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- Crítica | Elle (1ª temporada)
Diverte como drama adolescente, mas perde força ao revisitar o passado de uma personagem tão icônica. Imagem: Divulgação Trazer Elle Woods de volta parecia uma missão quase impossível. Afinal, Legalmente Loira transformou a personagem vivida por Reese Witherspoon em um dos maiores ícones das comédias dos anos 2000. A boa notícia é que Elle, nova série da Prime Video, não tenta repetir exatamente o sucesso dos filmes. A má notícia é que, justamente por ser um prequel, acaba criando problemas para a própria história que deveria anteceder. A produção acerta ao assumir sua identidade como um drama voltado ao público juvenil. Em oito episódios, entrega romances, amizades, conflitos familiares e descobertas típicas da adolescência com bastante leveza. É mais um acerto da Prime Video dentro desse segmento, com uma narrativa ágil e personagens fáceis de acompanhar. As referências aos filmes aparecem o tempo inteiro e funcionam como um agrado para os fãs. O problema é que a série decide colocar Elle em uma jornada muito parecida com aquela vista em Legalmente Loira. Guardadas as devidas proporções, a protagonista passa novamente por situações que moldam sua personalidade e sua autoconfiança. Isso acaba diminuindo parte do impacto do filme, já que descobertas que antes pareciam transformadoras agora soam como lições que ela já havia aprendido anos antes. Por outro lado, o elenco é um dos grandes acertos da produção. Lexi Minetree faz um trabalho impressionante ao reproduzir os trejeitos, expressões e maneirismos que Reese Witherspoon eternizou nos cinemas, mas sem soar como uma imitação. Sua Elle convence justamente por parecer uma versão mais jovem da personagem, mantendo o mesmo carisma. Os coadjuvantes também elevam a série. Os dois interesses amorosos da protagonista são extremamente carismáticos e tornam fácil torcer por qualquer um deles, ainda que exista um inevitável desconforto para quem conhece o destino de Elle. A dinâmica familiar também funciona muito bem, especialmente graças à mãe da protagonista, Eva. June Diane Raphael entrega uma atuação divertida, acolhedora e ao mesmo tempo complexa, sendo um dos destaques da temporada. Imagem: Divulgação Outro ponto positivo está na ambientação. A década de 1990 ganha vida através do figurino, da direção de arte e, principalmente, da trilha sonora, recheada de bandas grunge e sucessos da época. A série também aproveita esse cenário para abordar inseguranças e conflitos típicos da adolescência sem deixar de atualizar a franquia, incorporando mais diversidade ao elenco e às histórias. Com uma segunda temporada já confirmada, fica a principal dúvida: até onde Elle conseguirá expandir esse universo sem se afastar ainda mais do material original? Se a primeira temporada já altera a forma como enxergamos a trajetória da protagonista nos filmes, os próximos episódios precisarão encontrar um equilíbrio entre construir uma identidade própria e respeitar o legado de Legalmente Loira. No fim, Elle funciona muito melhor quando deixa de ser um prequel e abraça sua essência de série adolescente. Divertida, carismática e bem interpretada, entrega uma temporada consistente, mas que ainda carrega o peso de tentar reescrever o passado de uma personagem que talvez nunca precisasse de uma história de origem. Nota: 3,5/5
- Crítica | Entrevista com o Vampiro / O Vampiro Lestat (3ª temporada)
Série se reinventa corajosamente em temporada tão ousada quanto caótica, e Sam Reid se reafirma como sua estrela incontestável. Divulgação Em tempos em que a lógica das franquias invadiu o mundo da televisão, não é incomum ver séries se desdobrarem em revivals, spin-offs, prequels e muito mais. Muito mais incomum, contudo, é ver uma série que, ao invés de ser encerrada e ter sua história continuada em outras séries, é renovada para uma nova temporada, mas assumindo um novo nome e sendo praticamente repaginada do zero. É exatamente esse o caso de Entrevista com o Vampiro, que após duas temporadas adaptando o livro homônimo de Anne Rice, volta para uma terceira temporada, mas ostentando o nome de O Vampiro Lestat, nome do segundo livro da saga escrita pela autora. Mas não é apenas o nome a única mudança: seu tom e identidade foram completamente reformulados, deixando de lado os ares de gótico sulista ou da tragédia teatral das temporadas anteriores para uma verdadeira explosão de glam rock (e caos, muito caos) neste novo ano. Assim como nas duas primeiras temporadas, a narrativa não-linear alterna entre passado e presente, embora com mais camadas: começamos com uma cena que alude a uma catástrofe global, e aparentemente Lestat (Sam Reid) teve algum papel nisso. Então retrocedemos alguns meses, para encontrarmos Lestat na estrada com sua banda, e no segundo episódio retrocedemos séculos para mergulharmos na vida do protagonista antes e depois de sua transformação em vampiro, tudo isso guiado por discos de vinis nos quais ele gravou suas confissões pessoais. Se parece muito, é porque é. Em tempos em que os streamings cada vez mais investem em séries didáticas e rasas, para se adequarem a um público que se divide entre assistir à TV e olhar o celular, a existência de O Vampiro Lestat é quase uma anomalia. A série sempre prezou pelo lirismo e riqueza dos seus diálogos, mas aqui eles atingem um novo nível em meio à profusão de referências culturais, monólogos e a narração frenética e explosiva de Lestat, que substitui o caráter quase erudito e melancólico da narração de Louis (Jacob Anderson) nas temporadas anteriores. A escala e intensidade dos eventos acompanha esse frenesi e loucura, e muita, mas muita coisa, acontece nos episódios, sustentados num equilíbrio frágil, mas que funciona em boa parte do tempo. Além disso, o caráter mais sombrio das duas primeiras temporadas é substituído por um tom evidentemente mais camp, que não tem medo de abraçar o humor e a galhofa de vez em quando, com constantes quebras de expectativa. Essa mudança narrativa e tonal faz todo o sentido para a mudança de protagonismo na temporada, e para aqueles que sentiram falta de Lestat na segunda temporada, é um prazer anunciar que ele é o destaque inconteste deste terceiro ano, e por extensão a performance de Sam Reid. É até difícil pôr em palavras as muitas maneiras como Reid é capaz de trazer o personagem à vida, porque trata-se de uma leva de episódios que traz muitas nuances para ele, algumas já vistas antes, outras completamente novas. Ora se comportando como uma prima donna, ora sendo a figura mais quebrada e triste do mundo (e com muitas, muitas camadas entre esses dois extremos), Reid rouba – não, devora – cada cena em que aparece, reforçando aquilo que já se poderia deduzir das temporadas passadas: é uma das melhores performances da televisão contemporânea, quiçá da história da televisão como um todo. Entretanto, O Vampiro Lestat não é apenas um novo começo para Entrevista com o Vampiro, mas também uma continuação das narrativas que a série vinha trabalhando. Louis retorna sob um novo prisma, num arco onde sua culpa pela morte de Claudia (Delainey Hayles) é levado a lugares extremos e surpreendentes; e temos também o retorno de figuras como Daniel (Eric Bogosian), que ganha um papel ainda mais ativo na trama ao acompanhar Lestat e sua banda em turnê, e Armand (Assad Zanan), tão dissimulado e enigmático como sempre. Divulgação Ao mesmo tempo, a inserção de novas figuras como Gabriella (Jennifer Ehle) ajuda a elucidar e destrinchar da figura complexa que é Lestat, e também mostra como a série continua disposta a não fazer concessões quanto à moral dos seus personagens. Em meio à atual safra televisiva que precisa se justificar e aliviar os comportamentos dos protagonistas para não ofender o seu público, é um alívio assistir a uma série que nos remete ao período dourado das décadas passadas da televisão, com protagonistas moralmente complexos e complicados. Porém, apesar do seu ritmo caótico e frenético ser uma mudança bem-vinda e inspirada, a temporada em determinados momentos ameaça se dobrar sob o peso desse caos, sobretudo com os flashbacks de Lestat. É compreensível que haja uma inversão aqui em relação ao que vimos nas temporadas passadas (onde os flashbacks assumiam a centralidade da narrativa), mas é perceptível a maneira como os episódios passam de maneira até superficial pelos eventos no passado, ou até se desencaixando com os eventos narrados no presente. Em alguns momentos isso até se dá pela escolha de acompanhar a subjetividade não-confiável do narrador – como evidente no seu processo traumático de transformação pelo vampiro Magnus (Damien Atkins) –, enquanto outros servem para apontar o futuro da série, como a inserção de Akasha (Sheila Atim, que se mostra um dos destaques da temporada, mesmo aparecendo um único episódio). Ao final, com o cliffhanger deixado, pode se assumir que os eventos desta e da próxima temporada estarão conectados num grande arco tal qual foi o caso das duas primeiras temporadas. Entretanto, essas, por adaptarem um livro só, davam muito mais espaço ao material original respirar, o que parece faltar em alguns momentos aqui. Mas apesar dessa falta de equilíbrio em determinados momentos entre suas linhas temporais e narrativas, O Vampiro Lestat se revela um verdadeiro acerto em sua missão ousada de reinventar a série anteriormente conhecida por Entrevista com o Vampiro. Ainda é a mesma série, e ao mesmo tempo não é; e, embora essa mudança tonal, narrativa e estilística possa desagradar uma parcela do público, é completamente coerente com o espírito anárquico e excêntrico do seu novo protagonista. E só pelo prazer de ver Sam Reid incorporar Lestat com tamanha ferocidade e facilidade, já se pode dizer que as mudanças aqui feitas valeram muito a pena. Nota: 4.5/5
- Entrevista | “É um gesto impuro, mas o filme se arrisca a fazer isso”: Davi Pretto e Zé Maria Pescador falam sobre “Futuro Futuro”
Diretor e ator falaram sobre as temáticas sociais do filme, o uso de IA e a jornada existencialista do protagonista. Divulgação Estreia na próxima quinta-feira (23) nos cinemas brasileiros o longa Futuro Futuro, dirigido por Davi Pretto. O diretor gaúcho, que já trabalhou com gêneros como o faroeste (em Rifle) e terror (em Continente) agora volta seus olhos para a ficção científica, usando-a para discutir questões sociais e de classe, bem como o impacto das IAs em nossas vidas. Ambientado em uma metrópole brasileira explicitamente dividida de acordo com suas classes, Futuro Futuro segue um homem sem nome (Zé Maria Pescador), que acorda sem memória na parte pobre da cidade. Acolhido por um homem mais velho (João Carlos Castanha) que trabalha como clickworker, ele é renomeado K em decorrência de uma estranha cicatriz no ombro, e enquanto tenta resgatar suas memórias é assolado por sonhos e visões que o fazem crer que veio da parte rica da cidade, levando-o a uma jornada em busca da sua própria identidade. Você pode conferir a crítica do filme aqui. Em entrevista para o Oxente Pipoca, Davi Pretto comentou que buscou suas maiores referências para o filme na literatura de ficção científica, citando obras como Os Despossuídos, de Ursula K. Le Guin, além de autores como William Gibson, Octavia Butler, Philip K. Dick, dentre outros. Segundo Pretto, esses autores costumavam pensar a ficção científica como um espaço de reflexão de questões políticas sociais dos seus tempos, de uma maneira que o naturalismo não conseguiria dar conta. Assim, pensar o gênero estaria diretamente ligado a pensar a desigualdade social e as crises urbana, tecnológica e climática. Pretto também comentou sobre o uso da IA não só na narrativa, mas também na forma de Futuro Futuro, já que as visões e sonhos que assombram K durante todo o filme são compostas de imagens geradas por IAs. Para o diretor, é preciso sair de um lugar de certezas e abraçar a “dúvida” no tocante não só às IAs, mas vários outros debates que circulam na internet, e ainda que se assuma uma posição crítica em relação ao assunto é preciso compreendê-lo e investigá-lo mais a fundo. Já para Zé Maria, havia a necessidade de mostrar o caos em que o mundo se encontrava dentro da narrativa do filme, e o uso da inteligência artificial se adequou a isso. Embora ele ainda considere que não está habituado à presença da IA dentro do cinema, o filme precisava desse olhar crítico e desse impacto visual através da presença dessas imagens. “Se a gente só negar essas estruturas de trilhões de dólares, vai ter um efeito muito pequeno”, disse Pretto, que continuou: “O gesto de ter mexido com IA foi um gesto crítico, para trazer isso a debate. E eu encontrei certas regras para conseguir navegar dentro desse espaço, que é um espaço muito nocivo. Acho que a gente precisa qualificar o debate sobre essa questão antes que a gente seja patrolado por isso, porque a gente já tá sendo. Então, acho que o filme convida o espectador a pensar sobre essas coisas. É um gesto impuro? É claro que é impuro. Não existe mais gesto puro no mundo. Mas eu acho que o filme se arrisca a fazer isso”. É inegável que a estranheza provocada por essas imagens corrobora para o próprio ar de estranheza provocado pela jornada vivenciada por K no filme, que assume tons um tanto surrealistas e até mesmo kafkanianos – afinal de contas o nome do personagem evoca Josef K, o protagonista do clássico romance O Processo, de Franz Kafka, e da sua adaptação dirigida por Orson Welles em 1962. Segundo Pretto, não se tratou de uma coincidência. “Eu acho que isso tem muito a ver com a provocação que o filme faz, que é de pensar o quanto nós temos agência do nosso destino. E uma coisa que me pergunto sempre é se não foi essa ilusão de que a gente tem agência da nossa vida que nos levou para nossa tragédia. Talvez a gente deveria olhar para essa passividade que temos tanto individualmente quanto coletivamente, essa irrelevância que a gente tem perante as grandes crises que estamos enfrentando, e talvez entender e aceitar essa irrelevância e passividade, assim como o K descobre ao longo do filme. Talvez encarando isso a gente consegue encontrar algo novo”, afirmou ele. Portanto, o que se vê em Futuro Futuro é um personagem em contínuo deslocamento, algo evidenciado até mesmo no sotaque do potiguar Zé Maria, que se destaca em meio a um elenco majoritariamente sulista e sudestino. “O K é um estrangeiro, não sabe de onde veio nem quem é ele. E, como eu disse recentemente em outra entrevista, até hoje não consigo entender o K. Mesmo já tendo assistido o filme, quero descobrir”, disse o ator, que também comentou um pouco a respeito do seu processo de preparação para trazer o personagem à vida. “Eu tive que me olhar no espelho e diante do espelho, entre mim e a minha imagem no espelho, colocar uma ‘cortina’. E eu fiquei olhando para aquela cortina e não me via, não como eu me via no espelho, só que daí por trás daquela cortina tinha uma imagem. E a busca pelo K era isso. E essa transição daquela região pobre para a região rica é como atravessar essa cortina. Antes da cortina eu via o Zé Maria, só que o K não existe, não se vê. Então pensei ‘eu vou botar uma cortina aqui, porque daí de repente posso trabalhar através dessa imagem apagada’.” Indagado sobre como a jornada de K pode refletir as nossas próprias buscas enquanto seres humanos – especialmente com o advento do conservadorismo e das big techs –, Zé Maria pontuou justamente a divisão de classes vista no decorrer de Futuro Futuro, e como ela espelha a desigualdade social vista e vivenciada na nossa realidade. “Quando K acorda, ele vai em busca de se reconhecer, e quando ‘atravessa essa cortina’ e vai para a zona mais rica, dá de cara com uma outra realidade, que é muito mais louca. Naqueles prédios só tem gente louca, com menos juízo do que ele [risos]. Essas pessoas quem serão as principais afetadas pela própria loucura, pela própria riqueza”, afirmou. Por fim, Davi Pretto e Zé Maria Pescador ofereceram para o público do Oxente Pipoca suas indicações de filmes brasileiros que de alguma forma se relacionam com Futuro Futuro, seja pelo campo da ficção científica ou pela discussão das desigualdades sociais. Pretto indicou Luz dos Trópicos, de Paula Gaitán; Mato Seco em Chamas, de Adirley Queirós; e Quem é Beta?, de Nelson Pereira dos Santos. Já Zé Maria indicou Açúcar, de Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro; e O Clube dos Canibais, de Guto Parente.
- Produtora sergipana Floriô de Cinema celebra dez anos fortalecendo o audiovisual nordestino e prepara primeiro longa-metragem
Da universidade pública ao circuito internacional, a produtora construiu uma trajetória marcada pela formação de profissionais, circulação de filmes e fortalecimento do cinema feito em Sergipe. Imagem: Divulgação Há dez anos, um grupo de estudantes do curso de Audiovisual da Universidade Federal de Sergipe (UFS) decidiu transformar o desejo de fazer cinema em um projeto coletivo. O que começou em 2016 como Floriô Filmes, em meio às dificuldades de produzir em um estado com poucos recursos para o setor audiovisual, tornou-se a Floriô de Cinema, produtora e distribuidora sergipana que hoje reúne uma trajetória marcada por filmes premiados, projetos de formação, circulação internacional e novas produções em desenvolvimento. Ao celebrar uma década de atuação, a produtora reafirma seu compromisso com um cinema feito a partir dos territórios, das identidades e das histórias do Nordeste, contribuindo para fortalecer a cadeia audiovisual em Sergipe e ampliar a presença de narrativas historicamente pouco representadas no cinema brasileiro. "A Floriô nasceu como Floriô Filmes, uma produtora formada por jovens estudantes de cinema da UFS que ainda não compreendiam a burocracia de gerir uma empresa, mas compartilhavam o sonho de fazer florescer o cinema em um território marcado pela escassez de recursos, mas abundante em identidade e histórias pulsantes. Foi em 2020 que retomamos as atividades com uma nova formação, muito mais madura, ampliando nossas conexões no Brasil e no exterior para fortalecer e fomentar a produção local", afirma a roteirista e diretora Carolen Meneses, sócia da produtora. Ao longo desses dez anos, a Floriô consolidou um catálogo com mais de quinze curtas-metragens e projetos reconhecidos em festivais nacionais e internacionais. Entre eles estão Ímã de Geladeira, exibido na Mostra de Tiradentes, Festival de Gramado, Chicago Latino Film Festival e Seattle Black Film Festival; ANARRIÊ, premiado em diversos festivais brasileiros e com circulação internacional e Abjetas 288, vencedor da Mostra Foco da Mostra de Cinema de Tiradentes. A partir de 2022, a Floriô criou mais uma frente de atuação, que foi a distribuição. Entre as obras, destacam-se "Para as gerações que vieram antes de mim", de Felipe Bretas, premiado no 23º FestCurtasBH, e "Fogo nos Macacos", de Clementino Júnior e Daiana de Souza, exibido no 18º Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul. As produções da Floriô também chegaram à televisão e ao streaming, com licenciamentos para Canal Brasil, Itaú Cultural Play, SPCine Play e Embaúba Play. Formação e fortalecimento do setor Mais do que produzir filmes, a Floriô investe na formação de novos profissionais e no fortalecimento do audiovisual sergipano. Entre suas principais iniciativas está o CRIAS – Cine de Rua Infantil de Sergipe, projeto itinerante de exibição que caminha para a quarta edição, levando gratuitamente o cinema brasileiro para diferentes comunidades. Outra frente é o Pólen das Artes, iniciativa formativa criada pela produtora que promove oficinas, aulas, masterclasses e sessões de cinema. Em aproximadamente um ano de atividades, o projeto já alcançou mais de 150 participantes. "Esses dez anos marcam um projeto de vida que segue de pé. Assumir a continuidade da produção neste território é um desafio que nos move, apesar das improbabilidades e dos desestímulos. Escolhemos continuar aqui porque entendemos que nossos projetos só podem ser realizados neste lugar, por estarem conectados ao território e às pessoas que o constroem", destaca o diretor e produtor Neto Astério. Segundo ele, a atuação da produtora está diretamente ligada à universidade pública. "Tendo saído do ensino público superior, entendemos a importância das ações formativas e nos orgulhamos dos passos dados até aqui pelo Pólen das Artes. Além disso, ter em perspectiva a realização de Abya Yala, o primeiro longa-metragem da produtora, representa um importante marco construído ao longo de todos esses anos." Próximos projetos A comemoração dos dez anos coincide com um dos momentos mais importantes da trajetória da produtora: a preparação de Abya Yala, primeiro longa-metragem da Floriô de Cinema, com roteiro e direção de Carolen Meneses. Além do longa, a produtora mantém em desenvolvimento outros três projetos de longa-metragem, duas séries e novos curtas com estreia prevista para 2027, entre eles Coágulos, dirigido por Thaís Galindo Ramos, e Corpus-Água, de Sidjonathas Araújo, recentemente premiado no XXI Panorama Internacional Coisa de Cinema, em Salvador, na Bahia. Em 2026, a Floriô também conquistou novos reconhecimentos internacionais, como a participação da série Onilé, de Sidjonathas Araújo, no Campus Málaga Talent, na Espanha, e a premiação do projeto durante o Mercado EGBÉ. Para Sidjonathas Araújo, o futuro da produtora passa pela ampliação das conexões nacionais e internacionais sem perder o vínculo com seu território de origem. "A Floriô de Cinema mira para o futuro com o compromisso de ampliar sua atuação no audiovisual brasileiro, impulsionando a conexão artística em Sergipe e a produção de obras no cenário nacional. Seguiremos construindo um cinema comprometido com a transformação social, a inovação artística e a circulação de histórias que ainda encontram poucos espaços de visibilidade." Cinema feito a partir de Sergipe Ao longo de sua história, a Floriô construiu uma identidade voltada para temas como negritudes, territórios, identidades, gênero e sexualidade, buscando fortalecer narrativas produzidas a partir do Nordeste. "Nosso propósito continua sendo a diversidade, o impacto cultural e a democratização do acesso ao cinema. Acreditamos que fazer cinema em Sergipe, a partir de quem somos e de onde viemos, é também garantir que histórias historicamente silenciadas encontrem espaço nas telas e no imaginário coletivo", afirma a roteirista e produtora Thaís Galindo Ramos. Ela destaca que cada produção realizada pela empresa também representa um investimento na cadeia produtiva local. "Cada filme ou projeto movimenta nossa cadeia audiovisual e abre caminho para novos profissionais que, sem esse espaço, dificilmente teriam onde começar. Nosso compromisso é construir oportunidades reais para quem ousa fazer cinema aqui." Com uma década de atuação, a Floriô de Cinema segue apostando em um modelo de produção que une criação artística, formação, circulação e fortalecimento do audiovisual descentralizado, mostrando que histórias produzidas em Sergipe podem dialogar com públicos de todo o Brasil e do mundo.
- Crítica | A Fabulosa Máquina do Tempo
Documentário de Eliza Capai transforma o olhar de meninas do sertão em uma bonita narrativa sobre futuro, memória e resistência. Imagem: Divulgação É curioso como o cinema costuma imaginar o futuro sempre pelo pior caminho possível. Quando pensamos em ficção científica, é comum encontrar histórias sobre o fim do mundo, máquinas dominando humanos ou uma humanidade caminhando para o desastre. A Fabulosa Máquina do Tempo, novo documentário de Eliza Capai que estreia nesta quinta-feira (30), faz um movimento completamente diferente: ele olha para o futuro a partir do sonho. O filme acompanha meninas de Guaribas, no interior do Piauí, que participam de uma oficina de audiovisual e começam a criar uma máquina do tempo imaginária. A partir dessa brincadeira, elas revisitam histórias das gerações anteriores, conversam com suas famílias e passam a imaginar quais futuros gostariam de construir. A ideia poderia facilmente cair em um documentário convencional sobre desigualdade social, mas Eliza Capai encontra uma abordagem muito mais interessante. O filme não transforma essas meninas em personagens de uma realidade difícil que precisam ser "salvas". Pelo contrário: elas são o centro de tudo. São elas que conduzem a narrativa, fazem perguntas, descobrem informações, contam suas histórias e mostram como enxergam o mundo. A câmera não está ali apenas para registrar a infância dessas meninas. Ela entende que existe inteligência, criatividade e uma forma própria de interpretar a realidade naquele olhar infantil. E esse talvez seja o maior acerto do documentário. A Fabulosa Máquina do Tempo entende que brincar também é uma forma de pensar sobre questões sérias. Quando as meninas inventam situações, criam personagens e imaginam o futuro, elas estão tentando organizar as informações que recebem sobre o mundo ao redor. A brincadeira não diminui a força dos temas abordados; ela torna tudo ainda mais poderoso. A estrutura narrativa também merece destaque. Eliza mistura elementos de documentário, ficção científica e fantasia sem que isso pareça forçado. O filme encontra uma linguagem própria ao acompanhar a lógica dessas meninas, que conseguem transformar problemas complexos em possibilidades de criação. A fotografia é outro grande destaque. A câmera acompanha as protagonistas com uma proximidade que coloca o espectador dentro daquele universo, enquanto a paisagem da Serra das Confusões ganha uma dimensão quase fantástica. Existe beleza nas imagens, mas o filme nunca usa essa beleza para esconder as dificuldades enfrentadas pelas personagens. Porque A Fabulosa Máquina do Tempo não foge dos temas mais duros. A pobreza, o machismo estrutural, o alcoolismo, as desigualdades e as limitações impostas às mulheres aparecem ao longo da narrativa. A diferença é que Eliza Capai não permite que esses problemas sejam a única definição dessas meninas. E isso torna o filme ainda mais político, especialmente, em um período em que o Brasil volta a discutir quais caminhos quer seguir, especialmente com a proximidade das eleições, o documentário propõe uma reflexão fundamental: que futuro estamos construindo para essas crianças? Quem terá direito de sonhar? Quem terá espaço para ocupar lugares que historicamente foram negados? Imagem: Divulgação Ao colocar meninas do sertão nordestino imaginando suas próprias possibilidades, o filme também fala sobre o papel da mulher na sociedade. As histórias das mães e das avós mostram como as desigualdades atravessam gerações, mas as meninas representam justamente a possibilidade de romper esse ciclo. O mais bonito é que o filme consegue falar de tudo isso sem perder a leveza. Ele não termina deixando o espectador com a sensação de que os problemas são grandes demais para serem enfrentados. Pelo contrário: termina fazendo acreditar naquelas meninas e nos futuros que elas imaginam. Ainda que alguns momentos poderiam explorar mais profundamente determinadas questões sociais apresentadas ao longo da narrativa, a força do olhar escolhido por Eliza Capai supera essas limitações. O filme entende que imaginar também é uma forma de construir caminhos. E talvez essa seja a maior qualidade de A Fabulosa Máquina do Tempo: em vez de prever um futuro inevitavelmente pior, ele escolhe acreditar que existe outro possível. Um futuro onde essas meninas existem, sonham e têm o direito de construir suas próprias histórias. Nota: 4.5/5
- Entrevista | Vinícius Neri fala sobre 'Fúria', preparação física e os desafios da carreira
Ator protagoniza a nova série brasileira da Netflix, que chega ao catálogo nesta quarta-feira (29) Imagem: Divulgação Às vésperas da estreia de Fúria, nova série brasileira da Netflix que chega ao catálogo em 29 de julho, o ator Vinícius Neri conversou com o Oxente Pipoca sobre os desafios de protagonizar a produção, sua trajetória na atuação e os próximos projetos da carreira. Formado pela Escola de Arte Dramática da USP (EAD), o ator relembrou como descobriu a paixão pelo teatro ainda na adolescência, falou sobre o processo de preparação para viver um lutador de MMA e comentou também sua participação no longa Esta Noite Não Seremos Estranhos. Confira a entrevista completa: Ávila (Oxente Pipoca): Obrigado pelo seu tempo, Vinícius. Antes de falar sobre seus trabalhos mais recentes, eu queria voltar um pouco ao início da sua carreira. Você é formado pela Escola de Arte Dramática (EAD) da USP e eu sempre gosto de fazer essa pergunta para os atores. Quando você percebeu que queria seguir a carreira de ator, o que imaginava para o seu futuro? Você pensava mais em teatro, audiovisual ou simplesmente queria atuar? E como essas expectativas foram mudando ao longo da sua trajetória? Vinícius Neri: Cara, eu descobri que queria ser ator aos 14 anos, fazendo uma peça de teatro na escola. Foi uma epifania. Eu nunca tinha pensado em ser ator. Minha mãe dizia que eu era muito exibido quando era criança, então essa vontade de ser visto talvez já estivesse ali, mas eu nunca tinha considerado essa profissão. Um dia, uma pessoa entrou na sala perguntando quem queria participar de uma peça. Eu levantei a mão sem grandes pretensões. Quando subi ao palco para a apresentação, aconteceu aquele momento de encantamento. Pensei: "Meu Deus... acho que quero fazer isso pelo resto da minha vida". Foi quando o bichinho realmente me mordeu. Depois precisei esperar um pouco, porque ainda estava estudando e precisava trabalhar. Só quando terminei o ensino médio consegui começar a estudar teatro de verdade. Nesse período, eu pegava cenas de televisão e obrigava minhas amigas a interpretá-las comigo. Mas, curiosamente, não sei se eu era aquela pessoa que sonhava especificamente em ser ator de TV. Acho que isso costuma acontecer com muita gente porque é o primeiro contato que se tem com a atuação. Quando comecei a estudar teatro de fato, primeiro em Santos, de onde eu sou, percebi que o que realmente me encantava era o ofício do ator. Lembro de pensar: "Eu vou fazer isso para o resto da minha vida, porque tudo o que um ator precisa desenvolver para exercer sua profissão já me interessa como pessoa". Sempre tive uma relação muito forte com autoconhecimento, espiritualidade e esse tipo de investigação. Então, mais do que querer estar em determinado lugar ou alcançar determinado status, o que sempre me fascinou foi o trabalho em si. Estar em uma sala de ensaio, fazer laboratório, experimentar diferentes sensações, descobrir possibilidades do meu corpo... isso sempre me encantou muito. Inclusive, essa relação com o corpo acabou sendo fundamental agora em Fúria, que é uma série extremamente física. Na minha formação, principalmente quando fui para São Paulo estudar na EAD, tudo era muito voltado para o corpo. Até as aulas de interpretação passavam muito pela expressão corporal. Tive aulas de dança, expressão corporal e também conheci uma técnica chamada Body-Mind Centering (BMC), uma prática somática que foi muito importante na minha formação. Acho que essa aptidão para a expressão corporal acabou sendo uma grande aliada em Fúria, porque, de certa forma, eu precisei me transformar em um lutador praticamente da noite para o dia. Ávila (Oxente Pipoca): Ainda falando sobre a sua carreira, você já fez teatro, televisão e cinema. Imagino que esteja vivendo um momento em que muitos projetos interessantes estejam surgindo. Existe alguma coisa que você ainda não fez e tem muita vontade de experimentar? Pode ser um gênero, como comédia, terror ou musical. Algum trabalho que realmente tiraria você da zona de conforto? Vinícius Neri: Acho que a comédia. Tenho uma coisa curiosa: entre as pessoas próximas, com quem tenho intimidade e consigo relaxar, eu posso ser engraçado. Mas, se eu sei que preciso ser engraçado, acabou. (risos) Então, acho que esse seria o maior desafio para me tirar da zona de conforto. Admiro muito quem trabalha com humor. Acho incrível essa capacidade de fazer as pessoas refletirem enquanto riem. O humor é uma ferramenta muito poderosa porque, de certa forma, ele desarma as pessoas. Você fica sem defesa e, quando percebe, já está pensando sobre alguma questão importante. Quando essa leveza se une a uma dramaturgia que tenha alguma função social, acho maravilhoso. Tenho muita vontade de estudar humor, fazer aulas de palhaçaria. Acho um universo muito interessante. Existe um nível de relaxamento que a comédia exige. Não dá para ficar tenso. É um exercício muito grande. Ávila (Oxente Pipoca): Agora vamos falar de “Fúria", que estreia no próximo dia 29/07 na Netflix. Você interpreta um personagem que inicia a história tentando descobrir quem é. Ele sofre uma perda de memória e vai reconstruindo sua identidade ao longo da série, ao mesmo tempo em que o público também vai conhecendo esse homem. Como foi o processo de construir um personagem que praticamente precisa se redescobrir diante da câmera? Vinícius Neri: Teve um livro que a Amanda Gabriel, uma das preparadoras da série, me deu de presente: Neófita, da Octavia Butler. A protagonista também perde a memória e, no início da história, ela vai caminhando e redescobrindo o mundo ao redor. Ela olha para uma árvore e, depois de um tempo observando, lembra que aquilo é uma árvore. Esse exercício foi muito importante para mim. Era como se eu precisasse olhar para tudo de novo. Estou aqui conversando com você, mas, para o personagem, aqueles olhos, aquele nariz, aquela pessoa... tudo precisava ser reconhecido outra vez. No começo da série isso aparece de maneira mais evidente. Depois, à medida que ele vai recuperando parte da memória, essa percepção também muda. Ao mesmo tempo, ele não é uma pessoa que perdeu completamente a linguagem. Ele sabe falar, sabe ler, consegue se comunicar. O que desapareceu foi a memória da própria vida. Foi um desafio enorme entender exatamente em que lugar esse personagem estava. Outra coisa muito importante é que a principal memória dele é o próprio corpo. Ele sente coisas que não consegue explicar. E isso tem tudo a ver com a história da série. Tenho que tomar muito cuidado para não dar spoiler. (risos) Então essa construção da identidade passava muito mais por uma sensação interna do que por algo verbal. O Marcelo é um personagem que fala pouco, principalmente no início da trama. Eu me apegava muito à sensação de existir um bicho dentro dele, alguma coisa que está tentando sair. Ao mesmo tempo em que tudo é novo, tudo também desperta desconfiança. Ele recebe ajuda dessas pessoas que encontra pelo caminho e precisa aprender a confiar nelas. Conforme a história avança, ele cria uma conexão verdadeira com essas pessoas. Depois, quando o público assistir, vai entender que existe um motivo muito específico para essa identificação. Acho que foi mais ou menos esse o caminho da construção. Ávila (Oxente Pipoca): Já que tocamos nesse assunto, preciso perguntar sobre a preparação física. O Marcelo é encontrado por um treinador de MMA, interpretado pelo brilhante Fábio Lago, e grande parte da história passa por esse universo das lutas. Você comentou que sua formação sempre teve um trabalho muito forte com o corpo. Queria saber como isso ajudou na preparação e também se você já tinha alguma familiaridade com artes marciais antes da série. Vinícius Neri: Quase nenhuma. (risos) Fiz uma aula de Muay Thai quando tinha uns 15 anos e nunca mais voltei. Quando era criança, com quatro ou cinco anos, fiz Taekwondo durante um período bem curto. Então, na prática, eu não tinha referência nenhuma. Mas a série tinha uma estrutura impressionante. Foi realmente um sonho participar de um projeto com esse nível de preparação. Tínhamos uma equipe enorme de profissionais. Antes mesmo de começar os treinos, fiz uma bateria completa de exames para saber se estava tudo certo. Descobriram uma tendinite no punho e eu fiquei desesperado. Pensei: "Pronto, vão me tirar da série." Mas consegui resolver rapidamente com fisioterapia e, uma semana depois, já estava treinando normalmente. Na semana seguinte aos exames comecei uma rotina de três treinos por dia. Durante nove meses vivi literalmente como um atleta. Era dieta rigorosa, fisioterapia, acompanhamento com endocrinologista, suplementação... tudo muito controlado. Tomava cerca de vinte comprimidos de suplementos por dia, sempre com acompanhamento médico. Foi um desafio enorme. Ter essa relação com o corpo construída ao longo da minha formação ajudou muito. Na série, a luta não era simplesmente sair brigando. Existia uma coreografia extremamente precisa. Claro que, às vezes, fazíamos um sparring mais livre, mas tudo era muito controlado porque eu não podia me machucar. Na verdade, essa era a melhor parte. (risos) Eu podia bater em todo mundo, mas ninguém podia bater em mim, porque, se eu me machucasse, a série inteira parava. Então eu estava vivendo o sonho. (risos) Muitas vezes treinávamos com lutadores profissionais. Eles diziam: "Pode bater de verdade." E eu respondia: "Se você está pedindo..." Mas foi um processo muito intenso. A luta tem uma espécie de dança própria. Quando eu ficava alguns dias sem treinar, sentia que perdia um pouco dessa memória corporal. Os movimentos, as fintas, a postura... tudo isso precisava parecer natural. O maior risco era o público olhar e pensar: "Está quase convencendo, mas ainda parece um ator fingindo lutar." Eu não queria que isso acontecesse. Então treinava também em casa para manter o corpo sempre preparado. Além das aulas de luta, fiz balé durante a preparação para desenvolver equilíbrio, força e elasticidade. Também ensaiávamos toda a coreografia das lutas. Foi uma preparação muito completa. A produção realmente está de parabéns porque toda essa parte física foi planejada com muito cuidado. E isso fez toda a diferença no resultado. Imagem: Divulgação Ávila (Oxente Pipoca): Agora eu queria mudar um pouco de assunto e falar sobre “Esta Noite Não Seremos Estranhos". Se não me engano, esse é o seu primeiro longa-metragem, certo? Ou você já havia feito outro antes? Vinícius Neri: De longa, esse foi o primeiro, sim. Ávila (Oxente Pipoca): Ele nasceu a partir do curta “Fotos Privadas”, que conta também com o Lucas Galvão, meu conterrâneo. Queria que você falasse um pouco sobre o filme e sobre a sua participação nessa produção. Vinícius Neri: Isso, esse filme é um desdobramento de Fotos Privadas. Inicialmente, Fotos Privadas era um episódio piloto de uma série. Depois acabou se transformando em um curta-metragem, que teve uma trajetória muito bonita. Circulou pelo Brasil e por outros países, conquistou vários prêmios e foi muito bem recebido. Durante muito tempo ficamos naquela expectativa de que a série realmente acontecesse. Gravamos o curta em 2019, ele estreou em 2020 e passaram cerca de seis anos até que o projeto voltasse como longa-metragem. Nesse período, a gente brincava até com o medo de envelhecer e perder os personagens. (risos) No fim, a série não saiu, mas nasceu o filme. E ele chegou justamente quando eu já estava me preparando para Fúria. Conciliar os dois projetos foi um desafio enorme. Como eu era protagonista de Fúria, minha rotina de preparação física ocupava praticamente o dia inteiro. Eram muitas horas de treino todos os dias. Mesmo assim, fiz muita questão de participar desse filme. É um projeto muito especial para mim, porque foi meu primeiro trabalho no cinema e também o primeiro teste para cinema que passei na carreira. Além disso, foi um encontro completamente profissional. Eu não conhecia o Marcelo Grabowsky. Foi simplesmente um diretor que viu meu teste, gostou do meu trabalho e me escolheu para o projeto. Isso sempre teve um significado muito importante para mim. Hoje o Marcelo faz parte da minha vida. É uma pessoa que eu amo muito e por quem tenho um carinho enorme. Então fazia muito sentido estar presente também nessa nova etapa da história. Claro que o roteiro passou por algumas mudanças. Preciso tomar cuidado para não revelar muita coisa, mas houve adaptações importantes em relação ao curta. O personagem que eu interpretava originalmente já não existe da mesma forma, porque o roteiro tomou outro caminho. No longa, eu interpreto o Guto. Ele chega ao Rio de Janeiro enquanto o namorado está fora do país e os dois vivem um relacionamento aberto. Ao longo da história, ele vai descobrindo mais sobre si mesmo a partir dos encontros que tem por meio de aplicativos. Eu interpreto um dos homens que ele conhece nesses encontros. Os dois acabam desenvolvendo uma relação ao longo da narrativa. Mas estou com um certo receio de falar demais. (risos) Ávila (Oxente Pipoca): Fica tranquilo. Acho que você já conseguiu dar uma boa ideia do que o público pode esperar. Eu gosto muito de Fotos Privadas. Acho um curta extremamente sensível e muito bonito. Além disso, existe um clima de suspense que me agrada bastante. É um trabalho realmente muito interessante. Vinícius Neri: Que bom ouvir isso. Ávila (Oxente Pipoca): Vinícius, queria agradecer mais uma vez pela disponibilidade. Foi muito bom conhecer um pouco mais da sua trajetória e conversar sobre os projetos que estão chegando. Vinícius Neri: Muito obrigado, de verdade. Foi um prazer conversar com vocês. Espero que todo mundo goste de Fúria e também dos próximos trabalhos que estão chegando. Muito obrigado pelo espaço e pelo carinho.
- Crítica | The Dink – A Última Chance
Você já viu esse filme na Sessão da Tarde durante a infância. Que mal faz ver de novo? Divulgação Um adulto infantilizado luta para obter o reconhecimento daqueles à sua volta e por isso se engaja em um grande desafio para provar seu valor e salvar tudo aquilo que mais ama. Parece a descrição de uma daquelas comédias dos anos 90 que passavam aos montes na Sessão da Tarde – em especial filmes de Adam Sandler como Billy Madison – Um Herdeiro Trapalhão ou Um Maluco no Golfe, ou Pesos Pesados –, mas é basicamente a premissa de The Dink – A Última Chance. Na trama, o ex-campeão juvenil de tênis Dusty Boyd (Jake Johnson) amarga seus dias trabalhando no clube gerenciado por seu severo pai Chuck (Ed Harris), que tenta fazer de tudo para impedir a expansão do pickleball como esporte no clube. Na tentativa de orgulhar o pai, Dusty acaba se ferindo, o que o faz se aproximar justamente dos praticantes de pickleball, incluindo a recém-divorciada Candace (Mary Steenburgen), com quem forma um laço. Mas quanto mais se encontra no pickleball, mais ele se vê em conflito entre fazer o que realmente gosta e obter a aprovação do pai que vem buscando a vida toda. Conta muito a favor de The Dink que ele consiga vender o ridículo da sua premissa com seriedade. Não que ele se leve a sério (longe disso), mas cenas em que Chuck exibe slides alertando sobre o avanço inclemente do pickleball como se fosse uma nova pandemia são hilárias justamente porque mostra um filme que acredita na história que está contando. Há resquícios de uma certa autoconsciência aqui e ali, e o humor num geral não deixa de soar mais “podado” do que as comédias de Adam Sandler que citei acima, o que se vê é um filme que tenta resgatar essa vertente do gênero, mas com certas atualizações (inclusive nas referências mais contemporâneas, como a envolvendo Taylor Swift). Divulgação Isso se estende à atuação de Johnson como o protagonista. Especializado em dar vida a essas figuras infantilizadas e histriônicas, mas de bom coração, o ator encontra em Dusty o veículo perfeito para canalizar essas características, mas sem necessariamente soar ofensivo. E é nas suas interações com Candace – e, portanto, na química de Johnson e Steenburgen – que o filme encontra não apenas sobrevida, mas também um diferencial, visto o quão raro é parear uma atriz mais velha com um ator mais novo no cinema mainstream. Até diria que há uma chance perdida de oferecer um romance raro de se ver em Hollywood, mas a relação dos dois personagens se revela a alma do filme e permite que ele saia um pouco do lugar-comum no qual se acomoda durante a sua maior parte. O restante do elenco cumpre bem seu papel, com destaque para Ed Harris no seu típico papel turrão e Aaron Chen como o leal e bitolado assistente de Dusty – além de uma participação especial de Ben Stiller que, além de servir de produtor do filme, conecta ainda mais o filme a obras como Billy Madison e Pesos Pesados, no qual atuou. The Dink – A Última Chance não reinventa a roda, não é uma das melhores comédias do ano ou da década e tampouco o filme mais importante de tênis (ou pickleball) desde Rivais. E nem precisa ser. Mesmo que nem todas as suas piadas funcionem, ele é um bom lembrete de como certos lugares-comuns da comédia podem ser reaproveitados e trazidos para os novos tempos, numa embalagem nova, mas com um sabor conhecido. É o típico filme que poderíamos ver num dia qualquer na Sessão da Tarde quando éramos mais novos, e isso está longe de ser um demérito. Nota: 3/5
- Crítica | Os Ruminantes
Documentário busca lançar luz sobre a união de dois dos maiores nomes da história do cinema brasileiro num filme (infelizmente) jamais feito. Divulgação A história do cinema está repleta de filmes sonhados por grandes realizadores que nunca chegaram a ganhar vida pelos mais diversos motivos, como o Duna de Alejandro Jodorowsky, It’s All True de Orson Welles (que seria gravado no Brasil) ou Watchmen de Terry Gilliam. No Brasil, um dos casos mais emblemáticos é a primeira versão de Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, ainda que das cinzas deste tenha nascido um dos melhores documentários da história do nosso cinema. Os Ruminantes, de Tarsila Araújo e Marcelo Mello, é um olhar sobre uma dessas obras jamais realizadas, neste caso A Hora dos Ruminantes, que seria dirigido por Luiz Sergio Person e corroteirizado por este e Jean-Claude Bernadet. Contando com entrevistas com Bernadet (numa de suas últimas aparições antes de sua morte no ano passado), Marina Person (filha de Luiz Sergio) e Sebastião Souza, o documentário disseca as aproximações entre os dois homens nos anos 60 após o sucesso do filme mais famoso de Person, São Paulo Sociedade Anônima, o trabalho conjunto de ambos em O Caso dos Irmãos Naves, o começo auspicioso da produção de A Hora dos Ruminantes – baseado no romance homônimo de José J. Veiga –, o fracasso em gravar o filme dentro do contexto da ditadura militar e os impactos desse fracasso sobre a carreira posterior de Person, prematuramente encerrada com sua morte num acidente de carro aos 39 anos. Em certa medida, o processo conturbado e bruscamente interrompido de A Hora dos Ruminantes é apenas parte de uma reflexão que o filme traz a respeito da própria figura de Person, evidenciando sua distância teórico-ideológica dos cineastas do Cinema Novo, fator este que o aproximou de Bernadet. Alguns dos melhores momentos do filme vêm de anedotas compartilhadas pelos entrevistados, como o momento em que é contado sobre a breve incursão de Person no mercado publicitário e sua decisão de sair deste mercado da maneira mais hilária possível. Mas não deixa de haver um certo sabor agridoce pela presença dos dois em tela – Person em imagens de arquivo dos anos 60 e 70, Bernadet pelas câmeras de Araújo e Mello –, e é inevitável lamentar a perda de dois dos nomes mais importantes da história do cinema brasileiro, ainda que quase 50 anos separem suas mortes. Divulgação Justamente por isso, é de se imaginar que A Hora dos Ruminantes tinha tudo para ser um dos maiores filmes do nosso cinema, talvez até no nível de São Paulo Sociedade Anônima e O Caso dos Irmãos Naves. O que resta, entretanto, são as conjecturas, já que ao contrário da primeira versão de Cabra Marcado Para Morrer, este aqui sequer teve suas filmagens iniciadas, e talvez nisso resida o maior desafio de Os Ruminantes. Imagens de arquivo, como de outros filmes, e a voz em off de Tarsila Araújo ajudam a trazer um pouco à vida do roteiro concebido por Bernadet e Person e da sua proposta ousada e ambiciosa, mas o documentário constantemente luta contra a sua própria limitação de dar materialidade a este filme jamais feito. Os melhores momentos relacionados a ele vêm de reflexões sobre seu impacto e posteridade, como as guinadas que Person deu em sua carreira dirigindo filmes “menos brilhantes”, ou a tentativa de outro diretor de adaptar o romance e que deu tão errado que fez com que o roteiro tivesse a pecha de “filme maldito”, ao ponto de Marina ser alertada por ninguém menos que Carlos Reichenbach para não gravar o roteiro do pai. Mas quando o documentário se centra no texto original em si, ou na possibilidade de que a mão da censura e da ditadura militar tenha intervindo na sua realização, ficam mais evidentes suas fragilidades. Além disso, a estrutura protocolar, fundamentando-se principalmente nas entrevistas (com algumas intervenções na imagem e na trilha nos momentos de “leitura” do roteiro e outros documentos), fazem com que ele permaneça preso a um certo lugar-comum da feitura de documentários. Ao final, Os Ruminantes nos relembra de como homens como Luiz Sergio Person e Jean-Claude Bernadet fazem falta para o cinema brasileiro, seja para pensá-lo teoricamente ou para realizá-lo. Entre suas limitações e fissuras, ele também nos consegue apontar maneiras de enxergar o quão emblemático A Hora dos Ruminantes teria sido se chegasse a ver a luz do dia, mas ele próprio não chega a tanto. Nota: 3/5
- Entrevista | “É um filme de amadurecimento em três idades diferentes da vida”: Anne Pinheiro Guimarães e Théo Medon falam sobre “Pequenas Criaturas”
Diretora e ator do longa, que estreia nos cinemas em 23 de julho, falam sobre a ambientação na Brasília dos anos 80 e as diferentes perspectivas geracionais na forma de vivenciar o mundo. Divulgação Após conquistar o prêmio de Melhor Longa-Metragem de Ficção na Premiere Brasil, principal mostra competitiva do Festival do Rio 2025, o novo filme de Anne Pinheiro Guimarães, Pequenas Criaturas, estreia nesta quinta-feira nos cinemas brasileiros. Ambientada na capital federal dos anos 80, a trama apresenta Helena, protagonista vivida por Carolina Dickmmann, e os seus filhos André (Théo Medon) e Dudu (Lorenzo Mello). Logo após a mudança, o patriarca da família, vivido por Michel Melamed, embarca em uma viagem de negócios e deixa a esposa e filhos diante do desafio de encontrar seu lugar em uma cidade completamente nova. Enquanto Helena tenta conciliar a responsabilidade de reconstruir a vida da família em uma Brasília futurista com a busca por um novo sentido para si mesma, os filhos atravessam diferentes fases do amadurecimento: André vive os conflitos da adolescência, enquanto Dudu desbrava a cidade com o olhar explorador da infância. Leia a crítica aqui. Em entrevista ao Oxente Pipoca, a diretora Anne Pinheiro Guimarães e o ator Théo Medon falaram um pouco sobre a representação de Brasília em 1986 - em espaço distante do aspecto político que a acompanha - como a mudança para uma nova cidade desperta transformações íntimas em diferentes gerações, além de destacar o processo de construção dos personagens e a sensibilidade que atravessa a narrativa. Confira a entrevista completa abaixo: Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Anne, o filme acompanha uma mudança de cidade sob o olhar de diferentes membros da família. Como foi que surgiu essa ideia de explorar esse momento de transição com perspectivas tão distintas? Anne Pinheiro Guimarães: Olha, a resposta são duas. Eu comecei a pensar nessa história quando eu tive a minha primeira filha. Quando me tornei mãe, eu já tinha perdido a minha mãe. O filme é uma despedida dela. Comecei a pensar na maternidade de uma forma diferente. Comecei a pensar nela como mulher. Eu sempre pensei na minha mãe como a mãe, com esse olhar. Comecei a pensar na infância, tendo a minha filha ali. Antes de ter filha, a gente não pensa em criança. Comecei a pensar nas minhas memórias de infância. Eu nasci e morei em Brasília. Nasci lá, fui embora, voltei. Depois que eu escrevi o roteiro, me dei conta que eu voltei com a idade do Dudu e fui embora com a idade do André. É um pedaço da vida que é muito marcante sobre quem nos tornamos depois. Tudo que acontece nesse intervalo é muito marcante de quem a gente se torna. A coisa do chegar e ir embora... Eu sou filha de diplomata. Tive que chegar nos lugares e ir embora muito na vida. É um negócio muito difícil de fazer. Chegar é muito difícil, ir embora também é difícil. E chegar em Brasília, que é uma cidade muito única, muito diferente, muito difícil de você entender. Ali não tem calçada, não tem onde encontrar as pessoas. Tem uns códigos muito distintos. Como é que foi isso para a minha mãe? Meu pai viajava muito, enfim. É uma resposta prolixa e complexa, mas é isso. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Embora seja um drama familiar, o filme também aborda diferentes fases da vida. A infância, a adolescência, a vida adulta ali um pouco. Como foi equilibrar essas experiências sem que uma sobreponha a outra? Anne Pinheiro Guimarães: Olha, eu pensei muito... Pequenas Criaturas, de certa forma, é também bastante um filme de amadurecimento em três idades diferentes da vida. Claro que a gente amadurece muito quando a gente sai da pequena infância para a infância mesmo, que é o personagem do Dudu. A gente começa a ver o mundo como ele é. Ele tem um amigo imaginário, por exemplo, então ele vai deixando para trás a infância dele. O André é o adolescente, onde ele vai aprendendo. Na verdade, ele começa a sacar a mãe dele. Ele começa a entender que tem alguma coisa a mais acontecendo. Ali na laje tem uma conversa onde ele fala: “Eu queria mesmo era saber o que está acontecendo de verdade”. Porque ele começa a entender que as relações, os sentimentos, as pessoas e tudo que está acontecendo em volta dele é muito mais complexo do que ele achava até então. Então, isso é um amadurecimento de olhar. Fora as outras coisas que ele também vai aprendendo. E para a Helena é um amadurecimento na meia-idade mesmo. É um despertar do feminino que pode acontecer um pouco antes, um pouco depois. Pode também nunca acontecer, mas é uma coisa muito feminina onde ela toma essa rasteira no começo do filme. Ela começa a se dar conta, como ela fala, que ela meio que fez as coisas sem querer até então. A maternidade é um rolo compressor também. Você tem que dar conta de tanta coisa. Você tem que parar de querer as coisas só para você. Você passa a dar conta das coisas e ali ela acorda para isso. E é um amadurecimento para ela também. Não é um filme sobre traição, sobre uma separação. É sobre, na verdade, o despertar dela como mulher para o desejo dela. E não é um desejo sensual, erótico. É o desejo do que eu quero, o que eu vou escolher. Ela diz que está fazendo tudo sem querer. É sobre as escolhas. Isso é uma questão bem feminina. Então, sim, amadurecimento em três fases. Divulgação Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Theo, o André está vivendo esse momento de grandes mudanças. Uma nova cidade, novas relações, o primeiro amor. Como foi o processo de preparação para interpretar um adolescente vivendo ali nos anos 80? Teve alguma pesquisa sobre essa época? Algumas conversas com a Anne para construir esse universo? Théo Medon: Foram muitas [preparações] para me familiarizar com o mundo, com videocassetes e com classificados e mobiletes. Tiveram muitas trocas de ideias com a própria equipe. Muitos deles viveram a vida, a adolescência nos anos 80. Então foi uma coisa que eu conversei muito. Eu acho que durante esse período de quase 50 dias que a gente passou gravando em Brasília, foi um período de total imersão no André, em todo esse mundo, mas também pela questão da forma de interpretação dele. Como é um tom muito bem definido de todo o elenco, essa interpretação no silêncio, essa pouca extravagância da expressividade, acho que é um tipo de interpretação que pede uma imersão de verdade no personagem, porque é uma coisa muito difícil de fazer. Expressar aquilo que você está sentindo, o que você está pensando, sem dizer. Então, acho que requereu um grande processo de mergulhar na cabeça do André e realmente sentir tudo aquilo. Por isso eu até falo que, durante aquele tempo, eu fui mais André do que fui Théo. E eu acho que isso me ajudou bastante, além, claro, do acompanhamento, da ajuda de todos os conselhos da nossa grande preparadora, a Isabela Garcia, que foi um anjo nas nossas vidas, que é uma profissional incrível e um ser humano melhor ainda. Então acho que esse conjunto de fatores todo me ajudou a construir o André. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): O André, além de tudo, ele é o irmão mais velho, né? Eu como irmã mais velha observei muito da minha relação com o meu irmão ali, aquela puxada de orelha principalmente. Então, uma das coisas que mais me apeguei no filme foi a relação entre os irmãos. Como foi construir a sua relação com o Lorenzo Mello? Théo Medon: Sou irmão mais velho também. Eu tenho uma irmãzinha que tem a exata diferença de idade do André e do Dudu. Só que é uma irmã, né? Isso é outra parada. Só que eu acho que tem coisas, cara, na nossa vida de ator, que você não tem como explicar. E o entrosamento entre eu e Lorenzo é uma coisa, sim, que eu acho que é inexplicável. Anne Pinheiro Guimarães: Eles se tornaram irmãos. E são até hoje. Théo Medon: É uma dessas coisas que você clica e acontece, sabe? A gente se conheceu antes nas preparações, com a Isabela e tal. E eu acho que foi uma coisa instantânea. Antes da gente se entender, enquanto André e Dudu irmãos, eu acho que aconteceu o Theo e o Lorenzo. E é a partir daí que a gente construiu essa relação de André e Dudu. Tanto que até hoje, dois anos depois das gravações, a gente continua com essa mesma relação. Encontro ele, ele vem, fica, pula em cima de mim. Fica falando de mim, fica me zoando. Fica implicando comigo. Porque tudo que vocês viram na tela foi extremamente genuíno. Era o que acontecia. Fora dela, a diferença é que ele estava de Dudu e eu de André. Então são essas coisas, esses cruzamentos que a gente não tem como explicar. É o tipo de coisa que acontece mesmo. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Gente, Brasília costuma aparecer no cinema como um espaço político na maior parte do tempo. O filme propõe esse olhar mais do cotidiano sobre a cidade. Para você, Theo, e para você, Anne, como foi construída essa relação entre os personagens e esse cenário da cidade? Anne Pinheiro Guimarães: A cidade, para mim, é fundamental. Para contar essa história, para mim, eu não poderia ter feito em outro lugar. A aridez de Brasília, os espaços amplos de Brasília. Hoje em dia é muito diferente, mas a Brasília dos anos 80 era uma Brasília muito vazia, muito mais vazia do que qualquer outra grande cidade do tamanho dela, que já era uma cidade grande nos anos 80, mas uma sensação de vazios muito maior. Mas também, ao mesmo tempo, uma cidade muito bonita e muito imponente, com uma arquitetura muito, muito, muito peculiar. Mas é uma cidade sem calçada, é uma cidade onde a geografia da cidade pauta os relacionamentos. Então, Brasília é um personagem, é mais um protagonista da história. E, desculpa, só porque você falou em política...Brasília em 86, a grande parte da vida não é política. O que a gente conhece de Brasília é só aquilo que sai no Jornal Nacional. A grande parte da vida em Brasília é uma vida cotidiana, como em qualquer outro lugar, com todos os problemas normais da vida cotidiana. Théo Medon: Acho bonito como a forma que os personagens enxergam a cidade também fala um pouco sobre o filme. A gente chega muito oprimido, se sentido muito preso, muito intimidado por aquele colosso, e a partir do momento que a gente começa a criar laços e começa a criar essa construção de uma nova família, enxergamos as coisas de outra maneira. Começamos a enxergar a beleza naquela cidade, que acho que é a mesma coisa que acontece com os personagens. Começam muito oprimidos, muito para baixo, e a gente vê esse desabrochar e essa maneira de enxergar a vida de outro jeito. Então, acho que ela se conecta de uma forma muito bonita com a história dos personagens também.
- Crítica | Elize: Sombras de Uma Mulher
Filme acerta nas atuações e na caracterização, mas o roteiro simplifica um caso muito mais complexo. Imagem: Divulgação Depois de documentários, livros e incontáveis debates sobre o caso Elize Matsunaga, a Netflix aposta na ficção para revisitar uma das histórias criminais mais conhecidas do país. Lançado nesta quarta-feira (22), Elize: Sombras de Uma Mulher, dirigido por Felipe Vellas, acompanha uma tendência que ganhou força no audiovisual brasileiro após o sucesso de produções como A Menina que Matou os Pais/O Menino que Matou Meus Pais e Tremembé: transformar crimes reais em dramas de ficção. Com argumento e roteiro assinados por Raphael Montes, em parceria com Mariana Torres, o longa busca recontar uma história que já faz parte do imaginário popular brasileiro sob uma perspectiva mais dramática. O maior acerto do filme está justamente na reconstrução desse universo. A caracterização dos protagonistas é impressionante e, somada às atuações da dupla principal, produz momentos em que é fácil esquecer que se trata de uma dramatização. Lorena Comparato entrega uma interpretação segura de Elize, transitando com naturalidade entre os momentos de vulnerabilidade, tensão e frieza da personagem, sem recorrer a exageros. Ao lado de seu colega de cena, ela sustenta sequências em que a semelhança física e gestual com o casal real é tão precisa que, por instantes, parece que estamos assistindo às imagens do próprio caso. Nesse aspecto, Felipe Vellas conduz a produção com segurança, valorizando a recriação dos acontecimentos sem transformá-los em espetáculo. Sem entrar no mérito da culpa de Elize ou discutir a fidelidade dos acontecimentos retratados, o principal problema do filme está justamente na maneira como escolhe contar essa história. O roteiro de Raphael Montes e Mariana Torres não consegue equilibrar a complexidade dos dois protagonistas e acaba reduzindo uma relação profundamente contraditória a uma dinâmica excessivamente binária. Imagem: Divulgação Marcus surge como um homem controlador, abusivo, violento e infiel. Um personagem que exercia poder sobre as mulheres ao seu redor, colecionava animais exóticos, caçava por esporte e fazia questão de esquartejar os próprios animais. Ao mesmo tempo, Elize não era apenas uma vítima observando tudo isso de fora: ela fez parte desse estilo de vida durante anos e, em certa medida, também o abraçou. São nuances importantes que o roteiro prefere não desenvolver. Essa simplificação também aparece na construção da própria Elize. O filme parece interessado em estabelecer com clareza quem ocupa o lugar do "bem" e quem representa o "mal", deixando pouco espaço para explorar as ambiguidades de uma personagem que desperta discussões justamente por fugir de respostas fáceis. Outro ponto que pesa contra a produção é a estrutura narrativa. As constantes idas e vindas na linha do tempo tornam a montagem confusa e quebram o ritmo da história. Em um caso amplamente conhecido pelo público brasileiro, essa fragmentação pouco acrescenta e, em vários momentos, apenas torna a experiência cansativa. Embora a direção de Felipe Vellas mantenha o filme visualmente envolvente, ela não consegue compensar as limitações de um roteiro que insiste em simplificar conflitos complexos. É evidente que, dentro do contexto brasileiro, Elize desperta mais empatia do que outras figuras associadas ao true crime. Vivemos em um país onde mulheres continuam sendo assassinadas diariamente, e existe uma leitura possível de que ela reagiu antes de se tornar mais uma vítima de um relacionamento abusivo ou de ser reduzida ao estereótipo da mulher "louca". O filme abraça essa interpretação de forma bastante explícita e não faz questão de esconder o lado que escolhe defender. Isso não significa que a produção deixe de funcionar. Pelo contrário: mesmo com um roteiro que simplifica um caso marcado por zonas cinzentas, Elize: Sombras de Uma Mulher entrega uma produção tecnicamente competente, sustentada por ótimas atuações, uma caracterização impressionante e uma direção segura de Felipe Vellas. Fica, porém, a sensação de que havia espaço para um olhar menos maniqueísta e mais interessado nas contradições de seus personagens. Para quem acompanha histórias de true crime, o filme oferece um entretenimento eficiente e certamente alimentará novas discussões sobre um dos casos criminais mais emblemáticos do Brasil. Mas, diante da riqueza e da complexidade desse caso, a impressão é que o filme escolhe respostas fáceis quando poderia fazer perguntas mais difíceis. Nota: 3/5
- Crítica | undertone
Com um design de som impecável, terror na HBO Max prova que o sobrenatural ainda pode assustar quando alguém resolve fazer o básico direito. Imagem: Divulgação Nos últimos anos, o terror sobrenatural parece ter entrado em uma espiral criativa preocupante. Casas mal-assombradas, entidades demoníacas, protagonistas traumatizados e uma coleção interminável de sustos previsíveis transformaram um dos gêneros mais populares do cinema em um festival de filmes esquecíveis. Felizmente, de vez em quando aparece uma produção que lembra que não é preciso reinventar a roda para prender a atenção do público. Basta entender como o medo funciona. É exatamente isso que undertone, disponível na HBO Max e entre os filmes em alta da plataforma, faz. A premissa é simples: uma podcaster passa a investigar um misterioso fenômeno sobrenatural por meio de gravações de áudio e, aos poucos, percebe que aquilo que parecia apenas mais um caso curioso pode estar muito mais próximo, e perigoso, do que imaginava. O grande trunfo do filme está justamente em transformar o som no verdadeiro protagonista da experiência. Parece óbvio para um longa que gira em torno de podcasts, mas nem sempre o cinema sabe explorar esse recurso com inteligência. Aqui, cada ruído, cada silêncio e cada distorção servem para criar uma sensação constante de desconforto. É um daqueles raros casos em que fechar os olhos durante uma cena talvez seja até pior do que continuar olhando para a tela. O design e o desenho de som são, sem exagero, os grandes responsáveis por fazer undertone funcionar. A direção também entende que o medo nem sempre depende de monstros ou efeitos visuais. Restrito praticamente a uma única locação, o filme utiliza enquadramentos sufocantes, movimentos de câmera discretos e a limitação do espaço para fazer o espectador se sentir preso junto com a protagonista. É um exercício de atmosfera que muitos filmes com orçamentos muito maiores simplesmente esquecem de fazer. Imagem: Divulgação Nem tudo funciona tão bem. A protagonista cai naquele arquétipo já desgastado do cético que insiste em encontrar explicações racionais para acontecimentos que claramente já passaram desse ponto. Em alguns momentos, sua postura deixa de construir tensão e passa a gerar impaciência. Ainda assim, a personagem cumpre um papel importante na estrutura narrativa, funcionando como contraponto para que o horror cresça gradualmente. Quem procura uma revolução dentro do terror sobrenatural talvez saia frustrado. undertone não apresenta grandes reviravoltas, não quebra paradigmas e nem pretende mudar os rumos do gênero. Mas talvez esse seja justamente seu maior acerto. Em vez de desperdiçar tempo tentando parecer inovador a qualquer custo, o filme prefere executar muito bem aquilo que tantos outros vêm fazendo de forma automática. No fim, undertone é uma prova de que o terror sobrenatural ainda tem muito a oferecer quando existe uma direção que entende o poder da atmosfera e, principalmente, do silêncio. Em uma época em que tantos filmes confundem volume com tensão e jumpscares com medo, encontrar uma produção que sabe construir desconforto antes de provocar o susto acaba sendo quase um alívio. Não é revolucionário, mas é competente o suficiente para lembrar que o gênero ainda consegue surpreender quando alguém resolve fazer o básico bem feito. Nota: 4/5
- Margeado, primeiro longa do diretor Diego Zon, estreia em salas de cinema de todo o Brasil
Produzido e distribuído pela De Repente o Rio, filme aborda a migração de um povoado diante do rompimento de uma barragem de lama tóxica. Imagem: Divulgação Após passar pela 28ª Mostra de Cinema Tiradentes, Margeado, primeiro longa-metragem do diretor Diego Zon e primeiro longa de ficção da produtora De Repente o Rio, tem sua estreia no circuito nacional marcada para o dia 30 de julho. Protagonizado por Danilo Andrade e com Antônio Pitanga, Verônica Gomes, Eliane Correia e Etien Khouri no elenco, o filme aborda as relações entre memória, pertencimento e transformação a partir da experiência de personagens marcados pela presença do rio e pelas mudanças na paisagem e na vida cotidiana. Assista ao trailer aqui. O filme ficará em cartaz de 30 de julho a 3 de agosto no Cine Walmir Almeida, em Aracaju, Sergipe; até 5 de agosto no Cine Jardins, em Vitória, Espírito Santo; no Cine Lume, em São Luís, Maranhão; e no Cine Arte Pajuçara, em Maceió, Alagoas; e até 12 de agosto no Ponto Cine, em Guadalupe, na cidade do Rio de Janeiro. No dia do lançamento, o diretor Diego Zon, a diretora de arte Djanira Bravo e as atrizes Verônica Gomes e Eliane Correia participam de uma sessão especial na Sala Armazém Multiverso, no Patrimônio da Penha – Caparaó capixaba, Espírito Santo. Nos dias 1º e 2 de agosto, o Cine Bijou da cidade de São Paulo oferece sessões do longa. De 11 a 14 de agosto, Margeado será exibido no cinema do Sesc Ver-o-Peso, em Belém, no Pará; e, de 20 a 27 de agosto, fica em cartaz em cinemas de diversas cidades do interior do Espírito Santo – Cine Ritz Sul, em Cachoeiro de Itapemirim; Cine Gama, em Colatina; Cine Ritz Conceição, em Linhares; Cine Ritz São Mateus, em São Mateus – e de Minas Gerais – Cine Ritz Cataguases, em Cataguases; Cine Ritz Molevade, em João Molevade; e Cine Ritz Mariana, em Mariana. “É uma satisfação que Margeado seja lançado em várias salas espalhadas pelo Brasil, inclusive nas cidades do interior, algumas delas margeadas pelo rio Doce, que é um dos protagonistas do filme. Que Margeado possa dialogar seus sentimentos com as pessoas dessas cidades, abrindo um espaço de reflexão sobre nós e os lugares onde vivemos, sobre a nossa capacidade de criar vínculos, nos relacionar e encontrar caminhos diante das circunstâncias que constantemente nos impõem recomeçar”, comenta o diretor. Rodado nas regiões norte e sul do Espírito Santo, a trama aborda a migração de um povoado diante do rompimento de uma barragem de lama tóxica. A história se situa em uma vila pesqueira acometida por um problema que impossibilita a manutenção de costumes construídos por várias gerações. Na continuidade, a narrativa se desloca do litoral para comunidades de regiões montanhosas do interior. A produção do filme foi realizada com recursos da Secretaria de Cultura do Estado do Espírito Santo, via Fundo de Cultura do Estado do Espírito Santo (Funcultura), e do Fundo Setorial do Audiovisual/Ancine (FSA), por meio do coinvestimento Arranjos Regionais. A distribuição do filme conta com o apoio da Secretaria da Cultura do Espírito Santo, por meio do incentivo da Lei Paulo Gustavo, do Ministério da Cultura – Governo Federal. Vitória (ES) | 30 de julho a 5 de agosto Cine Jardins São Luís (MA) | 30 de julho a 5 de agosto Cine Lume Aracaju (SE) | 30 de julho a 3 de agosto Cine Walmir Almeida (Cinema do Centro) Rio de Janeiro (RJ) | 30 de julho a 12 de agosto Ponto Cine (Guadalupe, Rio de Janeiro) Maceió (AL) | 30 de julho a 5 de agosto Cine Arte Pajuçara Patrimônio da Penha (ES) | 30 de julho Sala Armazém Multiverso - A sessão contará com a participação do diretor Diego Zon, da diretora de arte Djanira Bravo e das atrizes Verônica Gomes e Eliane Correia. São Paulo (SP) 1 e 2 de agosto Cine Bijou Belém (PA) | 11 a 14 de agosto Sesc Ver-o-Peso Cachoeiro de Itapemirim (ES) | 20 a 27 de agosto Cine Ritz Sul Colatina (ES) | 20 a 27 de agosto Cine Gama Linhares (ES) | 20 a 27 de agosto Cine Ritz Conceição São Mateus (ES) | 20 a 27 de agosto Cine Ritz São Mateus Cataguases (MG) | 20 a 27 de agostoCine Ritz Cataguases João Molevade (MG) | 20 a 27 de agostoCine Ritz Molevade Mariana (MG) | 20 a 27 de agostoCine Ritz Mariana












