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496 resultados encontrados para "festival rio"

  • Crítica | Os Fabelmans (TIFF 22)

    Spielberg acerta mais uma vez ao mostrar um íntimo retrato de sua infância. Courtesy of TIFF Não é de hoje que diretores veem suas infâncias como uma inspiração a uma de suas películas. Recentemente, tivemos dois grandes acertos, 'Roma' e ‘Dor e Glória’, e até filmes divisivos como 'Belfast' e ‘A Mão de Deus’. Durante a pandemia, um dos grandes diretores da sétima arte decidiu que, enquanto se encontrava trancado com seus familiares, iria desenvolver o filme que sempre quis fazer. E assim nasce oficialmente ‘The Fabelmens', filme semi-biográfico baseado na vida de Steven Spielberg. Desde o primeiro momento do filme, Spielberg mostra que esta história não é só sobre ele, e sim seu amor por ele. Começando com a primeira experiência de Sammy Fabelman (Gabriel LaBelle) no cinema, o provocando a tentar recriar o que foi visto na tela, até anos depois, quando Sammy junta todos os amigos para fazer seus longas. Através dos filmes criados pelo personagem, ele sonda a genialidade do diretor,. Mas a real magia dessas sequências é a simplicidade, que enquanto mostram imagens de alta qualidade que não geram uma grande diferença ao público comparado ao real filme, conseguem fazer o espectador comprar a história que um adolescente está produzindo os filmes em questão. Courtesy of TIFF Junto a Labelle, estão Paul Dano e Michelle Williams, interpretando os pais de Sammy, e Seth Rogen, que dá vida a um amigo do casal, além das participações especiais feitas por David Lynch e Judd Hirsch. Enquanto Dano entrega um personagem recorrente em filmes, o pai que duvida do talento do protagonista, Williams brilha como a mãe, que, apesar de fazer tudo pelos seus filhos, também lida com seus próprios problemas e dilemas. Rogen mostra um novo lado dele, e mesmo tendo momentos cômicos, consegue entregar uma performance que não necessita de risadas para ser lembrada. No entanto, quem rouba a cena, mesmo com poucos minutos de tela, são as duas participações especiais, que conseguem não somente guiar o protagonista a um novo rumo, mas também trazer novos elementos à narrativa. Este é mais uma das muitas colaborações de Spielberg com Tony Kushner no roteiro, time que recentemente trouxe a nova e aclamada versão de ‘Amor, Sublime Amor’ às telonas. Descrito como um processo de terapia pelo diretor, é visível como ele tem um carinho especial por todos os personagens, mas não teme mostrar em nenhum momento a real, triste e pesada realidade que o filme se encontra, um lugar com anti-semitismo e problemas familiares. Courtesy of TIFF Mais uma vez, Steven Spielberg prova que não devemos duvidar de sua capacidade, e constrói uma apaixonante e inspiradora versão de sua adolescência. Além de contar com incríveis atuações, o filme vem com visuais magníficos, que maravilham o espectador enquanto o transporta ao período temporal. 'The Fablemens' foi a escolha certa feita pelo diretor, que continua provando que se depender de sua criatividade e entusiasmo sua carreira está longe de acabar. Nota: 4

  • Crítica | A Noite e Os Dias de Miguel Burnier (15º Olhar de Cinema)

    Imagem: Divulgação Um dos efeitos mais nítidos ao se fazer a cobertura de um festival é notar a recorrência

  • Entrevista | “A gente vive também do que vem do povo”: Tiago Melo e Rejane Faria discutem a ficção científica sertaneja de “Yellow Cake”

    Filme abriu a 15ª edição do festival Olhar de Cinema e foi rodado no sertão paraibano Imagem: Divulgação O filme foi escolhido para abrir a 15ª edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba

  • Entrevista | Diretora e Elenco de 'Paying for It' em Exclusiva ao Oxente, Pipoca?

    OP? conversou com diretora, Sook-Yin Lee e elenco sobre a adaptação da famosa e polêmica HQ Foto: Divulgação Vim parar no jornalismo de entretenimento depois de me aventurar em alguns sets de filmagem e ser sufocada pela grande ansiedade que todo aquele ambiente gera. Ego de atores, silêncio demandado pela equipe de som, luzes capazes de te cegar enquanto te matam de calor. E, é claro, a demanda emocional da narrativa. Trabalhei em pouquíssimos projetos: uma comédia sobre a relação entre um recém-casal e a sogra; uma ficção meio abstrata sobre luto; uma animação sobre solidão contemporânea… Em nenhum desses fui diretora. Em nenhum desses fui roteirista. Em todos esses, em algum nível, a história me atravessou emocionalmente. Imagina agora dirigir e roteirizar uma história que (1) é sua, (2) sobre a vida sexual do seu ex-namorado e (3) tendo ele como protagonista. Nas minhas mãos, seria a receita do desastre e do ansiolítico. Mas nas mãos de Sook-Yin Lee, se tornou um dos filmes mais interessantes que já vi em algum tempo. Antes das atrizes Emily Lê e Andrea Werhun entrarem na nossa sala de reunião, conversei exatamente sobre isso com Lee. Talvez percebendo meu nervosismo por conduzir uma entrevista em outra língua, puxa assunto comigo perguntando o que faço da vida. Comento sobre minha formação de cinema e minha frustração nos sets, confessando que “não sei como [ela] conseguiu”. Em uma sala bagunçada com um enorme violoncelo atrás, digna de uma residência habitada por uma artista, ela ri e parece não entender bem do que estou falando. Conta que, assim como nos meus curtas, não teve um orçamento considerável, precisando gravar em sua própria casa, que também foi o local real onde se passou a história que inspirou Paying for It. Porém, ao contrário de mim, ela não parece lamentar esses desafios – ao contrário, percebo um certo prazer. Percebo duas coisas: a primeira é que eu realmente não nasci para fazer cinema; a segunda, é que Sook-Yin Lee nasceu. A canadense é descrita em sua página da Wikipédia como “artista multimedia”, e bem pudera. Já trabalhou como cantora, compositora, apresentadora de rádio e tv, atriz, roteirista e diretora. Foi nessa vida de artista que conheceu Chester Brown, cartoonista e ex namorado de Lee. O casal terminou o relacionamento, em 1996, mas seguiu morando junto, (na mesma casa que serve como locação principal do filme). Testemunhando as desilusões de Lee e seus novos parceiros, Brown decide que não daria mais chances ao romance, ou, mais especificamente, às amarras que vem com ele. Mas seu desejo por sexo se manteve. Depois de um tempo em celibato, resolve deixar de lado as vergonhas sociais e se aventurar com prostitutas locais. Logo toma gosto pela coisa e passa a advogar pela superioridade da relação prostituta-cliente entre seu grupo de amigos. Quando, em 2009 Victor Malarek publica “The Johns: Sex for Sale and the Men Who Buy It”, que retratava o cliente de prostituição de forma negativa, Brown escreve a graphic novel “Paying for It: a comic strip memoir about being a john” em resposta (no Canadá, os clientes de prostitutas são chamados de “johns”, nome masculino genérico, tal como o cliente na percepção da profissional). A publicação atraiu tanto prestígio quanto polêmica, e em 2022 foi anunciado que seria adaptado para filme – com direção da ex-namorada que começou isso tudo. Sook-Yin recebe Emily Lê (que dá a vida a Sonny Lee, personagem inspirada em Sook-Yin) e Andrea Werhun (Yulissa, uma das prostitutas com quem Brown se relaciona) na reunião com um largo sorriso e perguntas sobre suas rotinas agora e fase de divulgação do filme. É a minha primeira experiência observando em primeira mão o contato com atores e roteiristas de longas-metragens internacionais e certamente não era o que eu esperava. Muito menos rigidez hierárquica e muito mais calor humano do que se ouve por aí. Aquele ego de atores que comentei aqui não parece existir. As três gentilmente tentam me incluir na conversa. Como um john, em frente a mulheres tão estimulantes, eventualmente me sinto confortável para chegar aos finalmentes da minha razão ali. Começamos a entrevista. Foto: The Globe and Mail Aianne: Certo, então, primeiro de tudo, para Sook-Yin, onde termina o quadrinho que inspirou o filme e onde começa a vida real de Chester Brown no filme? Porque é uma mistura de ambos, certo? Sook-Yin Lee: Sim, sim, sim. O livro em si é incrível. É uma graphic novel incrível. Aianne: Ainda não li, mas já comprei na Amazon. Está chegando. Sook-Yin: Ok, ótimo. Bem, de muitas maneiras, é um tratado político. Não é apenas uma memória de eventos reais da vida dele, mas grande parte do trabalho dele tem o propósito de ter uma política muito distinta. Eu vejo esse como um manifesto político pela descriminalização do trabalho sexual consensual. Então, quando o livro dele foi lançado, e isso foi depois de termos estado juntos, achei tão interessante. Eu adorei. Quero dizer, acho que ele é um dos contadores de histórias mais brilhantes do mundo, e adorei o que ele estava tentando transmitir. Tem tantas paralelas com a política LGBTQ, a política das pessoas de cor, os direitos humanos e os direitos das trabalhadoras do sexo. Perguntei a ele se eu poderia adaptar para um filme, e ele disse: “Claro, se você quiser”. E eu pensei que seria tão fácil. Eu pensei: “Aqui estão os desenhos dele. Parece um filme pequeno de qualquer forma, então, sabe, vou apenas transpor o que ele tem”. E então foi como, “Oh meu Deus”. É uma graphic novel, não é um filme. É episódico. Meio que divaga por todos os lados. Não tem necessariamente um arco de filme. Filmes são muito diferentes. Chester foi muito cuidadoso em proteger a privacidade das trabalhadoras do sexo que ele visitou, e também muito cuidadoso com a privacidade de seus amigos, incluindo a mim, em sua graphic novel, há pouqíssimos detalhes. E ele estava realmente transmitindo de forma muito míope do ponto de vista dele. E enquanto eu tentava adaptar o filme, estava achando cada vez mais difícil porque ele não podia compartilhar comigo nenhum detalhe sobre as mulheres, e eu sabia que não queria um filme que fosse míope, apenas do ponto de vista dele. Um dia reli e vi um pequeno detalhe: ele havia visitado uma trabalhadora sexual no meu aniversário, pensei: “oh”. Assim me dei conta que poderia trazer uma perspectiva completamente diferente, de nós dois sendo amantes, coexistindo em uma pequena casa, com eu seguindo o caminho socialmente sancionado e aceitável de namorar para encontrar amor e conexão, e ele sendo um cartunista tímido, introvertido, sem habilidade para flertar nem desejo de ter um relacionamento. Chester e eu éramos... ele é minha família. Eu o conheço por quase toda a minha vida. Ele foi, tipo, um relacionamento formativo na minha vida quando eu era jovem, e, sabe, nosso relacionamento, como muitos, parou de ser sexual, mas éramos a família um do outro. A ideia de rompimento que se aplica à maioria dos relacionamentos não se aplicava a nós. Era um conceito completamente alienígena. A princípio, quando nosso relacionamento começou a se tornar menos sexual, pensamos: “Vamos abrir o relacionamento?”. Pensei que poderia lidar com múltiplos amantes, mas logo percebi que havia muitas necessidades a serem atendidas e que eu era muito mais monogâmica do que pensava. Ele foi celibatário por um longo tempo antes de começar a considerar a opção de pagar por sexo. E lá estava ele, seguindo esse caminho. E pensei: “Ok, vou apenas reforçar isso e trazer uma tonelada de outros elementos que não estão em sua graphic novel”. Da minha perspectiva como amigos e família estendida tentando navegar por esse curso desafiador para ambos. E isso se tornou a chave para desbloquear a história e como eu poderia contá-la. Foto: Divulgação Aianne: A forma como esse filme retrata as trabalhadoras do sexo é algo que eu nunca tinha visto antes. Especialmente no olhar feminino sobre o tema, o que se destaca na personagem de Andrea. Ela é sensual, mas não remete a algo ruim e pecaminoso, estamos acostumados a pensar nas trabalhadoras do sexo desta certa forma. Como foi construir essas personagens? Digo, qual o processo de acrescentar a perspectiva feminina e retratar a questão do trabalho, do caráter dessa profissão sem colocá-las em julgamento? Andrea Werhun: Essa detração das trabalhadoras do sexo é o padrão na maioria das representações delas no cinema. Eu acho que foi realmente importante trazer um toque humano para o personagem. Sabe, um calor humano, que é relevante para a experiência de humanidade de cada trabalhadora do sexo. Todos nós trazemos nosso próprio calor e nossas questões para nossos trabalhos, não importa quais sejam. E eu acho que o que é inovador neste filme, no que diz respeito à sua representação do trabalho sexual, e especialmente sendo uma adaptação das memórias de um cliente. A forma como Chester retrata as trabalhadoras do sexo, na capacidade anônima, perde um pouco do calor desses personagens porque eles foram despojados de suas identidades – como uma forma de proteger essas identidades, claro. Mas eu acho que o que este filme, ao subtrair o anonimato e trazer seres humanos para a tela, traz o calor que vem com isso. Mas também o que vemos na tela é a monotonia do trabalho sexual, o tédio do trabalho sexual, o aspecto de trabalho mesmo. A rotina do trabalho. E nem sequer damos às trabalhadoras do sexo no cinema a oportunidade de serem apenas trabalhadoras entediadas em seus empregos. Então, acho que, por esse motivo, essa é uma excelente contribuição ao gênero de filmes sobre trabalhadoras do sexo. Sook-Yin: Que realmente está em sua fase inicial. Estamos apenas começando aqui, com "Paying For It". Estou ansiosa para ver esse gênero crescer e evoluir. Havia muitos detalhes e pistas inseridos na graphic novel de Chester, como até a escolha de manter as coisas sem nunca entrar na cama, muitas vezes ele mantém tudo do outro lado da sala, com planos muito abertos. Então, eu sabia que não seria algo excessivamente sexualizado ou para excitação. Era realmente algo muito normal, explorando apenas planos abertos. Acho que a coisa radical com essa contribuição para a forma é que a nudez frontal total, se você olhar bem, é toda masculina. Sim. É só masculina. É só Chester. Já vimos mulheres assim mil vezes, mas aqui não. E muitas vezes é apenas ele acordando, coçando suas bolas, e atravessando o quarto. Sabe, hoje em dia vemos mais nudez frontal masculina, mas também é falsa. Como, em séries de TV como "Euphoria", há nudez frontal, mas o público não sabe que todos esses atores têm próteses perfeitas. Elas não são reais. Foram moldadas para parecerem perfeitas. Com Dan Garde, que fez o personagem Chester, poucas pessoas estavam dispostas a fazer isso, e Dan foi tipo, “me inscreva”. E acho que estou notando um ressurgimento e muitas contribuições realmente interessantes sobre o trabalho sexual nos filmes, mas acho que mesmo em coisas como... como se chama? “Poor Things”? É isso? Sim. “Poor Things”. Quero dizer, é, de certa forma, um filme de fantasia e a personagem que Emma interpreta é uma versão mais empoderadora ou menos julgadora, mas todos os "Johns" são horríveis! Andrea: Se me permite, adorei “Poor Things” e achei totalmente realista! E se “Johns” são horríveis? Bem… Sook-Yin: Quero dizer, eu conversei com minha amiga, que também é trabalhadora do sexo, e ela disse: “Eu adorei esse filme”. E eu disse: “Mas os ‘Johns’ eram tão horríveis”. E ela respondeu: “Mas todos os homens eram horríveis nesse filme”. E eu: “Isso é verdade”. (Risos) Aianne: O filme que sempre me vinha à mente enquanto eu assistia foi "Uma Linda Mulher" e como são obras diferentes – porque, mesmo que Julia Roberts seja a personagem principal e devêssemos amá-la e nos apaixonar por ela, ainda há algo sujo, e ela ainda é submissa a ele. Em "Paying For It", não vemos nada disso. Fiquei pensando nesses dois filmes o tempo todo, e, tipo, é o mesmo trabalho, mas de perspectivas diferentes, com o personagem de Richard Gere no centro, agora como Chester. Sook-Yin: Sim, Chester e eu estávamos conversando, e ele disse que está muito feliz em ver este filme como um exemplo de pessoas e trabalhadoras do sexo que podem continuar seu trabalho, ter vidas plenas e ricas, e também não é trágic, sabe? Muitas vezes, em filmes queer, é uma tragédia ou algo que acaba de forma terrível. Mas, neste caso, todos podem seguir em frente. Andrea: Acho que a principal diferença entre "Paying For It" e "Uma Linda Mulher" é que Chester Brown não é um cavaleiro branco que vem para salvar a trabalhadora do sexo. Ele não é Richard Gere, que está tentando tirar Denise do trabalho sexual. Ele está, na verdade, tentando mantê-la no trabalho sexual. (Risos) Apenas deixar ela ser quem é!. Quero dizer, há meio que um elemento de cavaleiro branco nisso, acho, com uma análise mais profunda. Mas eles não estão tentando se salvar. E ele não está tentando salvá-la. Ele não está tentando resgatá-la ou algo assim. Ela parece chegar a essa decisão por conta própria, de que vale a pena continuar um relacionamento com ele, onde ela recebe dinheiro dele regularmente para sexo. Sook-Yini: E, tipo, ele ainda está com Denise. Nosso relacionamento durou um ano. Eu nunca consegui passar dos 4 anos. Eles estão juntos há mais de 20 anos. Aianne: Emily, como foi interpretar a diretora do seu filme? Porque agora que eu conheço a Sook-Yin, consigo ver algumas semelhanças, mas não é bem como se você tivesse copiado também os maneirismos dela. Consigo ver como você se inspirou no jeito dela de ser, mas não a imitou. Como foi construir essa personagem? Emily: Bem, Sook-Yin é uma pessoa muito excêntrica e muito criativa. E acho que uma grande diferença entre Sook-Yin e eu é que eu sou muito interna, enquanto Sook-Yin é muito externa, e eu também sou uma pessoa meditativa, enquanto Sook-Yin é um pouco mais impulsiva. Então, definitivamente tive que sair da minha zona de conforto para interpretá-la, mas também vi muito de mim mesma nela, especialmente na era em que "Paying For It" se passa. É uma pessoa jovem e alternativa na cena, e me relacionei com isso no sentido de que me sinto mais alternativa, em vez de alguém que é mais, digamos, convencional. E eu também me relaciono com a experiência de me mudar para uma cidade grande e explorar a cena musical, e ter todas essas novas e empolgantes oportunidades surgindo, e conhecer todas essas novas pessoas legais. Então, foi divertido interpretar e explorar isso através da lente de Sook-Yin. E também, porque é tão pessoal para Sook-Yin. Sunny é literalmente uma versão ficcional dela, muito disso vem da vida real de Sook-Yin. Então, sempre que eu precisava me aprofundar e me conectar, eu apenas ia até Sook-Yin, nos abraçávamos, e eu chegava lá, especialmente nos momentos onde havia mais pessoas. Foi muito bom ter a pessoa que eu estava interpretando me dirigindo, mas também estando lá para mim e garantindo que estávamos alcançando o que precisávamos. Aianne: Sook-Yin, já se passaram 28 anos desde que vocês terminaram, certo? Como o tempo mudou sua perspectiva sobre essa história? Sook-Yin: Oh, nossa. Essa é uma pergunta interessante. Bem, acho que provavelmente, com o tempo, vem a capacidade de me distanciar da história e vê-la como uma história. Se eu estivesse muito próxima dela, eu teria mantido tudo e teria sido um filme de 4 horas. Acho que, no momento em que isso estava acontecendo – e vemos isso no filme – eu estava apavorada quando ele me disse que tinha visto uma trabalhadora do sexo. Eu fiquei com ciúmes e estava tentando parecer legal porque eu deveria ficar tranquila sobre tudo, mas eu estava com ciúmes. Eu estava chateada. Eu não sabia o que isso implicaria, e me lembro de ter que atravessar essa resposta inicial muito emocional, e então, ver e trabalhar através do Chester para ver qual era a realidade disso. Desde então, também fiz o filme "Short Bus", um filme americano. É um filme queer que envolve sexo real, para contar a narrativa. E foi um filme que, novamente, foi contado de uma perspectiva extremamente humanista. E também conhecendo a Andrea, e a Andrea trazendo uma riqueza de entendimento e percepção. Outra coisa que foi super legal é que fizemos esse filme com muito pouco dinheiro. Não tínhamos muito dinheiro. Filmamos na minha casa, onde os eventos reais aconteceram. Eu chamei meu vizinho do outro lado da cerca e perguntei se poderíamos usar o videoclipe dele. Eu liguei para vizinhos e lojas no meu bairro, que nos deram seus lugares. A Andrea foi uma escolha natural. Ela é cineasta. Ela é inteligente. Ela é brilhante, e tem uma longa história com Chester como colaboradora e colega. Chester apareceu no curta dela, "Modern Horror", e fez o pôster gráfico. Então, essas conexões pessoais foram realmente fundamentais. E ao encontrar os protagonistas, Emily e Dan, eu literalmente tive que ver muitas pessoas, e como a Emily disse, ela foi a única com um conhecimento real e inato da cultura alternativa porque ela vive isso. E Dan foi uma das duas pessoas que conseguiram incorporar o personagem com lógica e percepção. Então, sabe, as mesmas falas ditas por outro ator que não entendia pareceriam vazias e horríveis. Então, tive muita sorte de encontrar os protagonistas. E a Andrea simplesmente me deixou impressionada, sabe. E ambas, vocês duas, simplesmente me impressionaram. Foto: The Globe and Mail Aianne: Última pergunta: Se e como a perspectiva de vocês sobre amor, relacionamento e sexo mudou durante esses filmes e como vocês querem que o público se sinta após assisti-los? Emily: Acho que o filme é como um portal para outras formas diferentes e não convencionais de explorar a intimidade. Acho que muitas vezes as pessoas recorrem apenas aos modelos convencionais que nos foram mostrados e que vimos crescer. Então, é como sair da norma e não ter tanto medo de algo diferente. Acho que é simplesmente encontrar a libertação nisso e um pouco de liberdade. Andrea: Eu diria que espero que este filme inspire mais clientes a contar suas histórias, porque as trabalhadoras do sexo muitas vezes são esperadas a colocar suas vidas e reputações em risco para contar suas próprias histórias e ajudar a desestigmatizar o trabalho. Mas raramente você vê os homens que se envolvem em nosso trabalho e pagam por ele terem a coragem de realmente falar sobre os benefícios que obtêm ao pagar por sexo. E, por isso, acho que o que Chester fez ao contar sua história é incrivelmente corajoso, e espero que isso inspire outras pessoas a se arriscarem e nos apoiarem na nossa luta por direitos iguais e descriminalização. Sook-Yin: Sim. Estou feliz que possamos ver exemplos de normas sociais desafiadas que são comoventes e difíceis, e pessoas se conectando e sendo tocadas pelo que veem. Espero que as pessoas possam se relacionar com o material. Eu adoraria ver mais representações de sexo dentro da indústria por pessoas que pagam por sexo e, sabe, é uma grande variedade, incluindo idosos, pessoas com deficiência, perspectivas culturais, das pessoas que pagam por sexo. É como se fosse uma visão inexplorada da humanidade. Sim. Para mim, é algo muito incomum, eu me sinto da mesma maneira que me senti depois que fiz Short Bus, e este foi um longo processo para mim ao fazer Paying For It. Estou muito orgulhosa de todas as conexões e estou muito orgulhosa, amo muito o Chester. Ele é um amigo tão querido e minha família, e estou tão orgulhosa dos relacionamentos que são refletidos neste filme. Mas, a nível pessoal, percebo que acabo me voltando mais para algo interno. É como se eu não estivesse realmente procurando me conectar com ninguém. Estou procurando me conectar comigo mesma. Na verdade, sinto que estou precisando de mais espaço sozinha. E isso é algo estranho.

  • Crítica | Carvão (TIFF 22)

    O surpreendente primeiro longa-metragem da paulista Carolina Markowicz. Courtesy of TIFF O que você faria para fornecer sustento para a sua família? Enquanto alguns têm em excesso, outros precisam de trabalhos múltiplos, e ainda assim não conseguem suprir as demandas das contas a pagar. Um dos principais dilemas de Carvão é a dinâmica que se forma após a matriarca da família tomar uma escolha que acaba colocando um traficante dentro de sua casa, fazendo com que ele durma com o seu filho e viva como parte de seus entes. Creio que não tenha como acabar de assistir o filme sem se impressionar com os visuais magníficos, conseguindo capturar a essência de uma cidade do interior e contrastar com a casa da família onde uma carvoaria se encontra. Desde visuais mais lúcidos quando eles estão em ambientes públicos às mágicas cenas onde os tons alaranjados do fogo guiam a cena. Courtesy of TIFF Quando estamos falando das atuações, é realmente difícil destacar alguém, já que todos os atores fazem um trabalho excepcional. Rômulo Braga interpretando Jairo, o patriarca que esconde alguns segredos de seus familiares, César Bordón dando vida a Miguel, traficante que se sofre ao se encontrar longe de sua realidade enquanto tenta se esconder, e finalmente as duas estrelas do filme; o pequeno Jean de Almeida Costa, que interpreta o filho, uma criança curiosa, e Maeve Jinkings, a matriarca, a mulher que toma as decisões da casa, quem intriga o espectador, sendo apoiando suas resoluções ou ficando em choque com suas ações. A roteirista Carolina Markowicz, desta vez também comanda a direção em seu primeiro longa-metragem, e usa de seu vasto talento e conhecimento com textos, para ajudar os atores a entregarem perfeitamente suas palavras, de forma que as usam ao potencial extremo, conseguindo fazer um filme dinâmico, com momentos de comédia, drama, apreensão e choque. Courtesy of TIFF Carvão mostra um cenário triste, mas realista no Brasil atual, com questões éticas e moralistas. Sendo um ótimo primeiro longa, o filme já cavou um lugar para Markowicz na cadeira de direção, e prova que devemos ficar de olho em seus futuros projetos. Além do elenco apaixonante, que nos convida a vivenciar um pouco da vida da família mostrada, e os visuais que continuamente maravilham o espectador. Nota: 4/5

  • Crítica | Decision to Leave (TIFF 22)

    Um filme de detetive ou uma história de amor? Courtesy of TIFF Seis anos após seu polêmico e erótico The Handmaiden, o diretor sul-coreano Park Chan-wook está de volta com um filme que não poderia ser mais diferente do seu antecessor: um neo-noir de toques hitchcockianos que é ao mesmo tempo um romance magnético e com toques de melodrama. Desta fusão inesperada emerge um dos melhores longas do ano. Decision to Leave se passa em Busan, onde o detetive Hae-jun (Park Hae-il) lida com casos pequenos, a energia nervosa do seu jovem parceiro Soo-wan (Go Kyung-pyo), a distância da sua esposa Jung-an (Lee Jung-hyun) e a constante insônia. Porém, tudo muda quando ele passa a investigar a misteriosa morte de um alpinista que caiu de um penhasco, e começa a suspeitar da esposa da vítima, Seo-rae (Tang Wei), uma imigrante chinesa e cuidadora de idosos que não parece muito abalada pela morte do marido. A suspeita de Hae-jun por Seo-rae se transforma em obsessão, e então em algo mais. É evidente que ele está se apaixonando por ela, mas a recíproca é verdadeira ou ela só o está usando? Courtesy of TIFF Onde diretores menores poderiam estender esse caso até os últimos limites, Chan-wook torna a trama cada vez mais labiríntica conforme Hae-jun e Seo-rae se aproximam e se afastam, ousando até mesmo inserir um salto temporal na metade do filme e reformular a dinâmica dos dois. Contudo, se em The Handmaiden ele não se fazia de rogado em trazer o sexo para o primeiro plano para construir a narrativa, aqui é capaz de criar uma atmosfera de paixão e sensualidade sem que seus protagonistas mal se toquem. É possível ver até aqui uma referência a In the Mood for Love, de Wong Kar-Wai, na forma em que os sentimentos proibidos entre o detetive e sua suspeita se desenvolvem e transformam através do não-dito e dos pequenos gestos, conforme são testados pelos seus limites éticos e as complicações do caso. O que é mais importante: a verdade sobre a morte do marido de Seo-rae ser revelada ou ela e Hae-jun ficarem juntos? Nesse sentido, Park Hae-il consegue construir perfeitamente o arquétipo do detetive noir em conflito com seus demônios internos; a montagem do filme parece até refletir a própria evolução do personagem, partindo de cortes frenéticos e confusos nos minutos iniciais para um ritmo mais contemplativo e relaxado conforme se aproxima de Seo-rae. Esta, nas mãos de Tang Wei, é o grande trunfo do filme: é nítido que ela é a femme fatale da história, mas Wei incorpora uma ambiguidade desarmante e desnuda as mais diversas camadas de uma personagem que é muito mais do que aparenta a princípio, tudo isso enquanto exibe um ar cauteloso e sedutor que atrai não só Hae-jun, mas também a nós espectadores. Courtesy of TIFF Para construir uma história de amor tão improvável e atraente, Chan-wook exibe um rigor técnico que poucos diretores da atualidade podem igualar. O voyeurismo hitchcockiano de filmes como Janela Indiscreta e Um Corpo que Cai é constantemente presente, especialmente nas cenas em que Hae-jun vigia Seo-rae ou até mesmo “se coloca” no lugar dela durante a investigação. Porém, ele também atualiza esse voyeurismo na forma como brilhantemente incorpora a tecnologia — que muitas vezes pode ser a maior inimiga dos filmes policiais por tirar a mágica do mistério — à trama, seja no uso das câmeras de vigilância (como nas delicadas e fascinantes cenas de interrogatório) ou no uso de smartphones e smartwatches, enriquecendo a narrativa ao invés de facilitá-la. A equipe técnica também é vital para elevar a história: a já referida montagem de Kim Sang-Bun nos imerge nas oscilações e diferentes fases da relação dos protagonistas através das duas metades do filme, enquanto a trilha sonora de Jo Yeong-wook reforça tanto os aspectos mais melodramáticos que envolvem este romance quanto a ambiguidade de Seo-Rae. Por fim, a fotografia de Kim Ji-yong é um espetáculo à parte, seja na câmera em primeira pessoa que expande o caráter voyeurístico da obra e nos aproxima ainda mais dos personagens, na construção ambiciosa de determinados planos (como uma perseguição em plano-sequência pelos telhados de Busan que vai se tornando mais e mais desafiadora), ou ao aproveitar os diferentes cenários — a cidade, as montanhas, a neve e o mar — para fundi-los aos sentimentos do casal, como atesta a devastadora e memorável cena final, daquelas que fica na sua cabeça mesmo depois de muito tempo. O cinema de Park Chan-wook é labiríntico e dele sempre pode se esperar o inesperado, mas, mesmo depois de duas décadas entregando algumas das obras mais memoráveis do cinema mundial, ele ainda consegue de alguma forma se superar ao construir um filme daqueles para guardar na memória, com um dos casais mais bem-construídos e potentes da história recente. Decision to Leave é partes noir, partes romance, igualmente antiquado e moderno, mas inteiramente envolvente. Nota: 5/5

  • Análise | Fjord (TIFF 2026)

    Cristian Mungiu transforma uma história sobre imigração, religião e intervenção estatal em drama judicial competente, mas distante da força de seus trabalhos anteriores. Divulgação Depois de assistir a tantos filmes que tentam transformar questões políticas em grandes discursos, é interessante encontrar uma obra que coloque o espectador diretamente no centro de um dilema moral. Fjord, novo filme de Cristian Mungiu, parte de uma história real para questionar até onde o Estado deve interferir na vida de uma família e, principalmente, quem tem o direito de decidir o que é melhor para uma criança. O filme acompanha a família Gheorghiu, formada por Mihai (Sebastian Stan), um imigrante romeno, Lisbet (Renate Reinsve), sua esposa norueguesa, e os cinco filhos do casal. Depois de se mudarem para uma pequena cidade na Noruega, a família tenta se adaptar à nova realidade enquanto mantém seus valores religiosos e conservadores. O conflito começa quando uma denúncia de possível abuso faz com que os serviços de proteção infantil retirem as crianças de casa antes mesmo de uma investigação ser concluída. A partir desse momento, Fjord abandona parte da apresentação inicial da família e se transforma em um drama judicial. E é justamente nessa mudança que o filme encontra tanto sua maior qualidade quanto seu maior problema. A grande escolha da obra é que Mungiu não apresenta uma resposta simples para o conflito. A questão não é exatamente saber se os pais estão certos ou errados, mas até que ponto determinados métodos de criação podem ser considerados aceitáveis e, principalmente, quando o Estado deve interferir na vida privada de uma família. Ao mesmo tempo em que conseguimos compreender a preocupação dos serviços sociais, também é possível enxergar a frustração dos pais ao perceberem que pessoas que pouco conhecem sua família passam a tomar decisões sobre seus filhos. O diretor coloca o espectador em uma posição desconfortável, obrigando-o a escolher entre dois lados que não são completamente corretos ou incorretos. O filme também apresenta uma discussão interessante sobre imigração e religião. A família vem da Romênia, um país de tradição religiosa e valores mais conservadores, para uma Noruega marcada pelo secularismo, igualdade e forte presença do Estado. O choque entre essas duas culturas poderia render uma análise ainda mais profunda sobre racismo, xenofobia e integração, mas Mungiu acaba deixando essas questões em segundo plano. E esse é um dos principais problemas de Fjord. Conhecendo os trabalhos anteriores do diretor, especialmente 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias e R.M.N., eu esperava uma crítica social muito mais afiada. Em vez disso, o longa frequentemente se aproxima de um drama judicial tradicional, seguindo caminhos que já vimos diversas vezes em histórias baseadas em casos reais. Apesar disso, Fjord é elevado pelas atuações. Sebastian Stan entrega uma performance bastante diferente de seus papéis mais conhecidos. Atuando em romeno, o ator consegue transmitir a frustração de um homem que tenta construir uma nova vida enquanto percebe que, independentemente de seus esforços, ainda é visto como alguém de fora. Sua atuação evita transformar Mihai em uma simples vítima, permitindo que suas contradições permaneçam visíveis. Renate Reinsve também impressiona justamente por fazer menos. Depois de personagens mais explosivas em filmes como A Pior Pessoa do Mundo e Sentimental Value, a atriz assume aqui uma presença muito mais contida. Lisbet é quase sempre silenciosa e controlada, mas existe uma tristeza constante em sua expressão que acaba dizendo mais do que seus diálogos. Visualmente, o filme também se beneficia bastante de sua localização. As montanhas, o mar e as pequenas casas espalhadas pela paisagem norueguesa criam um contraste curioso com a tensão que toma conta da família. É um lugar que parece tranquilo e acolhedor, mas que rapidamente se transforma em um espaço de vigilância e conflito. Infelizmente, quanto mais Fjord se aproxima de sua conclusão, mais evidente fica sua estrutura convencional. O terceiro ato, passado principalmente no tribunal, oferece os melhores momentos de tensão, mas também reforça a sensação de que Mungiu poderia ter feito um filme muito mais provocador a partir dessa história. No fim, o longa vencedor da Palma de Ouro funciona melhor como um dilema moral do que como comentário social. É um filme que consegue fazer o espectador questionar suas próprias opiniões, mas que raramente aprofunda as questões políticas que parecem ser seu maior interesse. Com atuações fortes de Stan e Reinsve, o longa se mantém envolvente mesmo quando seu roteiro segue caminhos previsíveis. Fjord está longe de ser um filme ruim, mas também não possui a força que se espera de Cristian Mungiu. Uma história complexa sobre família, religião, imigração e os limites da intervenção do Estado acaba transformada em um drama judicial competente, porém convencional. No final, fica a sensação de que havia um filme muito mais interessante escondido dentro deste. Nota: 3/5

  • Crítica | Weird: The Al Yankovic Story (TIFF 22)

    Fazendo seu multiverso da loucura, o filme cria sua própria (e hilária) realidade. Divulgação: Courtesy of TIFF O público brasileiro já está familiarizado com as paródias musicais muito populares produzidas na internet na década passada, mas para esse gênero ser importado para a nossa cultura, alguém teve que dar visibilidade a ele, e foi isso que Al Yankovic fez, ou pelo menos ele acredita ter feito, em Weird: The Al Yankovic Story. A mais nova cinebiografia musical, traz a história de Al de um jeito diferente de nossa realidade, muitas vezes usando de fatores que nem chegaram perto de acontecer. O filme conta com grandes nomes, como Daniel Radcliffe, no papel titular, Rainn Wilson, interpretando Dr. Demento, um grande ídolo de Al que acaba se tornando o seu empresário, e até Evan Rachel Wood como a incomparável Madonna. Qualquer espectador que conheça um pouco de cada uma destas figuras não as verá nas telas, mas isso funciona a favor do filme, que consegue separar esses grandes nomes de suas reais personalidades, evitando comparações indesejadas. Eric Appel, faz um bom trabalho na direção e roteiro, que ele co-assina com o Al, encontrando um lugar onde suas mentes criativas têm espaço de sobra para florescer. Levando a produção a lugares que uma pessoa que quer descobrir a real história de Al Yankovic não imaginaria ser possível, ele usa do absurdismo como seu maior ponto cômico, que apesar de funcionar para grandes públicos, pode acabar sendo fora da curva para quem cair de paraquedas e for assistir sozinho em sua conta do Roku. Além disso, enquanto a maior parte visual do filme transporta o longa ao passado, existem alguns desleixos que acabam tirando o espectador da história. Um grande exemplo sendo os efeitos especiais, que, mesmo de propósito e intencional pela proposta, parecem ser feitos por um estudante que tinha três horas para entregar o seu trabalho. Divulgação: Courtesy of TIFF Weird consegue trazer um novo lado ao gênero que continua trazendo múltiplos projetos com a mesma narrativa em um curto período. A interferência de Al no processo criativo eleva o filme e traz a essência de sua grande personalidade que não tem medo de manchar sua história com mentiras e ofensas a outras pessoas. No entanto, Weird: The Al Yankovic Story acaba usando as participações especiais e presenças de grandes personalidades em muitos momentos, fazendo com que a narrativa se torne redundante. Contudo, de forma geral, o filme é um grande acerto, principalmente a leal comunidade de fãs do cantor, que, mesmo sabendo que nem estreou oficialmente, já clama por uma sequência (E, já adianto, é totalmente possível após a hilária cena pós-créditos). Nota: 3.5/5

  • Crítica | Adulto/Homem (15º Olhar de Cinema)

    Pedro Diógenes dilata a potência da imagem e do som enquanto nos convida a refletir sobre o ofício da atuação. Imagem: Divulgação 20 atores esperam numa sala, prontos para serem chamados a fazerem o teste de elenco para o qual estão ali. Num único plano de quase 70 minutos, regido por um travelling lentíssimo que deixaria Andrei Tarkovski orgulhoso, a câmera passeia pelos seus rostos conforme eles esperam, e esperam, e esperam. Enquanto isso, numa outra dimensão – a sonora –, eles refletem sobre seus ofícios como atores, o que os levou a buscarem tal profissão e quais as maiores dificuldades da área, além de compartilharem anedotas, lerem textos ou ensaiarem as falas do filme para o qual estarão fazendo o teste. Gosto muito de filmes que oferecem metacomentários sobre a arte, especialmente porque, enquanto artista (mais especificamente escritor), me identifico muito na ideia de que nós podemos – e vamos – sofrer por essa arte, mas que outra opção temos se não nos agarrarmos a ela? Claro que os atores aqui divergem em suas percepções: alguns veem que a atuação foi algo nato em suas vidas, outros consideram “apenas” um trabalho, mas isso não elimina as experiências em comum, sejam as dores ou as delícias. Cada um dos atores merece palmas por imprimirem tamanha naturalidade e organicidade em seus rostos e corpos no ato de esperar, ainda que entendamos que há todo um processo de encenação por trás. Mas Pedro Diógenes não se contenta em “colar” seus rostos às vozes que ouvimos, pelo contrário: gradativamente ele vai descolando imagem do som, conforme o que parecia um roteiro bem estabelecido – um conjunto de respostas de cada ator às perguntas feitas por Diógenes e equipe – vai se convertendo em um produto mais “abstrato” e experimental até. Vozes são transferidas de um ator para o outro ou até mesmo se sobrepõem, outras formas de narração são empregadas (as diferentes vezes em que o texto de Adulto/Homem, o “filme dentro do filme”, é lido são um destaque à parte para ilustrar diferentes formas de entonação e atuação), e as reflexões e experiências que à primeira vista pareciam individuais se acumulam e se tornam coletivas. Assim, cada vez que parece que essa estrutura irá saturar, Diógenes e sua equipe – com especial destaque ao trabalho de fotografia de Ivo Lopes Araújo e o som de Tiago Campos e Breno Furtado – conseguem maneiras de se reinventar, seja apostando no inesperado, no humor ou na intersecção e oposição entre a imagem e o som. Tudo isso enquanto dá espaço para se pensar as múltiplas formas de se fazer atuação, ajudando a dar uma dimensão do processo por trás do ofício, ao qual o público dificilmente tem acesso. Como diz Pedro Guimarães, pesquisador de performances e jogos atorais, o rosto do ator é o lugar nobre dos sentimentos de veiculação dos afetos, sentimentos e emoções. Também é aqui o lugar nobre da espera intermitente: pelo próximo teste de elenco, pelo próximo trabalho, pelo próximo sonho a ser alcançado, e que não precisa ser grandioso. Uma das falas mais pungentes vêm de um dos entrevistados que, ao ser perguntado sobre qual seria o seu maior sonho, responde apenas que seria ter seu pai numa sala de cinema o assistindo atuar. Atores são humanos, afinal de contas. E Pedro Diógenes encontra nos caminhos incomuns da potência dilatada das dimensões imagética e sonora de Adulto/Homem o espaço perfeito para apresentar suas humanidades ao público. Nota: 4.5/5

  • Crítica | The Son (TIFF 22)

    Hugh Jackman, Laura Dern e Vanessa Kirby tentam salvar uma história com pouco a dizer. Courtesy of TIFF Depois do imenso sucesso de ‘Meu Pai’, não é surpresa para ninguém que Florian Zeller iria adaptar mais uma de suas obras do teatro para as telas. The Son mostra a dinâmica de uma família divorciada, com dois núcleos: o de Peter (Hugh Jackman), que mora com sua nova namorada Beth (Vanessa Kirby) e o filho recém nascido do casal, além do núcleo de Kate (Laura Dern), e o filho Nicholas (Zen McGrath), que tenta achar o seu lugar entre seus pais enquanto lida com problemas de saúde mental. O relacionamento entre Peter e Nicholas é a principal trama do longa, mas enquanto Jackman entrega uma das melhores performances de sua carreira, McGrath não consegue acompanhar a história de seu personagem, e sua atuação acaba ficando distante da difícil missão de mostrar as dificuldades que o Nicholas passa. Já Beth e Kate, sempre que parecem ter algum desenvolvimento, desaparecem, dificultando as incríveis atuações feitas por Kirby e Dern de se tornarem memoráveis. Courtesy of TIFF É visível que o desenvolvimento da história não é bem finalizado. Enquanto o longa tenta discutir sobre depressão, mais parece que ele somente quer jogar informações para a audiência sentir algo pelos personagens, tirando assim o foco das histórias. Além do fato que a parte mais memorável do filme é um elemento barato usado para chocar o público, o que até causou bastante desconforto entre a maioria dos espectadores, diante do momento que estamos vivendo, enquanto o segundo é uma participação especial que entrega a melhor parte do filme em cinco minutos. Como dito anteriormente, Zeller tentou recriar o sucesso de seu primeiro filme, mas não tem um material base tão bom quanto ‘The Father’, e nem total controle sobre o seu elenco. O diretor não consegue chegar em um produto final que agrade o espectador, o que acaba refletindo sobre o material base, que vinha sendo bem recebido e que pode sofrer do mesmo caso de ‘Dear Evan Hansen’. Courtesy of TIFF ‘The Son’ é uma escolha duvidosa que, apesar de conseguir entregar algumas boas atuações, tem roteiro e história fracas, na tentativa de invocar alguma reação do público, mas tudo que consegue é provocar desconforto ao tentar retratar um tema real e difícil de se discutir, tornando-o um problema dentro da trama por não ser abordado com cuidado. Nota: 2,5/5

  • Crítica | Glass Onion: Um Mistério Knives Out (TIFF 22)

    Rian Johnson fez de novo. Courtesy of TIFF Enquanto muitas pessoas acabam levando críticas negativas para tomar seus horizontes, Rian Johnson conseguiu criar um de seus maiores sucessos, ambos em crítica e espectadores, após o polêmico ‘Star Wars: Os Últimos Jedi’. ‘Entre Facas e Segredos’ conseguiu conquistar o público após muitos anos sem um grande sucesso no gênero “who done it?”. A sequência do filme continua seguindo o detetive Benoit Blanc (Daniel Craig), agora sendo convidado para uma celebração onde os convidados terão que tentar descobrir quem cometeu um assassinato fictício. Courtesy of TIFF Introduzindo uma nova leva de distintos personagens ‘Glass Onion: Um Mistério Knives Out’ mais uma vez nos introduz a um seleto grupo de pessoas privilegiadas e cheias de poder, que tentam parecer amigáveis entre si, mas, na verdade, ocorrem diversos problemas que podem acarretar em assassinatos. Com grandes nomes como Edward Norton, Kathryn Hahn, Leslie Odom Jr., Jessica Henwick, Madelyn Cline, Kate Hudson e Dave Bautista, quem realmente se destaca é Janelle Monáe, que (sem dar spoiler) consegue captar o espectador com sua performance cheia de nuances conseguindo esconder os mistérios até uma das muitas revelações do filme. Courtesy of TIFF O trabalho e carinho que Johnson tem pela nova franquia é visível. Mantendo a comédia, mistérios e reviravoltas do primeiro filme, o diretor consegue inovar, nos levando a um ambiente totalmente diferente do anterior, tanto esteticamente, como na história. Desta vez vemos amigos que se envolvem com um anfitrião bilionário, todos querendo algo em troca por sua amizade, o que acaba levando-os para a Grécia. Apesar do filme se prolongar em alguns momentos, a energia dos atores contagia o espectador, que sempre está sendo entretido por um grande nome de Hollywood. Johnson também consegue adicionar referências datadas de 2020, desde o filme se passar no começo da pandemia, até citação a nomes de Hollywood e videogames populares do momento, que nos lembram de um tempo recente, mas que parece fazer parte de uma década atrás. Apesar de não ser gravado em filme como o seu antecessor, o visual do longa se mantém em um alto nível, adaptado a ambientações mais vividas e com tons claros. Mesmo com um jogo de câmera rápido e sagaz, Rian não busca esconder o mistério, sempre fornecendo todas as informações necessárias para resolvê-lo, mas tenta os guardar através de distrações criadas pelos próprios personagens. Courtesy of TIFF ‘Glass Onion: A Knives Out Mystery’ pode não ser melhor que ‘Knives Out’, mas ainda assim Rian Johnson consegue entregar mais um ótimo trabalho que vai entreter milhares de pessoas, desta vez em suas casas. Com um grande e chamativo elenco, o filme usa uma maneira esplêndida que vai agradar todos os fãs. Um mistério que ninguém vai ter que resolver é sobre um terceiro filme da franquia, já que Johnson e Craig confirmaram que a história de Benoit Blanc não acaba por aqui. Nota: 4/5

  • Crítica | O Fim da Rua

    Filme de David Robert Mitchell finalmente devolve aos dinossauros a aventura divertida, criativa e emocionante que o cinema parecia ter esquecido. Imagem: Divulgação Existe uma pergunta que o cinema de dinossauros vem tentando responder há décadas: como fazer uma boa aventura com criaturas pré-históricas sem simplesmente repetir Jurassic Park? A resposta parecia cada vez mais difícil. Desde Jurassic Park III, em 2001, poucos filmes conseguiram transformar dinossauros em uma aventura realmente memorável. A própria franquia que tentou renovar esse universo na última década, Jurassic World, acabou presa a uma nostalgia que parece nunca encontrar seu próprio ritmo. Os três filmes da nova trilogia fizeram muito sucesso nas bilheterias, especialmente porque dinossauros continuam sendo uma das apostas mais seguras do cinema comercial. O problema nunca foi o público. Foi a qualidade. Depois de duas continuações pouco inspiradas, Jurassic World: Renascimento surge como uma nova tentativa de recuperar o encanto da franquia, mas também não consegue entregar tudo aquilo que promete. No fim das contas, não deveria ser tão difícil. É só fazer um bom filme de aventura com um roteiro que funcione. Parecia difícil demais, até chegar O Fim da Rua. Dirigido por David Robert Mitchell, cineasta responsável por Corrente do Mal (2014) e Under the Silver Lake (2018), o filme parte de uma premissa deliciosamente absurda: após um misterioso evento cósmico, uma rua suburbana é arrancada de seu cotidiano e transportada para um lugar desconhecido, onde seus moradores descobrem que estão cercados por dinossauros. No centro da história está a família Platt, formada por Denise (Anne Hathaway), Dan (Ewan McGregor) e os filhos, que precisam sobreviver enquanto tentam entender o que aconteceu com o lugar que chamavam de casa. É uma ideia simples, mas Mitchell entende algo fundamental: não é preciso inventar uma mitologia gigantesca para fazer um bom blockbuster. É preciso saber contar uma história. E O Fim da Rua sabe. O grande mérito do filme está justamente em recuperar uma sensação que o cinema comercial parece ter perdido. Há algo de Amblin em cada esquina de Oak Street. A fotografia, os planos longos pelos subúrbios, os carros antigos, a trilha sonora grandiosa e até o uso de split diopters criam uma atmosfera que remete diretamente ao cinema de aventura dos anos 1980. Mas David Robert Mitchell não transforma essa referência em simples nostalgia. O diretor absorve aquele espírito e o mistura ao seu próprio cinema. O resultado é um filme que consegue ser divertido, assustador, cruel e, principalmente, surpreendentemente humano. Porque, embora os dinossauros sejam obviamente a grande atração, O Fim da Rua é também uma história sobre uma família que está desmoronando. Denise e Dan não estão exatamente vivendo o melhor momento do casamento. A comunicação entre os dois está quebrada, os filhos estão cada vez mais distantes e aquela imagem de família suburbana perfeita começa a revelar suas rachaduras. Quando o mundo literalmente deixa de fazer sentido, eles são obrigados a fazer aquilo que não conseguiam fazer dentro de casa: conversar, confiar uns nos outros e permanecer juntos. Anne Hathaway funciona como a espinha dorsal dessa família. Sua Denise é a força que mantém todos de pé, especialmente quando a situação exige que ela abandone qualquer ideia de normalidade. A atriz encontra o equilíbrio perfeito entre a mãe protetora e a mulher aterrorizada diante de uma situação que não consegue compreender. (E, sim, existe um momento em que Anne Hathaway simplesmente explode um T-Rex com uma espingarda). E é exatamente esse tipo de absurdo que faz o filme funcionar. Ewan McGregor também está muito bem, especialmente porque seu personagem complementa a energia de Hathaway sem disputar espaço com ela. Os dois possuem uma dinâmica convincente e conseguem vender tanto os momentos de tensão quanto aqueles pequenos instantes de humor que impedem o filme de ficar pesado demais. Imagem: Divulgação Mitchell também entende que dinossauro funciona melhor quando é tratado como ameaça. Em vez de transformar cada criatura em uma atração de parque temático, o diretor brinca com suspense, escala e expectativa. Algumas sequências são genuinamente tensas e fazem um ótimo uso do espaço suburbano, transformando casas, ruas, quintais e carros em elementos de sobrevivência. O filme também não tem medo de ser cruel. Apesar da estética de aventura familiar, O Fim da Rua ultrapassa algumas expectativas do que normalmente se espera de um blockbuster desse tipo. Há violência, imagens sangrentas e momentos capazes de arrancar o espectador da cadeira. E talvez seja essa mistura que torne o filme tão especial. O Fim da Rua parece, ao mesmo tempo, Tubarão, Os Goonies, Jurassic Park, Sinais e aquele tipo de aventura de verão que Hollywood simplesmente não faz mais. Só que não é uma colagem vazia de referências. Mitchell usa esse imaginário para construir algo próprio. É uma carta de amor aos blockbusters de outra época, mas sem esquecer que nostalgia, sozinha, não sustenta um filme. Há problemas, claro. O mistério envolvendo o fenômeno que transporta Oak Street para aquele mundo é tratado de maneira um pouco superficial. Algumas respostas parecem menos importantes para o roteiro do que deveriam e, quando chega a hora de explicar o que realmente está acontecendo, o filme opta por caminhos que podem deixar parte do público insatisfeita. O encerramento também chega de maneira abrupta, deixando a sensação de que algumas ideias poderiam ter sido desenvolvidas melhor. Nada disso, porém, destrói a experiência. Porque O Fim da Rua entende algo que a franquia Jurassic World parece ter esquecido: um filme de dinossauros não precisa ser uma grande operação de nostalgia, nem precisa explicar cada detalhe de seu universo. Ele precisa ser divertido.E esse é, talvez, o maior triunfo de David Robert Mitchell. Depois de tantos anos esperando que os dinossauros voltassem a proporcionar uma grande aventura, finalmente temos um filme que entrega exatamente isso. O Fim da Rua é engraçado, emocionante, assustador, visualmente inventivo e surpreendentemente tocante. Uma máquina de entretenimento enxuta e feroz, que sabe quando acelerar, quando desacelerar e, principalmente, quando simplesmente deixar um dinossauro entrar em cena. No fim, talvez a solução sempre tenha sido mais simples do que parecia: era só fazer um bom filme. Nota: 4/5

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