Entrevista | “O corpo fala quando não conseguimos processar certas coisas”: diretora e protagonista falam sobre "As Correntes"
- Ana Beatriz Andrade

- há 2 horas
- 4 min de leitura
Milagros Mumenthaler e Isabel Aimé Gonzalez-Sola comentam a criação de uma personagem que tenta compreender um gesto sem explicações fáceis.

Imagine que você está no auge da sua carreira. Acabou de receber um convite para um prêmio na Suíça e passa os dias cercada por admiradores e pessoas que acompanham seu trabalho. Em meio ao evento, você encontra uma brecha para sair daquele lugar e caminhar pela cidade. Sem pressa, sem rumo, apenas observando as ruas ao redor. Então, ao passar por uma ponte, em um ato tão espontâneo quanto respirar, você se joga no rio.
É assim que começa As Correntes, novo filme da diretora e roteirista argentina Milagros Mumenthaler. A história acompanha Lina, interpretada por Isabel Aimé Gonzalez-Sola, uma mulher que já não consegue habitar a própria vida da mesma forma. De forma silenciosa, uma fobia à água começa a reorganizar sua rotina, seus vínculos e a imagem de controle que ela construiu ao redor de si.
O Oxente Pipoca pôde assistir ao filme com antecedência e conversar com Milagros Mumenthaler e Isabel Aimé Gonzalez-Sola sobre a origem da história, o processo de construção da personagem e os desafios de dar forma a uma narrativa que prioriza o sentimento ao entendimento.
Depois de circular por festivais no Brasil e no exterior, incluindo o Festival do Rio, As Correntes estreia nos cinemas brasileiros em 18 de junho, com distribuição da Filmes do Estação.
Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Poderia falar sobre o processo criativo de “As Correntes”? O que veio primeiro para você: uma personagem, um roteiro, um sentimento ou algo completamente diferente?
Milagros Mumenthaler: A semente deste filme foi uma imagem. Eu estava em Genebra caminhando à beira do rio e imaginei uma mulher se jogando na água. É uma imagem que permaneceu comigo por muito tempo e que me levantou muitas perguntas. Quem é ela? É um ato consciente? É um ato inconsciente? E havia também a questão da água. Então já existiam três elementos muito fortes. Um gesto, uma ação e um elemento. A partir daí comecei a desenvolver esta história.
Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Lina parece experimentar uma sensação de não pertencimento à própria vida, embora, do lado de fora, tudo pareça estável. Ela tem a carreira, o marido, a família… Então, quando você leu o roteiro pela primeira vez, qual foi sua primeira impressão da personagem? E como foi construir um sentimento tão difícil de definir, mas ao mesmo tempo tão reconhecível para tantas pessoas?
Isabel Aimé Gonzalez-Sola: Quando li o roteiro, li uma vez só. Ele me provocou uma emoção muito forte, mais física do que intelectual. Não surgiram tantas perguntas; surgiu uma sensação muito intensa, como se eu tivesse entrado no imaginário de alguém. Senti uma conexão muito forte com o que ela estava vivendo.
Sempre tentei conservar essa primeira emoção o mais pura possível dentro de mim, além de todo o processo, que foi muito longo, muito rico e muito fértil, que fizemos para entrar formalmente na personagem. Mas eu sempre voltava àquela primeira sensação.
No fundo, parecia haver algo do estado dessa personagem: alguém muito próximo da própria vida, muito vital, mas que atravessa uma distância dentro de si mesma. Uma mulher que volta a se perguntar quem é, por que está ali e que coloca tudo novamente em questão, tudo o que construiu. Esse estado vertiginoso foi o que o roteiro mais produziu em mim quando o li, e foi isso que tentei manter vivo na atuação, sem responder essa pergunta. Como se não fosse algo psicológico, mas realmente um estado.
Ana Beatriz Andrade (Oxente Pipoca): Algo que ficou comigo após assistir ao filme é que o salto de Lina não parece totalmente racionalizado ou mesmo inteiramente intencional. Ele parece nascer menos de um desejo de morrer e mais de um profundo esgotamento. Como você trabalhou para construir uma ação que funciona mais como impulso do que como explicação?
Milagros Mumenthaler: Sim. Eu estava interessada em trabalhar a ideia de que o corpo tem memória e de que o corpo fala muitas vezes, manifesta-se quando a pessoa não quer ver ou não consegue processar certas coisas mentalmente. É como se, de repente, o corpo falasse.
Também me parecia importante que esse gesto não fosse o fim de alguma coisa, mas o começo de alguma coisa. Que a personagem tivesse de voltar e se perguntar: “Por que eu fiz o que fiz?”. Esse caminho inverso me parecia muito mais interessante para contar esta história, porque as respostas não estão dadas. Na vida não existe resposta para tudo, e há algo de misterioso na vida que me interessava preservar.
Se aquele gesto fosse o fim, seria como oferecer uma resposta muito mais concreta. Por isso, desde o início, a ideia foi: existe esse gesto, e agora vamos ver o que acontece depois. E esse também foi um caminho difícil em termos de roteiro. Depois de uma imagem assim, de um ato assim, a pergunta era: o que acontece depois? Como sustentar essa história?



















