Entrevista | “Enquanto eu for exceção, isso ainda é um problema”: Jeferson De fala sobre audiovisual negro, Narciso e M8 – Parte 2
- Gabriella Ferreira

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Diretor celebra a indicação ao Prêmio Grande Otelo, reflete sobre os avanços do audiovisual negro após o Dogma Feijoada e comenta os próximos projetos para o cinema e a televisão

Entre o reconhecimento no cinema e os novos desafios na televisão, o diretor e roteirista Jeferson De vive um dos momentos mais movimentados de sua trajetória. Responsável por obras marcantes como Bróder, M8 – Quando a Morte Socorre a Vida e Doutor Gama, o cineasta acaba de celebrar a indicação de Narciso ao Prêmio Grande Otelo de Melhor Filme Infantil. A produção, que acompanha a jornada de um menino negro em busca de identidade, pertencimento e afeto, tem sido apontada como uma das obras mais sensíveis de sua carreira. Ao mesmo tempo, Jeferson finaliza Carolina, adaptação inspirada na obra de Carolina Maria de Jesus, desenvolve M8 – Parte 2 e integra a equipe de direção da próxima novela das sete da TV Globo.
Em entrevista ao Oxente Pipoca, o cineasta falou sobre os desafios de transitar entre cinema e televisão, os avanços e obstáculos para realizadores negros mais de duas décadas após o Dogma Feijoada, seus próximos projetos e a importância de contar histórias negras centradas na vida, nos afetos e na experiência coletiva proporcionada pela arte.
Confira a entrevista completa:
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Você está vivendo um momento muito especial na carreira, conciliando projetos no cinema e também na televisão. Como é equilibrar essas diferentes frentes de trabalho como diretor?
Jeferson De: É difícil, mas não vou dizer que seja difícil conciliar porque, para mim, é muito prazeroso. No fundo, eu trabalho com o mesmo ofício: a direção. Talvez a grande diferença seja que, no cinema, eu possa ser mais autoral. É também um trabalho muito artesanal.
O cinema é um lugar onde consigo experimentar mais: tempos, elencos menos óbvios para determinadas tramas, trilhas sonoras e todo o universo audiovisual. Posso propor temas que nem sempre são usuais. Foi o caso de Narciso, por exemplo, que traz discussões nem sempre características dos produtos que faço na televisão.
Já na novela, qualquer capítulo que eu dirijo alcança mais de 20 milhões de pessoas. No cinema, o público precisa comprar o ingresso; na televisão, basta ligar o aparelho e a história está ali. Existe também uma diferença industrial muito grande. No cinema, às vezes faço três ou quatro cenas em um dia. Na novela, faço 20, 26 cenas.
Mas também tenho tido o privilégio de trabalhar na TV Globo com atores que sempre admirei. Estou falando com você agora e, há meia hora, estava dirigindo a Renata Sorrah. Já trabalhei com Tony Ramos, Glória Pires, Ailton Graça e tantos outros artistas que também têm uma relação forte com o cinema brasileiro mais autoral.
Por isso, para mim, a relação é muito parecida. A maneira como dirijo é praticamente a mesma. Talvez seja um pouco mais rápida por conta da dinâmica industrial da televisão. Mas a trupe do circo é a mesma, seja no cinema ou na TV.
No caso de Narciso, por exemplo, eu tinha acabado de fazer Garota do Momento na Globo. Levei para o filme pessoas com quem já havia trabalhado, como Ju Colombo. O Bukassa fez Narciso e agora está em Nobreza do Amor. Existe esse trânsito constante entre os dois universos.
Tem sido um momento muito bonito da minha carreira. Principalmente porque, aqui na Globo, existe uma compreensão muito grande sobre o meu trabalho no cinema. Embora eu venha do cinema independente, me sinto muito acolhido. Sempre que surge a oportunidade de fazer um filme, existe diálogo. Posso dizer: “Depois dessa novela, gostaria de fazer um filme”, e isso é respeitado.
Então, tem sido uma experiência muito rica esse diálogo entre o mercado, o cinema independente e o que temos de mais industrial no audiovisual brasileiro. Ao mesmo tempo, são recursos completamente diferentes. Na televisão, consigo ter 50 figurantes vestidos de época de um dia para o outro. No cinema, isso exige uma elaboração muito maior.
Mas, no fim das contas, a vontade de contar histórias é a mesma. Vem dessa herança africana, dessa tradição griô de contar histórias. É isso que move tanto o meu trabalho no cinema quanto na televisão.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Como você mesmo comentou, este é um momento muito especial da sua carreira, de muitas conquistas e alegrias. E falando especificamente de Narciso, como você recebeu a indicação ao Prêmio Grande Otelo? Eu fiquei muito feliz quando vi a notícia e imagino que, para você, também tenha sido uma emoção enorme. É um filme que coloca uma criança como protagonista e aborda temas como fé, pertencimento e identidade de maneiras muito sensíveis. O que essa indicação representa para você?
Jeferson De: Foi uma alegria muito grande para todos nós. Para mim, de forma especial, porque escrevi e dirigi o filme, e também para a Cristiane Arenas, nossa produtora. Estamos falando sobre a infância negra e acredito que Narciso ocupa um lugar de mudança de paradigma.
Durante 90 minutos, o público acompanha uma história protagonizada por pessoas pretas retintas. A maioria do elenco é formada por pessoas pretas retintas e talvez a gente apresente algo que, infelizmente, ainda é revolucionário no Brasil e no mundo: nenhuma dessas pessoas morre ao final do filme.
Só o fato de contar uma história em que pessoas pretas vivem, amam e constroem seus afetos já é algo muito diferente do que normalmente vemos. Em geral, quando personagens negros protagonizam narrativas, existe uma relação muito próxima com a morte, com a violência ou com a ausência de futuro. Em Narciso, eu quis contar uma história sobre a vida e sobre os afetos.
Esse é o meu filme mais pessoal e mais autoral. Significava muito para mim e para toda a equipe realizar esse projeto. Tivemos uma fotógrafa preta, um elenco majoritariamente negro e uma equipe comprometida com essa visão. Por isso, festejamos muito essa indicação.
Quando uma obra é reconhecida por sua ousadia, isso tem um significado especial. A indicação ao Prêmio Grande Otelo, escolhida pelos sócios da Academia Brasileira de Cinema, também chama atenção para a importância desse debate. Não é apenas um reconhecimento ao trabalho da equipe, do elenco ou da produção, mas um sinal de que o cinema brasileiro está olhando para essas histórias e entendendo sua relevância.
Narciso fala sobre o afeto preto e, sobretudo, sobre o afeto da criança preta. Temos consciência de que as crianças estão entre os grupos mais vulneráveis à violência no Brasil. Quem é pai ou mãe sabe o quanto existe preocupação com a segurança dos filhos, seja na rua, na escola ou em qualquer espaço da vida urbana.
E quando falamos das crianças mais afetadas pela violência, estamos falando principalmente das crianças pobres. E quem são, em sua maioria, essas crianças? São as crianças negras. O filme chega justamente nesse ponto mais frágil da nossa sociedade.
Por isso, recebo essa indicação como um reconhecimento de que é possível falar sobre essas questões com sensibilidade. É o cinema dizendo que essas histórias importam. Estamos falando da maioria da população brasileira, que nem sempre aparece como protagonista das obras audiovisuais.
Foi uma indicação que recebemos com muita alegria e também com a sensação de que essa história encontrou seu público e seu lugar dentro do cinema brasileiro.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu fiz essa mesma pergunta para a Lilian Santiago quando ela esteve em Sergipe, em abril, para uma masterclass sobre o Dogma Feijoada. Mais de duas décadas depois do manifesto, quais avanços você celebra e quais desafios ainda permanecem para realizadores negros no audiovisual brasileiro?
Jeferson De: São vários avanços. Um deles é que ficou muito mais barato produzir um filme. Quando criamos o Dogma Feijoada, há cerca de 25 anos, era necessário filmar em negativo, revelar o material e depender de laboratórios que existiam basicamente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Hoje, de certa forma, houve uma democratização do acesso aos meios de produção audiovisual.
Atualmente, você pode gravar um filme com qualidade 4K usando um celular, editar em aplicativos gratuitos e, principalmente, distribuir esse conteúdo. A possibilidade de fazer o audiovisual circular se tornou muito mais acessível.
Mas talvez o avanço mais importante tenha sido o acesso à educação. Não existe cineasta negro ou negra que consiga fazer cinema sem estudar. É preciso estudar fotografia, artes visuais, dramaturgia, linguagem audiovisual, ler muito. E, nesse sentido, um fator fundamental foi a política de cotas.
Estamos vivendo um momento em que uma grande população negra jovem chegou às universidades, aos cursos de cinema, audiovisual, humanas e até de exatas. Muitas dessas pessoas se tornaram realizadoras depois. Isso mudou profundamente o cenário.
A tecnologia também nos permitiu criar redes. Quando surgiu o Dogma Feijoada, éramos um grupo de seis ou sete pessoas em São Paulo. Com o avanço tecnológico, participei de outro momento muito importante para o audiovisual negro brasileiro: o surgimento da APAN, a Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro.
A APAN conectou profissionais de todo o país. Hoje faço parte de uma rede que reúne realizadores de Porto Alegre, Salvador, Maranhão, São Paulo, Rio de Janeiro e muitos outros lugares. A tecnologia teve um papel decisivo nesse processo de articulação.
Por outro lado, apesar desses avanços, ainda existem barreiras importantes. O acesso aos grandes streamings, às grandes estruturas de produção e às emissoras de televisão continua sendo difícil. Ainda é um espaço muito restrito.
Eu não sou a regra. Eu ainda sou uma exceção. Sou alguém que consegue fazer um filme a cada dois ou três anos, que vive de audiovisual, que sustenta a família trabalhando com isso. Essa ainda não é a realidade da maioria dos realizadores negros no Brasil.
O grande desafio continua sendo ocupar esses espaços de decisão, especialmente dentro dos grandes players do mercado audiovisual. E, nesse momento, mais do que aumentar o número de atores e atrizes negros, a urgência é ampliar a presença de produtores e produtoras negras.
Precisamos de produtores independentes, mas também de profissionais negros ocupando cargos de decisão dentro das grandes empresas. Pessoas que possam definir para onde vão os recursos, quais histórias serão contadas e quais projetos terão oportunidade de existir.
Eu trabalho em uma emissora que tem demonstrado disposição para experimentar e olhar para lugares que historicamente não recebiam tanta atenção. Quando estreou Garota do Momento, por exemplo, as três novelas exibidas naquele período tinham protagonistas negras. Isso é significativo.
Uma das minhas maiores felicidades é poder contribuir para esse movimento tanto no cinema quanto dentro de uma estrutura como os Estúdios Globo, que é a maior produtora audiovisual do país.
Mas a verdade é que, se eu ainda sou visto como exceção, então ainda existe um problema. O dia em que deixarmos de ser exceção será o dia em que poderemos dizer que o projeto iniciado lá atrás pelo Dogma Feijoada alcançou plenamente seus objetivos.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Você falou um pouco sobre esse momento tão especial da sua carreira e eu queria pedir um panorama do que vem por aí. E preciso fazer um comentário: Garota do Momento foi a minha novela favorita. Eu era completamente obcecada pela trama.
Agora estou muito ansiosa pela próxima novela das sete, que pelo que vi tem um tom mais dramático e traz novamente um protagonista negro, algo que chama bastante atenção. Além disso, você também está envolvido em Carolina, cujas gravações já foram concluídas, e em M8 – Parte 2, uma sequência que gerou uma repercussão enorme quando anunciamos no Oxente Pipoca. Muita gente comentou dizendo que esperava por essa continuação.
Queria que você falasse um pouco sobre esses projetos e sobre o que o público pode esperar dos seus próximos trabalhos.
Jeferson De: O Carolina está em fase de finalização. Tenho uma relação muito especial com a obra da Carolina Maria de Jesus. Há mais de 20 anos fiz um curta-metragem inspirado em sua trajetória, Carolina, que praticamente me lançou no cinema. Ganhei muitos prêmios com aquele trabalho e ele ajudou a viabilizar meu primeiro longa-metragem.
Por isso, esse novo projeto, baseado em Quarto de Despejo, tem um significado enorme para mim. Acho que todo mundo está ansioso para vê-lo, mas talvez ninguém esteja mais ansioso do que eu para finalmente mostrar esse filme ao público.
Já M8 – Parte 2 dialoga muito com a discussão que tivemos sobre as transformações no acesso à educação. Hoje é muito mais possível para jovens negros ingressarem na universidade do que era há algumas décadas. Isso representa uma revolução na sociedade brasileira. Muitos meninos e meninas negras são os primeiros de suas famílias a chegar ao ensino superior.
Mas entrar na universidade é apenas uma parte da jornada. O mais difícil, muitas vezes, é permanecer nela e concluir o curso. E o M8 sempre tratou dessas questões.
Costumo dizer que o primeiro filme acompanha o primeiro semestre daquele estudante de Medicina. Agora, na continuação, ele já está formado e surge uma nova pergunta: "E agora, o que eu faço?". Esse é um lugar muito complexo.
Conversei com muitos médicos e médicas negras recém-formados, com coletivos de profissionais negros da área da saúde e ouvi relatos sobre solidão, desafios e sobre ainda ocupar um lugar de exceção dentro da profissão. Existem coletivos de médicos negros espalhados pelo país e isso é algo muito bonito de ver.
O novo filme acompanha justamente esse personagem já formado, que continua ligado à sua comunidade, ao seu bairro, ao seu território. E mostra as contradições que surgem quando alguém conquista espaço profissional sem romper seus vínculos com o lugar de onde veio.
Estamos escrevendo o roteiro e pesquisando bastante. O primeiro filme nasceu muito do coração. Este também tem coração, mas talvez venha acompanhado de uma reflexão ainda mais aprofundada sobre essa geração de jovens negros que chegou à universidade e agora enfrenta os desafios do mercado de trabalho.
E tem também a novela, que estreia em agosto. Estou muito ansioso. Confesso que peguei gosto por esse universo.
O cinema é a minha vida. Tudo o que sou, tudo o que construí, as viagens que fiz e as oportunidades que tive vieram do cinema. E quando falo de cinema, não estou falando apenas do filme que assistimos em casa. Estou falando da sala escura, daquele espaço em que as luzes se apagam e a magia acontece.
Narciso, por exemplo, foi pensado para a sala de cinema. Claro que depois ele poderá ser visto em outras plataformas, mas foi construído para essa experiência coletiva.
Eu acredito profundamente na sala de cinema. É um espaço que continua me emocionando. Ali, pessoas desconhecidas compartilham sentimentos, emoções e reflexões ao mesmo tempo. É uma experiência única.
Recentemente vivi momentos muito especiais assistindo a filmes em salas lotadas. Vi pessoas cantando, chorando, se emocionando juntas. E isso é algo que não acontece da mesma forma quando assistimos a um filme sozinhos em casa.
Existe algo muito poderoso nesse encontro coletivo promovido pela arte. Você olha para o lado e percebe que outra pessoa foi tocada pela mesma cena que tocou você. É uma experiência humana muito bonita.
Talvez o que esteja faltando em muitos momentos da nossa história recente sejam justamente essas experiências coletivas. A arte tem essa capacidade de reunir pessoas, seja em um museu, em um show, em um concerto ou dentro de uma sala de cinema.
E o cinema continua sendo um dos lugares mais bonitos para que isso aconteça.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu sempre gosto de encerrar pedindo uma indicação para o nosso público. Pode ser um filme, uma série ou até uma peça. Só não vale indicar um trabalho seu — Narciso está fora da disputa. Pode ser uma obra favorita, algo que tenha te inspirado ou simplesmente uma recomendação que você gostaria de compartilhar.
Jeferson De: O último filme que me tocou profundamente foi Pecadores (Sinners). Ele passou pelos cinemas e agora está disponível no streaming. É um filme que me marcou por muitos motivos: pela música, pelas interpretações e pela potência da narrativa.
Também tive uma experiência muito especial porque depois pude conhecer o diretor e parte do elenco. Conversei com Michael B. Jordan e com uma das atrizes do filme. Isso tornou tudo ainda mais pessoal para mim.
Acho que Pecadores é um exemplo do tipo de história que eu gostaria de contar no Brasil. Uma narrativa que fala da experiência negra, mas que ao mesmo tempo dialoga com todo mundo. No filme existem personagens irlandeses, indígenas, a população branca conservadora, enfim, todos esses grupos convivem dentro da mesma história.
Foi uma experiência muito bonita e um filme que tocou muitas pessoas. Além disso, é um espetáculo cinematográfico. É daqueles filmes pensados para serem vistos na tela grande.
Eu revi o filme várias vezes e continuo ouvindo a trilha sonora com frequência. Acho as músicas incríveis. Então, além de recomendar o filme, também recomendo conhecer o trabalho do Buddy Guy e ouvir um pouco de blues. Existe uma conexão muito bonita entre a música dele e o universo que o filme apresenta.



















