história, porque as respostas não estão dadas. Na vida não existe resposta para tudo, e há algo de misterioso na vida que me interessava preservar. Se aquele gesto fosse o fim, seria como oferecer uma resposta muito mais concreta. Por isso, desde o início, a ideia foi: existe esse gesto, e agora vamos ver o que acontece depois. E esse também foi um caminho difícil em termos de roteiro. Depois de uma imagem assim, de um ato assim, a pergunta era: o que acontece depois? Como sustentar essa história?

  • Produtora sergipana abre seleção de atrizes para longa-metragem afrofuturista

    Floriô de Cinema busca mulheres negras e indígenas residentes em Sergipe para integrar o elenco de "Abya Yala – Raízes do Futuro". Imagem: Arte de Divulgação Estão abertas as inscrições para a chamada de elenco do longa-metragem Abya Yala – Raízes do Futuro (título provisório), nova produção da Floriô de Cinema, em Sergipe. A seleção busca mulheres negras (pretas ou pardas) e indígenas, cis ou trans, nas faixas etárias de 25 a 35 anos e de 55 a 70 anos. As interessadas devem residir em Sergipe e ter disponibilidade para participar de ensaios e filmagens entre janeiro e novembro de 2027. As inscrições são gratuitas e podem ser realizadas por meio de formulário online. Dúvidas deverão ser enviadas através do e-mail: floriodecinema@gmail.com O filme acompanha Dandara, uma mulher que vive no ano 3000 e viaja para o passado em busca da árvore de Abya Yala, único ser capaz de regenerar a flora de um futuro devastado pela crise ambiental. Ao chegar em 2030, ela descobre que sua comunidade enfrenta os impactos da expansão de uma empresa de data centers. Ao lado de sua ancestral Anaxé, precisará lutar para salvar tanto o passado quanto o futuro. Segundo a diretora Carolen Meneses, a obra propõe uma reflexão sobre memória, ancestralidade e preservação ambiental a partir de perspectivas africanas, indígenas e quilombolas.“A minha ideia com este projeto é falar sobre a importância da preservação da memória na construção da nossa identidade. Durante o processo de pesquisa das filosofias africanas, indígenas e quilombolas, percebi que elas acreditam que todo ser vivo é detentor de uma energia vital. No Abya Yala busco disseminar essa cosmovisão de respeito à natureza como esperança de futuro”, afirma. Para a cineasta, realizar seu primeiro longa-metragem em Sergipe também representa um marco para o audiovisual local. “Poder contar com um aporte financeiro é importante porque nos garante autonomia para fortalecer os cinemas negros e descentralizados. Acreditamos na importância dos investimentos públicos para consolidar e ampliar essas cinematografias”, destaca. A Floriô de Cinema é uma produtora sergipana comprometida com o impacto cultural por meio do audiovisual. Em trabalhos como Corpus-Água e Ímã de Geladeira, desenvolve narrativas que atravessam memória, território e identidade, apostando em um cinema capaz de remodelar imagens, criar novas histórias e ampliar as possibilidades de representação no imaginário coletivo. Abya Yala – Raízes do Futuro é uma realização da Floriô de Cinema, financiado por meio do edital nº 06/2023 — Tarcísio Duarte, executado pela Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe — FUNCAP/SE, com recursos da Lei Complementar Federal nº 195/2022 — Lei Paulo Gustavo e incentivo do Governo de Sergipe, Ministério da Cultura e Governo Federal.

  • Entrevista | “Enquanto eu for exceção, isso ainda é um problema”: Jeferson De fala sobre audiovisual negro, Narciso e M8 – Parte 2

    Diretor celebra a indicação ao Prêmio Grande Otelo, reflete sobre os avanços do audiovisual negro após o Dogma Feijoada e comenta os próximos projetos para o cinema e a televisão Divulgação: Vantoen Pereira Jr. Entre o reconhecimento no cinema e os novos desafios na televisão, o diretor e roteirista Jeferson De vive um dos momentos mais movimentados de sua trajetória. Responsável por obras marcantes como Bróder, M8 – Quando a Morte Socorre a Vida e Doutor Gama, o cineasta acaba de celebrar a indicação de Narciso ao Prêmio Grande Otelo de Melhor Filme Infantil. A produção, que acompanha a jornada de um menino negro em busca de identidade, pertencimento e afeto, tem sido apontada como uma das obras mais sensíveis de sua carreira. Ao mesmo tempo, Jeferson finaliza Carolina, adaptação inspirada na obra de Carolina Maria de Jesus, desenvolve M8 – Parte 2 e integra a equipe de direção da próxima novela das sete da TV Globo. Em entrevista ao Oxente Pipoca, o cineasta falou sobre os desafios de transitar entre cinema e televisão, os avanços e obstáculos para realizadores negros mais de duas décadas após o Dogma Feijoada, seus próximos projetos e a importância de contar histórias negras centradas na vida, nos afetos e na experiência coletiva proporcionada pela arte. Confira a entrevista completa: Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Você está vivendo um momento muito especial na carreira, conciliando projetos no cinema e também na televisão. Como é equilibrar essas diferentes frentes de trabalho como diretor? Jeferson De: É difícil, mas não vou dizer que seja difícil conciliar porque, para mim, é muito prazeroso. No fundo, eu trabalho com o mesmo ofício: a direção. Talvez a grande diferença seja que, no cinema, eu possa ser mais autoral. É também um trabalho muito artesanal. O cinema é um lugar onde consigo experimentar mais: tempos, elencos menos óbvios para determinadas tramas, trilhas sonoras e todo o universo audiovisual. Posso propor temas que nem sempre são usuais. Foi o caso de Narciso, por exemplo, que traz discussões nem sempre características dos produtos que faço na televisão. Já na novela, qualquer capítulo que eu dirijo alcança mais de 20 milhões de pessoas. No cinema, o público precisa comprar o ingresso; na televisão, basta ligar o aparelho e a história está ali. Existe também uma diferença industrial muito grande. No cinema, às vezes faço três ou quatro cenas em um dia. Na novela, faço 20, 26 cenas. Mas também tenho tido o privilégio de trabalhar na TV Globo com atores que sempre admirei. Estou falando com você agora e, há meia hora, estava dirigindo a Renata Sorrah. Já trabalhei com Tony Ramos, Glória Pires, Ailton Graça e tantos outros artistas que também têm uma relação forte com o cinema brasileiro mais autoral. Por isso, para mim, a relação é muito parecida. A maneira como dirijo é praticamente a mesma. Talvez seja um pouco mais rápida por conta da dinâmica industrial da televisão. Mas a trupe do circo é a mesma, seja no cinema ou na TV. No caso de Narciso, por exemplo, eu tinha acabado de fazer Garota do Momento na Globo. Levei para o filme pessoas com quem já havia trabalhado, como Ju Colombo. O Bukassa fez Narciso e agora está em Nobreza do Amor. Existe esse trânsito constante entre os dois universos. Tem sido um momento muito bonito da minha carreira. Principalmente porque, aqui na Globo, existe uma compreensão muito grande sobre o meu trabalho no cinema. Embora eu venha do cinema independente, me sinto muito acolhido. Sempre que surge a oportunidade de fazer um filme, existe diálogo. Posso dizer: “Depois dessa novela, gostaria de fazer um filme”, e isso é respeitado. Então, tem sido uma experiência muito rica esse diálogo entre o mercado, o cinema independente e o que temos de mais industrial no audiovisual brasileiro. Ao mesmo tempo, são recursos completamente diferentes. Na televisão, consigo ter 50 figurantes vestidos de época de um dia para o outro. No cinema, isso exige uma elaboração muito maior. Mas, no fim das contas, a vontade de contar histórias é a mesma. Vem dessa herança africana, dessa tradição griô de contar histórias. É isso que move tanto o meu trabalho no cinema quanto na televisão. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Como você mesmo comentou, este é um momento muito especial da sua carreira, de muitas conquistas e alegrias. E falando especificamente de Narciso, como você recebeu a indicação ao Prêmio Grande Otelo? Eu fiquei muito feliz quando vi a notícia e imagino que, para você, também tenha sido uma emoção enorme. É um filme que coloca uma criança como protagonista e aborda temas como fé, pertencimento e identidade de maneiras muito sensíveis. O que essa indicação representa para você? Jeferson De: Foi uma alegria muito grande para todos nós. Para mim, de forma especial, porque escrevi e dirigi o filme, e também para a Cristiane Arenas, nossa produtora. Estamos falando sobre a infância negra e acredito que Narciso ocupa um lugar de mudança de paradigma. Durante 90 minutos, o público acompanha uma história protagonizada por pessoas pretas retintas. A maioria do elenco é formada por pessoas pretas retintas e talvez a gente apresente algo que, infelizmente, ainda é revolucionário no Brasil e no mundo: nenhuma dessas pessoas morre ao final do filme. Só o fato de contar uma história em que pessoas pretas vivem, amam e constroem seus afetos já é algo muito diferente do que normalmente vemos. Em geral, quando personagens negros protagonizam narrativas, existe uma relação muito próxima com a morte, com a violência ou com a ausência de futuro. Em Narciso, eu quis contar uma história sobre a vida e sobre os afetos. Esse é o meu filme mais pessoal e mais autoral. Significava muito para mim e para toda a equipe realizar esse projeto. Tivemos uma fotógrafa preta, um elenco majoritariamente negro e uma equipe comprometida com essa visão. Por isso, festejamos muito essa indicação. Quando uma obra é reconhecida por sua ousadia, isso tem um significado especial. A indicação ao Prêmio Grande Otelo, escolhida pelos sócios da Academia Brasileira de Cinema, também chama atenção para a importância desse debate. Não é apenas um reconhecimento ao trabalho da equipe, do elenco ou da produção, mas um sinal de que o cinema brasileiro está olhando para essas histórias e entendendo sua relevância. Narciso fala sobre o afeto preto e, sobretudo, sobre o afeto da criança preta. Temos consciência de que as crianças estão entre os grupos mais vulneráveis à violência no Brasil. Quem é pai ou mãe sabe o quanto existe preocupação com a segurança dos filhos, seja na rua, na escola ou em qualquer espaço da vida urbana. E quando falamos das crianças mais afetadas pela violência, estamos falando principalmente das crianças pobres. E quem são, em sua maioria, essas crianças? São as crianças negras. O filme chega justamente nesse ponto mais frágil da nossa sociedade. Por isso, recebo essa indicação como um reconhecimento de que é possível falar sobre essas questões com sensibilidade. É o cinema dizendo que essas histórias importam. Estamos falando da maioria da população brasileira, que nem sempre aparece como protagonista das obras audiovisuais. Foi uma indicação que recebemos com muita alegria e também com a sensação de que essa história encontrou seu público e seu lugar dentro do cinema brasileiro. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu fiz essa mesma pergunta para a Lilian Santiago quando ela esteve em Sergipe, em abril, para uma masterclass sobre o Dogma Feijoada. Mais de duas décadas depois do manifesto, quais avanços você celebra e quais desafios ainda permanecem para realizadores negros no audiovisual brasileiro? Jeferson De: São vários avanços. Um deles é que ficou muito mais barato produzir um filme. Quando criamos o Dogma Feijoada, há cerca de 25 anos, era necessário filmar em negativo, revelar o material e depender de laboratórios que existiam basicamente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Hoje, de certa forma, houve uma democratização do acesso aos meios de produção audiovisual. Atualmente, você pode gravar um filme com qualidade 4K usando um celular, editar em aplicativos gratuitos e, principalmente, distribuir esse conteúdo. A possibilidade de fazer o audiovisual circular se tornou muito mais acessível. Mas talvez o avanço mais importante tenha sido o acesso à educação. Não existe cineasta negro ou negra que consiga fazer cinema sem estudar. É preciso estudar fotografia, artes visuais, dramaturgia, linguagem audiovisual, ler muito. E, nesse sentido, um fator fundamental foi a política de cotas. Estamos vivendo um momento em que uma grande população negra jovem chegou às universidades, aos cursos de cinema, audiovisual, humanas e até de exatas. Muitas dessas pessoas se tornaram realizadoras depois. Isso mudou profundamente o cenário. A tecnologia também nos permitiu criar redes. Quando surgiu o Dogma Feijoada, éramos um grupo de seis ou sete pessoas em São Paulo. Com o avanço tecnológico, participei de outro momento muito importante para o audiovisual negro brasileiro: o surgimento da APAN, a Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro. A APAN conectou profissionais de todo o país. Hoje faço parte de uma rede que reúne realizadores de Porto Alegre, Salvador, Maranhão, São Paulo, Rio de Janeiro e muitos outros lugares. A tecnologia teve um papel decisivo nesse processo de articulação. Por outro lado, apesar desses avanços, ainda existem barreiras importantes. O acesso aos grandes streamings, às grandes estruturas de produção e às emissoras de televisão continua sendo difícil. Ainda é um espaço muito restrito. Eu não sou a regra. Eu ainda sou uma exceção. Sou alguém que consegue fazer um filme a cada dois ou três anos, que vive de audiovisual, que sustenta a família trabalhando com isso. Essa ainda não é a realidade da maioria dos realizadores negros no Brasil. O grande desafio continua sendo ocupar esses espaços de decisão, especialmente dentro dos grandes players do mercado audiovisual. E, nesse momento, mais do que aumentar o número de atores e atrizes negros, a urgência é ampliar a presença de produtores e produtoras negras. Precisamos de produtores independentes, mas também de profissionais negros ocupando cargos de decisão dentro das grandes empresas. Pessoas que possam definir para onde vão os recursos, quais histórias serão contadas e quais projetos terão oportunidade de existir. Eu trabalho em uma emissora que tem demonstrado disposição para experimentar e olhar para lugares que historicamente não recebiam tanta atenção. Quando estreou Garota do Momento, por exemplo, as três novelas exibidas naquele período tinham protagonistas negras. Isso é significativo. Uma das minhas maiores felicidades é poder contribuir para esse movimento tanto no cinema quanto dentro de uma estrutura como os Estúdios Globo, que é a maior produtora audiovisual do país. Mas a verdade é que, se eu ainda sou visto como exceção, então ainda existe um problema. O dia em que deixarmos de ser exceção será o dia em que poderemos dizer que o projeto iniciado lá atrás pelo Dogma Feijoada alcançou plenamente seus objetivos. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Você falou um pouco sobre esse momento tão especial da sua carreira e eu queria pedir um panorama do que vem por aí. E preciso fazer um comentário: Garota do Momento foi a minha novela favorita. Eu era completamente obcecada pela trama. Agora estou muito ansiosa pela próxima novela das sete, que pelo que vi tem um tom mais dramático e traz novamente um protagonista negro, algo que chama bastante atenção. Além disso, você também está envolvido em Carolina, cujas gravações já foram concluídas, e em M8 – Parte 2, uma sequência que gerou uma repercussão enorme quando anunciamos no Oxente Pipoca. Muita gente comentou dizendo que esperava por essa continuação. Queria que você falasse um pouco sobre esses projetos e sobre o que o público pode esperar dos seus próximos trabalhos. Jeferson De: O Carolina está em fase de finalização. Tenho uma relação muito especial com a obra da Carolina Maria de Jesus. Há mais de 20 anos fiz um curta-metragem inspirado em sua trajetória, Carolina, que praticamente me lançou no cinema. Ganhei muitos prêmios com aquele trabalho e ele ajudou a viabilizar meu primeiro longa-metragem. Por isso, esse novo projeto, baseado em Quarto de Despejo, tem um significado enorme para mim. Acho que todo mundo está ansioso para vê-lo, mas talvez ninguém esteja mais ansioso do que eu para finalmente mostrar esse filme ao público. Já M8 – Parte 2 dialoga muito com a discussão que tivemos sobre as transformações no acesso à educação. Hoje é muito mais possível para jovens negros ingressarem na universidade do que era há algumas décadas. Isso representa uma revolução na sociedade brasileira. Muitos meninos e meninas negras são os primeiros de suas famílias a chegar ao ensino superior. Mas entrar na universidade é apenas uma parte da jornada. O mais difícil, muitas vezes, é permanecer nela e concluir o curso. E o M8 sempre tratou dessas questões. Costumo dizer que o primeiro filme acompanha o primeiro semestre daquele estudante de Medicina. Agora, na continuação, ele já está formado e surge uma nova pergunta: "E agora, o que eu faço?". Esse é um lugar muito complexo. Conversei com muitos médicos e médicas negras recém-formados, com coletivos de profissionais negros da área da saúde e ouvi relatos sobre solidão, desafios e sobre ainda ocupar um lugar de exceção dentro da profissão. Existem coletivos de médicos negros espalhados pelo país e isso é algo muito bonito de ver. O novo filme acompanha justamente esse personagem já formado, que continua ligado à sua comunidade, ao seu bairro, ao seu território. E mostra as contradições que surgem quando alguém conquista espaço profissional sem romper seus vínculos com o lugar de onde veio. Estamos escrevendo o roteiro e pesquisando bastante. O primeiro filme nasceu muito do coração. Este também tem coração, mas talvez venha acompanhado de uma reflexão ainda mais aprofundada sobre essa geração de jovens negros que chegou à universidade e agora enfrenta os desafios do mercado de trabalho. E tem também a novela, que estreia em agosto. Estou muito ansioso. Confesso que peguei gosto por esse universo. O cinema é a minha vida. Tudo o que sou, tudo o que construí, as viagens que fiz e as oportunidades que tive vieram do cinema. E quando falo de cinema, não estou falando apenas do filme que assistimos em casa. Estou falando da sala escura, daquele espaço em que as luzes se apagam e a magia acontece. Narciso, por exemplo, foi pensado para a sala de cinema. Claro que depois ele poderá ser visto em outras plataformas, mas foi construído para essa experiência coletiva. Eu acredito profundamente na sala de cinema. É um espaço que continua me emocionando. Ali, pessoas desconhecidas compartilham sentimentos, emoções e reflexões ao mesmo tempo. É uma experiência única. Recentemente vivi momentos muito especiais assistindo a filmes em salas lotadas. Vi pessoas cantando, chorando, se emocionando juntas. E isso é algo que não acontece da mesma forma quando assistimos a um filme sozinhos em casa. Existe algo muito poderoso nesse encontro coletivo promovido pela arte. Você olha para o lado e percebe que outra pessoa foi tocada pela mesma cena que tocou você. É uma experiência humana muito bonita. Talvez o que esteja faltando em muitos momentos da nossa história recente sejam justamente essas experiências coletivas. A arte tem essa capacidade de reunir pessoas, seja em um museu, em um show, em um concerto ou dentro de uma sala de cinema. E o cinema continua sendo um dos lugares mais bonitos para que isso aconteça. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu sempre gosto de encerrar pedindo uma indicação para o nosso público. Pode ser um filme, uma série ou até uma peça. Só não vale indicar um trabalho seu — Narciso está fora da disputa. Pode ser uma obra favorita, algo que tenha te inspirado ou simplesmente uma recomendação que você gostaria de compartilhar. Jeferson De: O último filme que me tocou profundamente foi Pecadores (Sinners). Ele passou pelos cinemas e agora está disponível no streaming. É um filme que me marcou por muitos motivos: pela música, pelas interpretações e pela potência da narrativa. Também tive uma experiência muito especial porque depois pude conhecer o diretor e parte do elenco. Conversei com Michael B. Jordan e com uma das atrizes do filme. Isso tornou tudo ainda mais pessoal para mim. Acho que Pecadores é um exemplo do tipo de história que eu gostaria de contar no Brasil. Uma narrativa que fala da experiência negra, mas que ao mesmo tempo dialoga com todo mundo. No filme existem personagens irlandeses, indígenas, a população branca conservadora, enfim, todos esses grupos convivem dentro da mesma história. Foi uma experiência muito bonita e um filme que tocou muitas pessoas. Além disso, é um espetáculo cinematográfico. É daqueles filmes pensados para serem vistos na tela grande. Eu revi o filme várias vezes e continuo ouvindo a trilha sonora com frequência. Acho as músicas incríveis. Então, além de recomendar o filme, também recomendo conhecer o trabalho do Buddy Guy e ouvir um pouco de blues. Existe uma conexão muito bonita entre a música dele e o universo que o filme apresenta.

  • Crítica | O Urso (5ª temporada)

    Série ousa mexer em sua fórmula sem, no entanto, perder sua essência e assegura um final coerente com sua jornada. Divulgação É uma pena o quanto O Urso perdeu muito do seu apreço por parte do público e da crítica em face da discussão sobre se ela é uma série de drama ou comédia e em quais categorias devia ser nomeada no Emmy. Como apontei na minha crítica da quarta temporada, essa discussão é francamente estúpida e se tornou tão desproporcional que é lamentável ver a série chegar à sua quinta e última temporada com apenas uma fração do reconhecimento e aclamação que possuía nas primeiras. Mas em alguma medida essa perda de reconhecimento parece ter feito algum bem à série. Longe de ter que provar algo no cenário atual da TV e de suas premiações, ela entrega um último ano que se mantém fiel à sua essência enquanto faz algumas modificações perceptíveis em sua estrutura. A primeira delas é que praticamente todos os episódios são ambientados em um único dia – um dia no qual Chicago está se acabando em chuva – logo após o final da temporada passada, no qual Carmy (Jeremy Allen White) anunciou sua saída do The Bear e que a gestão do restaurante passaria para Syd (Ayo Edebiri), Natalie (Abby Elliott) e Jimmy (Oliver Platt). A partir dessa decisão de Carmy, a temporada redireciona seu foco para Syd, que assume o posto de liderança não só do restaurante, mas da própria série. Isso não significa que White seja escanteado, mas é perceptível que seu arco foi em grande parte “resolvido” na quarta temporada e o que temos aqui é uma passagem de bastão. Claro que isso não se dá de maneira harmoniosa – não seria O Urso se ocorresse dessa forma – mas o protagonismo que Syd assume durante os episódios se dá de maneira progressiva (mesmo com a temporada ocorrendo quase toda em tempo real) e muito orgânica. É um reflexo do próprio arco que a personagem foi tendo ao longo da série, e Edebiri segura as pontas com seu talento de sempre, nunca deixando de lado as nuances da personagem – que tem inseguranças e dúvidas e não deixa de cometer erros – mas cravando de uma vez por todas que é um dos nomes mais importantes da sua geração. Aliás, um dos maiores acertos da temporada é justamente de pegar os arcos nos quais seus personagens foram trabalhados e resolvê-los com bastante coerência perante o que foi apresentado deles nas temporadas passadas. Vemos Tina (Lisa Colón-Zayas), que abre a temporada numa cena singela, assumir uma posição de liderança junto a Syd na cozinha; Marcus (Lionel Boyce) lutando contra a pressão pelo prêmio que ganhou e a autossabotagem, mas se definindo como um chef talentoso, dedicado e sensível; Natalie (Abby Elliott) buscando uma forma de conciliar a maternidade com o trabalho que tem assumido no The Bear; Richie (Ebon Moss-Bacharach) entendendo e abraçando seu lugar como gerente e “cola” entre a equipe e os clientes, mesmo quando toma decisões à primeira vista irresponsáveis. Até personagens menos trabalhados e mais “esquemáticos” dentro da narrativa, como Neil Fak (Matty Matheson), Ebraheim (Edwin Lee Gibson), Gary (Corey Hendrix), Luca (Will Poulter) e outros conseguem espaço para brilhar. Divulgação Ao focar-se num único dia, que definirá o futuro do restaurante e dos personagens, O Urso se afasta de alguns excessos das temporadas anteriores – como os convidados especiais, reduzidos a uma ou outra cena muito pontual – enquanto abre mão de algumas de suas características mais marcantes – como as várias músicas licenciadas – para entregar uma narrativa focada, intensa e ansiosa (é claro), mas que mostra a progressão que a série e os personagens tiveram. Embora o caos de sempre esteja presente, ele é conciliado com momentos de respiro, como se a temporada buscasse equilibrar o frenesi da sua primeira temporada com o tom gradativamente mais reflexivo das posteriores. Com isso, a série consegue trazer certa leveza ao caos, sobretudo perante o humor – que, veja só, sempre fez parte dela! –, como atestado nos finais hilários do primeiro e terceiro episódio. E ainda que alguns elementos soem deslocados – em especial o uso dos Faks como alívio cômico em excesso nos primeiros episódios e a subtrama envolvendo Jimmy, Computer (Brian Koppelman) e sua sobrinha Cheese (Elsie Fisher) – o saldo geral é de uma temporada que avança inexoravelmente a um final coerente e satisfatório não só para ela, mas para uma série como um todo. Nesse sentido, o penúltimo episódio representa um clímax onde todos os pontos fortes de O Urso estão presentes, mas que registra o quanto seus personagens cresceram e a sintonia desenvolvida entre eles. Já o último episódio, com seu tom agridoce de despedida, coroa tudo que eles viveram até então, com as devidas recompensas e a certeza de que, para onde quer que eles forem, ficarão bem. Porque, mesmo com os percalços que possa ter tido em sua jornada, O Urso sempre encontrou força nos seus personagens e no amor que nos fazia sentir por eles. Sem dar maiores spoilers, mas há uma cena entre Carmy e Syd no último episódio que me levou completamente às lágrimas, e isso só é possível porque, mais do que o que aconteceu nela, temos todo o background desse percurso de anos desde o primeiro momento em que se encontraram, um mentor e sua protegida que se tornaram iguais e chegaram aonde estão aos trancos e barrancos, mas com um intenso e genuíno vínculo forjado entre eles. Portanto, a última temporada de O Urso nunca nos deixa esquecer do quanto nos importamos com seus personagens, do quanto lamentamos por seus erros e do quanto celebramos suas conquistas. É um final mais do que digno para uma série que por vezes ameaçou dobrar sob o peso do seu próprio sucesso, mas forjou seu próprio caminho e identidade e o levou até o fim, sabendo mudar no que queria sem perder sua essência e coerência. E ainda que a saudade deixada vá ser inevitável, é um prazer vê-la sabendo terminar no momento certo, como uma boa refeição que nos encanta e fica guardada em nossa memória. Adeus, chefs. Nota: 4.5/5

  • Crítica | O Urso (3ª temporada)

    Entre o brilhantismo e algumas imperfeições, a série segue fazendo jus à sua reputação Foto: Divulgação O Urso é uma série que vive e morre em seus personagens. A terceira temporada – já tão controversa, tão divisiva, tão menos amada que suas antecessoras – é a expressão máxima disso, já que em termos narrativos há pouco avanço, ainda mais considerando que ela e a próxima temporada foram concebidas como metades de um todo. Mas talvez seja aqui que a série expresse mais o quanto quer que olhemos para esses personagens, seus mundos internos, seja através do caos ou da (crescente) calmaria que inunda vários de seus episódios. Fomos deixados no final do segundo ano com a noite de abertura do restaurante que dá nome à série, um Carmy (Jeremy Allen White) preso literal e metaforicamente e afastando todos que ama – em especial Richie (Ebon Moss-Bacharach) e Claire (Molly Gordon) – enquanto Sydney (Ayo Edebiri) sucumbindo à ansiedade depois de fazer tudo para que a noite não fosse um completo desastre. No episódio de abertura da nova temporada, intitulado Amanhã, não vemos necessariamente o amanhã, mas sim o passado de Carmy, as pessoas que moldaram sua vida (em especial seu ex-chefe abusivo interpretado por Joel McHale) e o que isso diz do homem que ele é hoje. O episódio em si, marcado por uma não-linearidade e uma atmosfera até então única na série, serve como uma ponte entre os eventos da temporada passada e os dessa. É um começo ousado para uma temporada ousada, e o estranhamento é bem-vindo para nos dar a dimensão da psique fraturada do nosso protagonista, que por diversas vezes vai reproduzir com seus colegas e funcionários as mesmas tendências abusivas que o personagem de McHale exerceu contra ele, mesmo que seu passado também seja marcado por figuras tão maravilhosas como a chefe Terry (Olivia Colman, que retorna para mais algumas participações especiais). Jeremy Allen White tem a difícil tarefa de interpretar seu personagem na fase mais detestável possível – me remetendo a figuras como Don Draper no ponto mais baixo da vida lá em Mad Men – e não é exagero enxergá-lo como o antagonista da temporada. Mas é claro que nem tudo é preto no branco; sua cena confrontando um personagem no último episódio é uma verdadeira aula de atuação, que (espero eu) deve servir de ponto de virada para Carmy. Mas se ele é um buraco negro sugando todos ao seu redor, felizmente temos figuras como Sydney e Richie, com seus desenvolvimentos tão coesos e brilhantes. É uma delícia ver a camaradagem entre os dois, especialmente quando lembramos da hilária cena dela o esfaqueando lá na primeira temporada; assim como a proteção de Richie a Fak (Matty Matheson) ou a camaradagem de Syd com Marcus (Lionel Boyce, aparecendo menos do que deveria, mas sempre trazendo uma bem-vinda leveza com seu personagem) e sobretudo com Tina (Lisa Colón-Zayas). Não posso falar desta sem citar o belíssimo episódio 06 - Guardanapos, que nos conta como a personagem foi trabalhar no então The Beef e conheceu Michael (Jon Bernthal). Toda a sequência de mais de 10 minutos dos dois personagens apenas conversando, perante a câmera mais do que segura de Ayo Edebiri em sua estreia na direção, é um dos muitos pontos altos da temporada e da série, que indica a confiança que esta tem em seus personagens para conduzir a narrativa. Foto: Divulgação Mas serei um pouco do contra aqui para dizer que, ao contrário da maioria, não tenho Guardanapos como meu episódio favorito da temporada. Esse posto vai para o 08 - Lascas de Gelo, onde o destaque é dado a Natalie “Sugar” (Abby Elliott, o grande destaque da temporada na minha opinião) e sua complicada mãe Donna (Jamie Lee Curtis). Um episódio quase inteiramente focado nas duas, em close-ups que transparecem anos de mágoas e arrependimentos, mas também de amor, indicando a possibilidade de reconciliação e de redenção que cada vez mais se torna um mote na série. São dois episódios unidos por esses destaques individuais a essas personagens, e que revelam o melhor que O Urso tem a oferecer. Infelizmente, a temporada tem seus percalços que a impedem de atingir o mesmo nível das antecessoras, em especial da segunda. Embora eu adore Fak e algumas das cenas envolvendo ele e seu irmão Teddy (Ricky Staffieri), o excesso de cenas de apelo cômico dos dois no decorrer dos episódios acaba mais servindo como um desvio, que tampouco se encaixa no desenvolvimento sutil dos personagens num geral, mas numa tentativa da série de mostrar que, apesar de todas as evidências do contrário, ela é sim uma comédia, para justificar suas indicações ao Emmy. Mas talvez o grande problema aqui – e temo que tenha se tornado o grande problema da série como um todo – é o tratamento dado à Claire. Na temporada passada eu defendi a presença da personagem, que já era acusada por muitos como uma manic pixie dream girl, entendendo que o propósito narrativo dela era muito claro e bem-aplicado. Dessa vez, porém, a justificativa para seu espaço na história é muito menos clara, se entregando de fato a esse tropo da manic pixie, ou seja, uma mulher que existe unicamente para o desenvolvimento do protagonismo masculino. O mais estranho é ver logo O Urso – uma série que tem no retrato da saúde mental um dos seus pontos mais fortes – apelar para tal tropo, como se Claire fosse ser a tábua de salvação de Carmy (sendo que ele precisa de umas três sessões de terapia por semana para lidar com seus traumas, e não de uma mulher para salvá-lo de si mesmo). Além do mais, esse é um dos vários pontos que ficam em aberto ao final da temporada, já que, como disse, ela foi concebida como uma espécie de “meia-temporada”, o que explica seu ritmo mais vagaroso em relação às anteriores. Assim, há muitas coisas aqui que só poderão ser melhor julgadas após o lançamento da quarta temporada, mas é meu entendimento de que a temporada também deve ser olhada por si mesma. Nesse sentido, parece até meio irônico que Carmy seja o único a receber uma espécie de conclusão aqui no que se refere aos seus dilemas internos, já que todos os demais ficam em suspenso diante do que está por vir. Mas apesar dessa sensação de incompletude, ainda enxergo que O Urso se mantém extraordinariamente sólida em seu terceiro ano. Entendo os que desgostaram dos rumos tomados aqui ou consideraram a temporada mais fraca até o momento, mas aprecio e valorizo séries que não se acomodam com o lugar-comum, reinventando-se e tomando novos rumos mesmo que estes alienem seu público. Teria sido fácil para a série permanecer no caos e histrionismo da primeira temporada (e de fato o segundo e terceiro episódios nos relembram de como assisti-la pode ser uma experiência emocionalmente desgastante), mas é muito mais importante aqui ver esses personagens crescerem, mudarem, errarem, enfim, serem humanos. E mesmo com algumas imperfeições pelo caminho, esta nova temporada atende com maestria a essa proposta. Nota: 4/5

  • Crítica | Cinco da Tarde

    No novo longa de Eduardo Nunes, a melancolia da hora dourada se mistura ao luto e a descoberta Imagem: Divulgação Na maioria das vezes, quando nos deparamos com o fim da tarde, aquele momento ao mesmo tempo calmo e caótico, em que tudo parece precisar se encaixar antes que o dia termine de vez —, a sensação de nostalgia ou uma tristeza difícil de explicar surge com mais intensidade do que nunca. Seja observando o pôr do sol da varanda de casa ou apreciando o céu arroxeado pela janela do ônibus, aquela vontade de revisitar toda a sua vida até então é quase inevitável, como se cada tom do entardecer despertasse memórias, reflexões e sentimentos guardados ao longo da vida. Em Cinco da Tarde, do diretor Eduardo Nunes, esse é o sentimento recorrente. Mesmo com uma fotografia predominantemente em preto e branco, o filme funciona como uma majestosa representação de como a troca de experiências, memórias e dores pode se tornar um elo capaz de aproximar duas pessoas, transformando encontros cotidianos em conexões profundas e significativas, mas não necessariamente românticas. Na trama, Anabel, uma jovem de 17 anos que acabou de perder a avó com quem vivia, acaba se aproximando de Meiko, uma tímida vizinha que trabalha em uma floricultura local. Com o passar do tempo, essa aproximação revela sentimentos escondidos e semelhanças improváveis. Voltando ao apartamento da avó, Anabel encontra uma estranha presença, que a faz compreender melhor o momento em que está vivendo. Depois de se encontrarem de uma forma meio apressada mas intensa, as protagonistas passam a construir uma relação de apoio mútuo, de forma que a “luz” que faltava na vida de ambas é preenchida de forma sutil e gradual. A química entre as atrizes Bárbara Luz (Ainda Estou Aqui) e Sharon Cho é, sem dúvida, um dos grandes destaques da trama. Enquanto Anabel compartilha fragmentos de suas memórias com a falecida avó, Meiko encontra, aos poucos, espaço para se libertar das dores e dos sentimentos que a mantinham presa ao passado. Gravado em um Rio de Janeiro frio e, mais uma vez, melancólico, o tom sobrenatural do filme se concentra em locações que a avó de Anabel costumava frequentar ou saudar, à exemplo do Cine São Bento e a Igreja Porciúncula de Sant’Ana. O apartamento compartilhado entre Anabel e sua avó também funciona como um personagem na trama, representando uma redoma para os sentimentos da protagonista. A presença espiritual da falecida naquele ambiente, também serve como um impulso para que a protagonista deixe de lado os seus traumas. Ambientado em um Rio de Janeiro frio e, mais uma vez, melancólico, o tom sobrenatural do filme se constrói a partir de espaços carregados de memória e significado, como o Cine São Bento e a Igreja Porciúncula de Sant’Ana, locais que a avó de Anabel costumava frequentar ou reverenciar. O apartamento compartilhado entre neta e avó também assume um papel fundamental na narrativa, funcionando quase como um personagem. Mais do que um cenário, o espaço se torna uma redoma que abriga os sentimentos, lembranças e angústias da protagonista. A presença espiritual da falecida naquele ambiente atua como um constante lembrete do passado, mas também como um impulso para que Anabel enfrente a solidão e encontre em Meiko o seu ponto de equilíbrio. Ao transformar o luto, a solidão e a memória em elementos centrais de sua narrativa, Cinco da Tarde encontra beleza justamente nos momentos mais silenciosos da existência. Apesar de monótono em alguns momentos, o filme demonstra que algumas feridas não desaparecem por completo, mas podem se tornar mais leves quando compartilhadas. Nota: 4/5

  • Crítica | Homem-Aranha: Um Novo Dia

    Depois de anos preso ao universo compartilhado da Marvel, o herói finalmente volta a ser protagonista da própria história. Imagem: Divulgação Durante boa parte da última década, a Marvel pareceu perder justamente aquilo que a transformou no maior fenômeno do cinema de entretenimento. Depois do sucesso estrondoso da Saga do Infinito, o estúdio passou a apostar em um volume quase industrial de filmes e séries, transformando o que antes era um universo compartilhado em um verdadeiro esquema de pirâmide de consumo: para entender um lançamento, era preciso assistir a dezenas de produções anteriores, acompanhar séries do Disney+ e, de preferência, ainda conhecer os quadrinhos. O resultado foi um desgaste evidente. Enquanto Marvel e DC acumulavam fracassos de bilheteria e séries cada vez menos comentadas, o público demonstrava um cansaço natural com o gênero. Ainda assim, alguns acertos recentes mostraram que ainda existe espaço para boas histórias de super-heróis. Quarteto Fantástico: Primeiros Passos, por exemplo, já indicava uma tentativa de voltar ao básico: personagens fortes, conflitos claros e menos dependência de um universo gigantesco. Agora, essa missão chega às mãos do personagem mais popular da Marvel. Após o mundo esquecer sua identidade, Peter Parker inicia uma nova fase da vida, dividindo seu tempo entre a faculdade, um emprego de meio período e a responsabilidade de continuar protegendo Nova York como Homem-Aranha. Mas quando uma força misteriosa começa a destruir a cidade de dentro para fora, Peter se vê cercado por novos inimigos, antigos legados e aliados inesperados. Depois de três filmes que funcionavam muito mais pelo carisma do elenco e pela presença constante de figuras como Homem de Ferro, Doutor Estranho ou até dos outros Homens-Aranha do multiverso, Homem-Aranha: Um Novo Dia finalmente entrega aquilo que parecia tão óbvio, mas que a Marvel insistia em evitar: um filme que realmente é sobre o Homem-Aranha. Grande parte desse mérito passa pela direção de Destin Daniel Cretton, muito mais segura e inspirada do que o trabalho realizado por Jon Watts na trilogia anterior. O diretor entende que o maior superpoder de Peter Parker nunca foi lançar teias, mas continuar sendo um garoto comum tentando sobreviver a uma vida impossível. O filme recupera elementos que fizeram o personagem conquistar gerações: a solidão, a culpa, a nerdice, e, principalmente, a relação quase simbiótica com Nova York. A cidade volta a ter personalidade própria, deixando de ser apenas um cenário para explosões e batalhas gigantescas. Se em A Odisseia eu havia comentado que Tom Holland parecia deslocado, aqui acontece exatamente o contrário. Em Homem-Aranha: Um Novo Dia, o ator parece ocupar o lugar para o qual sempre foi escalado. Sua interpretação entrega um Peter Parker cheio de nuances, carregando o peso do luto pela Tia May, convivendo com o vazio provocado pelo esquecimento de seus amigos e tentando equilibrar o desejo de ter uma vida normal com a responsabilidade de proteger toda uma cidade. É um desempenho mais maduro e emocionalmente convincente, permitindo que Holland finalmente encontre sua própria identidade dentro do personagem. Obviamente, estamos falando de um filme da Marvel, então as conexões com o restante do universo compartilhado continuam existindo. A diferença é que, desta vez, elas funcionam a favor da narrativa. Imagem: Divulgação A presença do Justiceiro cria um interessante contraponto moral ao Homem-Aranha, enquanto as participações da Viúva Negra, Hulk e da misteriosa personagem vivida por Sadie Sink surgem de maneira orgânica dentro da história. Sink, aliás, rouba diversas cenas e desperta curiosidade desde sua primeira aparição. O roteiro finalmente entende algo que parecia esquecido pelo estúdio: os personagens convidados devem servir à história do protagonista, e não transformar o protagonista em coadjuvante do próprio filme. Outro acerto importante está na melancolia que atravessa toda a narrativa. O fato de Peter ser um completo desconhecido para aqueles que ama devolve ao personagem um sentimento constante de perda, algo muito presente tanto nos quadrinhos quanto nas melhores adaptações do herói. Nesse contexto, as cenas entre Tom Holland e Zendaya funcionam especialmente bem. Mesmo limitadas pelas circunstâncias da trama, elas preservam a química entre os atores e mostram um amadurecimento necessário para ambos os personagens. Homem-Aranha: Um Novo Dia está longe de ser perfeito. O terceiro ato ainda cai em alguns excessos típicos da Marvel, certas resoluções são rápidas demais e o estúdio continua incapaz de abandonar completamente a necessidade de preparar o terreno para futuras produções. Mas, pela primeira vez em muito tempo, essas amarras não sufocam a história principal. Mais do que um bom filme da Marvel, Homem-Aranha: Um Novo Dia é um ótimo filme do Homem-Aranha. Depois de anos servindo como peça de um quebra-cabeça maior, Peter Parker finalmente volta a ser o centro da própria narrativa. E talvez esse seja justamente o maior acerto do longa: lembrar que, antes de salvar o multiverso, o Homem-Aranha sempre foi mais interessante quando estava apenas tentando salvar sua cidade. Nota: 4/5

  • Crítica | Fúria (1ª Temporada)

    Elenco brilhante e ação bem construída se sobressaem ao enredo apressado. Imagem: Divulgação A série acompanha um jovem (Vinícius Neri) resgatado à beira da morte e sem memória que recebe o nome de Marcelo. Ajudado por um treinador de MMA, ele encontra na luta um novo propósito, mas descobre que seu passado esconde uma perigosa rede de crimes e segredos. Fúria mistura, muito bem, drama, ação e suspense policial. A produção entende bem como usar o corpo em movimento para fazer a história andar, as lutas não estão ali só pelo impacto visual, elas revelam os conflitos internos dos personagens, é nessas cenas que a série realmente se destaca. Os combates são bem coreografados, têm uma energia que transmite tensão e peso, e, enquanto isso, a investigação sobre o passado do Marcelo consegue manter o público instigado para além dos picos frenéticos. É nesse equilíbrio que a série se mostra mais firme, criando momentos que prendem a atenção de maneira orgânica. Parte disso vem direto do elenco, que sustenta a trama e dá conta da carga emocional que a história pede. Alice Carvalho, Fabio Lago e Eduardo Moscovis trazem personalidade para cada núcleo, fazendo com que todos tenham relevância. E no centro de tudo, Vinícius Neri encara uma grande responsabilidade e não se apequena diante de nomes mais experientes. Para além da presença física impressa num trabalho de corpo excepcional, o ator também consegue passar a vulnerabilidade de alguém tentando reconstruir a própria história, e isso faz do Marcelo um protagonista que convence a curto e longo prazo. Outra grata surpresa é o MC Cabelinho, que aparece seguro diante da câmera e encontra pequenas sutilezas que fazem a participação dele ir bem além do que um simples coadjuvante. Imagem: Divulgação O ponto fraco de Fúria está no ritmo do enredo geral. É perceptível que a história teria fôlego para uma temporada mais longa, com espaço para desenvolver com calma as tramas paralelas que circulam em volta de Marcelo. Mas a série parece o tempo inteiro estar correndo contra o relógio pra dar conta de personagens, conflitos e revelações. Essa pressa deixa a narrativa picotada, como se momentos importantes chegassem sem o tempo certo para amadurecer. O que deveria ser uma contagem regressiva cheia de tensão às vezes passa a impressão de uma correria, de certo modo, sem necessidade. Ainda assim, Fúria tem competência o bastante para que seus acertos falem mais alto que as limitações do roteiro. As boas atuações, a direção das cenas de ação e a forma como os confrontos são construídos mostram que a série sabe exatamente a experiência que quer entregar. A questão é que essa velocidade toda acaba afetando até mesmo o impacto de algumas surpresas e o momento das reviravoltas, que poderiam bater com mais força se tivessem sido preparadas com mais cuidado. É uma série que tem potencial, encontra caminhos interessantes para explorá-lo, mas teria se beneficiado bastante de um respiro maior para trabalhar os personagens e fazer com que cada descoberta chegasse ao espectador com a intensidade que realmente merecia. Nota: 3,5/5

  • Entrevista | “O filme carrega estruturalmente uma ambiguidade, como se estivesse entrando e saindo de algumas camadas psíquicas”: Gregorio Gananian e Negro Leo falam sobre 'Aquele que Viu o Abismo'

    Diretores e protagonista do longa comentaram sobre a criação de um universo futurista com diferentes perspectivas de realidade. Imagem: Divulgação Estreou nesta quinta-feira (30), Aquele que Viu o Abismo, com direção de Gregorio Gananian e do maranhense Negro Léo, que também assume o protagonismo do filme. A trama acompanha X (Leo), um homem que luta para sobreviver em um mundo distópico cheio de assassinatos e experiências alucinógenas, enquanto é perseguido pela Prolife, uma empresa que recruta civis com a promessa de garantir a vida eterna. Após vencer o prêmio de Melhor Filme na Mostra Olhos Livres da 27ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, o longa chega aos cinemas brasileiros trazendo uma narrativa frenética e intensa. Ainda com nomes como: Ava Rocha, Danielly OMM Kaufmann e Clara Choveaux, Aquele que Viu o Abismo testa os limites da capacidade humana e leva o espectador a duvidar de sua própria realidade. Em entrevista ao Oxente Pipoca, Gregorio Gananian e Negro Leo falaram sobre a construção da identidade visual do longa, os simbolismos que permeiam sua narrativa distópica, a mescla entre realidade e ilusão, a importância da produção cinematográfica no Nordeste e o reconhecimento na 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Confira a entrevista completa abaixo: Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Gente, o filme apresenta um futuro distópico que, ao mesmo tempo, parece bem próximo da nossa realidade. Em que momento vocês perceberam que esse universo precisava ser construído dessa forma? Mais reconhecível do que futurista? Gregorio Gananian: O nosso processo de filmagem não foi primeiro escrever o roteiro e depois filmar, primeiro sonhar uma imagem, para depois construí-la. Foi viver uma experiência e, a partir dessa experiência, a partir dessa imagem, chegar a ver o que a imagem ensinava para a gente. Então, lógico, eu já tinha feito uma viagem para Xangai. Todo mundo sabe, hoje em dia, que a China tem um caráter futurista, aqueles prédios imensos, incríveis. Então, a gente mais ou menos imaginava alguns lugares que a gente passaria. Mas todo esse aspecto do futuro é formidável, porque você vai para a China e eles estão um pouco no futuro. Então, deu um pouco essa sensação. Mas eu sinto, eu pressinto isso, que foi filmar, e aí, a partir da filmagem, sentir o que ela exalava, qual história ela contava para a gente, não história, mas qual melodia ela estava cantando para a gente. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): A ProLife promete alguma coisa que acompanha a humanidade há séculos, que é a vida eterna. Então, o que essa empresa simboliza dentro da narrativa? Ela representa uma crítica ao capitalismo ou também dialoga com outras formas de poder? Negro Leo: Olha, Giulia, a ProLife, na verdade, ela representa, ela é um arquétipo, de certa forma, poderia colocar assim, ela é um arquétipo da exploração capitalista, do avanço da civilização ocidental sobre as outras culturas que não são as culturas que estão dentro do Ocidente. Entende? Então, a gente sabe que o capitalismo, na verdade, a todo momento está propondo novas experiências, experiências que são degradantes para a espécie humana, entendeu? E para a natureza, de forma geral. Então, esse nome é irônico, desse ponto de vista, para o espectador sacar, é uma ironia. Então, é mais ou menos por aí a ideia dessa empresa. Mas, de fato, é. Sim. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): A identidade visual, ela parece desempenhar um papel importante na experiência do espectador. A maior parte do filme é cheia de movimentos, assim, e as cenas estáticas, as poucas que tem, parecem estar num movimento bem frenético. Como foi o trabalho para criar uma atmosfera que traduzisse esse estado constante de instabilidade vivido pelo protagonista? Gregorio Gananian: Aconteceu o seguinte, é muito interessante, o personagem, ele tem uma mão que tremula. Eu sentia que a câmera era como se a mão fosse um chocalho, assim, como se ela fosse um ritmo. No primeiro dia de filmagem na China, eu estava numa experiência muito próxima de um filme anterior, trabalhando com plano fixo, com tripé, só que, de repente, tiveram duas coisas que aconteceram simultaneamente. A primeira é que eu tive um tombo no primeiro dia. Eu caí, machuquei minha costela e percebi que ia ser muito difícil carregar o tripé. E, ao mesmo tempo, esse é um personagem que caminha até ele trêmula. Ele anda, ele balança o corpo dele, tem um balanço. Então, acho que eu fui meio hipnotizado, eu digo, eu não, né? A câmera foi meio hipnotizada por essa vibração do personagem. Aí, eu lembro até que a gente voltou num dia, numa diária, estava eu, o Leo e a Ava. Eu lembro nesse momento, estávamos nós três, assim, olhando para as imagens. Eu falei, e aí, gente? O que vocês acham disso? A Ava e o Leo, porra, Greg, tá demais. E aí, a gente se empolgou. Mas era, para a minha cabeça, às vezes, eu pensava... porque nós éramos uma equipe muito reduzida, em uma situação, não vou falar que é precária, mas não tinha monitor grande, coisas que você possa reconhecer com calma a imagem. Então, um lugar dentro de mim falava assim, será que está fazendo certo? Não está desperdiçando? E, hoje, eu vejo o filme e agradeço. As coisas não acontecem à toa. Foi muito importante esse tombo, foi muito importante se aproximar da personagem. A mão dele, né? Porque é uma mão que toca, que vibra o tempo inteiro. A câmera tinha que estar junto. E isso vinha, também, de encontro, já, com algumas conversas que eu e o Léo tínhamos. Há muito tempo que a gente trabalha junto e a gente sempre conversou sobre estética, sobre as questões. Tinha uma coisa de vibração, que eram as questões que a gente procurava na época. E tudo isso são portas abertas, cortinas abertas para poder embarcar nesse frenesi que o filme carrega. Em relação às imagens fixas do filme, muitas delas são utilizadas de outra filmagem que tinha feito na China, que é o inaudito, que era tudo câmera com tripé. Então, era, mais ou menos, uma conta mental, assim, que a gente conversava na viagem. A gente falava sobre usar aquele plano geral. O Leo fez a trilha sonora do Inaudito, a gente reconhecia muitas imagens. Então, é mais ou menos isso, é uma equação. Uma equação eu-mística, louca, que deu certo, no final. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Leo, além de interpretar o X, você também assina a direção deste longa. Como ator, o que foi mais desafiador em interpretar um protagonista que passa por estados emocionais e psicológicos tão extremos, assim? Negro Leo: Sem dúvida, interpretar esse personagem foi duro. Por outro lado, foi libertador, porque eu tinha vindo e ia para alguns filmes com uma interpretação mais realista, mais naturalista, entendeu? Mais, assim, uma coisa do cotidiano, do comezinho, da vida real. Não que a vida do X não seja real, pelo contrário, é muito mais real do que a vida desses personagens a quem eu dei vida. Mas o X, cara, é o seguinte: vou te dar um exemplo. Minha mãe foi ao cinema numa sessão no Festival Ecrã assistir um filme. Ela saiu de lá comovida. Assim, quase chorando, sabe? Aquele limiar entre... Entre o choro, mas, assim, sentindo bastante. Outras pessoas vêm até mim e dizem isso também, que se promoveram, que sofreram junto com a personagem e tal. Então, quer dizer, tem algum grau de verossimilhança naquela interpretação, que eu me orgulho muito disso. Agora, foi difícil fazer. Tem uma cena no final do filme que eu fico gritando, que tem umas luzes e tal, aquela coisa toda ali. Pô, aquilo ali foi foda. A gente fez aquilo ali em três minutos. Eles iam fechar o estúdio e a gente tinha três minutos ou alguma coisa assim, talvez até menos. E a gente falou, vamos agora e tal. E teve aquela descarga ali. Eu lembro que, quando terminou, eu estava exausto. Gregorio Gananian: Foi forte. Se o Leo permite falar, você lembra uma no final, que a filha chorou, porque foi muito impactante. Era um estúdio que eles foram gravar uma entrevista para um programa da China, da internet. E a gente pirou quando vimos aquelas paredes de espelho. O cara falou, vocês têm três minutos, vocês podem usar quando acabar tudo. Então, acabou, a gente ligou a câmera. E o Leo interpretou. E aí, a filha do Leo, no final ela estava comovida. Ela falou, eu amo o Sr. X, mas por que ele está passando por isso? Muito lindo, muito forte. Então, a arte dessas fronteiras no filme, tudo estava muito intenso. O X vive constantemente entre sobrevivência, alucinações e uma percepção implacável. Imagem: Divulgação Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Como você construiu um personagem em que a percepção de realidade dele está sempre colocada em dúvida? O que é real, o que não é? Negro Leo: Na verdade, eu não sei nem se dúvida é a palavra certa, entendeu, Giulia? Mas nem colocando correção nas tuas palavras, não. É só dizendo assim, qual seria realmente o sentimento desse personagem no filme, ou a vivência dele. Eu acho que... Nem dúvidas, nem certezas. Sabe quando você é simplesmente levado? Porque quando começa o filme, a primeira coisa que ele diz é que eu me mandei, eu me voluntariei. Entende? Então, quer dizer, tem um pouco de autodeterminação e voluntarismo, não é uma coisa que também foi acontecendo, sabe? Então tem um pouco disso. E quando você tem vontade e determinação, eu não sei se tem outro espaço para dúvida. E certeza também não, porque talvez seja aquilo que resta, entende o que eu estou querendo te dizer? E aí você se agarra naquilo. Gregorio Gananian: Eu acho que nesse momento, acho que esse personagem se agarra em alguma coisa, entendeu? E eu acho que a partir daí a história começa. Eu acho que o personagem está no real, mas o mundo que circunda ele está muito na ambiguidade. Acho que a palavra talvez tenha uma certa ambiguidade. Não só do X, mas evidentemente de qual situação está acontecendo, ou aquilo é uma ilusão, uma imagem vendida, é pensado ou é o corpo ali vivendo. Eu acho que o filme carrega estruturalmente essa ambiguidade, essa fronteira de camadas, como se a gente tivesse que ter entrando e saindo de algumas camadas psíquicas, não é nem psíquicas da personagem, da nossa realidade que a gente vive. O Leandro falou recentemente uma coisa, de repente a gente está com o celular na mão, a gente está num mundo diferente, troca de lado, é outro mundo. E essa variação contínua de realidades misturada com o que a gente pensa e ao mesmo tempo o que uma pessoa falou com a gente naquele minuto. Existe uma simultaneidade, um prisma atualmente. Então eu vejo o filme muito nesse ponto, muito atual de todos nós. Talvez o X carregue uma tecnologia ancestral de... Ele já é com a forma que a gente vive. Eu acho que ele seja um real vivo, presente. Entendi. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): O filme foi reconhecido pelo Júri Jovem na Mostra de Cinema de Tiradentes. Parabéns! Vocês sentem que esse ambiente permitiu que o filme fosse compreendido da maneira que vocês imaginavam? Totalmente. A gente ficou muito feliz. Gregorio Gananian: Um filme como o nosso, feito com sangue, com tanta dedicação. A gente chegou em Tiradentes com HD externo no dia da sessão. É o filme que atravessou o governo Bolsonaro, o coronavírus, dificuldades. É um filme que não teve nenhum edital. E aí você ter os jovens reconhecendo o filme e o texto que eles escreveram no prêmio, foi um orgulho pra gente. É um texto muito vívido. A gente está na loucura, mas você também às vezes fica com receio de ser o louco da praça pública. Saber que tem outros semelhantes, que a gente tem uma conversa, que a coisa flui. Isso é uma maravilha. Isso deu muita força pra gente. Esse prêmio foi muito importante. Tanto em quesitos profissionais, porque dá uma validade para continuar trabalhando, como também alegria, festa. Eu acho que é uma coisa bonita desse filme. A gente não esconde a felicidade. Não tinha nada de blazer. A gente ficou muito feliz com o prêmio. Negro Leo: E o júri é extremamente corajoso, porque se você for pegar os filmes que estavam concorrendo, o júri é extremamente corajoso. Então, estão de parabéns. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Eu queria perguntar a vocês, e agora que o filme está no circuito comercial, o que vocês esperam que um público mais popular leve do filme de vocês? Negro Leo: Olha, é difícil falar em público nesses termos, porque você nunca sabe como a pessoa vai reagir. Eu não posso nem partir do princípio que eu vou subestimar ou superestimar qualquer tipo de pessoa que vá ao cinema assistir qualquer coisa. Outro dia, o Greg estava dando uma entrevista e colocou muito bem. Na história do cinema, o primeiro filme vinha um trem e o pessoal saia correndo da sala. Você entende? Então, quer dizer, eu não posso subestimar as pessoas. A pessoa que assiste, sei lá, Sessão da Tarde todo dia, ou assiste o filme comercial conforme você está dizendo, ela também tem a cabeça dela. Claro que a pessoa tem uma formação. Esses filmes formam a pessoa e talvez a pessoa fique ali presa naquela maneira de fazer filme e não consiga se desvencilhar daquilo. Quando vai ver uma coisa diferente, ela tende a torcer o nariz e dizer, pô, isso não é legal. Pode acontecer, né? Mas eu acho que o público vai assistir aquilo informado das coisas que ele tem, que passaram pela vida dele...A gente não tem muito controle sobre isso. Então, não sei nem o que dizer. Gregorio Gananian: Você sabe que eu garoto, eu era espectador médico. O que eu via? Via televisão e locadora. E é o chamado, né? Eu não acredito nesse conceito. E um dia do nada, meu avô tinha uma fita VHS de alguma coleção de locadora, não fazendo a comparação, mas era um filme do Godard. Eu botei para assistir esse filme. Eu moleque, 13 anos. E eu saí falando para o meu irmão, esse é o melhor filme que eu vi na minha vida. Isso é fantástico. Então a gente nunca sabe de onde vai vir a pedra pelo caminho, né? É muito louco, assim. Todo mundo pode estar aberto. E às vezes a pedra do caminho é um filme do Bruce Willis, né? Eu acho que o nosso abismo ele conecta muito com a galera que passou por Sessões à Tarde, porque a gente passou muito por isso Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Leo, eu olhei em algum lugar que você nasceu no Maranhão. É verdade isso? Negro Leo: Com certeza. Absoluta. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Nós do Oxente Pipoca falamos bastante sobre cinema regional. O quão familiarizado você está com esse cinema do Nordeste? Você pensa em fazer alguma produção por aqui? A gente pode esperar ver você em alguma produção regional. Negro Leo: Pô, eu tomara, né? Tomara que me convidem tanto para atuar como me deem dinheiro para a gente poder dirigir algum filme do Nordeste. Isso é bom, né, Greg? Só que, assim, você tem que entender que a gente fez o Abismo por zero reais, com o amor de muitas pessoas envolvidas. Então, assim...A expectativa, na verdade, se a gente cria muita expectativa... A vida não anda. Porque a gente vive no mundo das visualizações, entendeu? O pessoal visualiza. Hoje está em moda isso agora, de visualizar. Então, eu sou antigo, né? Eu tenho 43 anos. Não existe essa coisa de visualizar, entendeu? A gente vive. Agora, esse filme pode abrir portas para a gente. Já está abrindo. O fato da gente ter ganhado um edital para distribuir o filme quer dizer isso. Ser premiado por um júri jovem corajoso e, de repente, outras coisas vão acontecendo. O Greg está filmando um longa novo agora, graças ao prêmio do filme. Graças ao prêmio do filme. E por aí vai, entende? Uma coisa vai levando à outra. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): E, Gregório, quanto você está familiarizado com o cinema aqui do Nordeste? No sentido das produções feitas aqui até sobre cinema independente. Gregorio Gananian: Ah, eu estou familiarizado na turma que você conhece nos festivais de cinema. Então, de repente, você vai lá e conhece o Guto Parente, que estava lá na Mostra de Tiradentes. Eu adoro a galera do Ceará. Eu sou muito próximo da galera do Ceará. De Salvador. Recife. Virou um polo, né? É muito forte. E o cinema brasileiro, os grandes filmes são filmados no Nordeste, talvez seja o nosso espaço cinematográfico, o nosso céu, o grande céu de luz que carrega o cinema brasileiro. Eu acho que o Nordeste inventa um pouco do cinema brasileiro. É muito interessante. Mas eu também não tenho uma capacidade muito historiográfica, sabe? Eu tenho uma relação com o cinema. Eu vou assistindo as coisas e vou formando mais constelações do que consigo colocar em linhas precisas. Estamos muito animados porque a gente vai fazer agora uma pequena turnê de lançamento do filme no Nordeste, em algumas cidades do Nordeste, quer dizer. Então estamos empolgadíssimos. A gente vai para Recife, Salvador, Fortaleza. Vai ser um luxo poder estar nessas cidades. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Gente, para finalizar, nós temos uma tradição. Sempre pedimos para os nossos entrevistados indicarem três produções brasileiras. Pode ser três séries, três filmes... Gregorio Gananian: Eu vou colocar então um pouco mais alguns filmes que formaram assim. Sem essa, Aranha, do Rogério Sganzela. Tem um filme que eu sinto que fica um pouco distante de novo das pessoas. Eu revi esses dias. Eu vou falar o filme mais conhecido, do Glauber, mas que está um pouco distante. Deus e o Diabo na Terra do Sol. Eu revi esse filme. Esses dias eu não acreditei no que eu vi. Há tanto filme, gente. Se eu me esquecer, tem as turmas que eu adoro. O João Dumas acabou de fazer um filme lindo. A Noite e os Dias de Miguel Burnier. Tenho um orgulho danado desse filme. Eu o vi agora num festival de Curitiba. Negro Leo: Eu vou ficar nas referências do filme. Detour (Curva do Destino), do Edgar G. Ulmer. Do Carmelo Beni. Salomé. Salomé também foi um filme que ficou para a gente como referência de montagem, de velocidade, de troca de corte um do outro. E outro filme também que foi importante para a gente e, na verdade, não foi exatamente o filme, mas a gente poderia ter como filme, mas o livro, né? O Falcão Maltês, do... Dashiell Hammett. O filme é do John Huston. A coisa da escrita telegráfica, isso o Greg me apresentou enquanto a gente estava no curso do roteiro e tal. Ele falou, Léo, tem isso aqui, isso aqui é ouro, cara. Então, essas são as referências.

  • Entrevista | “Imaginar futuros possíveis é um ato político”, diz Eliza Capai sobre 'A Fabulosa Máquina do Tempo'

    Com estreia nos cinemas nesta quinta-feira (30), filme mistura infância, fantasia e realidade para refletir sobre desigualdade, sonhos e resistência. Imagem: Divulgação Depois de emocionar o público em uma premiada trajetória por festivais nacionais e internacionais, incluindo a estreia mundial na mostra Generation do Festival Internacional de Cinema de Berlim, A Fabulosa Máquina do Tempo chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (30). Dirigido por Eliza Capai, o documentário acompanha meninas de Guaribas, no interior do Piauí, que transformam a imaginação em ferramenta para projetar futuros possíveis, enquanto lidam com questões como pobreza, desigualdade e machismo estrutural. Fugindo da linguagem documental mais convencional, o filme aposta na brincadeira, na fantasia e no olhar infantil para construir uma narrativa tão sensível quanto política. Em entrevista ao Oxente Pipoca, Eliza Capai falou sobre o processo criativo da obra, a emocionante experiência de levar três das protagonistas para a estreia em Berlim e a importância de imaginar futuros mais esperançosos em um momento marcado por tantas distopias. Leia a conversa completa abaixo: Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Oi, Eliza. Aqui é a Gabriela, do Oxente Pipoca. Eu sou de Aracaju, mas estou falando aqui de Fortaleza. É um prazer estar falando com você. Eu assisti ontem ao documentário e amei. Eu tenho um fraco, assim, por documentários e, principalmente, por esses documentários que quebram essa perspectiva de documentário tradicional. E eu acho que ele faz isso muito bem. Eu queria saber: em que momento você percebeu que dava para falar sobre o futuro e trazer esses problemas do passado nesse estilo de narrativa, essa narrativa mais diferente? Eliza Capai: Existia um desejo, acho que desde o começo do projeto, de que as questões densas e sociais que o filme aborda, né, que é a saída da miséria, o rompimento com o machismo estrutural, que fossem pelo olhar das crianças. E aí eu e a Carol Quintanilha, que é a fotógrafa e parceira criativa, a gente começa a pensar como falar sobre isso de uma forma lúdica, de uma forma infantil, no melhor sentido da palavra infantil, né. Eu já tinha feito um documentário sobre esses temas que era mais um documentário tradicional, com muita entrevista, e eu queria fazer outra coisa. E aí é a partir da brincadeira com essas meninas, a partir da observação delas, que a gente vai entendendo esses caminhos, né. A gente tem algumas decisões estéticas que eu acho que ajudam bastante. A Carol estava sempre com uma lente de 50 mm, com a íris muito aberta, que dá aquela coisa do foco estar só num lugar. E isso é uma tentativa de captar como essas crianças veem o mundo, esse foco infantil que está presente ali na situação. O cenário é deslumbrante, porque Guaribas está ali no meio da Serra das Confusões, que é lindíssimo, aquele céu azul, aquelas nuvens desenhadas, né. Então a gente teve essa ajuda geográfica do lugar em si. E a gente foi sacando que, quando as crianças descobriam alguma coisa, principalmente nas entrevistas com as mães... O filme começa com uma oficina de vídeo com 15 meninas. E a gente foi vendo que, quando elas descobriam alguma coisa, principalmente nas entrevistas com as mães... Então, a Sofia descobre que criança também morre. Quando termina a entrevista, ela vai para o pátio no fundo da casa dela, da família, assim, né, as primas moram no mesmo terreno, e ela começa a brincar de pedir para a prima não matar ela. Quando ela morre, ela se transforma em zumbi. E a gente fala: "Nossa, o jeito que ela está processando essa informação duríssima que ela acabou de ter, de que ela pode morrer a qualquer minuto...". Ela vai brincar sobre isso. É a forma dela controlar, dela organizar essa informação. E a gente entendeu que a gente tinha que brincar, que o caminho possível era a brincadeira. A gente já tinha levado alguns elementos futuristas, tipo um capacete de astronauta, papel laminado para fazer coisas, e é ali, na brincadeira com elas, que a gente vai entendendo. Eu tinha estudado muitas referências. Referências de filmes de criança, de filmes de sertão e de futurismos, futurismo em geral, e também de afrofuturismo. E aí, a partir disso, a gente entra na brincadeira com elas e faz esse filme, que é uma grande brincadeira, né? Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): E uma coisa que eu acho muito legal é justamente isso: a câmera não acompanha só as meninas. Ela realmente trata elas como protagonistas da história. São elas que contam tudo para a gente, que amarram a narrativa. Eu fiquei encantada com elas. Depois fui olhar o seu Instagram e vi que algumas acompanharam a exibição em Berlim. Queria que você contasse um pouquinho como foi essa experiência de levá-las para o festival e de elas verem a recepção do filme. Imagino que tenha sido uma experiência muito divertida. Eliza Capai: Foi. Quando a gente soube que o filme ia para Berlim, dentro da Generation, que é uma chegada muito linda para um filme, assim que recebemos a notícia eu falei para a Mariana Genescá, que é minha parceirona e produtora do filme: "A gente precisa levar uma das meninas". E ela falou: "Mas como a gente vai fazer? A gente não tem verba. É um documentário independente, não existia um orçamento para lançamento". Aí, no domingo, ela me escreveu e falou: "Pensei numa coisa aqui. Amanhã a gente se fala". E eu respondi: "Então a gente pode levar três?". Foi meio isso. Eu pensei: "Cara, não dá para estrear esse filme, que está falando de meninas sonhadoras e de uma realidade econômica muito dura...". Apesar de o filme falar da saída da miséria, elas saíram dessa condição em relação às antepassadas. Elas têm uma vida que, como a Ana Vitória diz no filme, é "de berço de ouro". Mas não dava para eu ir como diretora, a Mariana ir como produtora, e elas não estarem ali. A gente conseguiu um apoio e aí veio essa dura missão de escolher três, né? Porque levar três era deixar onze. Deu muita pena, mas era impossível conseguir levar todo mundo. E foi uma magia. Berlim estava vivendo o inverno mais rigoroso das últimas décadas. Eu lembro que estava conversando com elas e preparando tudo. Falei: "Lá vai estar muito frio". Aí perguntei: "Agora aí está fazendo uns 30 e tantos graus. Quanto vocês acham que vai estar lá?". Elas responderam: "25". Eu pensei: "Ai, meu Deus". Então teve toda essa preparação para elas viverem várias primeiras vezes: o primeiro hotel, o primeiro avião... E, para mim, o mais emocionante foi a primeira sala de cinema. Elas entraram no centro cultural de Berlim e era a primeira vez que estavam entrando num cinema. Tinha mais de mil pessoas assistindo ao filme. Elas distribuíram centenas de autógrafos. As crianças iam falar com elas. A gente foi a uma escola, porque os alunos tinham assistido ao filme e queriam entrevistá-las. Acho que elas puderam ver, pelo olhar dos outros, a beleza da infância delas. Isso foi muito poderoso. Foi um ganho enorme de autoestima, obviamente para as três que estavam lá, mas acho que isso irradiou para todas. Depois a gente decidiu que, assim que pudesse... porque o festival É Tudo Verdade exige exclusividade da estreia brasileira... a sessão seguinte seria em Guaribas. Então a gente fez o primeiro cinema na praça da cidade, numa parceria com o CineSolar. É um município de quatro mil pessoas e apareceram mais de seiscentas na sessão. Foi muito acima do que a gente imaginava. Estavam todas elas sentadas na frente, morrendo de vergonha e morrendo de rir. No debate, perguntaram: "Como vocês estão se sentindo?". E todas responderam: "Com muita vergonha, com muito orgulho, muito felizes". Eu acho que elas conseguiram se ver de uma forma diferente. Esse sentimento que você falou, de ter ficado encantada com elas, acho que elas também entenderam como elas são encantadoras a partir dessa nova perspectiva. Imagem: Divulgação Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): A gente vive um momento em que muitas narrativas sobre o futuro são marcadas pelo pessimismo. E, principalmente quando se fala do Nordeste, isso aparece bastante. Eu acho que A Fabulosa Máquina do Tempo consegue mostrar que pensar o futuro também é um ato político. Queria que você falasse um pouquinho sobre isso. Qual é a principal mensagem que você acha que o filme pode deixar para quem for assistir? Eliza Capai: Obrigada por essa pergunta. Eu até vou começar falando da sessão em Guaribas. No final, uma mãe falou uma coisa que me emocionou muito. Ela disse: "Guaribas era conhecida pela fome e agora Guaribas é conhecida pelo sonhar". Aquilo me marcou muito. Foi mais para o final do processo do filme que eu entendi o que estava acontecendo com ele. Eu comecei a pensar nos filmes de futuro que eu assisti quando era criança. Eram filmes em que o ciborgue dominava o mundo, em que a inteligência artificial controlava tudo, em que o planeta aquecia tanto que começava a faltar água potável. E aí eu pensei: "Gente, está dando certo". Esses sonhos distópicos que o cinema imaginou algumas décadas atrás... a gente está caminhando em direção a eles. Então me parece muito claro, principalmente para mim, que faço documentário social, que a questão é: como a gente joga as sementes dos sonhos dos futuros que a gente quer viver, e não dos futuros que a gente teme? Porque a gente caminha em direção ao que conhece. É muito difícil caminhar em direção ao que a gente não conhece. Então criar referências de futuros possíveis, utópicos, utópicos e possíveis, eu acho que é muito forte. Eu fico muito feliz porque sinto que esse filme consegue fazer isso. Ele é um filme denso. Todas as questões sociais estão ali. O machismo estrutural está ali, o alcoolismo está ali, a complexidade do crescimento evangélico está ali, a miséria, a saída da miséria e a pobreza persistente estão ali. Mas, ao mesmo tempo, a gente consegue olhar para esse passado, que eu acho fundamental. Se a gente quer futuros diferentes dele, a gente precisa encarar esse passado, pensar onde está e lançar esses futuros que a gente gostaria que essas meninas realmente vivessem. E que as próximas gerações também vivessem. Então, resumindo, eu acho que imaginar o futuro é um ato extremamente político. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca):É muito importante isso, porque a gente não sai do filme com aquele sentimento de pessimismo. Apesar de ele tratar, como você falou, de temas muito densos, a gente não termina pensando: "Meu Deus, que difícil". A gente termina pensando: "Meu Deus, eu acredito que essas meninas vão brilhar. Eu acredito que os sonhos delas são possíveis". Isso é muito bonito de ver. Quando eu terminei o filme, eu fiquei emocionada, mas também fiquei pensando: "Caramba... é possível". E, para encerrar, porque eu vi que estão faltando uns quatro minutinhos, vou fazer duas perguntas em uma. Depois desse mundaréu de festivais por onde o filme passou, o que você espera da recepção do público agora que ele está chegando às salas de cinema? Como você espera que as pessoas recebam o filme? E a gente tem uma tradição aqui no Oxente Pipoca: eu sempre peço para os entrevistados indicarem um filme, uma série ou um documentário brasileiro que tenha inspirado você ou que seja um dos seus favoritos, sem ser o filme que a gente está conversando hoje. Eliza Capai: Nossa, em geral essa pergunta demora cinco minutos para eu responder, porque meu cérebro associativo é lentíssimo. Eu tinha que abrir minha lista aqui de filmes, dos que eu estudei para fazer esse. Bem, a gente está encerrando... quer dizer, vai continuar ainda. O filme teve uma história muito bonita em Berlim, tem feito uma carreira em festivais muito massa, e no Brasil também. A gente segue ainda por alguns festivais brasileiros, mas agora estreia comercialmente. Dia 29 tem uma sessão em Recife, onde eu estarei com as meninas. Dia 30 em Brasília. Dia 1º em Teresina, onde eu, a Manu e a Ana Vitória estaremos conversando com a audiência. E aí o filme entra em cartaz em vários lugares. O nosso desejo é que as pessoas possam assistir. A gente sabe o quanto é difícil levar o público para ver um documentário nacional no cinema. Não é exatamente um blockbuster. Mas existe esse desejo de que as pessoas possam viver o filme de forma coletiva, possam rir juntas, chorar juntas e experimentar essa magia que só o cinema proporciona. O filme é uma brincadeira de fazer cinema. As meninas estão brincando de fazer cinema o tempo inteiro. Então eu acho muito apropriado que, quem puder, vá assistir no cinema. Mas, na sequência da estreia, a gente começa a nossa campanha de impacto, que é uma coisa que eu e a Mariana Genescá fazemos em todos os nossos filmes. A gente entende que documentário social é para chegar nas pessoas. Boa parte do nosso país não tem cinema. E boa parte das pessoas que vivem em cidades com cinema não tem dinheiro para acessar o cinema. Então a gente quer que o documentário seja horizontal. Daqui a pouco a gente vai lançar, e quem tiver interesse pode entrar na página do Instagram do filme, porque já tem um link para se inscrever. A ideia é: quer organizar uma sessão? Pode ser em sala de aula, num cineclube, num domingo em família para discutir as eleições de 2026... onde quiser. Onde tiver mais de cinco pessoas, a gente entende como uma sessão coletiva. É gratuito. A gente disponibiliza o filme gratuitamente para essas sessões. O objetivo é que o documentário sirva para suscitar essa conexão com a criança que a gente foi e com os sonhos que a gente tem. E não só os sonhos individuais, mas também esse sonho coletivo: que país a gente sonha construir junto? Sobre a indicação... eu vi vários filmes. Vou citar um que foi uma inspiração para aquele momento da máquina do tempo, quando as meninas finalmente conseguem entrar e tudo começa a chacoalhar. Foi Branco Sai, Preto Fica. Eu até confundi aqui na hora, porque estava pensando nos filmes do Adirley Queirós. Tem aquela cena da viagem, da trepidação, e eu achei aquilo genial porque é tosco e, ao mesmo tempo, maravilhoso. Teve esse lugar de me inspirar no Adirley, porque eu acho que ele brinca muito com os gêneros. Ele fala que vai fazer documentário e faz ficção. E eu senti que, de alguma forma, também estava brincando com essa fronteira entre documentário e ficção. Foi uma grande inspiração.

  • Citronela Doc anuncia os filmes selecionados da 6ª edição

    Evento acontece de 25 a 30 de agosto em Ilhabela (SP), com entrada gratuita. Imagem: Cartas Para…, de Vânia Lima (Bahia) O Citronela Doc – Festival de Documentários de Ilhabela divulga os filmes selecionados para sua 6ª edição, que será realizada entre os dias 25 e 30 de agosto, em Ilhabela (SP). As exibições acontecem em dois espaços da cidade — o Esporte Clube Ilhabela e a Casa Barca —, ambos na região da Vila/Centro Histórico, reunindo uma programação totalmente gratuita dedicada ao cinema documental brasileiro contemporâneo e a produções do Litoral Norte de São Paulo e Vale do Paraíba. Neste ano, o festival recebeu mais de 550 inscrições de diferentes estados do país. A seleção contempla três mostras competitivas: Mostra Nacional - Longas, Mostra Nacional - Curtas e Mostra Regional, que contarão, pela primeira vez, com uma premiação oficial. Na Mostra Nacional, serão concedidos os prêmios de Melhor Longa-Metragem, Melhor Curta-Metragem e Menção Honrosa. Já a Mostra Regional premiará Melhor Filme Regional e Melhor Filme de Diretor(a) Estreante. A edição também contará com o Prêmio Utopia Docs, oferecido pela distribuidora internacional Utopia Docs, além do Prêmio Aquisição todesplay.Os filmes selecionados vêm de 13 estados brasileiros e cinco cidades do Litoral Norte e Vale do Paraíba (SP), com diretores de diferentes gêneros e raças, refletindo assim a diversidade de narrativas e pontos de vista que sempre fez parte do DNA do festival. As temáticas abordadas pelos filmes são diversas, vão desde conexão com a natureza, saberes ancestrais, tradições religiosas e desastres ambientais até violência promovida pelo Estado durante a ditadura, encarceramento juvenil, a guerra de uma prefeita comunista contra uma grande corporação americana em Olinda, diáspora africana, um projeto experimental de Paulo Freire, sonhos de meninas periféricas e uma viagem pela trajetória da cantora Baby do Brasil. Além das sessões de cinema, o Citronela Doc promove uma programação paralela com debates, shows musicais, apresentações artísticas, encontros e workshops para realizadores, em paisagens à beira-mar, integrando a arte à natureza que fazem de Ilhabela um cenário único. A programação completa será divulgada em breve, no site www.citroneladoc.com.br e no Instagram @citroneladoc. O 6º Citronela Doc é uma realização do Programa de Ação Cultural (ProAC), da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Governo do Estado de São Paulo, com produção da Associação Cultural Citronela e co-produção de Ver Para Crer, Salga Filmes e BR8 Cultural. Filmes Citronela Doc 2026 Mostra Nacional - Longas Apopcalipse Segundo Baby, de Rafael Saar Rio de Janeiro Cartas Para…, de Vânia Lima Bahia A Fabulosa Máquina do Tempo, de Eliza Capai Rio de Janeiro Lendo o Mundo, de Catherine Murphy e Iris de Oliveira Rio Grande do Norte Mãos à Terra, de Sérgio Guidoux Rio Grande do Sul Na Passagem do Trópico, de Francisco Miguez São Paulo O Pai e o Pajé, de Iawarete Kaiabi, co-direção de Felipe Tomazelli e Luís Villaça Mato Grosso VIVO 76, de Lírio Ferreira Pernambuco Mostra Nacional - Curtas Os Arcos Dourados de Olinda, de Douglas Henrique Pernambuco Caldeirão, de Oliveira Júnior, Milena Rocha e Weslley Oliveira Piauí Cordel da Marujada, de Gabriel Paixão Pará Cordões e Sinos de Além-Mar, de Yuji Kodato e Jeremias Brasileiro Minas Gerais Escudo, de Andrey Haag e Cauê Santiago São Paulo Logos, de Britney Rio Grande do Sul Minhocuçu, de Leonardo Branco e Lucas Campos Minas Gerais A Pele do Ouro, de Marcela Ulhoa e Yare Perdomo Roraima Thayara, de Mila Leão Paraná Vinte Vinte Quatro, de Davi Pieri Distrito Federal Mostra Regional A Força da Raiz, de Maria Sol Aranda Ubatuba Janelas da Memória, de Yasmin Bilard São Luiz do Paraitinga Kaeté, de Pedro Ciampolini Ubatuba Menina Moça e a Cobra de Duas Cabeças, de Letícia Andra São Sebastião Narrativas ao Sol, de Isabella Gonçalves e Thais Chaves Ilhabela Renato Canoeiro Caiçara, de Dannyel Leite Jacareí, Ubatuba Resíduos de Esperança, de Roseane Moura Ubatuba Sessões especiais Artacho Jurado, Sinfonia de um Arquiteto, de Teresa Eça e Pedro Gorski SP Mounir, de Juliana Borges SP

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